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Tuesday, April 11, 2006

Instituições - A Família

Safámo-nos sempre bem, a enclausurar os sentimentos, arremessados por entre os espartilhos da nossa própria condição física e de toda a vida contida num só gesto.
Aprendi – e talvez mal – que todas as instituições que se apresentam ao longo da nossa vida, nos dão algo, tirando-nos muito. Crescemos por entre sonhos irrealizáveis e uma educação magnífica em que tudo tem um lugar certo na prateleira, a fim de não racionalizarmos sobre o objecto em sim mesmo, que não é mais do que essa capacidade de introspecção a que os poetas chamaram um dia, enganados e iludidos, de melancolia.
Respeitamos tudo e esquecemos o quão humanos podemos ainda ser. Iludimo-nos com questões de sangue e de parentesco, árvores genealógicas feitas por cavaleiros andantes e espadas armadas que um dia mancharam a espada com sangue do seu próprio sangue. Vivemos nessa ilusão de que temos de gostar das pessoas que se incubem nessa trama que é a Família e que tudo aquilo que circunda essa redoma inquebrável, pode sim, estar à mercê do nosso julgamento abusivo.
A facilidade está em percebermos que nem todos gostámos da mesma maneira uns dos outros e que tal não pode ser obrigado, seja por sangue ou nome, caminho ou tradição. Então um filho adoptivo, se não souber que a figura feminina que apelidou de mãe toda a sua vida tecnicamente não o for, não continuará a gostar dela como se de uma mãe se tratasse, verdadeiramente?


Isto levanta necessariamente outra questão. A questão da posse e do título.
Mãe, pai, são títulos que aprendemos a usar para alguém que era suposto gostar de nós, assegurar-nos um futuro e protecção, de igual forma, que aprendemos a usar um embrulho de presente, quando nem sequer este é algo útil ou prático. È apenas uma forma de aprendizagem, de esquematização das emoções e das funções. Não é suposto gostarmos todas da mesma maneira uns dos outros, nem sequer que uma mãe não goste mais de um dos filhos, ainda que não admita, do que de outro.
Fomos ensinados que os pais são imparciais, que fazem tudo que estiver ao alcance deles para nos fazerem felizes e gostarem de nós, independentemente dos obstáculos à sua forma de encarar o mundo, mas desconhecemos porém, que a humanidade que os esconde é de facto palpável, que o fardo que carregam é muitas vezes demasiado grande, que são imperfeitos e que por isso, nunca hão-de gostar, nas mais variadas das vezes, de nós, tanto quanto gostaríamos, apenas porque não temos de gostar e não gostamos de toda a gente da mesma forma. È inalterável. É aliás isso que nos distingue, pois mais nenhum animal tem essa capacidade de eleger, de escolher entre o bom, o mau, o menos bom e um infindável número de géneros que adquirem forma humana.Nenhum pai deveria receber tal título, porque são raros os que o cumprem na totalidade da sua significação e só é injusto pensarmos que isso não se deveria passar.


Passei então a compreender a forma justificada de gostar tantos de alguns amigos que me rodeiam, de ter criado um pouco e ao meu gosto a família de que gosto. Família, na minha trémula maneira de compreensão, é um determinado grupo de pessoas de quem gostámos e do qual sentimos imensas saudades, com as quais chorámos e confiámos, onde a justificação não existe, deixando livre o lugar para a tautologia ser instaurada.
Compreendi mal este conceito várias vezes. Bati com a cabeça em espaços ocos, que acabaram por criar uma saliência firme que me permitiu desmistificar alguns processos que sempre julguei inatos. O melhor será mesmo que acabemos por gostar das pessoas, que mal abrimos os olhos conseguimos perspectivar, sem contudo avançarmos sem uma garantia fiel de que ninguém nos garanta que isso aconteça, assim como nunca ninguém explicou o porquê do nosso rei Afonso ter feito à sua mãe, aquilo que faria a qualquer inimigo seu. E porque não, se era mesmo um inimigo?

