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Wednesday, November 02, 2005

Reconhecimento

Reconhecimento

Estou um pouco longe, perdido na noite, embrenhado neste sentimento que não me deixa fugir, na esperança de te alcançar, nem que seja por um olhar.
Agora percebo que não sou livre, que não tenho controlo da escrita que levo, nem da vida que escrevo, que me deixo ir inconsciente por esta trama pegada, desconjuntada por livros que pego apenas para absorver o nevoeiro que cresce lá fora. Lá fora é onde tudo se passa, onde me esqueço que existo, onde nego que as todos hão-de sempre achar que alguém apaixonado não passa de um tolo inconsequente e sem responsabilidades neste mundo um pouco mais do que moderno.
Por isso salto, para estar à altura de esperar por ti, como sempre espero, entre histórias que me contam e cortinas que não tapam a memória que possuo ainda de ti.
Via-te a chegar e não havia espaço ou tempo que me eliminassem logo ali, do teu sabor que eu ainda haveria de provar. Explodir nessa tua força que me rejuvenesce, fazer desaparecer essa fraqueza que tanto finges ter.
Colo as tuas fotos por todo o quarto, finjo que não te reconheço apenas para me fazeres dormir de noite. Estou farto de sentir o perigo enquanto caminho na rua sozinho, farto de tentar procurar a paz que sempre esteve escondida para ti, dentro de mim. Agora só preciso que me mostres, que me ensines, que me acompanhes e permitas que continue sempre neste voo. Que as memórias que tenho de ti sejam cumpridas, que me ampares quando voltar a chorar, porque ainda hei-de chorar muito, apenas porque me ajuda a adormecer um pouco mais rapidamente, sem ter de equacionar a solução para os problemas que ainda hão-de vir.
E serão todos bem mais fáceis contigo.


“if you were in a different corner, we would never happen”

Monday, October 17, 2005

Crença

Queria te dizer que és a razão por detrás de todas razões, que não há fado, nem discrepância magnética que me afaste da tua imagem simplesmente irreal de alguém que nunca existiu, mas que sempre me tocou. Durante tempos fui ateu da minha própria descrença, temendo a fundo encontrar a razão para tanto sentimentalismo – que fingidamente chamei de pedantismo tantas vezes – nos poemas por detrás dessa obra que nunca há-de nos deixar de marcar, Lusíadas. Tentei encontrar no histerismo de Fernando Pessoa uma razão convincente para o desencontro com o próprio amor e descobri contigo, que nada percebes destas leis literárias, que aquilo que sempre procurei era afinal aquilo que sempre havia fugido, que as ideias que persigo hão-de chegar mesmo quando não existir um refúgio que as mantenha salvas de mim mesmo e dos outros também. Por isso rio-me daqueles que não acreditam e fazem julgamentos desviados e intricados naquilo que o que lhes rodeia lhe oferece. Não é condenação que merecem, apenas um olhar repentino, como se não merecessem mais. Por isso rio-me da minha própria felicidade, da minha própria alma que encontra uma melodia mais própria, mais audaz, mais corajosa cada vez que te toca. Talvez isto não passe de uma consequente alucinação provocada pelo frio nórdico que se avizinha, ou pelas saudades que dia a dia me dizem que nunca tive tão certo como agora estou. Saudade, essa palavra tão característica e tão portuguesa, que nos corre nas veias e nos transforma nesses seres melancólicos e tenazes, fugidios e cinzentos. Mórbidos. Essa “alegria de estar triste” como havia dito Agustina Bessa L. Queria dar-te mais do que consigo oferecer, mais do que tenho, mais do que consigo expor. Afinal não é fácil. Nunca é.

“Não pode no mundo haver tristeza
Em cuja causa, Amor não esteja presente?”

Luis Vaz de Camões

Tuesday, October 11, 2005

Contradição

Contradição


Estou a contar os dias para poder regressar até ti, afastar-te de todas as promessas que nunca foram cumpridas e esperar por este tempo que nunca mais regressará.
Que não te perco, que não és material, que te persigo por entre sonhos em que te toco e imagens refeitas pela minha alucinação constante.
Bebo pelo saber que me trazes, pelo entusiasmo que me provocas, pelo riso com que me deixas. Não, o amor não é suposto ser fácil, porque exige que nos transcendamos e nos tornemos naquilo que nunca havemos de conseguir ser : perfeitos. È apenas uma graça desse Deus mesquinho que quis prolongar a nossa ambição de sermos o que nunca conseguiremos ser.
E eu, cego que hei-de ser, continuarei a perseguir essa imagem concebida numa infância composta e descomposta por relações que nunca conseguiam ser feitas, quanto mais desfeitas. Quando era mais pequeno, perguntava-me porque é que os adultos falavam tão alto, porque proferiam palavras que só mais tarde haveria de perceber. Hoje, sei apenas que é o medo de continuarmos entupidos nesta vida que tanto nos atormenta, que nos diminui. Desta necessidade baça que é termos de ter alguém suficientemente mais forte do que nós, apenas para o peso ser repartido.
Não, o amor não há-de ser fácil e eu já apaguei essa ilusão da minha violenta consciência. Queria tornar tudo incandescente. Ser adolescente outra vez e viver o que ainda não vivi, agarrar-te pela mão e sussurrar-te ao ouvido que há muita mais vida para além do que todos proclamam. Que é isto que sentimos e que vivemos, que são estas viagens intemporais que nos deixam agarrados ao sofá durante horas que nos tornam mais profundos e seguros.
Sim. Há certos fantasmas inocentes que continuam a inundar a minha consciência, mas que continuamente os enterro na neve e no gelo, para que não consigam respirar, porque eu sou tudo aquilo que me dás.
Era assim que toda a gente devia morrer.
Apaixonada.


Cada um morre ao ritmo que vive

“Pode um desejo imenso
Arder no peito tanto.
Que à branda e à viva alma o fogo intenso
Lhe gaste as nódoas do terreno manto.
E purifique em tanta alteza o espírito
Com olhos imortais.
Que faz que leia mais do que vê escrito…”


Luíz Vaz de Camões

Thursday, September 29, 2005

Amar não acaba, nunca.

Não repitas isso. Havemos de chegar sempre a onde só chega “ quem não tem medo de naufragar”, como se a vida fosse mais do que este correr desenfreado que encetamos todos os dias. No fim, nem o tempo há de chegar para entender e comprimir tanto desejo de amar.
E eras sempre tu, mesmo quando eu não o merecia, mesmo quando não cumprias o que prometias, quando não me compreendias como sempre me disseste que o farias. Gostava de te ter aqui, a fim de te mostrar que és o fundamento para tudo ser mais difícil, que não há outra imagem que me passe pelos sonhos, pela calada sem eu o saber. Por isso, tento conquistar-te de longe, mesmo sabendo que nunca me hei-de livrar de ti. Nem quero. E o tempo já correu contra mim…
A verdade acabará por ser só uma e não será a distância que me revelará o que sempre senti. Que preciso de ti, que te quero só para mim, a fim de te mostrar o meu pequeno mundo, que a distância destrói-me, mas deixa-me motivado para continuar em frente. No fim, só restas tu.

“Nunca disse que seria fácil entrar dentro de mim”

Nunca tive à espera de uma facilidade desinibida, de um puxão contra o vento forçado, de uma luz transparente que me revelasse tudo aquilo que sentes, agora, enquanto lês este texto.
É a noite que me traz a tua presença, é esta dor que passou a ser física, apenas para ser suportada de uma forma mais sobranceira e honrosa. Talvez nem sempre tenha estado à altura do desafio que o teu olhar me propôs, mas fiz sempre o que pude para conseguir passar por cima das limitações que me foram sendo impostas. É difícil dizer que preciso de ti, custa-me admitir que não consigo percorrer esse corredor de vozes que nos afundam tantas vezes, sozinho, como outrora consegui. Mas há-de sempre custar-me mais enfrentar tudo isso se não souber que ocupo o teu pensamento, tal como tu ocupas o meu. Não é racional. Nem é suposto ser concebido a partir de um estratagema inocente. É apenas algo que não consigo conter quando percorro esta cidade que desperta em mim uma inspiração transcendente acerca de tudo o que me rodeia, mas que inibe a minha dissertação acerca do quão grande deliceramento consegues provocar.
Não é desculpa que quero pedir. Não é auto mutilação que peço. Apenas aliviar este amar que não acaba. Nunca.

“Os sonhos são os mesmos, em todos os lugares” Inês Pedrosa

Thursday, September 22, 2005

Amar nunca acaba

Nao me despedi de ti. Encontrei-te perdido sem olhares cruzados onde tu eras a cor e o chao que me davam uma realidade mais sobranceira. Nunca escrevi sobre ti como tantas vezes fiz. Nunca contei o meu desespero de te perder ou a minha incapacidade de reter a tua mao, sobre essa luz escassa da qual fujo ainda, cego que sou, ofuscado que serei sempre que permaneces ao meu lado.
Tenho ainda medo que algo te leve para longe de mim, por isso nao escrevi, por isso nao contei, por isso tornei me espelho de uma realidade que nunca conseguirei deixar de ser, apenas para ninguem suspeitar a forca que vive ao meu lado.
Custa-me sofrer e custa-me fazer te sofrer, mas como Frederico Lourenco referia, "Viver sem chorar nao e viver".
Nao. Contigo nem sempre foi a textura que eu sempre idealizei, nem a partilha que sempre tentei alcancar. Sem saber porque muito bem, deixei-me nesse teu amor que me tornar indiscutivelmente mais fraco, mas mais corajoso.
Agora sei porque nunca escrevi sobre ti. Porque nao ha nada que eu possa escrever que te faca voltar para o meu lado e repetir suavemente as palavras que tantas e tantas vezes proferias, quando me lembrava de fazer alguma birra digna de uma resposta a altura que tu raramente me davas.
Nao ha nada mais que eu consiga transmitir. Todo este amor que sempre senti cala-me e sussurra-me que ha certas coisas que e melhor nunca sairem de dentro de nos, apenas porque eu sei que tu ja as sabes. Que te amo, que talvez sejas "para sempre", que estou longe mas que estou sempre contigo, que me entopes o pensamento a ponto de eu ficar bloquado quando sou obrigado pela forca do coracao a transmitir alguma coisa por ti. Custa-me tanto...como sempre custara.
Na neve encontrarei a fuga para esta tua perseguicao constante nos meus sonhos. Por enquanto - e como sempre - fico a espera de encontrar o teu olhar.

