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Tuesday, May 27, 2014

Streaming

Streaming

Não somos mais o que queremos. Antes, aquilo que esperamos não ter de enfrentar. Agasalhamo-nos na nossa própria força, vício que conquistamos, na leviandade que é não dar nada, com a certeza de que tão pouco se espera o que quer que seja.
Já sabíamos que iria ser assim, quando pedimos a vodka bem gelada e nos perdemos na pista, durante mais um sábado. Juramos todos os dias que vamos ficar sozinhos, não acreditamos em fantasias pegadas, porque essas, só acontecem no ecrã do mac, quando assistimos ao One day em streaming.
A vida passou a ser em streaming e o amor não existe. Preocupamo-nos antes, que ninguém nos tente enganar, criar falsas ilusões, porque afinal já sabemos àquilo que a vida sabe. Uma bebedeira e com sorte e alguma libertinagem, talvez uma cheirinho a erva.  Não nos entregamos, a não ser ao prazer de não termos aquilo que na verdade, não queremos. Preferimos acreditar que somos demasiado complicados, que a vida e a crise económica e por ventura, o Passos, nos tiraram as forças e não temos dinheiro para arrendar uma vida a dois.
O amor passou a ser em streaming. Ligamos, usamos e depois, apagamos. Não há luta, não há resposta e a mensagem nunca será entregue. Porque a complexidade do nosso interior, termina com a inocência do sorriso mais próximo. Já cheiramos os lençóis variadíssimas vezes; um pequeno-almoço de madrugada, e o reset a fechar o dia.
É essa doce solidão, uma aplicação de telemóvel a fazer as honras da casa. Queremos sexo, podemos criar. Inventamos a paixão durante uma semana, e depois, ficamos com o sofá vazio. As pessoas são todas um mosaico daquilo que procuramos, mas nem isso nos chega. Queremos receber a imagem dos campos de alfazema e talvez quem sabe, sonhar um pouco com eles, a ver se fugimos. Isso lá é bom. Um corpo perfeito de uma sexta-feira, mas que não nos chega para apresentarmos aos papás, vestir a mini-saia e sair para a rua. Hoje somos todos livres e ninguém há de acabar com isso.
Quando finalmente nos ajoelhamos, não nos entregamos. Olhamos para trás (ah essa melancolia do passado que tão traiçoeira como irresponsável) e esperamos que nada se repita. Amordaçamos a boca, cruzamos os braços. Os abdominais hão de fazer o resto. Mas com classe, com admiração, como aprendemos no wareztuga, que ainda há mais 10 rapazes entre os 20 e os 30 num raio de cinco km, para o caso de estar tudo errado e o meu filtro não ter funcionado.

Se começa, impomos os limites básicos. Não há esperança, não há escolha. Vamos seguir a vida, como duas criaturas entre dois passeios separados, que se hão-de cruzar a meio, para logo se afastarem, caso as notificações no wazzup estejam a funcionar e ninguém nos convidar para um café, ali mesmo.
E depois se nos apaixonamos, há que ter cuidado. Não há familiaridades com os amigos e há-de ser tudo à nossa maneira, para que quando termine, estejamos com o orgulho estampado na cara e a certeza de que tudo funcionou, menos a outra metade. Que não é mais nossa, há-de ser de outro alguém. Falava muito, perguntava exaustivamente e no final, ainda cobrava a atenção. Por momentos, achamos que passamos a nossa virose e essa imagem é a maior foda com a qual nos poderíamos deparar. Mas afinal, como é que nos estão a fazer o mesmo, que nós apregoamos no começo? Não, isso não acontece, não existe. Somos responsáveis, mas é dos filhos que teremos, sabe-se lá com quem. Não nos suportamos, como vamos agora submeter À imagem que recriamos?
Sabemos que é injusto, mas então a vida foi escrita assim, e os Romanos já o sabiam. E nós ainda temos muita vodca para bebermos. Muitos amores para ler e inimigos para fazer. Viemos da aldeia e só agora estamos a despertar para as luzes, a cor e a sensação que é o desejo por entre as portas da cidade. Mesmo que a tesão tenha acabado aos 30 e culpada seja a bebida e o tabaco, quando no final, foi a vida que nos foi roubada, enquanto nós andávamos a roubar as ilusões de um filme de domingo.
 No sofá.
Lá fora a chuva. Frio. Queremos companhia. Ficamos em casa, ligamos a lareira estalamos as mãos e o facebook a fazer de cupido imortal. Alguém há-de aparecer. Ficamos no quentinho, agarradinhos. É perfeito.
 No Verão, as complicações são muitas, os amigos estão todos na esplanada e eu quero é mostrar as perninhas e esperar que alguém veja as minhas.
Talvez ninguém me pergunte mais nada, porque responder, respondemos aos polícias, se estiverem fardados e aos juízes se formos apanhados. De resto, a contribuição é nula, mesmo que tenhamos jurado que a honestidade está sempre em  primeiro lugar, porque é isso que esperamos dos outros, sempre com fê de que não esperem o mesmo de nós.

Há sempre o streaming, o amor entre uma mensagem e a solidão a terminar. A nossa vida está em primeiro lugar. Não nos vamos sacrificar pelo resto, não vamos lutar, nem sequer intencionar. Os outros que percebam. E se quiserem fazê-lo, que o anunciem com a certeza que é porque querem, porque precisam, sem esperar nada em troca, porque o meu streaming não tem  conexão suficiente e o meu tom não é arrogante, é real e personifica as minhas cordas vocais, como as da Whitney, antes de acordar cocaínada.

Tuesday, April 08, 2014

Cheio

Cheio

Não se conheciam.