Wednesday, March 29, 2006

Cegueira Cordial

A decisão de tomar as rédeas da situação, de ser a personagem intermitente numa música que se desenrola por cima da mesa, onde tudo se passava e de onde nada saía. Eram aqueles momentos interrompidos pela tecnologia do saber que se precisa necessitadamente de uma mão, apenas para nos sentirmos seguros o suficiente para nos deixarmos cair nessa prova que é o querer desesperadamente, quando o envolvente que nos rodeia nos tenta impedir de alcançar esse verbo inalterável.

È assim que tudo começa, essa necessidade de nos sentirmos livres dentro de algo que nos controla os movimentos, de precisarmos de alguém que não precise de nós, de querermos algo que não nos merece, apenas se funde na ilusão daquilo que sempre quisemos, embrenhado nessa confusão manipulada por cafés e luzes mais ao menos coloridas.

É esta ponte entre o querer e o ter, o possuir e o nunca desfazer pela inconsequência da visão que a maior parte de nós não tem, - porque cegos uma vez , para sempre cegos – nessa ausência que é o Universo e a existência de algo mais transcendente, quando embrenhados no nosso egoísmo e prepotência, nos julgávamos sozinhos, nesse espaço onde se reflecte o alcance daquilo que aprendemos e sonhámos.

Somos todos o mesmo, o sentimento de massas que advém desde os primórdios, de esquerda ou de direita, o caminho há-de ser sempre o mesmo, continuamente, mesmo que a televisão nos continue a tentar deturpar o que acontece nas relações inter-pessoais de cada um de nós, mesmo que a imensidão desta grandeza seja de difícil conexão, com o mundo que respira lá fora.


O convite que se faz, à espera de ser recebido, a conversa de treta que se mantém apenas para se ser aceite, a piada que se manda apenas para se ser superior, a música que se ouve para se ser duro. È tudo uma questão de códigos sociais transmissíveis, através de pais para filhos, numa educação democrata-cristã, onde a diferença é repudiada e a serenidade nunca há-de ser encontrada.

É por isso fundamentalmente que se quer tudo, tem de se ter tudo, conquistar tudo, alcançar tudo, verbalizar infinitamente tudo, até a engrenagem parar e por fim, pudermos respirar.
Caminhamos todos por entre as mesmas quezílias e “estórias” cruzadas, quereres de que tudo se torne perfeito, de que as imagens negativas se apaguem do passado mal alicerçado e que principalmente, tudo desapareça sorrateiramente, embora todos tenhamos passado um requerimento a concordar com tal conjectura de factos.
É isto o querer. O nunca ter.

Tuesday, March 21, 2006

Controle



Já não sei mais o que perseguir, neste desenfrear de portas que nunca esperei tão constantemente difíceis de (re)desenhar, entre palavras criadas por essa atitude armada, traduzida pela cegueira constante em que permaneço, agora que regresso ao local onde nunca encontrei o que outrora julguei meu.
Nunca, a minha capacidade de redução à minha própria contingência emocional, onde a memória flutua, foi tão testada, tão maquinalmente racionalizada. Fiz de mim, a máquina que nunca soube ser, o projecto desse acto senhorial, composto por décadas de flacidez inerente à minha própria pele, onde me escondi, agora mais do que nunca, onde agora me afundo perante a minha própria incapacidade – não de recriar- mas sim de esquecer.
O esquecimento, esse acto falhado, para o qual não fui – injustamente - talhado, onde a minha fragilidade vem à tona e eu passo a ser a onda leviana de toda uma “estória” que não me pertence, mas que eu agarro com a ilucidez de qualquer plagiador barato e obcecado pela obra alheia, pelo esplendor adorado, pela carne que não me pertence.
Criador de mitos e observações, deixei-me cair na tentação do julgamento e agora, a esquerda já não me pertence, não há corrente que me arraste noutra direcção ou ciúme que atrase a viagem descomunal e pouco intrigante.
Aqui não há neve onde toda a minha intencionalidade fique transparente. Aqui apenas há pó e areia, que ocultam um pouco da verdade anunciada, onde o calor se torna inconfortável e me aliena um pouco mais.


