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Friday, May 20, 2005

Segredo IV

São luzes que se movem lá ao longe. Luzes que escondem os verdadeiros desejos de quem quer esquecer tudo aquilo que já viveu, lentamente, por entre ruídos que a transfiguram e silêncios abafados.
È no silêncio que tudo se passa.
Em que arranha a sua própria realidade e onde a sua existência se compadece de tanta dor, por entre sombras que nunca deixam de trespassar a sua contigência, entre quadros bucólicos, repletos de prazer que nunca mais alcançará.

Querer agarrar o tempo
voltar atrás por mais do que um momento
aprender a morrer lentamente
esquecer que se é mortal
e conter em si algo mais do que carnal.
Viver num segredo sem tradução
tremer, sem encontrar a razão.
Noite que liberta
um olhar que quer esconder
Não nos basta querer,
temos de ter.

Estende-se na cama. Enrola-se por entre os lençois brancos e tudo lhe regeressa - uma espécie de dor que a atinge, que a torna mais pequena, fugaz e impaciente, sangue que jorra e não pára, saltos e confusões planeadas, gritos e um sexo que a havia de levar ao centro de si própria- como se nada se tivesse passado.
Fecha os olhos, mas ainda sente o sabor nauseabundo e leve que disseca numa segurança intransigível. Agarra-se à cama e a toda a sua coma transparente. Agarra-se aos lençois que escondem a sua própria vergonha. Agarra-se ao segredo que a faz querer não adormecer, segredo que esconde por entre os olhares que afasta mesmo quando se olha ao espelho, para provar que, lentamente, se extingue. Ciclicamente.

"Lentamente o processo evoluí
como se o mundo parasse."

Antes de acordar, imagina que ainda é de noite e tem uma vaga probabilidade de se encontrar, quando nunca teve opurtunidade para tal. Porque é de noite que todos nos perdemos, inconscientes de que a noite não nos encobre, apenas nos torna mais distantes de uma perspectiva mais nula.
Antes de acordar, Joana espera não acordar sozinha, talvez que alguém lhe agarre a mão, esse alguém que durante um Tempo indeterminado rejeitou e agora espera, com toda a força que ianda lhe resta, que russuscite e volte para onde nunca deveria ter saído.

"Ela está a morrer
L e n t a m e n t e"

Olha-na como se se perdessem na sua imagem. Viram-na passar diante deles durante tantos anos, carregando molduras e obras nunca compráveis à arte que, deliciada, depositava em cada passo que pretendia dar. Suportando uma carga imposta por um mundo moderno que a comprimia e a saturava. Que a fazia transbordar um tédio constante e uma angûstia delicerante - que nunca haveria de ser o seu - deixando um cheiro de sexo e sensualidade que nunca haveriam de provar.
E sempre que ela aparecia do cimo das escadas, desenhada e limitada pelos seus longos caracois loiros, algum deles haveria de começar o dia de uma maneira mais agradável. São olhos azuis carregados de um brilho que nos reflecte a paz do mundo, que por não existir, nunca acreditamos na sua possibilidade.

"Dizem que quem muito fornica, acaba fornicado. Talvez seja isso."

São olhos que a seguiram e continuarão a seguir, com uma competência atroz, de quem não faz perguntas, mas que sabe perfeitamente que o fim está próximo.
Que vivem daquilo que ela lhes proporciona. como formigas que nunca conseguem sobreviver sem o seu pólo central e a segurar um desespero que passou a ser deles, também. Vestem trajes de gala, como se os longos serões os esperassem todos os dias, porque eles sabem, que o fim está próximo.
São olhos que chegam para quatro seres, de dimensões não similares, com "estórias" inscritas no panteão dos escravos do prazer pertencente ao mundo dos sonhos. São olhos que efectuam as suas tarefas como se nada tivesse ocorrido e uma morte fosse apenas o fim de alguém que não eles.
Separados criam as suas versões cinematográficas de uma realidade que não compreendem, colectivamente, desenvolvem a sua capacidade de interpretação em que imaginam a projecção dos gritos de prazer que se haveriam de tornar de dor, um pouco mais tarde. Não têm sexo, apenas funções porgramadas. Funções integrantes numa casa que já não suporta um silêncio. Uma casa que se desgasta e pede, também ela para morrer.


L E N T A M E N T E

"Aprisiona-se no silêncio de quem já teve tudo
Talvez viver nesta aglomeração, sem sequer procurar uma razão"

Ainda é de noite, afinal, quando Joana acorda. Sente-se tentada a morrer diante do seu próprio desespero. Precisa de algo que a faça reviver, ali mesmo naquele momento. Dirige-se então, para a cozinha, onde de imediato um dos seres que a serve e que diariamente a rodeia, lhe deita o seu habitual "Martini Bianco", sem gelo e sempre com limão. Joana acha que o limão funciona como uma sinédoque para a vida que diariamente levara, onde pensara que conseguiura transformar o que de azedo a tormentava em algo de uso para si própria. Esqueceu-se que é mortal. Esqueceu-se de si própria.

"Ela fugiu, fugiu de si própria"
Joana não percebe porque é que o ser não a olha nos olhos como sempre se sentiu fascinado a fazer. Não se questiona, dirige-se apenas para a varanda, onde pelo frio que levemente começa a sentir, constanta que está nua. Talvez sempre tenha estado.
Lá fora luzes imensas aguardam o fim sua missão. Joana percebe agora, tarde de mais, que deveria ter fugido, quando nunca lhe pediriam uma justificação, quando ninguém a questionaria, quando o seu segredo seria ainda capaz de ser sustentável apenas com a dureza de um silêncio.

" E ela já não sabe qual o lado acertado,
Apenas que está a fugir, outra vez"
Lá fora, o seu silêncio torna-se perceptível, onde a sua dor se torna audível. Por isso grita para que todos a oiçam, grita para que a segurem e a detenham, grita para não ser a única a perceber uma morte da qual foi directamente responsável e nunca teve a coragem ou discernimento para o admitir. Grita para que a vistam, façam amor com ela, lhe mostrem de quantas cores é feito o arco-íris. Grita por amor.
A Joana ainda não perdeu tudo.

"And i don´t know wich way is left,
So i hold my breath till the morning, till i see the light
I´m on the run, i´m on the run again, from me." N. Imbruglia, On the run.

Tuesday, April 26, 2005

O Segredo III

Ouve vozes, ouve ruídos que a marcam de uma forma esmagadora e simples. Houve alturas em que apenas ouvia a música que durante tempos a seguiu por entre um caminho que nunca esperou percorrer, mas que inevitavelmente gostou. Ouve, agora, vozes que a seguem por entre paredes habitadas, fantasmas que tal como ela sangram e esperam apenas uma opurtunidade para se livarem dela.
São corredores imensos de uma angûstia incontrolável, cobertos outrora por sangue, agora encobertos por um segredo. Segredo que a há-de matar. E já começou...

O Olhar esconde
A Palavra interrompe

Ela já não percebe qual o caminho a seguir, onde permanece o sonho que um dia quase segurou, nem porque é que as palavras lhe fogem, como se não lhe pertencessem. Não percebe porque é que o dia nunca mais esteve tão azul, azul como a alegria que vivera, como a vida que sustentara. Não percebe porque é que os olhos se fecham perante um estremecimento dão duro, tão forte. tão cáustico.
Quer livrar-se do segredo e surpreendemente não consegue. Este fardo é demasiado grande.
Grande como a casa que habita, Grande como o coração que já não precisa, porque já nada sente.
Grande como os monstros que aterrorizavam os velhos marinheiros, Grande como a tristeza que todos carregamos quando somos postos de lado.
Grande como os prédios que tentam alcançar o céu, ao invés de o tentaram refazer cá em baixo.
Este arrependimento delicera-a facilmente. É uma espécie de dor este falso esperar de algo que nunca virá, apenas porque já não existe. Por isso ela fecha os olhos, à espera de encontrar essa réstia de vida que ainda sustenta. À espera que tudo regresse e as mãos que outrora foram suas nunca mais desapareçam.

"Porque quem muito fornica, acaba fornicado"

Tornou-se apenas um parágrafo deste sistema. Os cabelos loiros que lhe caem no ombro são uma réstia de dignidade. Apenas ouve o que lhe referem da realidade lá fora. E ela espera, sentada, na cadeira, que a trasparência regresse, que o amor lhe devolva o que já teve, que esta vida fugidia não lhe escape. Dizem-lhe que se cuide, que se vista, que se lave. Dizem isto sem a olharem nos seus Grandes olhos azuis, porque sabem que ela reconheceria " a alma de quem nunca viu maior riqueza do que a que sentiu". E por isso a dor nunca a abandona, nem quando repete o segredo frente a gravuras que estão por toda a casa, que são as únicas faces em quem confia.

A palavra há-de nos levar
a um qualquer lugar
onde o olhar há-de esconder
quem nos quer amar.

De vez em quando, passeia livremente pelo jardim. Aí sente-se mais viva, mais presente e menos estranha a este mundo que muitas vezes nos atraiçoa. Passeia e desmaia de tantas recordações, de tanta passividade, de tanta melancolia. Pergunta-se para que precisa daquelas pessoas que a atormentam com perguntas infindáveis acerca da sua situação. Pessoas que lhe querem tudo, apenas porque já têm muito. Pessoas que a servem e que nem por isso lhe obedecem. Pessoas que aparecem e não voltam mais. Pessoas, pensa ela.
Há vezes em que se pica nas rosas que circundam todo aquele verde que apenas lhe trazem a solidão de volta. Há vezes em que sonha estar em frente à casa com que tantas vezes idealizou e acaba por se picar outra vez acabando por não repetir a saudade que sente, a espécie de dor que tanta a persegue. E por isso permanece em silêncio, concentrando-se. De quando a quando ainda ouve o seu nome, lá no fundo. E é sempre a mesma voz. De quando a quando pensa que é esse o seu destino, o porquê do seu caminho.