Acho que nunca me vou despedir de ti...

You were right
and i don t wanna be here
if you gonna be there
was that supposed to happen?

Amar nunca acaba. E como se o mundo tivesse a minha espera. e eu vou ao encontro do que me espera.
Clarice Lispector

Nota: no teclado polaco faltam algumas teclas, como os assentos...

Tuesday, August 30, 2005

Instituições

Amor, Sexo, Casamento. A partir destas três instituições fizeram-nos crer que tudo deve preencher o mesmo espaço, como se de sinónimos se tratassem. Injectaram-nos estas verdades pouco transparentes numa sociedade edónica que se deixa levar pelo prazer, mesmo quando este não compensa.
Estranho, no mínimo, que nos continuemos a deixar guiar por estas questões implementadas por uma falsa moral, que tem apenas alguns propósitos que nunca nos levaram a lado nenhum. Estranho é, que numa sociedade que se discute tanto, se questiona tanto, haja tanta pouca gente que consiga atingir um distanciamento que nos faça pensar com clarividência. E pensar é sempre o acto mais violento, já apontava essa gulosa pelas palavras, Agustina B. L. Continuamos a perseguir essa ideia errada que os homens têm uma predisposição nata para o sexo, como se de uma obrigação ou lei se tratasse. Como se valesse a pena fazer sexo, mesmo que este seja mau, sujo e inútil. Como se fosse ele – e sabemos sempre que não – o grande chamariz das grandes cruzadas ou a luz que nos guiará a um lugar mais seguro. Vivemos na chamada “hipocrisia de classes”, em que nos atacamos mutuamente, sem que para isso arranjemos soluções dignificantes, sem que para isso percebamos que o nosso próprio bem estar deve vir primeiro do que qualquer instituição, seja ela de que carácter for.
Por isso, entre tantos outros factos, que nos foi incutida a ideia de que o sexo deve ser só depois do casamento, como se dele dependesse toda uma relação. E quando apenas a presença da pessoa que se deita todos os dias nos preenche, nos eleva, nos consegue transmitir toda aquela paz que sempre procurámos nas grandes festas da nossa família? Limitamo-nos a seguir aquilo que ouvimos ou lemos, apenas por a maioria não conseguir perspectivar o que os condutores do programa “Estes difíceis amores” conseguiram. Não queremos nada e queremos tudo, através de fases que nos implementaram, planos e esquissos de relações modelo em que tudo deve ter um lugar para começar e acabar. Em que a mulher, seguindo esta trama, acabará por facilmente se descartar do homem quando esta moral pós-moderna terminar, já que o seu único propósito é e sempre foi a proliferação da raça humana. Quando estes agentes neo-liberais se aperceberem que o homem já não é preciso para que uma instituição funcione e prossiga, não haverá mais espaço para este, já que a mulher num futuro próximo será capaz de continuar o processo de fecundação, sem que para isso seja preciso a presença física de um homem ao seu lado. Porque é isso que nos incutem, desde pequenos ideias planas e terrenas, quando só devíamos ver desenhos-animados que nos falassem de algo que será sempre intocável.


Falam-nos do homem que tem de coleccionar uma caderneta de cromos sexuais, mesmo que este não tenha gostado e de mulheres que serão mais reticentes a esse facto. Falam-nos de tanta coisa, que acabámos por pensar como os americanos que se ridicularizam com frases do género, “o sexo é como a pizza, quando é mau consegue ser bom”.
E quando um dia, um homem qualquer acordar e não lhe apetecer ter sexo, violento e puro, como lhe ensinam no “Levanta-te e Ri” vai ser motivo de gozo e de reprimenda, só porque a ele lhe chega o contacto emocional, só porque a carne não o excita mais, só porque encontrou apenas o caminho para uma paz feliz.
Não é disso que andámos todos à procura, afinal?

"Gosto de ter o melhor sexo possível, por isso, sempre que posso, faço-o comigo" Woody Allen

Saturday, July 30, 2005

Fotografia

Gostava de te reter, permanecer em ti, agarrar nas fotografias e torná-las a grande imensidão que é a nossa solidão. A verdade - e podem ser tantas - é que só penso numa maneira, ínfima que seja, de chegar até ti, de acabar com esta fome de te ter e finalmente, descansar.
São equeações mal produzidas, pensamentos que nunca se chegam a realizar, compreensões de um "eu" que não entendo e estupidamente continuo a perseguir.
Gostava de te ter só para mim, de morrer entre ti e acabar de vez com esta guerra de cheiros que não pára, desta profundidade que nem eu concebo, que nem eu percebo.
E é só disso que se tratar, de um problema de expressão que se cola, e me desgasta, que me persegue e que não me deixa encontrar o melhor termo.

"Amo-te"


Tira a fotografia da parede
Não há mais nada que possas provar
Há um mundo que desapareceu
Uma alegria que nunca mais voltará
Não te vale a tua opinião
Nem tão pouco a razão,
Alimenta-te do que terás
Porque não será muito
Por isso, vê o que conseguiste

Vê o nada em que te enclausuras te
Repara no comboio que passou
Não há nada que o faça voltar…

Tira a fotografia da parede
Ela nunca te trará de volta
Nunca te trará de volta
Tira a fotografia da parede

E eras tão bonita quando choravas
Quando te enervavas, quando existias
Ainda em mim, objecto que passou
Paixão que cessou
Olha à tua volta
Quebra o silêncio
Repara na solidão que se tornou tua proprietária
Ela nunca te fará trazer de volta
Não há nada que o faça voltar…

Por isso tira a fotografia da parede
Ela nunca te trará de volta
Joga-te na única promessa da vida.
Ela nunca te trará de volta,

Por isso olha à tua volta
E vê o que fizeste
Planar em vez de voar não é solução…
Agarra na fotografia
Ela é tudo o que tens.


A Manuela Azevedo é que tem razão, tudo fica melhor com o inglês. Por isso chego-me até ti e luto contra mim, na esperança que percebas que as palavras hão-de ser sempre pouco para agarrar nesse vácuo que ó amor.

"E é tão difícil dizer amor..."

Para ficar mais perto da tua imagem, desse rebordo em que me transformas, desse metade que nem dividir consigo. Apago as fotografias a ver se isto se esvai, a ver se o sangue pára, a ver se eu páro. Apago as fotografias a ver se me esqueço que o mais dificíl é suportar o amor nas nossas mãos, encontrar-lhe a saída para uma felicidade conjunta, uma ligação que seja mais do que uma música melancólica, incapaz de traduzir esse girassol de coisas confusas que se englobam nesse verbo que nos domina e nos contrai os músculos, mesmo os mais fortes, como se fóssemos de borracha, quando só queremos ser de aço.

"Para ficar mais perto, bem mais de perto"

Como se a morte não fosse isso mesmo, ficar bem mais de perto daqueles que nos querem e se lembram do nosso retrato, mais do que uma memória, mais do que um rascunho. E és tão bonita em todas as fotografias em que te consegui captar essa aura que tantos tentaram captar. Queria voltar atrás, adormecer contigo, quando era acordado que sempre preferia adormecer, quando era só contigo que preferia andar.
Gostava de permanecer em ti, ser mais do que tonto amar, perspectivar a tua cara que sempre me impulsinou e saber o que fazer, mesmo quando sei que nunca voltarei a estar contigo. Ès tão bonita...

"You´re beautiful, it´s true..." James Blunt

Thursday, July 21, 2005

O Segredo VII

Gostava de repousar em ti, perceber finalmente que estou morto, de que é que és feita. Afinal o que te recolhe, porque foges sem fim ou retorno, porque não me mereces e mesmo assim eu te perdoo, ou porque é que nem sequer te consigo pergntar porquê...Nem nunca conseguirei. Quero-te assim, minha, nessa tua luminosidade que me arrastou, nesse teu sexo que me fez evaporar entre caminhos e sensações que sempre julguei esquecidas, lá dentro. Cá dentro.
E é por entre este sonho de te reencontrar que por aqui permaneço. Foi este teu Deus sádico que me pregou à tua existência e me força a ver o teu fim, lentamente.

"Quem muito fornica acaba fornicado"

Sabias que era por entre a tua loucura que me curava lentamente, também, das doenças que cada dia me atacavam de uma maneira cada vez mais superior? Tantas perguntas que ficaram, tanta mágoa recolhida num vaso vazio, vaso que nunca vingou. Aqui, no lugar dos mortos e dos chorados, sinto ainda o teu cheiro, como se vivesse a vida - ou neste caso a morte - de outro alguém que não eu.

Morremos ao ritmo que vivemos


E ainda assim, rezas a este teu Deus que te traiu. Não, não será por culpa dele que eu morri e que tu terás o mesmo destino um pouco mais tarde, mas sim daqueles que te aconselham agora, apenas porque não foram capazes de impedir. Ninguém é.
Somos todos uns hipócritas, como tu referias, agarrada a uma peça qualquer que tinhas comprado num leilão qualquer, rodeado de pessoas que não interessam nem a elas próprias.
Querias o sol, querias o prazer da carne, fugir ao vazio, correr por entre o pecado. E atenção, conseguiste. És uma vencedora nata. Ergue a cabeça, por isso. A minha morte foi apenas uma baixa.