Quero-te abrir a porta, da qual temo ter perdido a chave há já algum tempo, quero manter essa sintonia horizontal prolongada, eternizada por essas águas que são nossas, onde todos se naufragaram, ou apenas nunca tentaram. A quezília entre o valor máximo que criei e a patente na qual tu te registras-te criam-se e recriam-me, fazem-me perder na equação da palavra, onde nem a bússola me consegue indicar o caminho de volta à segurança prometida.
Ninguém é completamente certo.
A porta nunca esteve fechada.

Coldplay - Talk

Friday, February 10, 2006

Lugar Comum

Afinal onde moras, onde fica esse sítio inacabado, onde te afogas e te revoltas contra este tempo pequeno, onde nada existe por uma razão concreta e desconcertante.
Elaborei um plano, como se fosse possível conquistar essa partilha obscura sem nada que possa recear, sem impedimentos distorcidos ou compromissos inequívocos. Esse sacrifício de me largar e alargar esta pele maciça que se constrói à medida das tuas veias, como se nada o fizesse esperar, como se eu já não o tivesse adivinhado.
Não há nada. É o lugar da destreza emocional, do panteão da servidão por algo em que se acredita, em que se espera pertencer sob um contrato de promessa feito em segredo. Um lugar que alcanço por contraste com esse carisma pertencente e tão teu, tão meu agora que essa comunhão foi (re)feita.
Pensei em começar neste lugar vazio, perto de ti, onde nada me encontra e posso por isso, dormir sem que nada ou ninguém se importe com o câmbio que o teu amor provoca no meu humor. È esse sintoma de algo desaparecido, de algo que se morre e se descontrai, onde os intelectuais pensam que se movem, mas onde apenas se fundem com o ambiente que acaba por os envolver.
O entendimento está muito para além da razão. São os relacionamentos sem linha concreta, inter-laçada nessa cidade repleta de luzes que nos guiam a lugar nenhum, nesse fingimento de quem não compreende porque se entrega.


Pensa. Pensa.
Quem achas que vai salvar essa tua alma foragida que ninguém quer, a não ser esses sem-abrigo necessitados de carinho e bênção cristã. É uma afirmação, que ultrapassa essa pergunta nunca colocada, essa mancha colada que se torna quando não te avisto por cima do pedestal onde me colocaste e onde eu sempre quis permanecer aos olhos de alguém.


“Choro”.

Ri-te por ti e por mim, cresce pelo que há-de vir, salta e torna-me superior nessa corrida que enlaço, desvia a minha atenção desses putos que colam a fotografia, desse peso que nos altera a imagem nessa contradição que é a nossa imagem reflectida nos olhos de alguém. E disse eu como diria Saramago, “nunca te olharei por dentro”, como se eu fosse perfeito o suficiente para de facto, o intentar a fim de o conseguir, a fim de me calar, a fim de parar.

É sem esforço que não contesto essa corrente que me arrasta até ti, nesse dia só meu do qual te tornaste telemóvel imprescindível da criação desse meu pequeno mundo repleto de coisas, também elas tuas.
Não contesto que as manhãs hão-de saber sempre mais a Verão, enquanto fores tu que me desperta.