"Talvez viver nesta aglomeração
sem sequer procurar uma razão"
Quando entra de novo em casa, não vem sozinha. Olhos que a seguem, múrmurios que a percorrem, uma tristeza tão grande quanto a sua casa. Enquanto sobe as longas escadas, sente-se cansada e espera em Deus uma razão para não se deixar levar de uma forma inerte e fria.

Ela está a morrer.
Ela está perdida
Ela só queria viver.

Enterra-se levemente na cama onde já esteve acompanhada, mas que como tudo, lhe escapou, mesmo por entre um olhar e uma impotência amarga, que lhe deixou um nó intransigente, incapaz de a deixar encontrar uma tradução para o seu próprio silêncio.

"Fujo do meu segredo
como se dele tivesse medo
longe do mundo, longe das coisas
a ver se não me arrependo
Como se a vida se me extinguisse..."
A Joana está a morrer, por entre um céu mais azul, por entre um amor que já foi seu, por entre uma saudade que há-de voltar sempre. " E nem o tempo há-de chegar" para ela dizer o quanto esta espécie de dor a torna tão frágil, nem o tempo há-de matar a sua saudade e fazer com que reviva de uma forma mais límpida tudo que outrora rejeitou.
Há coisas que nunca serão nossas.


Morrer é ser iniciado. in Antologia Grega

Wednesday, April 06, 2005

O Segredo II

Uma decisão é sempre algo de corruptível e efémero. Um conjunto de acções e motivos pelos quais nos podemos afundar mais tarde, sempre mais tarde. O arrependimento é algo que nos satura e nos persegue, sempre e todas as noites quando abrimos os olhos, apenas porque temos medo de os fechar.
Não, não é dos cada vez mais aclamados espectros de quem temos medo, nem das vozes que ecoam e riem por entre as paredes. É da Visão que nos atormenta, do tecto que não escapa, do mundo que se rende à forma mais enfadonha de passar por si próprio, sorrindo ao Tempo, deixando-se enlamear por ele, passando a ser apenas um apêndice da sua própria magnitude.
Joana tomou a decisão de procurar algo que não existia, de confiar profundamente em algo que simplesmente não aconteceu. Em algo que nunca aconteceria. Ela como muitos de nós, divide-se agora em conjecturas acerca de um futuro que não previu, rodeada por palavras que não se fixam no ar em que já viveu e que aspira a custo, muito custo.
"O que buscava Era, como qualquer, ter o que desejava."
E agora desejava impreterivelmente uma forma de não ser sugada pela decisão de tentar fugir ao tecto que lhe tentam determinar, a um conjunto de acções vazias, decorrentes de uma modernidade que é absorvida pelo Tempo, por um esquecimento que não compreende mas que se deixa rodear, por uma realidade que não concebe como um futuro, mas que a torna mais segura de que o que a rodeia pode ser a cura para uma infelicidade mais saudável.
Enquanto corre pelo imenso leque de sentimentos materializados em objectos que todos gostamos de possuir, é tentada a voltar atrás, quando não permanecia nem continha em si um Segredo, em que o desespero era não poder acordar e mentir para si própria que poderia ter muito mais do que alguma vez teria; que há certas coisas que nunca poderão não ser nossas.
Entrega-se assim ao vício da deambulação. Corredores que a sufocam e a fazem permanecer pequena e frágil, talvez gorda pela decisão que carrega dentro de si, mas sempre empenhada em desesperadamente excluír-se da sua própria vida.
Mete pena a coitada. Não passa de uma enorme sugestão das suas próprias conquistas. Procura ela - e afirmarei mais tarde- como todos nós, essa insustentável leveza do ser, para que apenas o mundo que a rodeia lhe volte a interessar, para que volte a ser aquilo que nunca quis ser. E nunca mais conseguiu ser.
"Amor, que insensatez"
E todos os segredos são actos de profunda paixão pelas palavras que não se fixam no ar, criando uma melodia que não nos convence. mas que nos acomoda em toda a sua magnitude, sem que ninguém nos desperte para a sua corrosiva essência. No fundo, todos os segredos são suicídios em série, porque é uma doença que nos degenera, nos faz combater com a nossa própria integridade e que mais tarde voltará para nos subjugar ao nosso próprio desespero. Desespero que não larga, que se torna a nossa mesa e a nossa cadeira. Que se tornou o olhar de Joana, que a dominou e faz parte já de si. Parte integrante do seu ventre, da sua carne, do seu cheiro. Cheiro putrefacto, daquele que nunca mais esqueceremos, daquele que não queremos ter opurtunidade para tal.
O segredo envenenou a Joana, tornou-a mercê da sua própria solidão e da Casa que agora habita, por entre animais e vozes que a ordenam, que a tentam, que a matam. E eles sabem...
"Amor, que insensatez"
Mas ela nunca previu que a diferença é algo que separa aquilo que queremos e aquilo que alguma vez obteremos.
"Porque o chão que pisamos pode ser nosso
Porque o mundo em que permanecemos pode ser nosso
Porque o coração que carregamos pode ser nosso
Mas há coisas que nunca serão nossas".
Não há definição possível para a total perda de sentidos. Quando ela cai, é erguida pelas próprias águas em que se afundou, rapidamente. Queria Ela voltar, perder-se nessa estética que tanto nos atrai e tanto nos falam, nessa igualdade que não existe, nessa liberdade criada, recriada. Inútil.
Agora, percebe que nunca será livre, que não passa de um vulto enclausurado nessa Casa que construíu e deixou morrer por entre a sua própria inocência coberta de prazeres que procurou.
Talvez os tenha encontrado.Mas agora
"Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!" pensa de si para si.
Porque o esquecimento é um acto de profunda vontade e o amor será sempre a mágoa mais patente em todas as caras que o alcançaram. Porque talvez existam coisas que nunca poderão ser nossas.
Coisas que erram, coisas que pairam. Coisas. Coisas que nos enlouquecem, coisas que não param. Coisas que nos fazem semicerrar os olhos e voltar para o aconhego do colo da nossa avó, quando cozinhava aquelas apetitosas folhoses de ouro, que fugazmente desapareciam, mas que rapidamente se digeriam.
Ah!, queria Joana voltar atrás, construir uma determinação mais encorajadora, dançar com a graça de permanecer, correr por entre a fome que tinha de viver.
Queria ela perceber se o Segredo que a torna cada vez mais pesada valeu de facto a pena, se o Deus que a cobre lhe renunciará o seu lugar devido a uma decisão, que a tornou imperfeita demais, perdida para sempre nos corredores da sua própria existência em que já não reconhece de que natureza é aquilo que a rodeia, em que sangra porque é consumida pelo sono que não a seduz. Em que sangra, tentando a todo o custo alcançar a luz que a alicia,a morte que nunca chegará, a vida que nunca mais voltará.
"Amor que insensatez"
A Joana perdeu-se na tradução do seu próprio segredo.

Saturday, March 26, 2005

O Segredo

A Joana perdeu-se na tradução do seu próprio segredo. Segredo imundo, cheio de inocência remetida para um passado repleto de sol e de construções mais ao menos habitáveis. Vidas que se movem em águas negligentes e perturbadoras.
A Joana perdeu-se na tradução do seu próprio segredo.

"Quem muito fornica, acaba fornicado", mas Joana nunca percebeu que tudo é impreterivelmemente vago e maleável, de um sofrimento constante, que doi, que mata. Que sangra.
Sangue vazio, sem cor ou dor. Sangue que não se vê.
Sangue sem odor.
Tudo o que ela queria, tudo aquilo que muitos de nós queriamos, era voltar atrás, debater-mo-nos com os mesmos problemas sem nunca nos subtermos, outra vez, ao mesmo inacabamento, à mesma falta de profundidade. Mudar, enfim.
A Joana já teve tudo o que poderia ter tido. Agora, agora perde-se em deambulações que nos remetem apenas para uma estrada semi-vazia, um conjunto de situações e acções que nos levam a lugar Nenhum.

"Amar é ser aquilo que somos
Ter aquilo que conseguimos ter
Agarrar o que nunca alcançamos"

Mas Ela nunca se deu conta desse facto, facto terrível. Facto que a apagou para sempre de uma existência determinantemente mais disfarçada.Agora, como não tinha previsto, vê-se num lugar sem Retorno, onde a chuva que cai lá fora não lhe dá as respostas por que tanto anseia. Agora, nem a mobilia que penosamente, como são todos os objectivos a que nos propomos, colocou num espaço que a faz sentir parte integrante de um Tempo sem Retorno, onde as obras que a rodeiam levam-na a querer parar. Onde a música que a cerca quando dorme a faz fugir.
A Joana percebeu tarde de mais que o seu segredo haveria de ser entendido, percebido, desmascarado. Que um segredo existe apenas para ser quebrado e que uma decisão, por mais ínfima e sagaz que seja, pode mudar o rumo de muitos (acertadamente?) caminhos. Claro que ela só pretendia voltar a sentir uma presença, mais que física ou mesmo meta-física, por mais poética que fosse, à sua volta. Os olhares que a tentam todas as noites não lhe são suficientes para apagar o buraco que a sua alma comporta. Para se apagar a si própria e voltar a ser mais do que uma simples partícula nas grandes teias de corrupção, que são muitas das relações que diariamente cada um tem, sejam elas de que carácter forem. Mesmo que sejam segredo.
Segredo que a arrasa, que a faz querer voltar atrás determinada e ansiosa. Rápida, arrastada por uma corrente repleta de remorços e palavras que ficaram presas no Ar, que muitos de nós teimamos em querer aspirar em vez de o viver.
E é tudo tão confuso, tão estranho, tão inocente na sua completa e banal visão...Repete para si própria que o que tem é muito mais forte do que o que já teve, que a liberdade é ter-se para si própria, mesmo que tenha de guardar um segredo, mesmo que ela saiba que um dia, o Tempo a vá traír, levando esse mesmo segredo para longe, bem longe, para um lugar Inacessível, onde nunca poderá alcançar o que deixou para trás.