Amamos ao ritmo que sofremos


E eu sofri, muito. Mais do que o meu corpo era capaz. E por isso criei esse segredo que tu deixaste depositado em mim e que só agora descobriste. Não é a minha morte que te atormenta. O sofrimento dos mortos é algo que sempre consideraste inútil. O que te ataca é a tua própria morte e o facto de te a ter escondido, sempre, e de tu nunca, sequer, perceberes porquê. Há momentos da vida em que temos de formar uma protecção, . Protecção contra o sofrimento que possamos vir a sentir e a causar. Eu precavi-me e isolei-me na minha própria morte. Mas tu não. Nunca te protegeste. Foste sempre uma vítima impávida de múltiplas penetrações que te haviam de fazer gozar e chorar por mais. Tal como choras, agora.
Não protegeste o teu corpo, não me protegeste a mim , que havia sempre confiado e depositado as minhas forças e esperança em ti, que ajudei a criar. Ali, a minha musa dos caracois loiros, do olhar estropiado, da decência que pulava por entre o decote que invetaria sempre uma forma de se superar. E encontrou.

Queremos ao ritmo que perdemos

E queremos todos tanto. Amo-te tanto, ainda. Mesmo quando cuspia sangue, de manhã. Mesmo quando mais tarde me foi diagnosticada uma tuberculose. Mesmo quando me descobriram esse vírus dentro de mim, enclausurado nesse amor que nutro por ti. Esse vírus que parece ter sido criado por esse teu Deus implacável e inseguro, para destruir todos aqueles que prevaricam em seu nome, para acabar com todos aqueles que amam inconscientes que o amor é uma loucura, para terminar com aqueles que dia-a-dia fornicam a fim de não se olharem mais ao espelho e constatarem a grande merda que são. A grande merda que somos todos.
Querias que te tivesse dito que também ias morrer? Foi por isso que morri primeiro. Porque não suportava a ideia de te perder e chorar por ti. Embora ainda chore.
São estes sentimentos, esta culpa que também senti e que deixei como prova do meu amor. Como prova ao teu Deus que a culpa foi também minha. A culpa é sempre de quem ama. Se ao menos me conhecesses, conhecerias aquele que te ama tanto.

Tudo tem um fim

Como eu, morto por uma sigla, com a qual nunca me preocupei em perseguir o significado. E esqueci-me, também eu. Protegi-te a ti, mas não me protegi de ti, inconsciente de que tu me salvarias. Salva-me agora da tua visão, salva-te agora e acaba com o sofrimento, com a vergonha de todos saberem, com a pena que todos irão sentir. E tu odiavas a pena...Faz desaperecer essas galinhas que te buscam e te cansam a fim de descobrirem o porquê do meu silêncio.
Agora que estás mais só do que sozinha, eu continuarei aqui, fixo em ti, apaixonado por ti. À espera da tua mão, a fim de encontrar o rasto do dia em que inicialmente nos perdemos e sonhamos como gente pequena que nunca deixamos de ser. À espera que me faças regeressar a casa. Como sempre.Para sempre.

Amo-te, ainda, Joana.


"Let me go home
I´m just 2 far from where you are
Let me go home." M. Bubblé

Tuesday, July 05, 2005

Segredo VI

Ela anda às voltas, perdida no vácuo de uma morte na qual cravou a sua própria identidade.
Ainda assim – e talvez mesmo por isso – continua a tentar alcancá-lo, a fugir dos seres que a perseguem e a guardam com delicadeza, tentando romper-se e esvaziar o sangue que em si corre. Continua a fugir dos seres que a perseguem na sua cabeça e que tentam inevitavelmente compreender, o porquê de começarmos e terminarmos (quase) todos da mesma forma.
É o amor que nos estilhaça, nos torna incompreensíveis aos olhos dos que nos rodeiam, humanos que somos, falhados que nos tornamos.
Por entre tanto espaço desencontrado, memórias de um infinito recuado, Joana sente-se vigiada. Não a deixam encontrar o perdão que tanto anseia. Acredita por virtude que ele está por ali a fim de a desencontrar e fazer com que se sinta ainda mais perdida. Não percebe e talvez nunca venha a perceber que o amor é a arte do branquear, da ilusão por detrás da óptica, a música posta no gira-discos do avô com o propósito de nos fazer chorar.
A Joana perdeu-se entre uma rotina que a desgastou e cujo caminho que encontrou para sentir que esta realidade ainda lhe pertencia, a fizeram tornar num sintoma daquilo que já foi.

Queremos todos tanto

O mundo de Joana haveria de mudar, assim como a sua vida e de todos que a rodeavam. Deixou de se queixar da situação débil do país em que o país sempre estivera mergulhado, deixou de se queixar que ele nunca tivera tempo para mais do que duas horas de bom sexo seguido, deixou de se queixar do quanto estava farta de aturar pseudo-artistas, carregados de ideias neo-liberais, para quem um traço no escuro haveria de originar o Big-Bang. Deixou de ser a Joana, apenas porque são todos estes detalhes íntimos e banais que fazem parte integrante do que somos, do que sentimos, do que vivemos e queremos todos tanto...
E Joana também queria. Queria mais do que uma casa carregada de estátuas que a serviam, de quadros que a seguiam, de histórias sobre o desaparecimento da justiça. Queria sentir-se viva, mergulhar nessa fome que é sonhar, sentir o sexo a arder por detrás do telefone, por detrás da sombra que se haveria de tornar, vítima do caminho que viria a escolher.
E por entre isso, Joana ainda se perde em adorações a um Deus que sempre seguiu, que sempre acreditou, mas que passou a temer.
"Quanto pecado", dizia-lhe ao ouvido o padre escolhido para a salvar da perdição. E os padres sabem tudo sobre pecado, sobre os erros e as virtudes, apesar de nada sobre isso poderem saber a não ser julgar aqueles que os tornam credíveis e sábios.


"O amor dita o início do fim"

Joana queria voltar atrás, morrer primeiro, fugir desta angustia constante, deste sono que não cessa, deste olhar recriminatório que vê por onde passa, mesmo quando não está mais ninguém presente. Ela quer voltar atrás, apagar as memórias e encontrar a luz que tanto buscou, mas que acabou confusa nesse longo prazer que é o da carne e do fugidio, da luta dos corpos e do proibido. Agora, não finaliza os pensamentos nem se agarra mais aos momentos.
Joana nunca amou. E por isso, não percebe que ele sempre soubera que ela passara a ser território de múltiplas visões – e porque não – penetrações. Joana, por não ter percorrido a estrada que é o amor, não percebe porque é ele nunca a odiou, mesmo quando ela lhe pediu, o porquê de não a ter tentado matar, sabendo que acabaria por morrer primeiro. Continuou então, a morrer lentamente, agarrada às longas melodias dos companheiros de ambos, Everything but the Girl, aguardando sentar-se a seu lado. E continua a aguardar.


"My head is my house unless it rains" Everything but the girl

Wednesday, June 29, 2005

Segredo V

No silêncio da música, encontro-te arranhada, emaranhada nesses longos cabelos loiros que atraíram a minha existência, como uma traça que busca a luz, como uma criança perdida numa praia, como um gato que perdeu a noite.
Tu sempre foste a minha luz, luz incandescente, que acabaria por me cegar. Luz preciosa, vital, esmagadora, bela, que mais tarde me haveria de encaminhar para uma morte contínua e rápida.
Certa vez, tentei matar-te, consciente que seria levado primeiro do que tu. E mesmo enquanto te observo por entre estas paredes cheias de sonho e poeira, não há uma única parte de mim que te consiga realmente odiar.

“E és tu que me eleva
E és tu que és urgente
És tu a quem eu canto
És tu a chama que sempre mente”



Amar-te sempre foi como morrer lentamente, anunciadamente, perdidamente. E assim continuei a adormecer a teu lado, a cheirar o teu perfume evitando reconhecê-lo, ler os teus lábios mesmo sabendo que eram também eles que te denunciavam.. Ninguém, nunca, percebeu as razões do meu auto-deliceramento, como se o amor pudesse ser compreendido, como se algum de nós o quisesse compreender.
És fogo em mim, luz que evoca, carne que provoca. Quis ser teu e acabei por ser suor que desaparecera, monotonia que se arrastara, rotina que esmagou implacavelmente a nossa cumplicidade.
Diziam-me todos os teus passos, todos os teus sorrisos largados das nuvens, quantos quadros vendias e o preço que lhes estipulavas e ainda assim importei-me pouco. Queria-te assim, como diria Eugénio de Andrade, “cheia de doçura/sentada olhando as rosas/ e tão alheia/nem dás por mim.
Vejo-te então cheia de remorsos, a lutares contra a tua própria existência, a justificares a morte com o nada que é a tua alma.

“A alma é um vício”.