Friday, January 27, 2006

Sozinho

Procuro a inspiração no final desse olhar, nessa satisfação de estar presente em tudo aquilo que proferes, sem receio ou sentimento ressentido.
Fico por aqui, como se nada fosse ainda mais além e de novo permanecesse nessa órbita inaudível em que se foi formando de tudo um pouco, perfurando os sentidos de todos aqueles que mordem essa tentação que é tentar o que não se quer.
Andei sem saber como, com um total desapego por isto que piso, por entre o sexo que partilhámos, sem que nos déssemos conta, quando nada fazia sentido e que mesmo por isso – e só por isso – fez sentido. E continua a fazer.
È esse tema da controvérsia geral, da inquisição sempre atenta e disposta a deter-nos por entre palavras imperceptíveis. Essa nódoa na garganta que se forma, esse frio revoltante que sinto quando me sinto simplesmente abandonado, esse vapor que transpiro e respiro por entre variadíssimas cores, que nunca ninguém conseguiu decifrar. E foi aí que te pedi Por Favor Não Vás, e te foste sem que por isso desses razão à minha mão que acabou por ficar vazia. Foste-te assim, contente e indiferente como se nada o fizesse esperar, como se não tivesse eu já essa notícia reveladora que tudo se teria diluído.
Vou Porque Quero, e eu que nem ouvi a justificação, essa desculpa interiorizada e disfarçada pela pena que foi não te ter. Quando te pedi para que ficasses, foi na tentativa máxima de que partilhássemos todos as canções do Caetano Veloso que jurámos nunca cantar, pela saudade que sentiríamos um pelo outro.
Fiquei sozinho, longe de ti, para sempre perdido neste nunca eterno, celebrizado por este vento que não te traz. Tanta mágoa e tanto sonho e eu que só te pedi Fica. E foi aí que te foste.
Não te voltaria a pedir, nem a precisar de ti, se tal fosse concebível. Não tentaria de novo esse passo errado que é o de declamar a dependência negociada, essa chama negra que eu ganhei desde que atravessaste essa porta. Porta que sempre construiu um significado bipolar em tudo aquilo que não vivi, quando entravas, quando não saías, quando voltavas, mas nunca ficavas. È esta inspiração morta que eu sempre esperei alcançar, mas que por limitação humana, nunca me foi possível. Quando te agarrei e chorei, quando me bateste e ouvi És um fraco, o que nunca me ocorreu foi a visibilidade tão frágil dessa mesma fragilidade, dessa areia fina e transparente. Caramba, mas chegaste a entrar, ainda te agarrei, ainda te segurei, ainda tocámos na parede, para nunca mais voltares.
Fugiste e não voltaste. Deixaste me sozinho. Fugiste para nunca mais voltar.

Wednesday, January 25, 2006

Insónia

Afinal, não é ainda por aqui que vou ficar.
Hoje, deixei-me cair finalmente em mim, longe do estado de completa absorção em que me fui digerindo, perdido entre pensamentos e imagens que nunca consegui apagar totalmente desta corrida fugidia em direcção ao teu olhar.
Foi essa terra que me negou sempre aquilo que eu sempre julguei ter, por entre as mãos, que sempre me negou a verdadeira essência, acabando por me enganar nesse cálculo feito de intuição e cheio de falta de racionalização.

Hoje, ficava só por aqui, a fim de te sentir, encontrar a verdadeira resposta para tantos obstáculos por mim impostos, tanta falta de discernimento, que sempre julguei possuir e, mesmo acabando por ser mais tarde, acabou por me abarcar. Isto, mesmo sabendo que o que quis, foi sempre encontrar-te quando desço as escadas, me sento e te respiro, mesmo quando a neve insiste em deter-me. É este o débito que não consigo que seja cobrado no seu máximo, para que depressa adormeça, sem que disso tenha dando conta. O piano, esse, esteve toda a semana parado, por entre notas desafinas e palavras nunca pensadas e uma melodia que julguei por momentos ter esquecido. O problema é quando confiamos e nos deixamos levar, sabendo inicialmente, que não vamos conseguir arcar com esse peso que ainda há-de vir. E ainda no princípio em que não sabia onde te agarrar, acusava-te já dessa falta de perspectiva por um futuro que presenciasse mais o íntimo do que a carne que sempre entra em putrefacção, sem que por esta possamos fazer nada.