Fingiam que os corpos eram apenas o interesse mútuo, pelo silêncio que a vida tantas vezes representa. Por isso mesmo, não queriam ser nada um do outro. Não se conheciam, não se tocavam, mas fingiam. Era essa liberdade, por detrás de um olhar despercebido, um toque sem mágoa.
Não havia dor, não havia violência. A vida era aquilo. Era isto.  Uma luz sem cor, um sorriso dentro de um jardim.
“Não é como começa, mas sim como acaba”. As frases soltas, como se tivessem sido escritas pelo Saramago, enquanto bebia um café pingado com a Pilar. Não saberia nunca quem seria o Saramago. Não quereria tão pouco. Escrevia o nome, porque lhe pediam, na fábrica. Todos os dias, algum papel para assinar. Papel timbrado, papel que não lhe pertencia, mas que representava tudo aquilo que ainda não tinha perdido.
E assinava sempre Fernando  Antunes.  Uns dias pior, outros igual. Melhor seria uma ilusão. Era tudo o que sempre quis escrever. Sem mágoa, sem tristeza. Mas a vida tinha deixado de ser isto.
Bem ali, no jardim, onde escolhera ficar. Drogado pela beleza, que é não ter que esperar mais nada da vida, a não ser que fosse levado. Talvez para um mar, talvez um pouco profundo. Era isto.
Não tinha saudades dela. Quando ela morreu, não chorou. Era um homem e a vida ainda era aquilo. Não se importava com as escolhas, deus havia de tornar tudo certo, não estava preocupado. Estava cheio com as memórias que ainda tinha para idealizar. Com o futuro que nunca chegou e que por isso mesmo, não o decepcionou. Deixou de ir para a fábrica, não por ela ter morrido -sim morrido, as pessoas fazem-se de vida, mas também de morte. Não é duro, não é complicado. E algumas nem chegam a saber o que isso é – mas por entender que não havia mais nada para além disso. Sobriamente, a flutuar, a sentir-se inebriado por finalmente não precisar de mais nada, para além daquele jardim.
Quando adormecia, não voltava mais. Mudou-se para o maior quarto da casa, onde sempre se encontrava. Precisava de sonhar, mas sozinho. O contrato que tinha assinado, já nada representava. Lembrava-se ainda: “Sim, aceito”. Ali, na presença de Deus e dos apóstolos em que não confiava. Todos vestidos com as melhores roupas, que ele pagou. A comer da melhor comida, que ele também pagou. Serenamente a beber o vinho e a olhar para a sua esposa, que ele também pagou.
“Dinheiro compra tudo”. Era o pai, forte como ele, que o orientava. Agora, também ele tinha sido enterrado, pelo que não havia mais a quem dar esperanças. A esposa – como sempre a tratara- continuou no quarto antigo. Sem mágoa. A vida também era isto para ela. Continuava bonita, carinhosa e cheia de tudo. Sabia que ele nunca a tinha querido verdadeiramente, mas agradecia-lhe por nunca o ter demonstrado verdadeiramente.  Estava cheia,  morta, por ela ter morrido finalmente e por poder descansar. Em paz.
Lembrava se de ter encontrado as flores. Uma fotografia. Uma assinatura. Antónia. Sabia que era um nome feio, mas não conseguiu deixar de achar uma certa graça - A mulher que ela nunca seria, tinha um nome bem mais feio do que o seu. E por isso mesmo, quando ela morrera e ele saíra do seu quarto, com as flores, as fotografias e um soluço de solidão, ficou cheia.
Ele quando levou as flores, já estava cheio. As que lhe dera, antes de ter de aprender a escrever o nome e ser apoderado por essa responsabilidade, que é gerar mais do que aquilo que se suporta. Recordava-se vagamente de nunca lhe ter tocado, mas de a ter sentido. Enquanto fugiam e contavam histórias que nunca ouviram antes. Imaginação e a partilha ser apelidada de amor e paixão. Não havia sexo. O desejo é para os incautos, a fome para os que não estão saciados. E aquela vida deixava-os cheios. De tudo e de nada.
“não poderemos estar juntos mais”.
“não apressemos o destino. Isto ainda é muito.”
E foi assim. Nunca mais falaram.  Nada mais comentaram. Ele começou uma vida nova, com alguém que poderia estar ao seu lado, nessa vida de luxo e seda, que ela não poderia partilhar nunca. Garfos para refeições, empregadas que ela nunca saberia orientar, contratos que nunca saberia assinar.
Trabalhou na fábrica. Nunca se falaram. Estavam cheios, entre o ruído das máquinas e ainda conseguiam saber o que sentiam. Que a vida era aquilo, mas que a incerteza que a morte traria, poderia resultar num reconcilio com a felicidade.  Como se a vida fosse sobrevalorizada e o resto, o que vem depois, é que contasse.
Quando ela finalmente desapareceu, enterrou-a com os ramos azuis, de alfazema, que ela sempre lhe trazia, quando ainda eram jovens e ele não sabia escrever. O seu nome.
Ali, no meio daquele jardim, sabia bem o que queria, sabia bem o que esperava. Estava ansioso por saber afinal, como acabava.


Monday, August 05, 2013

Pop

Deixei de escrever. Não voltei, com medo da honestidade fundida a ouro, perdida por entre a inspiração que esperei não perder, ainda assim. Passei a ter medo a coisas grandes. Por um lado, esperei guardar segredos dentro de mim. Por outro, receei sempre que alguém entendesse a verdade primeiro do que eu. Por isso mesmo, imaginei-me tantas vezes sentado nesse jardim. De calções, a tocar a relva com a ponta dos pés, sem vergonha dos dedos com que a minha mãe me brindou. De calções, como se fosse pequeno e não precisasse de usar gravata e ninguém me acordasse para jantar antes da sete – para alguns- da tarde. Na relva, onde nada importava. Era eu e um anúncio da Vodafone, calções às riscas, sorriso nas bochechas vermelhas da aldeia e uma música de uma banda pouco indie, para ver se tinha um ar mais porreiro e menos de rústico. Deixei de ir à escola, convencido que tinha em casa a eternização da sabedoria e sentei-me novamente nesse jardim que era só meu. Saí apenas quando precisava de consertar algo lá fora. Nunca consegui manter um segredo e disso ninguém se pode rir. É a minha maior desonestidade branqueada por entre os dentes que acaba sempre por partir, enquanto os tento calar. Se não contei a ninguém, disse-os mil vezes em frente ao espelho, de porta aberta. Repeti-os de boca aberta enquanto não conseguia adormecer e cheguei a escreve-los e a enviá-los para outra conta de e-mail sob o meu domínio. Pelo menos essa imoralidade ninguém me tira e tão pouco a podem negar. No entanto, esta segurei-a. Escondi-me sempre que me perguntavam onde andava e o que fazia. Afinal, porque tinha eu de fazer alguma coisa? Vivemos nessa sociedade útil, onde se valoriza a ação, mesmo que esta não tenha efeito algum. Preferimos saber que a vizinha da frente exerce funções no Gabinete do Alto Comissariado da Puta que os Pariu, mesmo não tendo as habilitações requeridas, do que não fazer um olhar de comiseração por alguém que não sabe o que fazer. Mesmo que fosse na Puta que os Pariu e não o merecêssemos .Tudo seria melhor, abençoado pelo senhor, que nesse momento voltamos ao século XV e somos todos freiras. Juntamos as mãos e ainda fazemos o sinal da cruz. Foi por isso que nunca tive essa coragem e me calei. Sempre. Que fugi de noite e só me encontrava por aí, enquanto corrompia as estrelas e mais ninguém sabia. Enquanto me deitava por entre a relva e ninguém sabia onde estava. Houve alguns que estiveram perto de o saber. Fintei sempre, entre risos e gargalhadas, respostas curtas e frias, com o Porto a servir-me de refúgio. Com a vida a pulsar-me na cara e a atirar-me para o outro lado, à espera de uma intervenção. “Isto não é a realidade, isto é uma música pop” gritei desesperado demasiadas veze. Ninguém retorquiu. “Este não é o nosso tempo” disse um miúdo com ar de caloiro, mas com estatura de um filme do Bel Ami. Tinha os cabelos loiros e se eu ainda tivesse 14 anos, nunca seriamos parecidos. Na memória ficou-me a certeza: como era possível este discernimento com tão pouca idade? E afinal, o que andava eu a fazer aos 14 anos para ser tão estúpido e não ter percebido o mesmo? Mas é claro que este não é o nosso tempo. É por isso que vou tantas vezes para o jardim e fico lá horas sem fio a ver os aviões a passar longe do Porto de Leixões. Quis contar ao miúdo, mas era irrelevante. Com certeza que ele já tinha descoberto o jardim e passava lá horas infinitas. O mais provável era já o ter descoberto primeiro do que eu. Aposto que já leva a discografia completa do Caetano Veloso e pinta uns quadros imprecisos que vende nas feiras em segunda mão, a uma mãe hippie que acha que o último grito da diferença é ter com um galo pintado de verde, em segunda mão claro.