"Viver é querer ser
Sobreviver é permanecer
Sonhar é ter"

Doi-lhe o estômago, doi-lhe o sexo, doi-lhe o corpo pesado demais para suportar fardo tão contínuo e familiar, já. Carecem-lhe as ajudas, perdem-se os factores eternos. Perdeu-se por entre a tradução de um sentimento que julgava pertencente, entre um jogo que não ganhou, sempre sem intensidade. O sol que nasça, o sol que a queime por dentro, para que toda a gente a veja, para que toda a gente se reúna com ela, para que toda a gente a sinta. Ela que nunca mais se encontrou, ela que queria acabar com o segredo, ela que morreu com a sua própria verdade e a consequente perda de identidade. Gostava ela de conseguir discernir o certo do incerto e centrar-se apenas no errado, correr sem parar, agarrar tudo o que não é de direito possuír.

"Tudo pode estar certo"

Não interessa onde é que a mentira acaba, só que ela nos derrota mais do que uma grande verdade, mais do que uma partida de crianças, mais do que poderiamos ter previsto. Ela vê na televisão a exportação que a rodeia, que ela sempre quis ser, embora não perceba exactamente porquê. Mas compreende que o que já teve nunca mais voltará. Há certas coisas que nunca serão realmente nossas.

"Há coisas que não são reais", mesmo quando nada é real, mesmo quando cospe para ter a certeza que ainda não foi sugada, mesmo quando chora apenas porque errou nas palavras entrecruzadas dos olhares desmedidos e infelizmente - direi mesmo- não sentidos.
Queria ela perceber o porquê do grande âmago que transporta, desse grande fundo que nunca mais acabará, mesmo que ela compreenda que sim, mesmo que ela faça tudo o que puder para o conseguir.

Onde estás?

Agarra-te ao que tens, arranca o segredo, deixa-te caír e afogar nessa pedra em que te transformaste, para nunca mais voltares a pedir. Deixa-te reconstruir, deixa-te voltar a ser, mesmo que o segredo te segregue, mesmo que ele seja mais forte, mesmo que nada nem ninguém te segure. Mesmo que tudo seja imperceptível e nómado, mesmo que como José Cardoso Pires refira no marco que é o Delfim, "quem muito fornica acaba fornicado", mesmo que consigas ser feliz e o segredo, enfim, desapareça, mesmo que tudo volte a ser como nunca será. Mesmo que a porra dos remorssos fiquem para sempre a boiar por entre as tuas paredes e as vozes que se mexem, mesmo estando imóveis, voltem outra vez. Mesmo que seja para sempre.
Porque tudo o que sacrifcas-te não foi suficiente, porque nada, nunca será suficiente, independentemente do que fizeres ou tentares, porque há coisas que não mudam, nem é suposto que mudam.
Porque há coisas que nunca serão nossas.

"Cause everyone got a secret, but can they keep it?" Maroon 5

Wednesday, March 09, 2005

Em busca da terra do nunca

Há-de ser sempre o Tempo o nosso maior condicionador, o factor determinante para a extensão de um sucesso ou para um afrontamento de uma qualquer acção que sempre soubemos que nunca ocorreria. E é o Tempo que determina a nossa capacidade de prolongar o sonho, afinal a nossa maior arma contra os espectros que nos tentam e perseguem sempre e todas a vezes que abrimos os olhos.
Esses espectros, que muitas vezes nos ferem e nos fazem esconder debaixo da aparente segurança do nosso sofá onde nos esquecemos que existímos, onde nos esquecemos que essa mesma existência é afinal apenas uma doença terminável que um dia qualquer, num espaço qualquer, acabará enfim, por nos segregar e terminar com o velho eco que nunca nos deixa de perseguir.
Lá longe.
No Restelo.
"Quando se está feliz num sonho, isso conta?"
Estha, personagem inabalável do romance de Arundhati Roy, "Deus Das Pequenas Coisas", tem necessidade em conseguir conceptualizar se aquilo com que sonha é de facto mais importante do que o arcaísmo em que a sociedade indiana está afogada, poço de encontro de múltiplas culturas e indecisões - atrevo-me mesmo a dizer, de incoerências-, ou se o mundo dos adultos é de facto tão linear e escorreito que a capacidade que nos equipara a um ser perfeito e perpétuo é pertencente a um álbum esquecido, que é para onde recorrem todos os momentos que nunca mais hão-de ser vividos, quanto mais sentidos.
Essa capacidade, acabará Estha por perceber, há-de ser sempre posta em causa, por um mundo cheio de certezas, repleto de "gente perdida" à espera de que o amor de alguém os salve.
À espera que a noite caia como morcegos.
À espera da mudança. À espera que o desespero morra.
Cegos como morcegos.
Esses espectros em que Estha nunca se converterá simplesmente porque nunca crescerá - não teve Tempo - tentam a todo o custo matar toda a luz que nos poderia remeter para algo melhor.
No fundo, somos todos espectros de nós próprios, a perseguir a sombra que teima em fugir, qual "Peter Pan", rodeadas por pessoas que sofrem do síndrome "Capitain Hook", que por nunca conseguirem voar não deixam os outros tentar.
Mundo desajeitado, ocidental e errante este, na maior parte das vezes.
Em que as crianças são desiludidas por não terem um sinal na bochecha bolachuda que tantas vezes apetece apertar, em que não há tempo para fazer dinheiro, em que não há dinheiro para refazer o tempo, em que não há tempo para gastar o dinheiro.
Somos então tentados, a sermos comandados por ideologias, esperança desafinada, de pessoas que entregam o corpo apenas porque já não tem alma, sempre em busca da "Terra do Nunca".


Mão na anca. Cabelo liso, olhar descarregado. Olha-se pela terceira vez e ainda assim não encontra a equação certa na imagem que reflecte a sua imagem. Olha-se antes de saír para a feira das vaidades, que é qualquer um desses passeios que todos os dias insistimos em pisar.
Joana tem idade suficiente para conseguir aquilo que quer e um sorriso tão frágil como o mundo para mostrar que tudo depende da capacidade que cada um contém em si de olharmos mais além. A Joana é apenas mais um ponto a juntar ao longo e vasto mosaico de pessoas que partem para parte incerta, sem passado ou tempo que asseguram o futuro. Sempre a fugir do malvado crocodilo que a avisa que o Tempo está a acabar, independentemente dos prazeres materiais com que se rodeia apenas para desviar a sua solidão. A Joana, acha que só precisa de vestir o 36 e rodear-se do máximo de gente que se pareça com as pessoas que todos os dias vê na televisão, para conseguír ver o mundo como outrora noutro Tempo, já sonhara.
O problema da Joana e de muitos de nós, é que as estrelas desses grande Império Cultural, como diria Adorno, não existem e ela vai ter de levar o Tempo suficiente até se dar conta desse facto e compreender que a nossa felicidade depende da capacidade que cada um de nós tem para fazer aquilo que melhor sabe. Talvez seja então obrigatório revitalizar conceitos tão esquecidos como a coragem, perdidos num qualquer diccionário, metáfora do sistema burocrático que nos rodeia.

O que separa Estha e Joana, não é a imensidão cultural ou geográfica, mas apenas a capacidade de sonhar, a nossa maior chave, peregrinação para a nossa perfeição em potência, prova real de que o impossível é o nada.
Cabe-nos a nós decidir qual papel temos capacidade para desempenhar. Parafraseando Júlio Pomar, a vida é um imenso tinteiro.
Coragem.


All I need is a Timeout, Timeout from everything...