De início, não reparava como deixavas de tentar não acordar, quando fugias e desaparecias absorta nesse teu emprego que muitas vezes imploravas que cessasse, no qual te debatias com os múltiplos pseudo-intelectuais que te sobrecarregavam com extravagâncias dignas de uma diva de ópera italiana, sempre italiana. Em vez disso, passaste a saborear cada torrada como se fosse a última, mesmo quando ta serviam queimada, a olhar os empregados, que sempre te fizeram sentir um certo tédio, com alguma bondade. Tinhas finalmente percebido o teu lugar no grande panteão dos seres que não pertencem a esta nossa pequena perspectiva. E eu não me importei.
Quis-te minha e queria-te plena, por isso fechava os olhos e sonhava em agarrar-te nesses longos cabelos loiros e despir-te o fato preto que acabarias por deixar de usar, mais tarde, e acariciava-te os seios mesmo ali em cima da secretária, enquanto algum milionário me jurava que estaria sempre inocente a fim de me convencer a defende-lo, mesmo quando a própria justiça se encarrega desse fácil papel. E era sempre mais, entre frágeis mãos que muitas vezes não eram minhas. Antes de vir para a este sítio, onde dizem que estou morto, enquanto tu adormeces ao som da cidade que raramente se ouve, imaginava corpos a suar, o sexo de outro a roçar no teu, tu a sentires o prazer por entre paredes e molduras que ninguém desvendava e sempre uma mão a segurar o teu cabelo que me levara até ti, fonte da tua luz.
A verdade é que nunca quis morrer, mas nunca tentei sequer despistá-la. Permanecer a teu lado foi sempre tentar encontrar uma tradução sem fim para essa procura por uma satisfação, para as saudades que sentiria quando aqui me encontrasse.
Não te odeio. Estou apenas à tua espera.

For you, i´ll be your plastic toy - coldplay

Friday, May 20, 2005

Segredo IV

São luzes que se movem lá ao longe. Luzes que escondem os verdadeiros desejos de quem quer esquecer tudo aquilo que já viveu, lentamente, por entre ruídos que a transfiguram e silêncios abafados.
È no silêncio que tudo se passa.
Em que arranha a sua própria realidade e onde a sua existência se compadece de tanta dor, por entre sombras que nunca deixam de trespassar a sua contigência, entre quadros bucólicos, repletos de prazer que nunca mais alcançará.

Querer agarrar o tempo
voltar atrás por mais do que um momento
aprender a morrer lentamente
esquecer que se é mortal
e conter em si algo mais do que carnal.
Viver num segredo sem tradução
tremer, sem encontrar a razão.
Noite que liberta
um olhar que quer esconder
Não nos basta querer,
temos de ter.

Estende-se na cama. Enrola-se por entre os lençois brancos e tudo lhe regeressa - uma espécie de dor que a atinge, que a torna mais pequena, fugaz e impaciente, sangue que jorra e não pára, saltos e confusões planeadas, gritos e um sexo que a havia de levar ao centro de si própria- como se nada se tivesse passado.
Fecha os olhos, mas ainda sente o sabor nauseabundo e leve que disseca numa segurança intransigível. Agarra-se à cama e a toda a sua coma transparente. Agarra-se aos lençois que escondem a sua própria vergonha. Agarra-se ao segredo que a faz querer não adormecer, segredo que esconde por entre os olhares que afasta mesmo quando se olha ao espelho, para provar que, lentamente, se extingue. Ciclicamente.

"Lentamente o processo evoluí
como se o mundo parasse."

Antes de acordar, imagina que ainda é de noite e tem uma vaga probabilidade de se encontrar, quando nunca teve opurtunidade para tal. Porque é de noite que todos nos perdemos, inconscientes de que a noite não nos encobre, apenas nos torna mais distantes de uma perspectiva mais nula.
Antes de acordar, Joana espera não acordar sozinha, talvez que alguém lhe agarre a mão, esse alguém que durante um Tempo indeterminado rejeitou e agora espera, com toda a força que ianda lhe resta, que russuscite e volte para onde nunca deveria ter saído.

"Ela está a morrer
L e n t a m e n t e"

Olha-na como se se perdessem na sua imagem. Viram-na passar diante deles durante tantos anos, carregando molduras e obras nunca compráveis à arte que, deliciada, depositava em cada passo que pretendia dar. Suportando uma carga imposta por um mundo moderno que a comprimia e a saturava. Que a fazia transbordar um tédio constante e uma angûstia delicerante - que nunca haveria de ser o seu - deixando um cheiro de sexo e sensualidade que nunca haveriam de provar.
E sempre que ela aparecia do cimo das escadas, desenhada e limitada pelos seus longos caracois loiros, algum deles haveria de começar o dia de uma maneira mais agradável. São olhos azuis carregados de um brilho que nos reflecte a paz do mundo, que por não existir, nunca acreditamos na sua possibilidade.

"Dizem que quem muito fornica, acaba fornicado. Talvez seja isso."

São olhos que a seguiram e continuarão a seguir, com uma competência atroz, de quem não faz perguntas, mas que sabe perfeitamente que o fim está próximo.
Que vivem daquilo que ela lhes proporciona. como formigas que nunca conseguem sobreviver sem o seu pólo central e a segurar um desespero que passou a ser deles, também. Vestem trajes de gala, como se os longos serões os esperassem todos os dias, porque eles sabem, que o fim está próximo.
São olhos que chegam para quatro seres, de dimensões não similares, com "estórias" inscritas no panteão dos escravos do prazer pertencente ao mundo dos sonhos. São olhos que efectuam as suas tarefas como se nada tivesse ocorrido e uma morte fosse apenas o fim de alguém que não eles.
Separados criam as suas versões cinematográficas de uma realidade que não compreendem, colectivamente, desenvolvem a sua capacidade de interpretação em que imaginam a projecção dos gritos de prazer que se haveriam de tornar de dor, um pouco mais tarde. Não têm sexo, apenas funções porgramadas. Funções integrantes numa casa que já não suporta um silêncio. Uma casa que se desgasta e pede, também ela para morrer.


L E N T A M E N T E

"Aprisiona-se no silêncio de quem já teve tudo
Talvez viver nesta aglomeração, sem sequer procurar uma razão"

Ainda é de noite, afinal, quando Joana acorda. Sente-se tentada a morrer diante do seu próprio desespero. Precisa de algo que a faça reviver, ali mesmo naquele momento. Dirige-se então, para a cozinha, onde de imediato um dos seres que a serve e que diariamente a rodeia, lhe deita o seu habitual "Martini Bianco", sem gelo e sempre com limão. Joana acha que o limão funciona como uma sinédoque para a vida que diariamente levara, onde pensara que conseguiura transformar o que de azedo a tormentava em algo de uso para si própria. Esqueceu-se que é mortal. Esqueceu-se de si própria.

"Ela fugiu, fugiu de si própria"
Joana não percebe porque é que o ser não a olha nos olhos como sempre se sentiu fascinado a fazer. Não se questiona, dirige-se apenas para a varanda, onde pelo frio que levemente começa a sentir, constanta que está nua. Talvez sempre tenha estado.
Lá fora luzes imensas aguardam o fim sua missão. Joana percebe agora, tarde de mais, que deveria ter fugido, quando nunca lhe pediriam uma justificação, quando ninguém a questionaria, quando o seu segredo seria ainda capaz de ser sustentável apenas com a dureza de um silêncio.

" E ela já não sabe qual o lado acertado,
Apenas que está a fugir, outra vez"
Lá fora, o seu silêncio torna-se perceptível, onde a sua dor se torna audível. Por isso grita para que todos a oiçam, grita para que a segurem e a detenham, grita para não ser a única a perceber uma morte da qual foi directamente responsável e nunca teve a coragem ou discernimento para o admitir. Grita para que a vistam, façam amor com ela, lhe mostrem de quantas cores é feito o arco-íris. Grita por amor.
A Joana ainda não perdeu tudo.

"And i don´t know wich way is left,
So i hold my breath till the morning, till i see the light
I´m on the run, i´m on the run again, from me." N. Imbruglia, On the run.

Tuesday, April 26, 2005

O Segredo III

Ouve vozes, ouve ruídos que a marcam de uma forma esmagadora e simples. Houve alturas em que apenas ouvia a música que durante tempos a seguiu por entre um caminho que nunca esperou percorrer, mas que inevitavelmente gostou. Ouve, agora, vozes que a seguem por entre paredes habitadas, fantasmas que tal como ela sangram e esperam apenas uma opurtunidade para se livarem dela.
São corredores imensos de uma angûstia incontrolável, cobertos outrora por sangue, agora encobertos por um segredo. Segredo que a há-de matar. E já começou...

O Olhar esconde
A Palavra interrompe

Ela já não percebe qual o caminho a seguir, onde permanece o sonho que um dia quase segurou, nem porque é que as palavras lhe fogem, como se não lhe pertencessem. Não percebe porque é que o dia nunca mais esteve tão azul, azul como a alegria que vivera, como a vida que sustentara. Não percebe porque é que os olhos se fecham perante um estremecimento dão duro, tão forte. tão cáustico.
Quer livrar-se do segredo e surpreendemente não consegue. Este fardo é demasiado grande.
Grande como a casa que habita, Grande como o coração que já não precisa, porque já nada sente.
Grande como os monstros que aterrorizavam os velhos marinheiros, Grande como a tristeza que todos carregamos quando somos postos de lado.
Grande como os prédios que tentam alcançar o céu, ao invés de o tentaram refazer cá em baixo.
Este arrependimento delicera-a facilmente. É uma espécie de dor este falso esperar de algo que nunca virá, apenas porque já não existe. Por isso ela fecha os olhos, à espera de encontrar essa réstia de vida que ainda sustenta. À espera que tudo regresse e as mãos que outrora foram suas nunca mais desapareçam.

"Porque quem muito fornica, acaba fornicado"

Tornou-se apenas um parágrafo deste sistema. Os cabelos loiros que lhe caem no ombro são uma réstia de dignidade. Apenas ouve o que lhe referem da realidade lá fora. E ela espera, sentada, na cadeira, que a trasparência regresse, que o amor lhe devolva o que já teve, que esta vida fugidia não lhe escape. Dizem-lhe que se cuide, que se vista, que se lave. Dizem isto sem a olharem nos seus Grandes olhos azuis, porque sabem que ela reconheceria " a alma de quem nunca viu maior riqueza do que a que sentiu". E por isso a dor nunca a abandona, nem quando repete o segredo frente a gravuras que estão por toda a casa, que são as únicas faces em quem confia.