É o desencadeamento da linguagem na sua essência, essa causa para uma insónia excessiva, uma falta de carinho quase constante, essa rotina que já não possuo e que quase me levou quando para ela regressei, ainda que por escassos momentos.Vivi sempre para o prolongado, para a corrente de acontecimentos, para uma racionalização constante de qualquer problema metafísico, mas tudo se esvai quando sabemos que a razão finalmente deixa de nos pertencer por inteiro. Fui ainda mais errante na minha tentativa de apôs períodos contidos, em me segurar a algo que não existia e da qual eu assumidamente tinha notícia e informação. Não é o facto de ser desagradável e desonesto encetar toda uma mentira sobre alguém. É algo que apenas traz a questão de algo simplesmente não estar esquecido, algo não realizado.
Contigo, nunca me contive, nunca me senti com um grande nó na garganta, esse que desata e que comigo raras vezes ata. Enredei um romance em torno de algo que eu preferia que tivesse acontecido, apenas para eu não constatar o quanto tinha eu, na perseguição desse sonho fantasiado, falhado. Esse tumulto crescente, essa pedra no sapato que se apoderou, essa criação mental de tudo aquilo que nunca teria feito. E dizem que não nos devemos arrepender, que a tenacidade com que me puxaste é algo narrável e que talvez por isso eu te tenha agarrado bem cá por dentro, sem que faça intenções, mas sempre com condições.

A finalização que terá como consequência o descanso prometido pode não estar ainda a um alcance próximo, mas nunca mais estarei tão perto como o “agora” que se promete.Os “jeans” serão lavados, o relógio há-de me continuar a perseguir, mas finalmente hei-de adormecer e o sonho há-de ser contigo, finalmente. Parece que há sempre rasteiras que afluem a uma melhor posição.

The Grass is always green on the other side.

Há pessoas capazes de fazer o que ,indiscutivelmente, não se faz.

Monday, January 23, 2006

Realidade

Esta é a música preferencialmente entoada, facilmente esquecida, repleta de erros imperceptíveis a qualquer passagem que não alcance a verdadeira beleza sensorial da imagem em movimento. Contei-te e conto a minha vida, como quem conta um romance, onde a tua beleza me ofusca e me arranca toda a energia que encontro, a fim de poder compartilhar este conhecimento que é oferecer-me a algo tão grandioso como tu.
Tenho ainda de me deixar levar, como no início, por essa força transladada muitas vezes para uma timidez coerente e socialmente aceite. Fiz o que podia para parar com este movimento, no qual te foco e te retiro, onde me complemento em tudo aquilo que és, por entre os cheiros e por entre esta vontade de não te deixar ir, de não largar tua mão, como quem larga uma nota que se desloca pela profundidade que é ter a certeza que realmente te tenho aqui por dentro, onde ninguém nunca chegou a ser aquilo que sempre tentaram ser.Esta desintegração, esta redução do próprio “eu”, esta argola presa nestas memórias sempre um pouco perdidas.

Nesta roda gigantenão permaneço mais.
A inconsciência desapareceu, porque afinal
O problema nunca me pertenceu


È escusado perceber porque é que a minha fragilidade foi a escolhida para suportar esse sorriso que nunca me mentiu. Vi tanto e fugi a tanto, tornei-me portador da vontade de querer, mas nunca de ter, de saber que independentemente do que dissermos, as pessoas têm todos os mesmo sonhos e que por isso mesmo, partilham salvo raras excepções, as mesmas raízes, as mesmas bases e muitas vezes do mesmo sorriso.
E por isso tentei fugir, correr sem destino ou direcção, sem cor e sem brilho, quando percebi que nunca te voltaria a encontrar nessa predisposição directa e subjacente, nesse entoar de códigos metafísicos que não me deixam dormir, nesse recolhimento que é o de me deixar levar por tudo aquilo que o meu próprio sonho fez de mim, essa participação sem final que se avizinhe, sem tradição aparente, sem leveza transcendente, sem emoção pretendida que se irá desvanecer quando nunca mais tiver de imaginar que és tu que me carregas.
È este sentido sem início, essa notícia de que as calças que carregas formam a tua pele, que me escutas por entre horas a fim, precisamente por conheceres a cristandade comunicativa que habita em mim, não porque eu queira, apenas porque eu preciso. Preciso de ti e do teu sinal, da tua mágoa e da culpa que me fazes encontrar e que me ajuda a subsistir.
É o preço da racionalização, da mentalização que ser o que se é, ainda é pouco; que nada que tocamos pode ser suficientemente narrável, que nunca ninguém é transparente porque o deseja e talvez por isso me custe a acreditar que não tenha corrido o suficiente, que fui apanhado e não vejo outro encontro que me faça soltar, outra criatividade audível, outra melodia que me carregue tanto.
És a realidade que eu nunca imaginei ser real.