Foram tantas as vezes que quis partilhar. contar-lhes, enquanto nos vestíamos e brincávamos aos santos, entre uma mesa do Ikea. Enquanto fingíamos que éramos vencedores. Foi por isso que não voltei a escrever mais. Com receio que o sono corrompesse a língua e a verdade fosse libertada, em forma de líquido intravenoso. Porque ninguém sabe muito bem o do que é feito e todos temos a liberdade suficiente para ter medo do desconhecido. 
É isso que significa ser adulto.
 Quis acabar por entre as linhas e percebi que já o tinha feito. Nunca nada me custou tanto. Tive sempre essa sorte, por entre os meses de setembro, nessa melancolia que é sentir saudades do Verão sem nunca o aproveitar. Não tem piada. A vida é mesmo uma música pop.

Wednesday, February 08, 2012

Não me falhes, agora.

Não me falhes, agora.
Não me hesite a respiração, nesse instante em que me deixei soterrar, sem inspiração, ou intuição que me guiasse para algum lugar-comum.


Queria a Volúpia e a felicidade, queria o vinho sem problemas de expressão, queria ficar enterrado nessas ruas cobertas de merda que nos vicia e nos eleva.
Insisto.
Não é de hoje, é de sempre. Um caminho fúnebre, pelos meandros da minha incapacidade em transmitir o que foi outrora, o que será amanhã.
Insisto em respirar, como se a vida tivesse sido ontem, e toda a génese da batalha imoral que travo, fosse a conquista da lógica, pelo racional, a manhã pela tequilla. Um rasgo por um cigarro.

Visto a camisola e saio. Encontro-me entre as paredes pintadas e a Lana a tocar insistentemente, irrepetivelmente, inebriadamente. Sabe menos do que eu.
Espelho a voz de puta, mas sem grande experiência na matéria. Faltou-nos sempre a vontade pura e dura, sem remorsos, uns quantos lençóis manchados de sexo e não de vergonha. Prazer puro, um James Dean na parede a incitar ao grito e a conjugação do prazer, por entre uma erva fina.
Implico.
A razão de ser, da ferocidade, de continuares ao meu lado. De te querer e nunca te largar. Mesmo quando te ordeno “Vai”.
Teremos sempre de nos lembrar dos grandes clássicos, das canções partidas e repartidas, da felicidade de abrir uma porta e ser apanhado por um sorriso rasgado. Um espírito pouco dado a comodismo. Algo incoerente, mas com a aposta sempre virada para o platónico.

Continuo na rua.
Ninguém me tenta levar nada (e hoje que teria dado tudo). Vesti a melhor combinação de roupas perdidas, que não usei mais, enquanto não chegavas. Acendi cinco cigarros, mamei os tubos de escape que passavam, na tentativa de um qualquer, corresponder ao cheiro do teu carro.
No banco de trás. Estofos de tecido fraco, frases curtas, simples, directas. Nunca foste advogado. Serias piloto e viajaríamos pela Península Ibérica, de vidros abertos, acompanhados por um vinho de mesa. Como se não fosse a isso, que se resumisse a identidade da vida. Ela vende-se desta forma. Faz parte do grande conceito do marketing, de nos tentar impingir uma qualidade de vida, que na verdade, quase ninguém tem. Uma lareira, um cobertor felpudo e quente, chuva lá fora e a felicidade. Um descapotável, um por do sol e dos copos a transbordar Monte Velho e a felicidade. Muitos suspiros à mistura e depois, planos e paninhos para consquistar o resto da semana, que não se perspectiva por entre os frames dessas pequenas virtudes.

Não me falhes agora. Eu hei-de insistir sempre.

Saturday, October 15, 2011

Oração




Vamos parar de ouvir o ruído.
O ruído da solidão que nos abraça de noite e nos faz viajar para longe do universo que ainda podemos criar. Onde podemos ser só um.
Penetrar nessa doce melodia que é a intensidade de um passeio de nós cortados, absortos com sabor de fruta mordida.

Vamos fugir do lugar mais bonito da cidade, porque saudade é para quem a tem.
Sem erros ortográficos onde nos possamos perder para sempre, nessa ilusão proporcionada pela semiótica, como se tudo pudesse ser traduzido pela comunicação.
Não somos artistas, mas vivemos da inspiração das pequenas coisas, do prazer sincero, dessa bossa nova que ainda não sabemos dançar, mas que juntos, podemos recriar.
A vida que é doce (penso continuamente), na esperança que tudo seja verdade.
Que esse balanço não se interrompa, para que os abraços sejam sempre mais fortes, do que a realidade adjacente.
Que a crise nunca chegue à nossa mesa, onde a oração poderá ser sempre mais rentável. Que as más notícias nunca levem de nós a esperança nos acordes e no amor tranquilo.
Que nunca nos esqueçamos que a saudade é para quem a tem, mesmo que seja apenas por mais uma vez.


De longe, ainda podemos desaparecer, bem por dentro das entranhas dos sorrisos que não têm vergonha em proclamar felicidade.

De perto, ainda podemos desaparecer no espaço que conquistamos, seja lá onde isso for, seja lá onde ele estiver, apenas onde permaneceres. Eu juro.

Pois é, o coração que teima em bater, de cada vez que a gente se entrega.

Friday, August 05, 2011

Peste

Perdi tempo e resumi o medo de falhar. Tentei alcançar esse patamar honorário, um livro aberto e pronto a ser lido por todos.
Estou pronto para essa congelação dos sentidos, na expiação da ansiedade que teima em me queimar noite após noite. Quero a liberdade prometida, luz cheia de coisas e sinais. Luz cheia de coisas incomportavelmente reais.


Deixei de escrever, porque nunca saberia como evitar o mesmo erro. Deixei de escrever porque nunca te quero partilhar com o desconhecido. Essa certeza de que o que é nosso, pertence-nos bem por dentro da carne viva; às vezes morta.

Às vezes crua, às vezes vazia.

E sem pensar, fui. Na acção é que reside a vantagem de acalmarmos a realidade que transportávamos. Na falta de vergonha que é descrevermos a falta de inocência perdida a alguém. Na falta que se tornou respirar em todos os passeios que nos foram mantendo na ilusão que estávamos seguros.
Levamos anos até chegarmos aqui, levados pelas malas que transportamos, pela boleia que residiu no amor que haveríamos de contemplar. Em Budapeste, num quarto qualquer. Até tudo se ter tornado credivelmente difícil.