A palavra há-de nos levar
a um qualquer lugar
onde o olhar há-de esconder
quem nos quer amar.

De vez em quando, passeia livremente pelo jardim. Aí sente-se mais viva, mais presente e menos estranha a este mundo que muitas vezes nos atraiçoa. Passeia e desmaia de tantas recordações, de tanta passividade, de tanta melancolia. Pergunta-se para que precisa daquelas pessoas que a atormentam com perguntas infindáveis acerca da sua situação. Pessoas que lhe querem tudo, apenas porque já têm muito. Pessoas que a servem e que nem por isso lhe obedecem. Pessoas que aparecem e não voltam mais. Pessoas, pensa ela.
Há vezes em que se pica nas rosas que circundam todo aquele verde que apenas lhe trazem a solidão de volta. Há vezes em que sonha estar em frente à casa com que tantas vezes idealizou e acaba por se picar outra vez acabando por não repetir a saudade que sente, a espécie de dor que tanta a persegue. E por isso permanece em silêncio, concentrando-se. De quando a quando ainda ouve o seu nome, lá no fundo. E é sempre a mesma voz. De quando a quando pensa que é esse o seu destino, o porquê do seu caminho.

"Talvez viver nesta aglomeração
sem sequer procurar uma razão"
Quando entra de novo em casa, não vem sozinha. Olhos que a seguem, múrmurios que a percorrem, uma tristeza tão grande quanto a sua casa. Enquanto sobe as longas escadas, sente-se cansada e espera em Deus uma razão para não se deixar levar de uma forma inerte e fria.

Ela está a morrer.
Ela está perdida
Ela só queria viver.

Enterra-se levemente na cama onde já esteve acompanhada, mas que como tudo, lhe escapou, mesmo por entre um olhar e uma impotência amarga, que lhe deixou um nó intransigente, incapaz de a deixar encontrar uma tradução para o seu próprio silêncio.

"Fujo do meu segredo
como se dele tivesse medo
longe do mundo, longe das coisas
a ver se não me arrependo
Como se a vida se me extinguisse..."
A Joana está a morrer, por entre um céu mais azul, por entre um amor que já foi seu, por entre uma saudade que há-de voltar sempre. " E nem o tempo há-de chegar" para ela dizer o quanto esta espécie de dor a torna tão frágil, nem o tempo há-de matar a sua saudade e fazer com que reviva de uma forma mais límpida tudo que outrora rejeitou.
Há coisas que nunca serão nossas.


Morrer é ser iniciado. in Antologia Grega

Wednesday, April 06, 2005

O Segredo II

Uma decisão é sempre algo de corruptível e efémero. Um conjunto de acções e motivos pelos quais nos podemos afundar mais tarde, sempre mais tarde. O arrependimento é algo que nos satura e nos persegue, sempre e todas as noites quando abrimos os olhos, apenas porque temos medo de os fechar.
Não, não é dos cada vez mais aclamados espectros de quem temos medo, nem das vozes que ecoam e riem por entre as paredes. É da Visão que nos atormenta, do tecto que não escapa, do mundo que se rende à forma mais enfadonha de passar por si próprio, sorrindo ao Tempo, deixando-se enlamear por ele, passando a ser apenas um apêndice da sua própria magnitude.
Joana tomou a decisão de procurar algo que não existia, de confiar profundamente em algo que simplesmente não aconteceu. Em algo que nunca aconteceria. Ela como muitos de nós, divide-se agora em conjecturas acerca de um futuro que não previu, rodeada por palavras que não se fixam no ar em que já viveu e que aspira a custo, muito custo.
"O que buscava Era, como qualquer, ter o que desejava."
E agora desejava impreterivelmente uma forma de não ser sugada pela decisão de tentar fugir ao tecto que lhe tentam determinar, a um conjunto de acções vazias, decorrentes de uma modernidade que é absorvida pelo Tempo, por um esquecimento que não compreende mas que se deixa rodear, por uma realidade que não concebe como um futuro, mas que a torna mais segura de que o que a rodeia pode ser a cura para uma infelicidade mais saudável.
Enquanto corre pelo imenso leque de sentimentos materializados em objectos que todos gostamos de possuir, é tentada a voltar atrás, quando não permanecia nem continha em si um Segredo, em que o desespero era não poder acordar e mentir para si própria que poderia ter muito mais do que alguma vez teria; que há certas coisas que nunca poderão não ser nossas.
Entrega-se assim ao vício da deambulação. Corredores que a sufocam e a fazem permanecer pequena e frágil, talvez gorda pela decisão que carrega dentro de si, mas sempre empenhada em desesperadamente excluír-se da sua própria vida.
Mete pena a coitada. Não passa de uma enorme sugestão das suas próprias conquistas. Procura ela - e afirmarei mais tarde- como todos nós, essa insustentável leveza do ser, para que apenas o mundo que a rodeia lhe volte a interessar, para que volte a ser aquilo que nunca quis ser. E nunca mais conseguiu ser.
"Amor, que insensatez"
E todos os segredos são actos de profunda paixão pelas palavras que não se fixam no ar, criando uma melodia que não nos convence. mas que nos acomoda em toda a sua magnitude, sem que ninguém nos desperte para a sua corrosiva essência. No fundo, todos os segredos são suicídios em série, porque é uma doença que nos degenera, nos faz combater com a nossa própria integridade e que mais tarde voltará para nos subjugar ao nosso próprio desespero. Desespero que não larga, que se torna a nossa mesa e a nossa cadeira. Que se tornou o olhar de Joana, que a dominou e faz parte já de si. Parte integrante do seu ventre, da sua carne, do seu cheiro. Cheiro putrefacto, daquele que nunca mais esqueceremos, daquele que não queremos ter opurtunidade para tal.
O segredo envenenou a Joana, tornou-a mercê da sua própria solidão e da Casa que agora habita, por entre animais e vozes que a ordenam, que a tentam, que a matam. E eles sabem...
"Amor, que insensatez"
Mas ela nunca previu que a diferença é algo que separa aquilo que queremos e aquilo que alguma vez obteremos.
"Porque o chão que pisamos pode ser nosso
Porque o mundo em que permanecemos pode ser nosso
Porque o coração que carregamos pode ser nosso
Mas há coisas que nunca serão nossas".
Não há definição possível para a total perda de sentidos. Quando ela cai, é erguida pelas próprias águas em que se afundou, rapidamente. Queria Ela voltar, perder-se nessa estética que tanto nos atrai e tanto nos falam, nessa igualdade que não existe, nessa liberdade criada, recriada. Inútil.
Agora, percebe que nunca será livre, que não passa de um vulto enclausurado nessa Casa que construíu e deixou morrer por entre a sua própria inocência coberta de prazeres que procurou.
Talvez os tenha encontrado.Mas agora
"Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!" pensa de si para si.
Porque o esquecimento é um acto de profunda vontade e o amor será sempre a mágoa mais patente em todas as caras que o alcançaram. Porque talvez existam coisas que nunca poderão ser nossas.
Coisas que erram, coisas que pairam. Coisas. Coisas que nos enlouquecem, coisas que não param. Coisas que nos fazem semicerrar os olhos e voltar para o aconhego do colo da nossa avó, quando cozinhava aquelas apetitosas folhoses de ouro, que fugazmente desapareciam, mas que rapidamente se digeriam.
Ah!, queria Joana voltar atrás, construir uma determinação mais encorajadora, dançar com a graça de permanecer, correr por entre a fome que tinha de viver.
Queria ela perceber se o Segredo que a torna cada vez mais pesada valeu de facto a pena, se o Deus que a cobre lhe renunciará o seu lugar devido a uma decisão, que a tornou imperfeita demais, perdida para sempre nos corredores da sua própria existência em que já não reconhece de que natureza é aquilo que a rodeia, em que sangra porque é consumida pelo sono que não a seduz. Em que sangra, tentando a todo o custo alcançar a luz que a alicia,a morte que nunca chegará, a vida que nunca mais voltará.
"Amor que insensatez"
A Joana perdeu-se na tradução do seu próprio segredo.

Saturday, March 26, 2005

O Segredo

A Joana perdeu-se na tradução do seu próprio segredo. Segredo imundo, cheio de inocência remetida para um passado repleto de sol e de construções mais ao menos habitáveis. Vidas que se movem em águas negligentes e perturbadoras.
A Joana perdeu-se na tradução do seu próprio segredo.

"Quem muito fornica, acaba fornicado", mas Joana nunca percebeu que tudo é impreterivelmemente vago e maleável, de um sofrimento constante, que doi, que mata. Que sangra.
Sangue vazio, sem cor ou dor. Sangue que não se vê.
Sangue sem odor.
Tudo o que ela queria, tudo aquilo que muitos de nós queriamos, era voltar atrás, debater-mo-nos com os mesmos problemas sem nunca nos subtermos, outra vez, ao mesmo inacabamento, à mesma falta de profundidade. Mudar, enfim.
A Joana já teve tudo o que poderia ter tido. Agora, agora perde-se em deambulações que nos remetem apenas para uma estrada semi-vazia, um conjunto de situações e acções que nos levam a lugar Nenhum.