"Just bring me along
cause i got to see what you have to offer me"

Wednesday, January 18, 2006

22/01/2006

Existem pessoas que muito para além de se destacarem, criam sensações e tumultuam de uma maneira amplificadora a nossa perspectiva de certos e determinados aspectos. Manuel Alegre, por ter conseguido ser uma personagem reconciliadora nesse tão fumarento mundo político, onde se travam lutas sempre por debaixo da mesa, merece o meu profundo crédito.

Chamem-lhe escritor, poeta, revolucionário, ou simplesmente político, mas tudo acabará por ser impreciso. Afinal, o que pretende um candidato a Presidente da República quando faz valer o vocalista dos Da Weasel como Mandatário para a Juventude? É irrefutável que as ideologias e ideias de Manuel Alegre sempre caíram mal, mesmo dentro do seu partido, que sempre foi visto com algum desmerecimento por honrar e nunca adulterar valores mui nobres como o da amizade. Sejamos ou não de esquerda, Manuel Alegre é o único candidato capaz de retomar o passo a este andamento burocrático a que o país se submete diariamente e o único capaz de fazer frente aos fundadores da democracia e das suas bases que vigoram agora em Portugal.
Cavaco Silva e Mário Soares não fazem mais do que retomar os seus postos, as velhas guardas, a velha glória do povo ignorante que ainda não perguntou a Cavaco Silva para onde foram os milhares de contos que entraram aquando a sua tomada de posse como Primeiro-Ministro ou a Mário Soares que sempre foi um combatente do regime fascista, mas salvo raras vezes, do outro lado do mundo, sem que por isso tivesse experiênciado os verdadeiros tormentos que tanto diz ser contra.
Dia 22 – se não estou em erro – temos todos um pouco a oportunidade de dar um pequeno abanão neste cada vez mais inglorioso país e expulsar qualquer convicção de que quem cimentou as bases para tanta crise, volte com as suas velhas ideias a ver a Praça da Alegria num asilo de luxo qualquer. Talvez este exemplo se indique mais a Mário Soares, que de tão velho e senil que está, acabou por se esquecer quem foi o sempre amigo que lhe prestou apoio nas mais variadíssimas formas e acções.

Por último, é de registar que Manuel Alegre, para além de pessoa culta e informada dos valores vigentes europeus, associou-se a caras novas da cultura, da música e da literatura, numa busca por uma nova forma de governar Portugal, enfim o que precisamos. E vamos lá esquecer o “populismo” de Louçã.O senhor sabe evidentemente falar, mas nunca conseguirá mais do que fidelizar votos.

Friday, January 13, 2006

13

É então que me deito sem saber para onde vou, estirado, esgotado desta luta contra um relógio nunca acertado, por um tempo que se contradiz apenas porque não é pequeno, por este desejo imenso de alcançar a tua imagem, sem nunca te tocar.

Verdade é, que sempre gostei de algodão doce e por isso, tentei sempre caminhar entre a ilusão de que nunca amaria por completo e a repetição desses sabores tantas vezes facilmente identificáveis, que me arranham os sentidos e me deixam um pouco mais do que moribundo.
É esta a alegria de viver, por entre todas as marcas que sofro sem serem minhas, apenas porque sinto os sentimentos indefinidos, de uma forma ampliada que acabam por demonstrar o quão frágil posso ainda ser, mesmo quando permaneces ao meu lado. Levava-te para essa terra do nunca - onde o nunca seria o sempre - eternizando-nos nesse longo e vasto campo de sentidos, por entre os meses que quase desconfiei que tivesses esquecido.