“Difícil é a vida dos pobres e dos velhos porra”, Repeti durante esse tempo interminável, quando olhei para trás e já tinhas desvanecido – não em mim, mas na cidade que tanto parecia odiares.

Encontrar-te ia, alguns dias depois, a beber uma vodka em Peste, levada pela certeza que nos teríamos de reencontrar num entendimento só, nem que fosse preciso 5 mil pés de altitude. Nem que fosse a vergonha que só haveria de sentir no escuro da Europa de Leste, quando te procurei e apenas encontrei aqueles sexos com cheiro a perfume e bálsamo das feiras medievais que procurávamos, todos os anos. Não queria esperar pelo Inverno que me faria gelar a tua memória. Queria encontrar-me contigo, saber para onde seguiríamos depois, na viagem encantada, encenada por nós, alguns anos antes em Geometria.

Durante os dias em que não te vi, não havia mais nada. Apenas putas e cabaret.
Danças exóticas em cima da mesa, fornicadelas sem vergonha, na esperança que voltasses e tivesses pena de mim e me levasses contigo. O orgulho é sempre a minha prioridade. É o meu primeiro amor. Nunca correria atrás de ti, nunca perderia perdão, nunca entenderia o teu desespero sôfrego, lágrimas por debaixo do rio que nem sabíamos o nome ainda. "Danúbio" dir-me-ia uma puta romena. Ou checa. Comia com toda a intensidade que um Homem consegue e lembrei-me que poderia nunca mais te oportunidade de te revelar. “É Danúbio Sara, É Danúbio”.

Que se foda o Danúbio. Ele sabe a imagem que reflectiu quando partiste.

Thursday, April 07, 2011

Insuperável

Ser adulto é tornar todos os fatos como garantidos. Esquecermo-nos de que por vezes, a verdade há-de ser refeita e a nossa acomodação há-de ter um fim. Procuramos tudo e todos, enquanto somos um pouco mais novos. Perdidos, mas também, maravilhados. Quando crescemos, entendemos claramente que a vida cá fora, é mais dura do que aquilo que prevíamos e que nos falta a força e o poder que só podem ser traduzidos pelos sonhos e as viagens que tínhamos, enquanto podíamos reclamar a inocência da adolescência. O primeiro beijo, as férias intermináveis junto à praia, uma nostalgia de lugar nenhum e o walkmen por entre a areia. Era esse momento de solidão incontrolada, mas de perfeita sintonia com o resto do mundo, que nos há-de sempre fazer falta. Onde as palavras não eram contidas e a injustiça era transferida para um gelado ser mais caro, do que outro. Simplesmente. O primeiro segredo, o primeiro dia de aulas, o primeiro filme porno, o primeiro flirt, a primeira mensagem com sorriso. A primeira amizade, o derradeiro “para sempre”, com um pé na água fria do Mindelo. Só o amor pode ser incoerentemente fresco, quando tudo parece gasto e polido demais, para nos carregar com novas sensações, essa energia sensorial, tantas vezes perdida. Só o amor, puro e brilhante converge toda essa leveza que o ser pode carregar. “O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida”, refere Milan Kundera, que deixará de existir, quando nos tornarmos em pura contaminação contraída pela retina, através da propaganda política. Só o amor pode ser esse último reduto, das incertezas inebriantes, das viagens nunca mais finalizadas, de todo esse lado dramático que explodíamos na adolescência, na esperança de que o dia seguinte, fosse irremediavelmente diferente. Só o amor pode completar essa busca vertiginosa e proporcionar alguma beleza inerente ao caos em que todos vivemos. Num país moribundo, onde os políticos se desresponsabilizam com eleições antecipadas, apenas porque já conseguiram amealhar o que podiam (a título pessoal), até à altura. Ser adulto, tem que consistir irremediavelmente em mais qualquer coisa, do que procurar por um novo emprego todos os dias, apenas porque precisamos de mais dinheiro para construirmos uma casa, comprar um Ipad, ou talvez quem sabe, gerar um adolescente. Gostava de repousar na ideia de que ser adulto, significa irremediavelmente ser livre. Foi nessa ideia que vivemos a correr, na esperança em que possamos moldar a realidade circundante, um pouco ao nosso reflexo e memória futura. É nessa ilusão que vivemos, continuamente. Até aqui chegar. Não há tempo para viver e o pouco dinheiro que amealhamos, mal nos deixa sobreviver. Crescer na perspetiva de que a altura em que nos escondiamos nas casas de banho dos bares, para atender a chamada à mamã e mentirmos como gente pequena “estou na cama, claro”, era bem mais empolgante do que a vida de um trabalhador adulto tem para oferecer, é extenuante e cansativa. A concretização de todos os sonhos devia ser justamente agora, em que não existe mais nada, para além da nossa consciência a ditar esse caminho, cheio de coisas pouco surpreendentes. O amor pode ser a criação de algo insuperável. Todos os dias.

Friday, November 26, 2010

Escorrimento

Fechar os olhos e consumir o ar á minha volta. Correr entre a multidão, perder-me neste prazer sensorial que é poder começar de novo e rir-me por entre a minha realidade, que afinal, está viva.

Não quero esquecer essa oferta que é poder mergulhar no presente e nunca voltar a escorrer, antes de acordar. Posso não precisar.

Repito à minha mãe: “Não te preocupes, sei onde fica o sol”, entre um tinto caseiro e um sorriso nostálgico.

Confirmo ao meu pai: “Vou no sentido da rendição”. É isso que ele quer ouvir e eu não sou ninguém para matar as ilusões alheias.

Ser jovem é essa conquista de complementos, sem recurso a vitaminas mais ou menos afrodisíacas, raspar o solo com a mão e sentir o calor da imensidão que pode ser o infinito dos nossos sonhos, a penetrarem essa corrente sanguínea cheia de graça e glória.
Ser jovem é essa bênção grata, esse estado de espírito inebriante, carregado de empowerment. A perfeição à luz das leis e sobretudo de DEUS.

Fechar os olhos e consumir esse ar que me recarrega, sem sentido ou esperança, por entre as chiclets espalhadas por entre o passeio, por entre o abismo que pode ser descarregar-mos a força das nossas conquistas diárias numa só pessoa.

“Prometo-te que hoje não te magoo”

Como se isso fosse difícil.
Nasci à prova de bala, não tenho receio de fogos cruzados ou guerras nucleares. Sobrevivi à força bélica de crescer entre papéis sujos e prédios mal formados, à semelhança dos nossos governos. E surpresa - ainda aqui estou.


Fechar os olhos e consumir o fumo à minha volta, deitar o meu corpo sobre o teu e não fazer mais nada a não ser levitar sobre ti, na esperança que desapareças depressa , a ver se não te engulo, enquanto me deixo descair.