"Amar é ser aquilo que somos
Ter aquilo que conseguimos ter
Agarrar o que nunca alcançamos"

Mas Ela nunca se deu conta desse facto, facto terrível. Facto que a apagou para sempre de uma existência determinantemente mais disfarçada.Agora, como não tinha previsto, vê-se num lugar sem Retorno, onde a chuva que cai lá fora não lhe dá as respostas por que tanto anseia. Agora, nem a mobilia que penosamente, como são todos os objectivos a que nos propomos, colocou num espaço que a faz sentir parte integrante de um Tempo sem Retorno, onde as obras que a rodeiam levam-na a querer parar. Onde a música que a cerca quando dorme a faz fugir.
A Joana percebeu tarde de mais que o seu segredo haveria de ser entendido, percebido, desmascarado. Que um segredo existe apenas para ser quebrado e que uma decisão, por mais ínfima e sagaz que seja, pode mudar o rumo de muitos (acertadamente?) caminhos. Claro que ela só pretendia voltar a sentir uma presença, mais que física ou mesmo meta-física, por mais poética que fosse, à sua volta. Os olhares que a tentam todas as noites não lhe são suficientes para apagar o buraco que a sua alma comporta. Para se apagar a si própria e voltar a ser mais do que uma simples partícula nas grandes teias de corrupção, que são muitas das relações que diariamente cada um tem, sejam elas de que carácter forem. Mesmo que sejam segredo.
Segredo que a arrasa, que a faz querer voltar atrás determinada e ansiosa. Rápida, arrastada por uma corrente repleta de remorços e palavras que ficaram presas no Ar, que muitos de nós teimamos em querer aspirar em vez de o viver.
E é tudo tão confuso, tão estranho, tão inocente na sua completa e banal visão...Repete para si própria que o que tem é muito mais forte do que o que já teve, que a liberdade é ter-se para si própria, mesmo que tenha de guardar um segredo, mesmo que ela saiba que um dia, o Tempo a vá traír, levando esse mesmo segredo para longe, bem longe, para um lugar Inacessível, onde nunca poderá alcançar o que deixou para trás.

"Viver é querer ser
Sobreviver é permanecer
Sonhar é ter"

Doi-lhe o estômago, doi-lhe o sexo, doi-lhe o corpo pesado demais para suportar fardo tão contínuo e familiar, já. Carecem-lhe as ajudas, perdem-se os factores eternos. Perdeu-se por entre a tradução de um sentimento que julgava pertencente, entre um jogo que não ganhou, sempre sem intensidade. O sol que nasça, o sol que a queime por dentro, para que toda a gente a veja, para que toda a gente se reúna com ela, para que toda a gente a sinta. Ela que nunca mais se encontrou, ela que queria acabar com o segredo, ela que morreu com a sua própria verdade e a consequente perda de identidade. Gostava ela de conseguir discernir o certo do incerto e centrar-se apenas no errado, correr sem parar, agarrar tudo o que não é de direito possuír.

"Tudo pode estar certo"

Não interessa onde é que a mentira acaba, só que ela nos derrota mais do que uma grande verdade, mais do que uma partida de crianças, mais do que poderiamos ter previsto. Ela vê na televisão a exportação que a rodeia, que ela sempre quis ser, embora não perceba exactamente porquê. Mas compreende que o que já teve nunca mais voltará. Há certas coisas que nunca serão realmente nossas.

"Há coisas que não são reais", mesmo quando nada é real, mesmo quando cospe para ter a certeza que ainda não foi sugada, mesmo quando chora apenas porque errou nas palavras entrecruzadas dos olhares desmedidos e infelizmente - direi mesmo- não sentidos.
Queria ela perceber o porquê do grande âmago que transporta, desse grande fundo que nunca mais acabará, mesmo que ela compreenda que sim, mesmo que ela faça tudo o que puder para o conseguir.

Onde estás?

Agarra-te ao que tens, arranca o segredo, deixa-te caír e afogar nessa pedra em que te transformaste, para nunca mais voltares a pedir. Deixa-te reconstruir, deixa-te voltar a ser, mesmo que o segredo te segregue, mesmo que ele seja mais forte, mesmo que nada nem ninguém te segure. Mesmo que tudo seja imperceptível e nómado, mesmo que como José Cardoso Pires refira no marco que é o Delfim, "quem muito fornica acaba fornicado", mesmo que consigas ser feliz e o segredo, enfim, desapareça, mesmo que tudo volte a ser como nunca será. Mesmo que a porra dos remorssos fiquem para sempre a boiar por entre as tuas paredes e as vozes que se mexem, mesmo estando imóveis, voltem outra vez. Mesmo que seja para sempre.
Porque tudo o que sacrifcas-te não foi suficiente, porque nada, nunca será suficiente, independentemente do que fizeres ou tentares, porque há coisas que não mudam, nem é suposto que mudam.
Porque há coisas que nunca serão nossas.

"Cause everyone got a secret, but can they keep it?" Maroon 5

Wednesday, March 09, 2005

Em busca da terra do nunca

Há-de ser sempre o Tempo o nosso maior condicionador, o factor determinante para a extensão de um sucesso ou para um afrontamento de uma qualquer acção que sempre soubemos que nunca ocorreria. E é o Tempo que determina a nossa capacidade de prolongar o sonho, afinal a nossa maior arma contra os espectros que nos tentam e perseguem sempre e todas a vezes que abrimos os olhos.
Esses espectros, que muitas vezes nos ferem e nos fazem esconder debaixo da aparente segurança do nosso sofá onde nos esquecemos que existímos, onde nos esquecemos que essa mesma existência é afinal apenas uma doença terminável que um dia qualquer, num espaço qualquer, acabará enfim, por nos segregar e terminar com o velho eco que nunca nos deixa de perseguir.
Lá longe.
No Restelo.
"Quando se está feliz num sonho, isso conta?"
Estha, personagem inabalável do romance de Arundhati Roy, "Deus Das Pequenas Coisas", tem necessidade em conseguir conceptualizar se aquilo com que sonha é de facto mais importante do que o arcaísmo em que a sociedade indiana está afogada, poço de encontro de múltiplas culturas e indecisões - atrevo-me mesmo a dizer, de incoerências-, ou se o mundo dos adultos é de facto tão linear e escorreito que a capacidade que nos equipara a um ser perfeito e perpétuo é pertencente a um álbum esquecido, que é para onde recorrem todos os momentos que nunca mais hão-de ser vividos, quanto mais sentidos.
Essa capacidade, acabará Estha por perceber, há-de ser sempre posta em causa, por um mundo cheio de certezas, repleto de "gente perdida" à espera de que o amor de alguém os salve.
À espera que a noite caia como morcegos.
À espera da mudança. À espera que o desespero morra.
Cegos como morcegos.
Esses espectros em que Estha nunca se converterá simplesmente porque nunca crescerá - não teve Tempo - tentam a todo o custo matar toda a luz que nos poderia remeter para algo melhor.
No fundo, somos todos espectros de nós próprios, a perseguir a sombra que teima em fugir, qual "Peter Pan", rodeadas por pessoas que sofrem do síndrome "Capitain Hook", que por nunca conseguirem voar não deixam os outros tentar.
Mundo desajeitado, ocidental e errante este, na maior parte das vezes.
Em que as crianças são desiludidas por não terem um sinal na bochecha bolachuda que tantas vezes apetece apertar, em que não há tempo para fazer dinheiro, em que não há dinheiro para refazer o tempo, em que não há tempo para gastar o dinheiro.
Somos então tentados, a sermos comandados por ideologias, esperança desafinada, de pessoas que entregam o corpo apenas porque já não tem alma, sempre em busca da "Terra do Nunca".


Mão na anca. Cabelo liso, olhar descarregado. Olha-se pela terceira vez e ainda assim não encontra a equação certa na imagem que reflecte a sua imagem. Olha-se antes de saír para a feira das vaidades, que é qualquer um desses passeios que todos os dias insistimos em pisar.
Joana tem idade suficiente para conseguir aquilo que quer e um sorriso tão frágil como o mundo para mostrar que tudo depende da capacidade que cada um contém em si de olharmos mais além. A Joana é apenas mais um ponto a juntar ao longo e vasto mosaico de pessoas que partem para parte incerta, sem passado ou tempo que asseguram o futuro. Sempre a fugir do malvado crocodilo que a avisa que o Tempo está a acabar, independentemente dos prazeres materiais com que se rodeia apenas para desviar a sua solidão. A Joana, acha que só precisa de vestir o 36 e rodear-se do máximo de gente que se pareça com as pessoas que todos os dias vê na televisão, para conseguír ver o mundo como outrora noutro Tempo, já sonhara.
O problema da Joana e de muitos de nós, é que as estrelas desses grande Império Cultural, como diria Adorno, não existem e ela vai ter de levar o Tempo suficiente até se dar conta desse facto e compreender que a nossa felicidade depende da capacidade que cada um de nós tem para fazer aquilo que melhor sabe. Talvez seja então obrigatório revitalizar conceitos tão esquecidos como a coragem, perdidos num qualquer diccionário, metáfora do sistema burocrático que nos rodeia.

O que separa Estha e Joana, não é a imensidão cultural ou geográfica, mas apenas a capacidade de sonhar, a nossa maior chave, peregrinação para a nossa perfeição em potência, prova real de que o impossível é o nada.
Cabe-nos a nós decidir qual papel temos capacidade para desempenhar. Parafraseando Júlio Pomar, a vida é um imenso tinteiro.
Coragem.


All I need is a Timeout, Timeout from everything...