Wednesday, February 09, 2005

Condição

O Tempo é o controlador máximo das nossas pequenas vidas. É ele que determina o início e talvez o fim de cada poema, envolto numa paixão que nunca acaba. Queria eu ter tempo para reter em mim todas as memórias a que me proponho, tocar-lhes e conhecê-las, tornar-me, enfim, parte delas. O que fazemos com o Tempo que é concedido a cada um de nós determina aquilo que somos.
É engraçado como já tentei escrever este texto algumas vezes e nunca o consegui. Falar de nós próprios e dos medos que nos assaltam dia-a-dia parece ser cada vez mais uma tarefa árdua que só alguns parecem ter coragem suficiente para a concretizar. Muitas vezes queria eu esquecer o passado, torná-lo fruto dos meus pensamentos inexistentes, porque nunca permaneci nele, nem sei mais se existíu. Em vez disso debato-me com sonhos e imagens que talvez tenham sido criadas por mim, pessoas que povoam o meu tecto pintado com uma cor inconstante, tal e qual como eu. Vejo-me muitas vezes como a Sra. Fisher presa "nestas relíquias de uma vida que nunca existíu", mas que eu sempre idealizei. Tento fotografar dentro de mim os momentos mais sólidos de uma infância marcada por brinquedos que se desintegravam sem que eu lhes tocasse e responsabilidades que não tinham que ser minhas. Conceitos que me implementaram e que agora recordo com a mesma frustração com que sentia o algodão doce a escapar-se sorrateiramente dos meus lábios, sem que eu alguma vez lhe tivesse tocado.
No fundo, a vida continua a ser o maior enigma, a maior travessura de um Deus que nos tornou inesperadamente imperfeitos de mais e que se cansou de nos controlar. Agora, somos apenas marionetas, dispostas na mesinha-de-cabeceira à espera que alguém lhes indique o caminho de volta, de onde nunca deveriam ter saído, de onde nunca devíamos ter saído. Partimos assim, numa sociedade que se une e desintrega, comandada por políticos que se atacam de pijama, fazendo com que retomemos cada vez mais a uma sociedade envolta em teorias sebastianistas, período do qual parece muitas vezes nunca termos saído.
Eu tento absorver o Tempo e pousâ-lo em mim, talvez recolher-lhe a essência e conseguir respirar dentro dele, não controlá-lo, mas antes reconhecer-lhe o toque e o cheiro para que quando ele chegue, eu o reconheça. E é do Tempo que vivem as minhas recordações perdidas em construções e cenários pré-existentes de uma memória programada para me fazer acreditar que tudo valeu a pena, mesmo quando não vale.
"O que mais hei-de dizer sobre uma ruína?Acrescentar talvez que é impossível suster uma ruína só com a vontade" e eu mesmo consciente desse facto tentei sempre achar que o inalterável é sempre ultrapassável, que o olhar indecifrável há-de me levar a um porto seguro, que a cor que polvilha os meus sonhos é de facto azul e não apenas preto e branco, numa realidade sempre condicionada, numa visão sempre influênciada. Continuo a considerar que a capacidade de sonhar é a nossa maior fê e que a morte apenas o início do fim, porque nela tudo se concentra e é nela que todos nos encontramos.
Debato-me a fundo por imortalizar as imagens que criei de um país que resiste a uma colonização contemporânea, fruto do poder da burguesia capitalista e vejo-as a apagarem-se. Tento mantê-las, mas desaparecem, escapam-se um pouco como as soluções para um Portugal que parece não querer sentir o peso da mudança e do progresso, que nos envolve em imagens de relações produzidas em inúmeros takes de uma cultura que não a nossa, de modo a que consigamos perspectivar uma realidade perfeita, de modo a que consigamos idealizar para nós aquilo que tanto ansiamos que aconteça na grande tela. A perfeição continua assim, a ser uma das grandes metas de cada um de nós, onde tudo tem de ser perfeito, constante e dramático.
Construímos então, grandes projectos de uma vida a dois, contemplando um futuro sem passado ou alicerces para que no fim apenas restem ruínas daquilo que tentamos ser e não conseguimos e esquecemos, sedentos de ilusão, que é o Tempo que nos controla e que como Arundhati Roy refere, "tudo pode mudar num dia".
E mudou.

Tentei alcançar o que não tinha
Certo de que o conseguiria
Neguei a culpa que sentia
Apenas para me tornar seguro por mais um dia,
Feliz, dei por mim perdido
num mar de gente que se olha e se arrasa.
Tentei amar em vão
Consciente de que ainda sei onde é a minha casa.
A morte não me assusta pois sei onde acaba
a grande paz que a consome, a vida é que me interroga
Por isso peguei no Tempo e apaguei-o.
"Tudo pode mudar num dia", casas que destroem
palavras que se amam, cheiros que se confrontam
estrelas que se unem, traduções dentro do silêncio.
O Tempo que me leve que ao mar hei-de ser entregue
Como o murmúrio perdido no tempo e na mão de Lídia Jorge
Uma imagem que passa e não cansa, uma memória
memória de um tempo inacabado,
sentimentos que colidem num sonho ainda não concretizado.
Saudade é mais do que Aquilino Ribeiro
é "condensar o mundo num só grito",
é preparar o Homem para o futuro
e construír assim um novo mito.

Thursday, January 27, 2005

Fernet

Tempo. O tempo foge-me por entre os dedos, como partículas envoltas numa voz que nunca cessa, evocando memórias, trazendo gente grande a um mundo pequeno - o meu mundo. Devíamos ser capazes de controlar o tempo, ao invés de lhe sermos subservientes, de o tentarmos seguir, sem nunca compreender a sua integridade. O tempo é matreiro, envolve-nos numa perseguição constante acabando por nos deixar entregues à nossa própria solidão.
Aqui, onde estou, o tempo continua-me a fugir, por entre os dedos como a areia que piso, como o olhar que me tenta, o sorriso que me abraça e ilude. A falta de tempo deixa-me perdido, porque não me dá espaço para encontrar todas as sensações que me permito a alcançar. Queria agarrá-lo, absorvê-lo, tornar-me parte dele, ser o seu filho pródigo e nunca mais ter de me preocupar em segui-lo, em rastejar por ele.
É o tempo que não me faz esquecer que não sei onde permaneço, neste lugar onde as ideologias foram invertidas e ao invés de se adorar um Deus, venera-se Marx e onde o seu filho omnipotente vigia tudo e todos calando aqueles que o tentam ultrapassar.
Queria muito compreender a consistência do tempo. Roy no transcendente "O Deus Das Pequenas Coisas" afirma que "tudo pode mudar num dia". No lugar onde me encontro, onde não me reconheço nem me procuro, onde não há marcas de um colonialismo contemporâneo e onde as minhas memórias não tem lugar, o tempo continua-me a fugir, porque não tenho capacidade para o encontrar, talvez revoltar, determinar o que sou, quando sou e porque o sou. Confundem-me com um Inglês e tratam-me mal. Aqui não gostam dos ingleses, e no intervalo da confusão olham-me com pena, por ser apenas uma partícula comandada por esse pote de intervenções burguesas que é a América.
Alguém me explica que a miúda que me serve à mesa faz parte de um povo traumatizado pelas constantes invasões do chamado mundo ocidental, que no fundo acham que eu sou mais um turista superficial que vai acabar por tentar conseguir alguma coisa delas e acabará por se ir embora sem deixar memória. Isso só me deixa mais motivado para tentar conseguir a simpatia de alguém que é movido pelo Comunismo, como em Portugal o somos pela Igreja, onde tudo é um teste, mesmo o tempo que o tenho para o conseguir.
Envolvo-me em jogos de sedução, espreito a sexualidade que este povo evapora, mostro-me sem que nunca me toquem e no fim espero pela sua aceitação. Delicio-me com o alcoól e com a recente descoberta que foi o Fernet e todo o sabor que me conduz. Mergulho de cabeça em diferentes culturas, troco opiniões, opções de viver a vida e acabo por perceber o quanto ainda tenho para aprender, "porque tudo pode mudar num dia" e ainda assim pareço envolto numa luta permanente contra o tempo. Afinal o que é uma semana para se tornar um momento mais do que fugaz da nossa vida? Queria permanecer aqui o tempo necessário a descobrir os defeitos que tudo que é tocado pelo Homem tem, sem ter de lidar com os meus medos, as minhas paixões e tudo o resto que envolve o nosso percurso.
Cecília numa das conversas, pronunciadas num Inglês com sotaque a Argentina, diz-me por entre um hambúrguer e um "Tiger" que sou um idealista. Não procuro conhecer a origem do adjectivo, mas acho que soa bem, assim como sonhar, dançar, esquecer simplesmente que somos controlados em todas as nossas acções, onde há sempre alguém que nos vigia e pouco a pouco vamos perdendo a nossa identidade.
De vez em quando, dou por mim a esquecer-me que estou controlado mesmo ali, quando me envolvo com outro corpo e experimento sensações novas, com o céu negro e estrelado como pano de fundo.
Não há televisão para me entristecer com algum adolescente que foi expuslo de casa apenas por não gostar das mesmas coisas que os pais gostam, não há telemóvel para alguém me tentar amarrar a uma relação vazia, não há nada que me remeta para uma realidade pré-existente e por isso sonho, consciente de que tudo tem o seu tempo e eu acabarei finalmente por acordar. Mas eu não quero acordar e agarro-me a esse sonho que é poder ser o que eu sou, onde estou, sem que ninguém me tente.
À noite, sou um espectador atento e partcipante, entregando-me à fama conseguida apenas por ser o único português no meio de tanta gente que simplesmente não o é. E quando olho para trás, já só tenho metade do tempo para fazer tudo aquilo que toda a gente gosta de fazer. Vejo-me a conquistar amigos , a trocar o português por um espanhol rafeiro e um inglês comodamente aprendido na MTV, a habituarem-se que gostem de mim, a habituar-me a gostar de alguém.
Judite, uma bailarina que acaba por me ensinar o prazer que é saber dançar essa dança que nos arrasta para o sexo descomprometido (salsa) diz que a maior parte da população gosta da vida que leva, porque embora pobre é "uma vida íntegra sem que ninguém que não seja daqui tente fazer de nós aquilo que não somos". E de repente já sou um deles e acabo por ser mais um partcipante dos jogos em que mostramos aquilo que sentimos. No fim, acho que gostaria de ficar cá por mais tempo, para descobrir se o sorriso que me abraça é de facto meu e nunca mais ter de ouvir as vozes que nunca cessam, que nunca apagam como a luz que nunca funde, como as traças que dia a dia nos tornamos.
É o alívio que me segura a este lugar, é o sonho de voltar e ser melhor que me faz sentir a saudade. Como diria Cesária Évora " Se vou a escrever, muito há a escrever". Enquanto o tempo não terminar, não vou parar...

Alívio

El frescor nocturno,
las estrellas altas,
los árboles inmóviles,
la luz del alma
ardiendo sin palabras.

miro a las nubes y pienso:
hay otro lengueje.

Las palabras hablan
con nuestras bocas.
Se alimentan de nosotros.
Nos sepultan, prosiguen.

Las palabras toscas, ilustres,
que tan enormemente han servido.