“Prometo que hoje sou teu”

Só hoje, só amanhã, talvez nunca.
Não sei porque o quero, não sei porque o persigo, nem sei porque é que o desejo. É talvez a primeira vez, na minha repetição intensa de acções mais ou menos convenientes, que não tenho a certeza do que faço nem porque o faço.

Fui sempre gerida nesse épico de movimentos mais ao menos moribundos de criar e recriar o prazer sexual que via espelhado nas telas, nos corpos das outras pessoas. O olhar perfeito, o sorriso perfeito, lençóis brancos e chocolate quente a fervilhar de tesão.
Mas não contigo.

Nascente com essa bondade e não te posso levar comigo. Sou demasiado pesada para carregares comigo. E tu nunca hás-de amar uma pedra.

“Amanhã não te largo”

Só as pessoas que não amam, estão sozinhas. Eu amo este sol que me mata a pele e me carrega as feições, amo a tua luz que me faz repousar sobre ti, o teu olhar dúbio enquanto me fixo no futuro e não o encontro.
Afinal, estou morta. Amanhã?
Encontrei esta carta e reli-a cinco vezes:


“Maria, quando marcamos às 5, marcamos para hoje. Tenho saudades de te ver fora do frio que são as mensagens escritas que trocamos. Eu a querer-te provar que quero estar contigo, tu a ficares imóvel.
Será sempre assim?
Hoje não te magoo e amanhã também não. (…)

(Olho lá para fora, por entre os ventos do Outono, as manhãs solarengas e intrépidas. A mudança a chegar. E amanhã, o que acontece?)

(...) "Amanhã não te posso prometer mais nada, a não ser que iremos na leveza da nossa progressão, sem que rastejemos por isso. Sabes que te quero, por entre a frincha da porta, enquanto tomas banho e te escuto a cantar “For once in my life”. Sabes a tesão que é ver-te passar semi-nua, a escorrer. Sabes a vontade que me provocas de querer escorrer dentro de ti, também.
Quero – te hoje até as 24 horas. Amanhã, nem Deus sabe o que poderá existir.
Quero te dar a mão.
Hoje não te magoo”.


Ser jovem é poder responder, sem responsabilidades. Prometer o amanhã que nunca se sabe se virá, apostar sempre no futuro, partilhando o passado.

Mensagem enviada às 13:45: “Hoje não te quero. Amanhã prometo que não m
e esqueço de ti”.

Thursday, October 14, 2010

Pura Merda


Acordei, impressa em formas que imaginei e recriei, a ver se entendias a minha dor.
Deixaste-me fugir, presa entre as matemáticas complementares, a genética igual às criações que imaginávamos que estariam desenhadas para nós, apenas nós.

Se querias que te amasse mais, porque não disseste?

Por isso fugi, na esperança que nunca me abandonasses. Fugi um pouco mais todos os dias, com essa característica perene de quem gosta pouco mais de despedidas, do que de super bock’s junto ao café da esquina.
Só Deus sabe o que poderia fazer, se apenas me tivesses ajudado a abrir a porta dessa consciência impenetrável, onde se escondia o teu coração, fechado num laboratório, imerso em composições quânticas, enquanto despejavas uma quantidade de ideias pré-concebidas. Pura merda, em cima da mesa.
Apetece-me dizer que nunca te amei e na verdade, não sei em que parte estaria a mentir.
Lutei tanto contra esse teu ser obscuro que já nem sei o que sinto e por isso fugi, um pouco mais.
Todos os dias.
Se calhar, nunca senti mais do que a necessidade de te provar (constantemente), que conseguia ser completa, o suficiente; a ver se conseguia chegar a esse altar pré-concebido que fingias não gostar. Pedestal corrompido, ponte quebrada entre mil e uma palavras que referias com puro desconhecimento.






Pura merda.


Se queres que te ame um pouco mais, porque não dizes?




Há coisas que não te disse, mas que resultariam apenas em copos de vinho vazios, às vezes talvez quem sabe - partidos.
Reconhecíamo-nos por entre as paredes frias, que eram o estigma da nossa conjectura, mas não sei se nos amamos o suficiente.
Esse amor que vem descrito nas revistas, que suplanta a distância ou as crises intermináveis, favas contadas de uma relação entre duas pessoas cáusticas, como a nossa.
A verdade é: preferia ficar na Enfermaria a ver a morte dos outros, a imaginar-me a chegar a casa, tirar-te as calças e enfiar-te dentro de mim. Fosse no sofá, no hall da entrada, ou mesma na banheira, como sempre gostamos.
Criei a necessidade, com o passar da idade e da alienação social que vim a adquirir, um constante repúdio pela entrega sexual - contigo.
Por isso, estragava tudo inicialmente, para me enlouquecer de vontade de querer ficar ao teu lado, apenas porque tenho medo (puro) da rejeição. Apenas porque queria provar a mim (e a tantas quantas quisessem presenciar), a minha força magistral, que te conseguiria suplantar.
Em público, com alguma preferência. Uma humilhação constante, tu a imitares um despercebimento assassino, tu a esqueceres que eu existia, subitamente, mas sempre nesse remoer interior, que nos acabou por matar.
Puxei-te pela convicção de que não precisei nunca de entrar num curso intitulado “Medicina”, para conseguir fazer tudo aquilo que queria. Às escondidas, importunei o sistema, sem que disso dessem conta. Doseava os medicamentos, entregava sedativos àqueles que gritavam pelas Marias, durante a noite, apenas para que os outros pudessem dormir, mais descansados. De manhã, chamavam-me de Doutora e eu fingia que não ouvia. Como tu.
Foi aí que finalmente entendi, que não haveria mais nada a fazer.
Passei a discutir sozinha e a ter medo da minha própria voz e perdi-me nas ideias e equações de te conseguir fazer ver a luz que haveria dentro de mim. Porque haveria, apesar de tudo aquilo que fazíamos consistia em dizer …Adeus!
- Adeus, vou dormir, adeus vou trabalhar, adeus vou viajar (para onde?!).
Talvez nunca te tenha amado o suficiente para te expelir completamente, talvez não rimássemos, como os poemas que escrevíamos durante o S. João…
Tempos houve em que bastava falar um decibel mais elevado, para a tua atenção se virar para mim, em mim. Como eram bons esses tempos... De massacre mútuo, de cortinas espalhadas pelo chão, telemóvel partido em dois e o trânsito lá fora parado e eu a sonhar em maneiras de te fazer ver o meu afastamento.

Se queres que te ame um pouco mais, porque não dizes?

Não posso, não podia. Seria submeter-me à fantasia que toda a gente criou de ti. Tinha que ser diferente. Não te podia amar demais, nem querer de menos. Comigo, haverias de ser diferente. E por isso, foste-te embora, mesmo antes de eu conseguir entender, que para guardar o meu orgulho, teria de encenar o meu afastamento e esperar que viesses atrás de mim.
Não vieste.
Poderias ter chegado tarde, colocado a chave em cima da mesa, que por Deus, haveríamos de dar certo, se eu ao menos conseguisse largar o desenho da minha armadura. Eu contava-te que queria mais amor, tu contavas-me que nunca me ias deixar de entregar essa inocência e acabávamos os dois a falar em merda.
Pura.