Wednesday, February 09, 2005

Condição

O Tempo é o controlador máximo das nossas pequenas vidas. É ele que determina o início e talvez o fim de cada poema, envolto numa paixão que nunca acaba. Queria eu ter tempo para reter em mim todas as memórias a que me proponho, tocar-lhes e conhecê-las, tornar-me, enfim, parte delas. O que fazemos com o Tempo que é concedido a cada um de nós determina aquilo que somos.
É engraçado como já tentei escrever este texto algumas vezes e nunca o consegui. Falar de nós próprios e dos medos que nos assaltam dia-a-dia parece ser cada vez mais uma tarefa árdua que só alguns parecem ter coragem suficiente para a concretizar. Muitas vezes queria eu esquecer o passado, torná-lo fruto dos meus pensamentos inexistentes, porque nunca permaneci nele, nem sei mais se existíu. Em vez disso debato-me com sonhos e imagens que talvez tenham sido criadas por mim, pessoas que povoam o meu tecto pintado com uma cor inconstante, tal e qual como eu. Vejo-me muitas vezes como a Sra. Fisher presa "nestas relíquias de uma vida que nunca existíu", mas que eu sempre idealizei. Tento fotografar dentro de mim os momentos mais sólidos de uma infância marcada por brinquedos que se desintegravam sem que eu lhes tocasse e responsabilidades que não tinham que ser minhas. Conceitos que me implementaram e que agora recordo com a mesma frustração com que sentia o algodão doce a escapar-se sorrateiramente dos meus lábios, sem que eu alguma vez lhe tivesse tocado.
No fundo, a vida continua a ser o maior enigma, a maior travessura de um Deus que nos tornou inesperadamente imperfeitos de mais e que se cansou de nos controlar. Agora, somos apenas marionetas, dispostas na mesinha-de-cabeceira à espera que alguém lhes indique o caminho de volta, de onde nunca deveriam ter saído, de onde nunca devíamos ter saído. Partimos assim, numa sociedade que se une e desintrega, comandada por políticos que se atacam de pijama, fazendo com que retomemos cada vez mais a uma sociedade envolta em teorias sebastianistas, período do qual parece muitas vezes nunca termos saído.
Eu tento absorver o Tempo e pousâ-lo em mim, talvez recolher-lhe a essência e conseguir respirar dentro dele, não controlá-lo, mas antes reconhecer-lhe o toque e o cheiro para que quando ele chegue, eu o reconheça. E é do Tempo que vivem as minhas recordações perdidas em construções e cenários pré-existentes de uma memória programada para me fazer acreditar que tudo valeu a pena, mesmo quando não vale.
"O que mais hei-de dizer sobre uma ruína?Acrescentar talvez que é impossível suster uma ruína só com a vontade" e eu mesmo consciente desse facto tentei sempre achar que o inalterável é sempre ultrapassável, que o olhar indecifrável há-de me levar a um porto seguro, que a cor que polvilha os meus sonhos é de facto azul e não apenas preto e branco, numa realidade sempre condicionada, numa visão sempre influênciada. Continuo a considerar que a capacidade de sonhar é a nossa maior fê e que a morte apenas o início do fim, porque nela tudo se concentra e é nela que todos nos encontramos.
Debato-me a fundo por imortalizar as imagens que criei de um país que resiste a uma colonização contemporânea, fruto do poder da burguesia capitalista e vejo-as a apagarem-se. Tento mantê-las, mas desaparecem, escapam-se um pouco como as soluções para um Portugal que parece não querer sentir o peso da mudança e do progresso, que nos envolve em imagens de relações produzidas em inúmeros takes de uma cultura que não a nossa, de modo a que consigamos perspectivar uma realidade perfeita, de modo a que consigamos idealizar para nós aquilo que tanto ansiamos que aconteça na grande tela. A perfeição continua assim, a ser uma das grandes metas de cada um de nós, onde tudo tem de ser perfeito, constante e dramático.
Construímos então, grandes projectos de uma vida a dois, contemplando um futuro sem passado ou alicerces para que no fim apenas restem ruínas daquilo que tentamos ser e não conseguimos e esquecemos, sedentos de ilusão, que é o Tempo que nos controla e que como Arundhati Roy refere, "tudo pode mudar num dia".
E mudou.

Tentei alcançar o que não tinha
Certo de que o conseguiria
Neguei a culpa que sentia
Apenas para me tornar seguro por mais um dia,
Feliz, dei por mim perdido
num mar de gente que se olha e se arrasa.
Tentei amar em vão
Consciente de que ainda sei onde é a minha casa.
A morte não me assusta pois sei onde acaba
a grande paz que a consome, a vida é que me interroga
Por isso peguei no Tempo e apaguei-o.
"Tudo pode mudar num dia", casas que destroem
palavras que se amam, cheiros que se confrontam
estrelas que se unem, traduções dentro do silêncio.
O Tempo que me leve que ao mar hei-de ser entregue
Como o murmúrio perdido no tempo e na mão de Lídia Jorge
Uma imagem que passa e não cansa, uma memória
memória de um tempo inacabado,
sentimentos que colidem num sonho ainda não concretizado.
Saudade é mais do que Aquilino Ribeiro
é "condensar o mundo num só grito",
é preparar o Homem para o futuro
e construír assim um novo mito.

Thursday, January 27, 2005

Fernet

Tempo. O tempo foge-me por entre os dedos, como partículas envoltas numa voz que nunca cessa, evocando memórias, trazendo gente grande a um mundo pequeno - o meu mundo. Devíamos ser capazes de controlar o tempo, ao invés de lhe sermos subservientes, de o tentarmos seguir, sem nunca compreender a sua integridade. O tempo é matreiro, envolve-nos numa perseguição constante acabando por nos deixar entregues à nossa própria solidão.
Aqui, onde estou, o tempo continua-me a fugir, por entre os dedos como a areia que piso, como o olhar que me tenta, o sorriso que me abraça e ilude. A falta de tempo deixa-me perdido, porque não me dá espaço para encontrar todas as sensações que me permito a alcançar. Queria agarrá-lo, absorvê-lo, tornar-me parte dele, ser o seu filho pródigo e nunca mais ter de me preocupar em segui-lo, em rastejar por ele.
É o tempo que não me faz esquecer que não sei onde permaneço, neste lugar onde as ideologias foram invertidas e ao invés de se adorar um Deus, venera-se Marx e onde o seu filho omnipotente vigia tudo e todos calando aqueles que o tentam ultrapassar.
Queria muito compreender a consistência do tempo. Roy no transcendente "O Deus Das Pequenas Coisas" afirma que "tudo pode mudar num dia". No lugar onde me encontro, onde não me reconheço nem me procuro, onde não há marcas de um colonialismo contemporâneo e onde as minhas memórias não tem lugar, o tempo continua-me a fugir, porque não tenho capacidade para o encontrar, talvez revoltar, determinar o que sou, quando sou e porque o sou. Confundem-me com um Inglês e tratam-me mal. Aqui não gostam dos ingleses, e no intervalo da confusão olham-me com pena, por ser apenas uma partícula comandada por esse pote de intervenções burguesas que é a América.
Alguém me explica que a miúda que me serve à mesa faz parte de um povo traumatizado pelas constantes invasões do chamado mundo ocidental, que no fundo acham que eu sou mais um turista superficial que vai acabar por tentar conseguir alguma coisa delas e acabará por se ir embora sem deixar memória. Isso só me deixa mais motivado para tentar conseguir a simpatia de alguém que é movido pelo Comunismo, como em Portugal o somos pela Igreja, onde tudo é um teste, mesmo o tempo que o tenho para o conseguir.
Envolvo-me em jogos de sedução, espreito a sexualidade que este povo evapora, mostro-me sem que nunca me toquem e no fim espero pela sua aceitação. Delicio-me com o alcoól e com a recente descoberta que foi o Fernet e todo o sabor que me conduz. Mergulho de cabeça em diferentes culturas, troco opiniões, opções de viver a vida e acabo por perceber o quanto ainda tenho para aprender, "porque tudo pode mudar num dia" e ainda assim pareço envolto numa luta permanente contra o tempo. Afinal o que é uma semana para se tornar um momento mais do que fugaz da nossa vida? Queria permanecer aqui o tempo necessário a descobrir os defeitos que tudo que é tocado pelo Homem tem, sem ter de lidar com os meus medos, as minhas paixões e tudo o resto que envolve o nosso percurso.
Cecília numa das conversas, pronunciadas num Inglês com sotaque a Argentina, diz-me por entre um hambúrguer e um "Tiger" que sou um idealista. Não procuro conhecer a origem do adjectivo, mas acho que soa bem, assim como sonhar, dançar, esquecer simplesmente que somos controlados em todas as nossas acções, onde há sempre alguém que nos vigia e pouco a pouco vamos perdendo a nossa identidade.
De vez em quando, dou por mim a esquecer-me que estou controlado mesmo ali, quando me envolvo com outro corpo e experimento sensações novas, com o céu negro e estrelado como pano de fundo.
Não há televisão para me entristecer com algum adolescente que foi expuslo de casa apenas por não gostar das mesmas coisas que os pais gostam, não há telemóvel para alguém me tentar amarrar a uma relação vazia, não há nada que me remeta para uma realidade pré-existente e por isso sonho, consciente de que tudo tem o seu tempo e eu acabarei finalmente por acordar. Mas eu não quero acordar e agarro-me a esse sonho que é poder ser o que eu sou, onde estou, sem que ninguém me tente.
À noite, sou um espectador atento e partcipante, entregando-me à fama conseguida apenas por ser o único português no meio de tanta gente que simplesmente não o é. E quando olho para trás, já só tenho metade do tempo para fazer tudo aquilo que toda a gente gosta de fazer. Vejo-me a conquistar amigos , a trocar o português por um espanhol rafeiro e um inglês comodamente aprendido na MTV, a habituarem-se que gostem de mim, a habituar-me a gostar de alguém.
Judite, uma bailarina que acaba por me ensinar o prazer que é saber dançar essa dança que nos arrasta para o sexo descomprometido (salsa) diz que a maior parte da população gosta da vida que leva, porque embora pobre é "uma vida íntegra sem que ninguém que não seja daqui tente fazer de nós aquilo que não somos". E de repente já sou um deles e acabo por ser mais um partcipante dos jogos em que mostramos aquilo que sentimos. No fim, acho que gostaria de ficar cá por mais tempo, para descobrir se o sorriso que me abraça é de facto meu e nunca mais ter de ouvir as vozes que nunca cessam, que nunca apagam como a luz que nunca funde, como as traças que dia a dia nos tornamos.
É o alívio que me segura a este lugar, é o sonho de voltar e ser melhor que me faz sentir a saudade. Como diria Cesária Évora " Se vou a escrever, muito há a escrever". Enquanto o tempo não terminar, não vou parar...