No pienso en nada y pienso
(mirando a las nubes):
hay otro lengueje. Cintio Vitier

Friday, January 14, 2005

Intertextualidade

O perdão é daquele tipo de sentimentos que resulta para poucas pessoas. Dou por mim, ainda a descobrir-me a mim próprio, envolto numa adolescência que não acaba, envolto numa sociedade que não quer que a adolescência acabe.
Devíamos todos ser capazes de conseguir perdoar. Perdoar aqueles que nos constroem obstáculos obstinados, como sombras dentro de um baralho de cartas que nunca acaba, como a cidade de seguro na mão, fruto do crescimento tecnológico. Ensinaram-me que se devia perdoar assim como Jesus nos perdoou, mas confesso ser difícil partilhar dessa dádiva de um Deus de quem sei muito pouco, e que acaba por nunca me devolver a paz que nunca acaba, descoberta em azares próprios de uma idade que se quer obstinada.
Eça de Queirós desmelindrou muito bem esta Sociedade Unidimensional que crê em tudo o que vê, a partir de crenças instituídas por sistemas que apenas têm como objectivo padronizar a cultura, tornando-nos iguais, mesmo quando a desculpa parece ser a palavra mas difícil de proferir por quem requer o perdão.
Acredito unicamente no Deus que criei à minha imagem, que me anuncia os maus caminhos como curtos e sombrios e me faz reconsiderar toda a perspectiva que tenho por esse valor que é a vida.
Desta maneira, o jornalismo enquanto prática violada pelos fundamentalismos de uma falsa Ética, que nos leva constantemente a perdoar, fazendo-nos criar a imagem de que esse valor é banal e desprovido de conceito real. Constrói todos os dias imagens que proliferam pela nossa imaginação. Desde ministros que eventualmente não podem gozar de um dia de descanso, passando por personagens públicas que se parecem com personagens de Banda-Desenhada rasca e sentimentalismo desprovido nas notícias que todos os dias entram pela nossa casa. Perdoamos tudo isso e passamos a ser passivos e remetemos numa fúria compreensível todas os acontecimentos que torturam uma sociedade individualista num Deus, que muitas vezes parece ser sombrio e mau, como nos ensinam na catequese, como Eça revelava na obra-prima que é o “Crime do Padre Amaro”, como se Deus nos fizesse cheio de massa corpórea e a quem temos de respeitar, sob pena de nos enfiar uma onda gigante pelos nossos paraísos turísticos, como se alguém perfeito pudesse também ele ser feito de material impuro, sujo e deficiente.
Deficiente é a comunicação social que esconde as construções precárias, mesmo ali à beira do mar, como se estivessem à espera de serem engolidas. Como se nós apenas víssemos aquilo que queremos ver, visto que somos nós, enquanto sujeito independente que fornece apoio seja a que nível for, para depois receber uma imagem distorcida de si mesmo, acabando assim por ficar também distorcido.
Sontag, essa fazedora de ensaios que abriam a luz para a descoberta dessa cultura de massas que nos une numa ignorância impávida, foi uma das primeiras a descortinar o papel da fotografia, como se eternizássemos para sempre o momento, mas apenas os bons, porque os maus são para encolher e não mostrar, porque revelam as nossas fraquezas. Isto acontece, talvez, porque vivemos num mundo ocidental em que o mais forte é obrigado a dominar todos os outros e todos querem ser os mais fortes…
Acabamos eventualmente por perdoar Deus, que não tem culpa da ostentação de riqueza do Homem, como se fosse ele que nos pedisse desculpas, como se fôssemos nós que lhe devêssemos dar a glória da clemência e da purificação. Como se a S. Joaneira (O Crime do Padre Amaro) pudesse de alguma maneira apontar o dedo a alguém, quando ela escondia dentro das suas saias um prazer devoto em ser corrompida pelo cónego-mestre e promover a Religião Cristã como única fonte possível de conhecimento. Aliás, essa instituição ensina-nos tudo menos a Ética verdadeira, aquela que pode parecer utópica, mas que seria fácil de praticar se todos percorrêssemos o mesmo caminho.
Aqui há dias deparei-me com um caso explícito e mais do que comprovativo da criação magistral que os meios de comunicação se empenham em criar nas pessoas que se revêem nos valores que eles proclamam. Exportam caras bonitas para a televisão, promovem-nas até à exaustão nas revistas que de cor-de-rosa têm muito pouco, fazendo crer no consumidor que a personagem criada na televisão é de facto real, que lhe pode tocar e dessa maneira exaltar-se quando ela sofre, como se sofresse também, quando ela exerce poder, como se ela exercesse poder também.
Tal como nos meios de comunicação, o administrador deste blog, tantas vezes repleto de sonhos por criar e de sorrisos que nunca aconteceram – não existe. Da mesma forma que a Britney Spears não é na verdade uma miúda inundada de princípios boémios, da mesma forma que os governos esconderam a possível ameaça do dito Tsunami que desbravou países que nunca foram nem nunca serão independentes. Da mesma forma, que o administrador deste blog não é a mesma pessoa que vêem numa dessas noites a dançar ao ritmo da vida ou que passa na passadeira iludido que isso funciona como protecção de alguma coisa. O consumidor tem assim, de ter a capacidade de se distanciar destes ensaios pseudo-filosóficos, que muitos gostam de ler, assim como a realidade que consomem avidamente na comunicação social. Alguns, é certo, remetem para o lado mais fraco do coração, por se deixarem agarrar em ideias acerca do administrador. Têm de possuir essa capacidade, para não terem de se debater com o perdão de alguém que simplesmente não existe.
No fundo, fico contente por estes textos evocarem opiniões diferentes (seja num jornal como já foi o caso ou mesmo noutro blog) no íntimo de quem as lê, pois é de facto o seu objectivo principal enquanto experiências íntimas e reais. Todos somos Humanos, todos podemos errar e exigir o perdão, mas sempre com Ética, valor fundamental esquecido pela Igreja e pela cultura que esta domina. Não é de estranhar então que quem ataca, como não tem princípios ideológicos, não se assume e esquece-se ou nunca aprendeu que a Ética instaura em nós três tipos de responsabilidades pelos nossos actos. Mais, essa pessoa não existe no meu imaginário sequer, porque não se identifica e usa um espaço para denegrir a imagem de um administrador que pode muito bem ser quem não escreve os textos (será?).
Não conto com esses infortúnios. Todos passam pelo mesmo, incluindo Inês Pedrosa que viu a sua imagem arrastar-se devido a alguém que prefere optar pelo espaço íntimo, mesmo sabendo que esse não conta para ninguém, a não ser para os fracos de espírito.
Eu perdoo-o quem se dá ao perdão, quem tem coragem, capacidade e visão para o alcançar.
A vida, embora muitas vezes ache que não, ensinou-me a reconhecer essa intertextualidade entre a pessoa e os actos da mesma. A vida ensinou-me que o que tocámos não é nada mais do que a alegria de pisarmos a relva logo de manhã, fazermos castelos na areia enquanto ainda nos deixam e levarmos alguém deste mundo connosco, mesmo que seja apenas a nossa sombra. Mesmo que sejas tu.




I will build my world, i will sing my songs, i will keep my helmet on

And you can ruin my songs, you can ruin my world i will keep my helmet on
The Gift, Driving you slow.

Monday, December 27, 2004

Humanos

Gostavamos todos de ter aquilo que tanto desejamos. No fundo, o desejo é a fonte máxima de poder que reside em nós, humanos, enfiados em espartilhos contraditórios acerca do nosso passado, com um futuro coxo pela frente, com um amor pendente, sempre. É o desejo que move esta época, a que chamam Natal e na qual nos afundamos em dívidas para conseguirmos oferecer aos outros aquilo que eles têm e nunca precisaram.
Desejo eu muita coisa para este Natal, que já passou, mas que permanece dentro da casa de cada um de nós, porque o Natal não é um dia, mas uma semana inteira de projeções inacabadas, de folhoses que nos enchem o espírito, de encontros que nos agitam. Dizem que é a chamada época em que a palavra que mais reina é o perdão. Perdão a todos aqueles que nos desmerecem, que nos torturam e enchem os sonhos de uma cor que se parece com a morte.
Perguntei a uma criança o que era o Natal e ela perguntou-me de que cor eram os sonhos. Não lhe respondi e ela também não. Ambos sabemos que o sonho é o que nos eleva e faz superiores, mas também sabemos que é por ele que ambos caímos e nos magoamos. Respondeu-me apenas que desejava que o natal fosse mais do que um sonho, ao qual se agarrase e o fizesse perdurar e que dessa forma, talvez " as pessoas com olhos em bico não morressem todas no mar".
Gostava de voltar a sonhar como dantes, mas os meus desejos não mo permitem. A lista que fiz ao Pai Natal não tinha nada de suficientemente novo ou irreal. Queria desejar um avião, um amor novo, um guia, mas nem isso.
A criança deu-me a mão e eu senti-me novo, outra vez. Não sei o porquê de ter falado com ela, mas sei que me fez bem, como se a capacidade de sonhar residisse não na maturidade, mas como diria Saramago, na sabedoria.
"Tu que és grande, és invencível. Protege-me, protegendo-te a ti, sem nunca me largares a mão".
E não larguei.