Se queria que me amesses um pouco mais, porque nunca o disse?

Friday, October 08, 2010

Cor Morta




Preto e branco.
Não há lugar para o cinzento, objectos mais ao menos maleáveis, sentimentos neutros.

É a ilusão onde todos os dias acontecem, todos os dias, como se tratasse do tudo e do nada, constantemente, entre paredes pintadas de alfazema e cores sujas. Absolutamente negras.
Há dias em que me arrasto e que espero que sejam os últimos.
Não sei mais de que cor é o ar que respiro, as cores do chão, as cores que piso, as cores que nego à exaustão, tantas vezes não querer respirar.
As cores da tua vida, as cores da minha vida. Vida extinta.
Nossa.


São os lençóis brancos, aos quais me agarro, os mesmos com que te cobrias e rias, entre sintéticos e algodão, como se a vida fosse não mais do que simples partículas envoltas numa gravidade repleta de pura mentira. Como se o corpo fosse mais do que matéria e pudéssemos levitar nessa mesma…mentira.



- Agarra-me.



E deixo-te cair, nessa mesma falta de força e indignação, que me deixou incapacitado, meio morto. Nesse incumprimento, faltas promessas que me içam e me sufocam de cada vez que recolhos aos meus lençois e me revejo na tua ausência.


Vivemos todos os dias cansados por múltiplas informações, sinais de trânsito que nos levam a lado nenhum, esgotados pela falta de amor que recebemos, pela falta de amor que um dia (muitos ainda descobrirão), ainda sentiremos.


Vivi sempre na constante de que há dias que são "o" nada, ao invés de acreditar, que afinal, todos os dias, são dias que acontecem.
Chegar a casa, despir-me e fazer amor contigo, por entre esses lençóis brancos onde te rias à, minha espera. Acontecer o desejo que é poder tocar-te novamente e esquecer a útima sexta que te agarrei.

Eu na ânsia de chegar até ti, eu no emprego, eu cansado. “No sábado é que é”.



- Agarra-me.



E eu agarrei-te, bem dentro de mim, a meter a tua pele bem dentro da minha, como se o sexo jamais tivesse servido para outra coisa.


Deito-me agora, todos os dias, com a tua pele presa na minha, a agarrar-te. Vezes há, em que choro, como no primeiro dia em que entrei para a escola e o António Pedro me roubou o pãozinho de leite. Era o meu favorito.
Agarro-me e choro. A ver se me ouves e se me perdoas, se me encontras nessa cor morta que tomou forma em mim, desde que não te consegui agarrar todos os dias.


Imaginamos e criamos a imagem das pessoas que perduram na nossa realidade, diariamente, deixando de conseguir encontrar nelas, a evolução da nossa própria existência. Dados adquiridos, cores pálidas, quase inexistentes, por fim.



“Anda deitar-te comigo”.
Não podia. Sábado é que era, iamos jantar à Casa Aleixo e ainda bebíamos um porto no Solar dos Vinhos e íamos esquecer os empregos que nos segregavam, mas que nos mantinham.
Tu, perdida na tesouraria de uma autarquia, sempre a acrescentar números às contas que fazias, para salvar uma função que de pública, tem cada vez menos. Uma função pública adormecida, invisível, perdida na tradução do seu próprio conceito, que seria inevitavelmente, trabalhar em prol das necessidades, dando uso pleno ao conceito de subsidariedade.

Eu, eu nos planos de marketing e nos briefings que me faziam adormecer sem sono, a tentar encontrar ideias em que o orçamento fosse baixo e a ler o post-it do meu chefe "aqui não pode haver gato".



“Anda deitar-te comigo”.
Não me apetecia. Deambulavam na minha consciência, publicidades espalhadas pela cidade que nos transportariam para ambientes seguros e delicados, onde não haveria necessidade de criar anúncios tão inexplicavelmente bem sucedidos, como o que imaginei, quando íamos a caminho de Marvão e fiquei sem um pneu.
Tu eras a minha Marta, aquela que me socorria e me fazia viajar, para bem longe e me tirava a algemas do sexo, me libertavas, para depois (e só depois) me voltares a prender.


Às vezes ligo-te, durante a noite, a ver se brincas comigo e me fazes rir novamente. “Ok teleseguro, fala a Marta?”, mas apesar de saber que essa não é a cor da tua voz, deixo-me ficar horas, em cima da cama, onde o oxigénio se confunde com a intensidade do odor do meu bafo.

Perdi demasiados planos conjuntos, a tentar estabelecer as imagens da vida de outras pessoas, que nem sequer existem, mas atraem milhares de pessoas, quando só tu eras real, em mim.
Tu a cozinhar, na tua ilha, com o copo a escorregar, as sirenes a perseguirem-me, um senhor a tentar afastar-me, o teu sangue perdido entre destroços e eu a tentar agarrar o copo.
Cheiro-o, degusto, saboreio, bebo por fim. Volto a ligar-te e rio-me sozinho.

Tem o teu cheiro e uma cor suave que me entontece. E choro, como a criança que sempre fui, a ouvir a mamã a gritar “não fizeste os trabalhos de casa? Há tempo para tudo”.
Não há tempo para quase nada, a mamã mentiu-me. Por isso choro, porque já não me resta nenhum contigo. Pelo menos enquanto as sirenes ecoarem na minha consciência, perduro para ti, embora não ouça o teu riso nos mesmos lençóis de onde nunca deverias ter saído. Brancos.


Quando já não sentimos, acordar, é sempre o mais difícil.



- Agarra-me.
E eu preguei-me à tua mão e ri-me para ti. Não te podia deixar ir para lugar incerto, sem que levasses de mim o melhor sorriso, aquele que te deveria ter dado todos os dias.
Às vezes acordo e imagino que te salvo, que recolho os restantes carros que se fizeram, em câmara lenta, massa única e cinzenta e te agarro. Consigo ser um herói, ao menos por um dia.
Às vezes acordo e imagino que te salvo. Todos os dias.