Alívio

El frescor nocturno,
las estrellas altas,
los árboles inmóviles,
la luz del alma
ardiendo sin palabras.

miro a las nubes y pienso:
hay otro lengueje.

Las palabras hablan
con nuestras bocas.
Se alimentan de nosotros.
Nos sepultan, prosiguen.

Las palabras toscas, ilustres,
que tan enormemente han servido.

No pienso en nada y pienso
(mirando a las nubes):
hay otro lengueje. Cintio Vitier

Friday, January 14, 2005

Intertextualidade

O perdão é daquele tipo de sentimentos que resulta para poucas pessoas. Dou por mim, ainda a descobrir-me a mim próprio, envolto numa adolescência que não acaba, envolto numa sociedade que não quer que a adolescência acabe.
Devíamos todos ser capazes de conseguir perdoar. Perdoar aqueles que nos constroem obstáculos obstinados, como sombras dentro de um baralho de cartas que nunca acaba, como a cidade de seguro na mão, fruto do crescimento tecnológico. Ensinaram-me que se devia perdoar assim como Jesus nos perdoou, mas confesso ser difícil partilhar dessa dádiva de um Deus de quem sei muito pouco, e que acaba por nunca me devolver a paz que nunca acaba, descoberta em azares próprios de uma idade que se quer obstinada.
Eça de Queirós desmelindrou muito bem esta Sociedade Unidimensional que crê em tudo o que vê, a partir de crenças instituídas por sistemas que apenas têm como objectivo padronizar a cultura, tornando-nos iguais, mesmo quando a desculpa parece ser a palavra mas difícil de proferir por quem requer o perdão.
Acredito unicamente no Deus que criei à minha imagem, que me anuncia os maus caminhos como curtos e sombrios e me faz reconsiderar toda a perspectiva que tenho por esse valor que é a vida.
Desta maneira, o jornalismo enquanto prática violada pelos fundamentalismos de uma falsa Ética, que nos leva constantemente a perdoar, fazendo-nos criar a imagem de que esse valor é banal e desprovido de conceito real. Constrói todos os dias imagens que proliferam pela nossa imaginação. Desde ministros que eventualmente não podem gozar de um dia de descanso, passando por personagens públicas que se parecem com personagens de Banda-Desenhada rasca e sentimentalismo desprovido nas notícias que todos os dias entram pela nossa casa. Perdoamos tudo isso e passamos a ser passivos e remetemos numa fúria compreensível todas os acontecimentos que torturam uma sociedade individualista num Deus, que muitas vezes parece ser sombrio e mau, como nos ensinam na catequese, como Eça revelava na obra-prima que é o “Crime do Padre Amaro”, como se Deus nos fizesse cheio de massa corpórea e a quem temos de respeitar, sob pena de nos enfiar uma onda gigante pelos nossos paraísos turísticos, como se alguém perfeito pudesse também ele ser feito de material impuro, sujo e deficiente.
Deficiente é a comunicação social que esconde as construções precárias, mesmo ali à beira do mar, como se estivessem à espera de serem engolidas. Como se nós apenas víssemos aquilo que queremos ver, visto que somos nós, enquanto sujeito independente que fornece apoio seja a que nível for, para depois receber uma imagem distorcida de si mesmo, acabando assim por ficar também distorcido.
Sontag, essa fazedora de ensaios que abriam a luz para a descoberta dessa cultura de massas que nos une numa ignorância impávida, foi uma das primeiras a descortinar o papel da fotografia, como se eternizássemos para sempre o momento, mas apenas os bons, porque os maus são para encolher e não mostrar, porque revelam as nossas fraquezas. Isto acontece, talvez, porque vivemos num mundo ocidental em que o mais forte é obrigado a dominar todos os outros e todos querem ser os mais fortes…
Acabamos eventualmente por perdoar Deus, que não tem culpa da ostentação de riqueza do Homem, como se fosse ele que nos pedisse desculpas, como se fôssemos nós que lhe devêssemos dar a glória da clemência e da purificação. Como se a S. Joaneira (O Crime do Padre Amaro) pudesse de alguma maneira apontar o dedo a alguém, quando ela escondia dentro das suas saias um prazer devoto em ser corrompida pelo cónego-mestre e promover a Religião Cristã como única fonte possível de conhecimento. Aliás, essa instituição ensina-nos tudo menos a Ética verdadeira, aquela que pode parecer utópica, mas que seria fácil de praticar se todos percorrêssemos o mesmo caminho.
Aqui há dias deparei-me com um caso explícito e mais do que comprovativo da criação magistral que os meios de comunicação se empenham em criar nas pessoas que se revêem nos valores que eles proclamam. Exportam caras bonitas para a televisão, promovem-nas até à exaustão nas revistas que de cor-de-rosa têm muito pouco, fazendo crer no consumidor que a personagem criada na televisão é de facto real, que lhe pode tocar e dessa maneira exaltar-se quando ela sofre, como se sofresse também, quando ela exerce poder, como se ela exercesse poder também.
Tal como nos meios de comunicação, o administrador deste blog, tantas vezes repleto de sonhos por criar e de sorrisos que nunca aconteceram – não existe. Da mesma forma que a Britney Spears não é na verdade uma miúda inundada de princípios boémios, da mesma forma que os governos esconderam a possível ameaça do dito Tsunami que desbravou países que nunca foram nem nunca serão independentes. Da mesma forma, que o administrador deste blog não é a mesma pessoa que vêem numa dessas noites a dançar ao ritmo da vida ou que passa na passadeira iludido que isso funciona como protecção de alguma coisa. O consumidor tem assim, de ter a capacidade de se distanciar destes ensaios pseudo-filosóficos, que muitos gostam de ler, assim como a realidade que consomem avidamente na comunicação social. Alguns, é certo, remetem para o lado mais fraco do coração, por se deixarem agarrar em ideias acerca do administrador. Têm de possuir essa capacidade, para não terem de se debater com o perdão de alguém que simplesmente não existe.
No fundo, fico contente por estes textos evocarem opiniões diferentes (seja num jornal como já foi o caso ou mesmo noutro blog) no íntimo de quem as lê, pois é de facto o seu objectivo principal enquanto experiências íntimas e reais. Todos somos Humanos, todos podemos errar e exigir o perdão, mas sempre com Ética, valor fundamental esquecido pela Igreja e pela cultura que esta domina. Não é de estranhar então que quem ataca, como não tem princípios ideológicos, não se assume e esquece-se ou nunca aprendeu que a Ética instaura em nós três tipos de responsabilidades pelos nossos actos. Mais, essa pessoa não existe no meu imaginário sequer, porque não se identifica e usa um espaço para denegrir a imagem de um administrador que pode muito bem ser quem não escreve os textos (será?).
Não conto com esses infortúnios. Todos passam pelo mesmo, incluindo Inês Pedrosa que viu a sua imagem arrastar-se devido a alguém que prefere optar pelo espaço íntimo, mesmo sabendo que esse não conta para ninguém, a não ser para os fracos de espírito.
Eu perdoo-o quem se dá ao perdão, quem tem coragem, capacidade e visão para o alcançar.
A vida, embora muitas vezes ache que não, ensinou-me a reconhecer essa intertextualidade entre a pessoa e os actos da mesma. A vida ensinou-me que o que tocámos não é nada mais do que a alegria de pisarmos a relva logo de manhã, fazermos castelos na areia enquanto ainda nos deixam e levarmos alguém deste mundo connosco, mesmo que seja apenas a nossa sombra. Mesmo que sejas tu.




“I will build my world, i will sing my songs, i will keep my helmet on

And you can ruin my songs, you can ruin my world i will keep my helmet on”
The Gift, Driving you slow.

Monday, December 27, 2004

Humanos

Gostavamos todos de ter aquilo que tanto desejamos. No fundo, o desejo é a fonte máxima de poder que reside em nós, humanos, enfiados em espartilhos contraditórios acerca do nosso passado, com um futuro coxo pela frente, com um amor pendente, sempre. É o desejo que move esta época, a que chamam Natal e na qual nos afundamos em dívidas para conseguirmos oferecer aos outros aquilo que eles têm e nunca precisaram.
Desejo eu muita coisa para este Natal, que já passou, mas que permanece dentro da casa de cada um de nós, porque o Natal não é um dia, mas uma semana inteira de projeções inacabadas, de folhoses que nos enchem o espírito, de encontros que nos agitam. Dizem que é a chamada época em que a palavra que mais reina é o perdão. Perdão a todos aqueles que nos desmerecem, que nos torturam e enchem os sonhos de uma cor que se parece com a morte.
Perguntei a uma criança o que era o Natal e ela perguntou-me de que cor eram os sonhos. Não lhe respondi e ela também não. Ambos sabemos que o sonho é o que nos eleva e faz superiores, mas também sabemos que é por ele que ambos caímos e nos magoamos. Respondeu-me apenas que desejava que o natal fosse mais do que um sonho, ao qual se agarrase e o fizesse perdurar e que dessa forma, talvez " as pessoas com olhos em bico não morressem todas no mar".
Gostava de voltar a sonhar como dantes, mas os meus desejos não mo permitem. A lista que fiz ao Pai Natal não tinha nada de suficientemente novo ou irreal. Queria desejar um avião, um amor novo, um guia, mas nem isso.
A criança deu-me a mão e eu senti-me novo, outra vez. Não sei o porquê de ter falado com ela, mas sei que me fez bem, como se a capacidade de sonhar residisse não na maturidade, mas como diria Saramago, na sabedoria.
"Tu que és grande, és invencível. Protege-me, protegendo-te a ti, sem nunca me largares a mão".
E não larguei.