Tuesday, December 14, 2004

Desejo - Romeu e Julieta III

O desejo é uma parte incontrolável de toda uma vivência, seja ela transparente ou não. É a partir do desejo que alcançamos aquilo que nos permitimos a alcançar. É a partir do desejo que nasce a paixão que segurada por tempo indefinido desagua no grande encontro com o amor.
O desejo faz parte da vida de Rui. É ele que lhe demonstra que os sonhos são mais reais quando se evaporam da caixa mágica onde os conservamos e que um beijo, pode ser muito mais do que um beijo. Rui tinha desejos incontroláveis. Gostava de espiar as cozinheiras enquanto elas faziam aquele pudim que ele roubava inconsequentemente. Desejava um dia ser tão alto como o pai e ter alguém ao seu lado que lhe fizesse todos os pequenos mimos que recebia da mãe.
Rui era pequeno entre gente grande. Fora educado entre o manto de consequência que os seus actos poderiam ter para uma grande família como a sua e nunca esquecera uma das grandes máximas de Shakespeare, tudo que começa no erro tem, irremediavelmente, de acabar no erro, também.
Mas era o desejo que o movia, quando não estava em casa. A casa representava a formalidade que ele não podia pôr de lado e o orgulho que ele tinha de beber, a partir do momento em que se tornava um Ataíde.
Quem vive no Porto, sabe de antemão que a cidade tem regras e códigos pelos quais aqueles que a ela quiserem pertencer, têm de os seguir. Agustina Bessa Luís, na sua última e prodigiosa obra desmonta bem todo o feudalismo em que a cidade está submersa. E no Porto, há desejos escondidos em cada esquina, há espera de serem revelados. Desejo de possuírem o que não têm. Desejo de encontrarem o que não existe, desejo de fugir se alguma coisa não corre pelos ajustes.
Rui tinha o desejo de continuar a vida que os pais lhe destinaram. Talvez ser um bom advogado, entrar com uma bolsa de mérito na Católica, ser uma pessoa respeitada na fechada sociedade portuense, que é acolhedora para os que vêem de fora e não ficam muito tempo. Mas acontece que Rui, que como muita gente pequena, não faz esquissos de regras que tem de cumprir, não elabora mais do que sonhos de uma vida que não se sabe se há-de ser longa ou simplesmente comprida e descontrolada. Rui apenas desejava, nos seus sonhos, encontrar algo que o mantivesse fora daquela paz que o aterrorizava. Pedia algo com mais condimentos, que o fizesse saltar em frente aos convidados dos pais e vestir t-shirts em vez de camisas.
Poucos sabem que para sermos confrontados com algo, temos de estar inconscientes do inesperado. Só assim ele nos poderá surgir aos nossos olhos de alguma forma maior do que a aparente. No fundo o que Rui queria, era ter algo mais do que um nome. No fundo o que Rui queria, como todos nós era que o desejo que ele continha em si transborda-se para algo superior, algo de transcendente, algo que o apanhasse e o levasse desta realidade como se fosse apenas fogo que se extingue.
Rui, porque desejava era considerado promíscuo por quem o rodeava, porque não conseguia sentir paixão por nenhuma das raparigas que alcançava durante a noite, que também elas desejavam, mas elas acabavam sempre por amar. Está patente na constituição da mulher, que incute em si, muito mais rapidamente o conceito de amor por alguém, se este alguém não lhe der respostas acabadas de um futuro a dois. Preferem sofrer agarradas a algo, do que procurarem mais alguma coisa. O desconhecido mete-lhes medo e fazem-se receosas quando o têm de enfrentar sozinhas.
O que Rui queria mesmo, era algo que só via escrito nos livros, porque são eles a grande cilada para alguém que faz do desejo e do sonho algo mais do que uma base. Ele procurava alguém emblemático como lera em Hamlet, frio com coração quente. Enfim, queria encontrar a sua Julieta, num mundo com falta de ética, em que se criam novos mundos a partir da tecnologia sem barreiras ou limites. Entregou-se portanto, à busca ostensiva, na rua, na Internet e nas prisões, que são as almas da maior parte de nós. Perdeu as horas para entrar em casa, perdeu as boas notas que lhe permitiriam realizar e dar continuidade ao bom-nome dos pais e quando por fim desistiu, reparou que tinha procurado de olhos fechados. O desejo que o movia não era mais do que a simples vontade de viver e de permanecer pequeno entre gente grande, aos domingos quando a família se reunia.
"Um dia hei-de escrever um livro" repetiu para si próprio. " Um livro repleto de respostas materiais, para acabar com esta busca desenfreada a que as pessoas se envolvem. Um livro de respostas, só"
Mas respostas já ele tinha, dentro de si. Só precisava sentir desejo de as encontrar.
Enfiou os phones, à espera que o chamassem para jantar e do outro lado alguém lhe cantava baixinho, como é a voz dos pequenos sábios, hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Thursday, December 09, 2004

Objecto - Romeu e Julieta II

Ela sorriu. Naquele dia era tudo tão estranho, tão cinzento, tão metafórico que se sentiu pequena e humilhada, ali mesmo frente a um sorriso que lhe prestava a negar toda a evidência da sua vida, baseada no amor. Ali mesmo, por entre uma mão que ele teimou em não tocar, num coração que recusou segurar.
Há diferentes formas de amar e também de demonstrar esse amor que sentimos por alguém próximo e pertencente. Sim, porque o amor transforma-nos em objectos instáveis e recorrentes, em que somos apenas aquilo que ele quiser que nós sejamos, porque não escolhemos quem amamos, porque não amamos quem queremos.
Ela sorriu. O sorriso pode também ele ser portador de uma carga incrivelmente paradoxal, carregada de falsidade ou de honestidade. Pode ser o bilhete de identidade de uma pessoa saudável, ou simplesmente impura, como as palavras que escrevo.
O sorriso queimava-a por dentro, porque ela não podia chorar, ela apenas queria chorar, ali, nos braços dele, perguntar-lhe porque não a queria, pedir-lhe para que ele a quisesse. Queria voltar atrás e deixar de existír e encontrar-se com ele antes dos treinos, pretexto básico para qualquer enontro, como são todos os encontros de alguém que está incrivelmente apaixonado, como ela.
Estava habituada a viver o papel que cabe a uma mulher como ela : ser amada e cortejada até à última sílaba, última ponta da saliva, último caracter na mensagem. Nunca ter de esperar, porque nunca foi habituada a tal, nunca ter de exigir, porque nunca precisou, nunca pedir, porque tudo lhe era oferecido, naturalmente.
"Não tornes as coisas mais difíceis".
É difícil negarem-nos a nossa fonte de sobrevivência máxima, onde de repente nada nos faz sentido e o quarto escuro parece ser o nosso melhor amigo. Ela queria apenas que tudo continuasse. Já não lhe interessava se era a única a manifestar os seus sentimentos, já não se importava se não recebia a mensagem portadora de uma carga sentimental capaz de a arrebatar, apenas queria estar com ele, como sempre havia estado : sozinha.
"Não tornes as coisas mais difíceis" e afastou-se, negando-lhe aquele beijo que a faria esquecer porque é que chora tanto e demasiado nos ombros de qualquer pessoa que a entenda e não lhe tente dizer aquilo que ela tanto deseja ouvir.
É estranho como o ser humano se envolve em contradições plenas e escorreitas no percursso da sua vida sentimental que desagua por todos os outros campos que a constituem. Ela, como tantas outras pessoas, já teve aquilo que agora reclama como seu. Alguém disposto a depositar em si todos os futuros de uma vida, repleta de sentimentalismo e alucinação como só o amor pode ser. Já teve alguém que a enjoou com tanta paixão e agora quer voltar a sentir o mesmo enjoo, só que ele não regressa, simplesmente porque as pessoas não são iguais, simplesmente porque o sentimento não é o mesmo, desde o início.
Procuramos tanto por um equilíbrio perfeito, que nos esquecemos que a perfeição é um mito, do qual não existem provas concretas e plenas de que alguma vez ele tenha existido. Tentamos procura-lo em todas as faces que por nós passam, mas esquecemo-nos que nem todos procuramos o mesmo.
Ela sorriu e só chorou quando ele saiu. Porque a lágrima era dela, apenas dela, quando caiu e não voltou mais. Ela sentiu-a a rastejar e a respirar pela sua cara, como se fosse a marca do fim, a marca da morte de algo que começou na altura errada, provavelmente com a pessoa errada.


"Aperfeiçou-o a focagem
Olho imagem por imagem
Numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água!
Tanto sonho!Tanta mágoa!
Tanta coisa, tantas memórias!
Tantos sonhos e tantas aventuras
ou desventuras...
Tanta vontade de reviver o passado
Pensamento num tumulto permanente
Que não cansa nem descansa
Um rio que no mar se lança...
Pensamento em busca de uma justificação ou simplesmente perfeição
Para tanta dor e mágoa...provenientes do amor.
Que irónico é amar..."


Ela vivia numa ilha, protegida por um sonho desbastado dia a dia, em sonhos em que se ria sozinha, em sentimentos que permanecia sozinha. Não há uma razão válida para um fim tal como nunca houve para um começo. A vida é feita do acaso e é no acaso que podemos meter a responsabilidade permanente.
Ela vai ter de continuar a sorrir, se quiser voltar a sentir, porque todas as histórias de amor são trágicas, porque todo o amor é trágico, porque Romeu e Julieta podem ter de facto existido, mas o amor que os matou, também.

p.s. you are my shadow mary, just like i´m yours.