Friday, September 10, 2010

Lado Esquerdo


Às vezes o coração dói-me. Encrava-se e deixa-me inerte. Condições de famílias, gerações gastas e sonhos inacabados.
O coração nunca se me parou, mas já esteve perto, sinto-o. Nunca me arrancaram, mas já morreram dentro dele. Numa parte profunda e escura que não deveria existir no coração.
Ás vezes, o coração dói-me e eu não sei bem o que lhe hei-de fazer. Gostava de o continuar, degustar, preparar-lhe um encontro com futuros mais resplandecentes e erros menos marcantes. Voltas durante as noites que não poderemos mais gozar, cada um escondido dentro de si, dentro de nós, na distância que é o mundo preso dentro de um só corpo.
O corpo, o sexo, a morte, talvez tudo junto. Empenhei-me em evidenciar um início sem dor.
Um final sem razão atacou-me muito depois.
Bastaram cinco palavras para calar qualquer razão, dez mil perguntas inconscientes para arrancar essa impressão que afogaste dentro de mim.
Gostava de compreender as razões dessa felicidade inoportuna, desse livro arbítrio escolhido entre a minha pele e de tantos outros. Tantos outros.
Ás vezes o coração dói-me e eu escondo-o a ver se ninguém completa as expressões deste problema de imaginação.
Lembro-me das fugas e dos risos, das voltas na praia a encontrar as peças que resultariam na inevitável queda de cada um de nós.
E foi aí que te olhei, por dentro desses olhos azuis e o teu sorriso. Parecias-me uma figura inóspita, distante, desconcentrada em mim, inexplicavelmente, descentrada em mim.
Demasiado parecido comigo.


Tentei controlar-te mas acabei por morrer, também eu, dentro de mim, sucumbida de desejos, fugazmente atraiçoada pela minha perspectiva de uma ilusão que nunca se veio a concretizar.


“Dá-me a tua mão”. E eu dei. Comandavas pouco as acções, eras muito mais passivo em relação a tudo, mesmo o pouco, daquilo que tínhamos criado. Mas eras tudo e já cá não estás.
Molhada, desfeita, a deixar-me ser engolida por ti, bem naquela praia. Às vezes fingia e acreditava que tinhas sido feito para me penetrar inúmeras vezes, sem a força de qualquer estupefaciente que te levasse para longe de mim e fosses, finalmente, perfeito naquilo que raramente conseguias acabar com alguma destreza.

Deveria ter imaginado tudo logo desde o início. Nós que pertencemos ao género que vocifera a capacidade de utilizar o sexto sentido diariamente, raramente confiamos nos nossos sentidos.
Somos estúpidas e inseguras demais. Até porque, certamente, se o tivesse sabido antes, provavelmente não me importaria.
A sobrevivência das mulheres depende pouco da verdade e mais da constante afeição física e erudita.

Preferia ter-te aqui, desfeito em mim, do que alguma vez te ter perdido para uns braços musculados, uns lábios grossos, um sexo que não encontro em mim. Contra algo que eu nunca poderei controlar.
Dizes que faz parte de ti, que é algo que sentes, pois então sente-me a mim e fica comigo, porra.
O amor deveria ser essa ligação puramente controlada pela falta de dor e constante busca de prazer, irracionalidade pegada e tesão mascarada de paixão…
Falta-me a tesão”.


Não me culpei. Levo disso e de tudo, da minha mãe que me ensinou que as mulheres não se podem culpar de tudo aquilo que os homens não dizem sentir. Nesse momento o coração não parou, mas engrenou numa viagem temporal que me custa sair, neste silêncio em que a minha janela se transformou. Não há porta para o mundo, não há o B.B. King a tocar para nós, entre a chuva de Novembro que ambos adorávamos e partilhávamos. Eu junto desses olhos azuis, eu a sentir-te, tu a afastares-te, tu a cuidares de mim, nós sempre juntos.
“São irmãos?”
E sentia essa ânsia de explodir inesperadamente. Afinal, era visível.
Não, claro que não somos irmãos, porra!
E gritava silenciosamente “Nós fazemos SEXO. Do puro. Eu abro-me para ele e ele come-me e vai bem fundo, como se a vida fosse esse único sopro, entre um cigarro ou dois”. E as luzes apagavam e eu acordava e sorria. Controlada, demasiadamente controlada, inexplicavelmente controlada.


“Não vais dizer nada? Gostava que continuássemos amigos”.
Não te respondi. Sempre falaste por mim, sempre advinhas-te o que eu queria, pois agora atravessa-me como antes e faz o que puderes, mas fica.

Silêncio.
A minha janela para o mundo eras tu. Era através dela que idealizava as pequenas sensações que a terra me trazia, que sem ti, nunca fizeram sentido.


SILÊNCIO.
Ás vezes o coração dói-me.

Tuesday, August 03, 2010

Instrumento


Agarro-me a esses olhos e sei bem que não é este o meu papel.
Sento-me defronte do piano, enquanto balanças, ora para trás, ora para a frente.
São tantas as vezes, em que imagino que te deitas sobre mim, enquanto deixo que a música me leve para bem longe e consigamos perceber, por fim, que somos livres, sem planos ou materializações de ideias imaginárias, a rebentar, por dentro da boca que se esquenta e se funde.
Nessa espuma baça, enquanto deslizo os dedos e me imagino a engolir-te num só sopro, bem por dentro dessa pele que se rasga, enquanto me revejo a apertá-la. Não é a música que me faz levitar, é a possibilidade de acreditar que um dia, ainda te posso tocar.
Não tenho mais nada sobre mim e tu não consegues imaginar a imensidão de sonhos que construi a pensar na tua essência, grossa, fraudulenta, eterna em mim.
Desejar-te é imaginar-te. Querer-te seria pensar em calar-te, finalmente e encostar-me sobre ti.
Ninguém sabe de nós, na minha consciência. Aprendi a reprimir essa excitação, bem por dentro das calças, por detrás da imensidão deste instrumento, que é o piano.
Às vezes, imagino que toco sobre ti, que te possuo dedo a dedo, por entre as tuas costas , até chegar ao pescoço e completo-te nua, nessa exclusividade que é poder sonhar contigo, acordado.
Olha para mim e diz-me o que vês. Larga esse copo e abraça-me, acalma todos os desafios que sei que a idade não me permite atingir. Leva-me para onde pertences e finge que sou teu. Como eu finjo que és minha.
O momento passa nesse instante derradeiro em que percebo que te vais e que só voltarás dentro de longos e imensos momentos. Um momento pode equivaler a uma semana, dependendo se me encontro contigo, nesta sala, de onde retiro cautelosamente as fotografias do corpo que adormece comigo, todas as noites, na esperança que te esqueças que já fui abençoado por Deus, noutra união.

Vens aqui para cantar, então canta para mim, deixa que te embale e que penetre nesses olhos verdes, que ainda hão-de ser a causa maior da minha existência. Deixa que desvende e encontre esses segredos, bem por dentro desse decote, que finjo não existir.
Como se fosse o Stevie Wonder e não me interessasse mais do que a porra do piano, à qual estou aprisionado. Tornou-se um fardo e no entanto é a única forma de me imaginar a reter-te, mais materialmente.
Todas as quartas, todos os sábados. Dois dias por semana, duas horas por dia, duas formas de me manter acordado.
Há dias em que sonho que destruo a porra deste instrumento, com um machado, com os dentes (sei lá), tal é ânsia de que tu me vejas, finalmente.
Tu e as tuas formas desajeitadas, o teu andar meio infantil, o teu sorriso meio falso.
Será que és feliz?
Imagino-te algumas vezes, a chegares a casa, a adormeceres, a ouvires qualquer coisa na rádio (as pessoas da tua idade ainda ouvem rádio?), pequenas coisas, que é disso que a minha paixão infantil é feita.
Pequenos sonhos molhados, o corpo a perguntar-me o que se passa, a querer que lhe toque e eu dentro de uma deambulação de pequenos estrabismos, a satisfazê-la, entediado a pensar que ainda é segunda-feira. A fechar os olhos, a esquecer-me quem fui, a ver se consigo renascer ao teu lado. A ver se não explodo, a não ser dentro de ti. A ver se adormeço dentro de ti.