Thursday, November 25, 2004

Romeu & Julieta

Sempre que escrevo a primeira linha, acabo por apagar o texto. É sempre assim, faz parte de uma rotina, faz parte de um mistério que nem eu sei desvendar, como tantos outros, como o amor. O amor, o amor, o amor há-de ser sempre a potência máxima mobilizadora da nossa vida, enquanto caminharmos para a integração de um EU repleto de magnifiência e felicidade. Talvez seja por isso que ainda cá ando. Porque amei, amo e sei que vou continuar a amar.
Não faz sentido continuar a sofrer mais por uma realidade que já passou, por uma pessoa que só deixou marcas a nível da memória e da experimentação física. Está certo que confiar en alguém e seguidamente ser-se envolvido numa corrente de jogos de sedução, constrangimento e sexo, o mais simples dos mortais acaba por ficar sem esperança, palavra tão esquecida, de voltar a confiar em mais alguém. Sim, porque alguém que ama não confia. Entrega-se.
Debato-me com o facto de a sinceridade e a lealdade serem sentimentos esquecidos numa sociedade esquecida dela própria, recordo as duas pessoas que amei e me deixaram para trás, numa envolvência que me levou numa viagem que esperei nunca ter embarcado.
O amor, o amor, há-de ser sempre o amor. Vício que nos alimenta os sonhos, que nos satisfaz a alma, que nos mata a sede. Quero amar sempre as pessoas que me acompanham e não me deixam cair ainda mais fundo, ainda mais depressa. Quero viver sempre para elas, mesmo quando não me fazem companhia de noite, mesmo quando raras vezes isso acontece.
Alguém me disse que eu era livre, porque pensava. E eu penso que não sei nada de amor. Eu penso que não passo de mais um adolescente com problemas em arranjar dinheiro para saír para o Via Rápida numas dessas noites em que os estudantes bebem para esquecer as notas e os porteiros escolhem quem tem o mágico bilhete que dá entrada para um mundo ainda mais fastidioso que o que sobrevive cá fora.
É tudo um mito. Será que o amor também o é? Será que é mais um conceito implantado por uma sociedade que traça metas que nunca hão-de ser alcançadas apenas para sentir o desejo de se superar e constatar que não é perfeita?
Existe uma pessoa que eu amo, que partilha a minha vida de uma maneira esmagadoramente simples, que me educa, que chora por mim e comigo, que me abraça quando tudo corre mal ou bem, que corre para mim e faz tudo para eu crescer sem contudo deixar de ser seu.
Existe uma pessoa que eu amo, que me oferece protecção esteja eu errado ou não, que me ama incondicionalmente e que todas as noites pensa em mim antes de adormecer. Quando penso em todas as experiências que o amor, paixão, ou apenas cegueira ocasional,me trouxeram, acabo por me esquecer que eu não sei nada. Na verdade sei muito pouco. Não sou ninguém para falar de amor, ou para me debruçar sobre o seu estudo, de lhe tentar desvendar as entranhas ou descobrir-lhe as saídas. Mas ela sim.
É espantoso o que fazemos por amor. Depositamos as maiores alegrias e planos num sentimento que não se toca, à imagem de Deus que está sempre lá, mesmo quando não está. Esta pessoa sobre a qual eu escrevo e muito admiro vive e respira pelo amor. É difícil escrever o que não pode ser descrito, o que não pode ser sentido por mim, nem por ninguém a não ser por ela.
Queria muito que ela fosse feliz e que preservasse essa felicidade. Que acreditasse nela acima de tudo, que me há-de ter aqui para tudo, porque o sangue que nos une é forte demais para ser queimado ou esquecido.
Ela sim, pode escrever longos ensaios sobre o que é o amor. Porque ela vive e sobrevive dele e contudo é ele que a mata todas as noites quando chora sózinha no quarto mobilado como mandam os costumes modernos, como manda o amor que ela sente. Ela chora porque o amor dela vive realmente um problema, porque infelizmente ela tem um problema. Problema que o sente, que é também dela, simplesmente porque quando se ama, os limites físicos são facilmente ignorados e transponíveis.
Ela tem medo de não ser forte o suficiente, tem raiva porque o amor não se apresenta como cura de todas as doenças quando não é isso que nos ensinam sobre ele. Escrevem as mais enfadonhas fábulas de alguém (e é sempre alguém) que efectou os maiores feitos da História com base no amor. Incutem em nós os padrões históricos sob a forma de Romeu e Julieta ou Pedro e Inês e a partir daí tentámos construir a nossa vida, o nosso amor.
Ela é Julieta. Ele é o Romeu. Vivem para os lados da Maia. Vão ao domingo a casa dos sogros almoçar, vêem o Mente Brilhante ao Domingo na Sic enroscados no sofá e tentam combater o que os tenta separar.
Os tempos são outros e quem os tenta abalar não são as discórdias ente as famílias Capulet e Montagues. É algo que exige persistência, fé, sorte, coragem.
Não deixa de ser curioso que apesar dos avanços que a medicina se propõe ano após ano, alguém ainda se tenha de preocupar terminantemente com a saúde de outro alguém e que isso condicione todo o seu modelo civilizacional. Idas a Lisboa, Coimbra, paragens entre hóspitais que nos tratam como se não estivéssemos doentes, de facto, e de onde saímos, em alguns casos, em pior estado ainda.
Ela é assim, portadora de uma beleza única e transparente, como se tratasse de alguém que nunca viveu o suficiente para a vida lhe fazer mal. Vive pelo amor e chora pelo amor, sem nunca desistir, sem nunca deixar de lutar. Ela é de facto um exemplo de toda a terminologia que o amor encerra em si. É por isso que tenho orgulho nela e uso-a como exemplo máximo de que o amor realmente existe e pode durar, que é ele a força que nos move, que é ele a estrela que nos guia, nas noites mais escuras, pela noite, sempre pela noite, fria, húmida, escura.
Os meus problemas de adolescente vitimizado não são nada em relação à pessoa de quem escrevo, eu bem sei. É pena é continuar a sentir uma enorme vontade de os relatar, como se o facto de ter funcionado como pouco mais do que objecto sexual fosse algum elemento contra a estória desta mulher, também ela objecto puro e elementar do amor.
Queria dizer-te que também te amo, que és muitas vezes a força que me segura, o telefonema que nunca acaba, a alegria que espero voltar a partilhar, a mão que nunca pára de embalar.

" A mão que embala o berço é a minha.
Dorme meu pequeno!Dorme...
Empurra o escuro para longe.
Adormece na luz
Dorme meu amor.
Sonha com anjos, ninfas, fadas
E príncepes e princesas
Reinos longínquos
Utopias desejadas
Deixa-te levar
Por essa ilusão maravilhosa
Deixa-te ser
Rei
Eternamente
Nesse reino imaginário.
Quando acordares
Abrires os olhos
Espreguiçares
Sorrires
Falares
A minha mão
Embalará o berço e aí
Dormirás novamente.
Fugirás desta realidade
Serás criança
Menino
Feliz
Serás meu
E será minha
A mão que repete estes movimentos
Ondulantes
Que te fazem viajar
Que te fazem sentir outro.
Voltarás a acordar
E aí
A minha mão
Já adormecida
Do cansaço da viagem
Não desistirá
Continuará a embalar-te
Meu pequeno!
Para sempre!"

O poema foi-me entregue e é desta vez entregue a ti, para que também tu sintas sempre que a mão que te embala, é minha. Sempre.

"Love is the mortal sample of immortality" by Fernando Pessoa.

Tuesday, November 23, 2004

77 - II

Se disser que me sinto sozinho, não minto. Quando o amor preenche os poros da nossa pele e se liberta para nos tornar deuses entre simples mortais, tornamo-nos escravos da nossa própria sombra. É difícl explicar como é que me sinto tão vazio. Vazio de conceitos, de poderes, de ideias, de motivações, de jogos sejam eles de sedução ou de razão. Os meus textos já não rimam, as minhas frases já não têm sentido, a noite já não é tão escura... Sinto-me impotente por entre o mundo lá fora. Tenho medo de saír de casa, de entrar no 77 e ninguém me sentir. Gostava de tornar os meus sentimentos mais compreensíveis para todos aqueles que me leêm, mas não me permito.
A minha memória está cheia de momentos repletos de êxtase disfarçados com potes de ouro e borboletas que não voam, porque não as deixam. Escondi as fotografias que pude, apaguei-as dentro de mim, esquecendo que os seus restos acabariam por aí permanecer. "Ficar só é um privilégio dos amantes", luxo a que não me permito, porque me deixo arrastar por valores implantados por uma infância contraditória, onde a verdade fora de estar escondida, nunca existiu.
Uma pessoa não é nada sem identificação, sem nada que a leve a algum lado, mais do que um autocarro, mais do que uma droga, mais do que um sonho. A minha vida é cheia de sonhos, de ilusões, o motor acabo por descobrir, da ignorância. Sempre que entro no 77, todos os dias, à mesma hora, ninguém sabe que estou sozinho, ninguém sente que me debato com os problemas básicos da adolescência, que ouço Portishead para me entregar ao vício que é a melancolia, para fugir à tristeza de ter amado e não conseguir voltar a sentir o mesmo por outra pessoa, de o ter tentado e ter ficado encerrado no meu próprio isolamento.
"Tens medo de ser feliz?" Disseram que me perco nas palavras, que não exprimo o que sinto, que busco sinônimos, mas eu só me procuro em mim mesmo. Sinônimos para a minha dor, a minha falta de discernimento, o meu amor. Queria não ter medo, queria ser adulto e partilhar do doce que é ter uma rotina e um mundo pré-concebido onde nada se discute, onde tudo existe porque tem de existir, onde eu sou mais e me indentifico com os que também o são.
Tenho medo de ser feliz, porque ela cola-se para sempre nas nossas veias e a partir dali a fasquia sobe e o que poderia ser bom, passa a ser banal perante tão transcendente sentimento. Mais do que me perder em palavras, perco-me em sentimentos. Debruço-me sobre eles com a força de um cientista sem nunca encontrar a fórmula certa e desejada para o sucesso.
Acabo sempre por encontrar uma fotografia, um bilhete, uma carta, uma mensagem. Tenho medo de ser feliz, porque já o fui e pesa-me na consciência o facto de nada se comparar a tamanha força, de tudo saber a pouco depois disso, de eu me tornar mais pequeno depois disso. Tenho medo de ser feliz, porque as 3 pessoas a quem me entreguei deixam-me sem forças para encontrar a paz de que preciso, para entrar todos os dias no 77 sem esperar que alguém veja o buraco que permanece em mim e me tente ajudar.
Tenho medo de nunca ser adulto o suficiente para concretizar os meus projectos e equacionar planos. Planos de uma sociedade plena de valores, de energia, de vitalidade, de cores bonitas e reluzentes. Tenho medo de deixar de ser a criança que sempre fui e a felicidade passe por mim outra vez e eu não a saiba agarrar, inocente que já fui, observador e crítico atento que me tornei. Criança no olhar, adulto no coração. Cinzento, duro, impenetrável, dramático. Perco-me nas palavras e nos sentimentos, perco-me no ar que respiro todas as manhãs, nos corações que toco, na tristeza enorme que me percorre e ninguém sabe, porque ninguém tem de saber, porque por vezes, tal como Kafka, o merecimento da dor faz-me ser alegre.
Tudo aquilo que vivi, há dois anos, parece-me agora tão irreal, tão especial, que só agora me dou conta. O sofrimento que passo agora por alguém ter feito de mim um Ricardinho em nada se compara à tortura de se amar e saber que não se pode continuar, porque o abandono não é um acto de vontade, mas uma consequência do esquecimento. Já é tão tarde e eu ainda não disse nada. Preciso de ser mais conciso, como diz o meu professor de Gramática da Comunicação. Tento responder-lhe que a escrita, mais do que um acto mecánico, é algo que nos corre cá dentro, que as palavras são abertas e impuras, que o texto, tal como o amor, não deve conhecer limites de qualquer espécie. Já é tão tarde e eu ainda não disse nada porque, como o meu amigo Filipe refere "As palavras são escritas porque não se tem coragem". Coragem de as proferir, de soltar o nó que nos percorre para sermos para sempre maiores e termos o nosso próprio espaço, seja lá onde for.
Será que alguém consegue encontrar-me por entre a guerra que insisto em tomar partido?Será que alguém consegue ler para além do que eu escrevo?
Eu escrevo estes textos porque me deito sem nunca dormir, porque nada me pode salvar de não ser aquilo que os outros esperam que eu seja, porque nada me pode salvar de me sentir sozinho, de me escorrerem lágrimas disfarçadas de suór, de ser metade daquilo que eu gostava de ser.
Não tenho medo de não ser feliz. Tenho medo de nunca mais o ser.

77

Vou sózinho. Atrasado, como sempre. A correr para chegar a tempo, a morrer porque nunca chego. Olho-me ao espelho mais do que uma vez, porque o que eu sou depende muito daquilo que eu mostro e não daquilo que eu sinto. São tantas e tantas as vezes em que gostava de parecer, identificar, ser eu, a primeira escada para a evolução pessoal e íntrinseca.
Vou sózinho. Passo todos os dias pelos mesmos lugares, pelas mesmas pessoas, pelos mesmos sonhos. São poucos os que são o que parecem ser e menos ainda os que gostam do que são. Há uma senhora que conta a vida da vizinha que é doutorada em manipular os senhores de bom nome lá do bairro a fim de receber alguma coisa em troca, há um freak qualquer, com roupas de um sítio qualquer, adornado de piercings para esconder os buracos que nunca hão-de ser completados numa sociedade que se odeia, há um executivo cuja alma foi currompida pelo negócio, há uma rapariga tímida e discreta que manda mensagens de bom dia à sua mais do que tudo, às escondidas, sempre às escondidas.
Eu continuo a ir sozinho,no 77 mas podia ser noutro qq, rodeado por pessoas que passam por mim e não sabem de onde vim, que me despem, que me insultam, que me provocam, sem contudo proferirem uma única palavra. Eu meto os phones,à espera de que o tempo volte para mim e eu seja teletransportado para outra dimensão onde nunca precisarei de correr para onde não quero ir.O cenário muda e é de noite. Misturo os copos com o Bacardi e levo as afilhadas comigo. Quero parecer e não consigo, sou condicionado por motivos execráveis e volto-me a sentir sozinho. Tou com os amigos no Tropical a comer um hámburger, tou no Industrial com a Inês João, tou no meu quarto com quem me deixou sozinho e tudo acaba a partir daí. Sonho com lugares incríveis, cenários impossíveis, pessoas impossíveis, amores impossíveis. Sou feliz, quero ser feliz.
Quero voltar a andar acompanhado e ser concentrado no mundo que me rodeia, outra vez. Mais do que parecer eu quero voltar a ser.Quero-me olhar ao espelho, onde todos nós nos buscámos, à procura de uma identificação, de um padrão, de uma igualdade que não existe nem é suposto existir. Tenho de voltar a estudar, dar boas notas aos pais, estudar para ser alguém, estudar para me encontrar, ficar mais culto, ficar superior. Tenho de esquecer, tenho de lutar, tenho de encontrar alguém, tenho de me voltar a encontrar.
Mentir para quê? Eu nunca estou sozinho. Vivo rodeado por pessoas que me defendem e me protegem. Alimentam o Ricardinho que há em mim e o pior é que eu gosto. Antes do degelo era tudo tão automaticamente bonito, incorrigível, correcto...Agora, agora divirto-me mais do que nunca e parece que nunca é suficiente. O amor tem destas coisas. Pega em discursos puros e concisos e deixa-os atrapalhados, errados, frágeis, como este texto, como o Ricardinho.È tanta a gente a quem tenho de dar satisfações, são tantos os que me rodeiam, são tão poucos os que me conhecem e volto-me a moldar e a lembrar, a sonhar.
É difícil ser o que se é neste mundo que me põe rótulos, que me tenta despistar, que me tenta e me provoca, que exige mas não me dá liberdade, onde a confiança é um conceito gasto e pertencente a outra era, era que nem eu sei se existiu.
Nada,nunca, é tão mau como parece. Só preciso de encontrar o autocarro certo, para parte incerta.
"As histórias infelizes são, na maior parte, um exagero, tal como os perigos do mar", Comandante Joshua Slomm, navegador solitário.

Monday, November 22, 2004

Vou sózinho. Atrasado, como sempre. A correr para chegar a tempo, a morrer porque nunca chego. Olho-me ao espelho mais do que uma vez, porque o que eu sou depende muito daquilo que eu mostro e não daquilo que eu sinto. São tantas e tantas as vezes em que gostava de parecer, identificar, ser eu, a primeira escada para a evolução pessoal e íntrinseca.
Vou sózinho. Passo todos os dias pelos mesmos lugares, pelas mesmas pessoas, pelos mesmos sonhos. São poucos os que são o que parecem ser e menos ainda os que gostam do que são. Há uma senhora que conta a vida da vizinha que é doutorada em manipular os senhores de bom nome lá do bairro a fim de receber alguma coisa em troca, há um freak qualquer, com roupas de um sítio qualquer, adornado de piercings para esconder os buracos que nunca hão-de ser completados numa sociedade que se odeia, há um executivo cuja alma foi currompiada pelo negócio, há uma rapariga tímida e discreta que manda mensagens de bom dia à sua mais do que tudo, às escondidas, sempre às escondidas.
Eu continuo a ir sozinho, rodeado por pessoas que passam por mim e não sabem de onde vim, que me despem, que me insultam, que me provocam, sem contudo proferirem uma única palavra. Eu meto os phones,à espera de que o tempo volte para mim e eu seja teletransportado para outra dimensão onde nunca precisarei de correr para onde não quero ir.
O cenário muda e é de noite. Misturo os copos com o Bacardi e levo as afilhadas comigo. Quero parecer e não consigo, sou condicionado por motivos execráveis e volto-me a sentir sozinho. Tou com os amigos no Tropical a comer um hámburger, tou no Industrial com a Inês João, tou no meu quarto com quem me deixou sozinho e tudo acaba a partir daí. Sonho com lugares incríveis, cenários impossíveis, pessoas impossíveis, amores impossíveis. Sou feliz, quero ser feliz. Quero voltar a andar acompanhado e ser concentrado no mundo que me rodeia, outra vez. Mais do que parecer eu quero voltar a ser.
Quero-me olhar ao espelho, onde todos nós nos buscámos, à procura de uma identificação, de um padrão, de uma igualdade que não existe nem é suposto existir. Tenho de voltar a estudar, dar boas notas aos pais, estudar para ser alguém, estudar para me encontrar, ficar mais culto, ficar superior. Tenho de esquecer, tenho de lutar, tenho de encontrar alguém, tenho de me voltar a encontrar.
Mentir para quê? Eu nunca estou sozinho. Vivo rodeado por pessoas que me defendem e me protegem. Alimentam o Ricardinho que há em mim e o pior é que eu gosto. Antes do degelo era tudo tão automaticamente bonito, incorrigível, correcto...Agora, agora divirto-me mais do que nunca e parece que nunca é suficiente. O amor tem destas coisas. Pega em discursos puros e concisos e deixa-os atrapalhados, errados, frágeis, como este texto, como o Ricardinho.
È tanta a gente a quem tenho de dar satisfações, são tantos os que me rodeiam, são tão poucos os que me conhecem e volto-me a moldar e a lembrar, a sonhar.
É difícil ser o que se é neste mundo que me põe rótulos, que me tenta despistar, que me tenta e me provoca, que exige mas não me dá liberdade, onde a confiança é um conceito gasto e pertencente a outra era, era que nem eu sei se existiu.
Nunca é tão mau como parece. Só preciso de encontrar o autocarro certo, para parte incerta.

"As histórias infelizes são, na maior parte, um exagero, tal como os perigos do mar", Comandante Joshua Slomm, navegador solitário.