Amanhã já é terça.

Tuesday, July 13, 2010

Fotografia


Agarro nas fotografias e escondo-as.


Já não há grande razão para as manter emolduradas, por entre as paredes que são visitadas cada vez menos. Corredores sem luz, repletos de portas que nos levam a lugares comuns, apenas.
Agarro nas fotografias e escondo-as, por dentro de mim, bem dentro de mim, onde é mais difícil alcançar, onde é mais difícil agarrar, onde é mais difícil conceber a que perspectiva foram retirados todos aqueles retratos que ficaram cravados, contidos, aprisionados.
Ninguém sabe muito bem, a sensibilidade colocada por detrás da óptica, em todas aquelas expressões. São minhas, pertencem-me e não pretendo partilhar mais, nunca mais, todas as memorias que a luz presente, declara.
Luz que trespassa, luz que engana, como se a verdadeira felicidade tivesse atingindo naquelas paisagens bucólicas, dentro de um quadro de Vivian Vidal, a ser um Guardador de Rebanhos, a imitar declaradamente Alberto Caeiro.

Eu também sou do tamanho daquilo que vejo, dentro da constante infiltração das perspectivas mais ou menos delineáveis, a escorrer senso comum, a vociferar palavras há muito gastas, como se alguém as compreendesse.
Desperdício. Desperdício de tempo e de energia vital, como se viver todos os dias não cansasse e não nos tivéssemos de resguardar para o verdadeiro golpe.
Fixei-me várias vezes nessa última hipótese e julguei-me inteligente. Esqueci a sensibilidade atroz que limita e resvala em idiotice. Esqueci-me que não sou eu que faço as leis pelas quais as pessoas se movem e por isso, deixei-me guiar.
E por isso, guardo as fotografias.
Não sei se por vergonha, ou por miséria, ninguém merece saber tanto quanto eu. Quão feliz eu fui.
Pensar isso, há-de ter sido um erro, com consequências que nem eu, matemático das emoções, consegui calcular.
Sei a verdade e sou feliz. E basta-me, por entre a erva que me segura e faz levitar, nesse silêncio que é permanecer inerte, rodeado daquilo que a vida oferece. Daquilo de que melhor a vida tem para oferecer.


Sinto-me a explodir por entre as estrelas que contei e que teimam em desaparecer um pouco, mais todos os dias. Por entre os punhos que cerrei e me custam a abrir, por entre a guerra que fiz minha e que teima em não cessar.
Concordância de ritmos vertiginosos, o amor à flor da pele e a adolescência tardia. Nada é como devia ser.

- Quem são estas pessoas?
- São pessoas.

Não há nada mais para explicar, para transmitir, para gritar. Ficamo-nos pela falta de justificação plausível, a incoerência absoluta que é explicar aquilo que nem Aristóteles compreenderia.
Fazemo-nos cães e gatos, lutamos contra a noite e somos bem sucedidos. Fazemos do fígado o nosso escudo e fazemos por perder, por cair, por levar bem longe a ansiedade desse desaparecimento proclamado, mas nunca executado.

Guardo as fotografias e levo-as comigo. Elas levam-me para longe e ensinam-me a amar, novamente. Elas falam comigo e dão-me liberdade, sem esse espectro que é sentirmo-nos um pouco mais sozinhos, quando de facto estamos acompanhados.
Elas transportam-me para essa imagem onde a dor e o prazer se misturam e não há diferença visível, possível, como referiria Susan Sontag, se ainda permanecesse entre nós.
Sontag reconhecia esse poder, curvava-se perante ele, e admitia-o. As fotografias são o reflexo de uma memória manipulável e intacta.
Sempre que as revemos, elas podem espelhar exactamente aquilo que queremos imaginar e tudo se transforma e recicla à nossa vontade.
Somos magnânimos e as memórias deixam de ser ponto máximo na equação. O que interessa, é aquilo que pode ser alvo de um interesse alheio, aquilo que pode aprisionado e claro está, julgado.
A realidade atrapalha, tantas vezes, que a paciência é esgotada por entre cidades nunca antes visitadas, nessa inconsciência que é viver à espera de um momento, que, sabemos bem, está longe, ainda.
A realidade é lenta, corrosiva, porca e aborrecida. A realidade é essa massa consistente de merda e carne viva, onde somos autistas emocionais e não aproveitamos o amor como energia sustentável. A realidade é um desperdício de anormalidade, onde tudo poderia ser bem mais motivante, diferente, aceitável se soubéssemos reconhecer o quão gratificante é caminharmos perante as incongruências e defeitos alheios e sentirmos a aceitação definitiva e ainda conseguirmos mostrar um sorriso que grita bem alto


SEI A VERDADE E SOU FELIZ.

Deficiências facilmente detectáveis, onde é preciso, demasiadas vezes, fechar os olhos e alcançar essa paz de espírito que é não conhecer nada nem ninguém. Não querer saber de nada nem de ninguém. Não importar nada, nem ninguém.
As fotografias, ao contrário das palavras, não se gastam e por isso colo-as em mim, por debaixo da roupa, junto do fundo de qualquer coisa que ainda não consegui perceber bem o quê, mas que julgo ser de difícil acesso.
As fotografias lembram-me que perco demasiado tempo em tornar eterno, aquilo que nem o tempo, muitas vezes, consegue. Contam-me, ao ouvido como se a PJ estivesse perto, que foi quando mais sorri, que elas mais brilharam, cheias de vida e de cor. Contam-me que me posso deixar ir, novamente, por entre as ondas de tudo aquilo que sonhei, enquanto pouco sabia, que é essa a maior alegria em permanecer vivo: sonhar.


Sonhar em acordar.
Sonhar em voltar a sonhar.
Sonhar.

Somos demasiado adultos para sonhar, mas quando se está feliz num sonho, isso pode fazer toda a diferença.
É por isso que os construo e não desisto nunca. Hei-de ser esse Guerreiro extasiado e esfomeado por mais um pouco de motivação em recriar um pouco mais do mundo perfeito, que tantas vezes imagino. Aquele que está gravado por entre as minhas fotografias e que deixei de partilhar, de forçar. Por entre as estrelas ela aparecerá. Por entre um poema da Sophia, perante a euforia que se transmite, quando a verdade não chega, quando a honestidade não é sinónimo de amor, na verdadeira concepção do conceito. Nunca foi.

Eu a derrapar, perante os sonhos que fui recriando.

Sei a verdade e sou feliz.