Por isso, fecho os olhos na esperança que tudo se desvaneça, que estes sonhos, de não ter simplesmente, se criem na realidade, que utilizes o pensamento sempre como arma e que ao contrário de toda esta sociedade, não te deixes conformar pelo insurrecto e pouco palpável, porque as minhas palavras já foram gastas e polidas demasiadas vezes e o cansaço nunca vem só.


Imagino viagens tridimensionais, canais que nos hão-de levar a esse desconhecido que são as tuas acções, imitações de algo que reviste e nunca mais pudeste esquecer. Que te prefiro odiar, com sensatez, muitas das vezes, porque me sinto pequeno demais para arcar com tanta plenitude de sinceridade, porque sempre vive da argumentação fustigada e da desconfiança presente, e que só assim sei ser forte e conciso. Sem ti, nunca haveria de ter escrito as páginas deste jornal pouco mais do que íntimo sobre a verdadeira consciência que tenho da condição que agora assumo.
A paixão não é um estado que me faça corroer o interior, é antes esta grande trama elaborada pela minha necessidade de sentir a culpa interiormente, nesta cilada por mim feita, sempre que me sinto longe de ti. E de vez em quando, abano-te e fico a escutar, para onde foram todas as palavras que depositei em t, quando sei de antemão que simplesmente não estão lá. Acredito no que posso, nos objectos que não gosto de possuir, neste trajecto por mim enlaçado, nesses teus braços que me concretizam e me fazem acreditar na minha paranóica forma de estar.

Acredito em ti e acredito neste número que se faz à nossa imagem, do azar que foi nunca termos tido a coragem para nos agarrarmos antes.
Estou, secretamente, a contar todos os dias.

“You were right
And i don´t wanna be here
If you gonna be there…
I wanna travel trough time
See your surprise
Hold you so tight
I´m counting down the days
”

Wednesday, January 11, 2006

Negação II

Não me estraguem a concentração, não me digam que o jogo de luzes que evoca a solidão é falso. Não me digam que não posso sobreviver da desilusão, não queiram colocar a dor como pano de fundo para a minha destreza emocional. O que faço é conseguir, tentar alcançar esse objecto sem cor ou roupa, esse lamentar sincero e promíscuo, essa gota sexual que escorre pelo umbigo e só pára no lençol onde eu nunca me deitei contigo.
Queria assim, por entre todos estes tecidos feitos para nos prenderem a situações nunca pretendidas, manter a minha invencibilidade, sem que por isso tenha de ser chamado de frio ou egoísta. É que o meu piano deixou de tocar, desde que não te encontrei mais, quando dizer adeus nunca foi o meu desejo. Não. Digam-me apenas que a lâmpada fundiu, mas que a esperança de que regresses novamente por entre o “meu olhar que só sorri quando te vê”, é tudo menos falsidade herege. Faz-me crer que tudo em ti é reluzente, que o passado é fantasia que arde quando me deixo ocultar por esses genes que transporto em mim e que sempre me hão-de desfazer em menos de pó e camurça.
És o nada que nunca se há-de transformar em manhã negra ou enfadonha, porque o silêncio do teu reflexo é magia constante para os meus ouvidos. Nunca consegui que me travassem neste sintoma perplexo, nesta correria abusada, neste paladar nauseabundo. Não, não me digam que nunca hei-de chegar a alcançar essa força que eu (minto?) juro que permanece escondida em ti e da qual eu denoto breves resquícios quando te abano violentamente e te faço sair desse estado de latência do qual vives e sobrevives. Não me digam sequer que me tornei abjecto, como tantas outras coisas que odeio. Acabarei sempre por eternizar a canção nunca antes entoada.
Farei assim minha e de quem quiser, a sombra que foi deixada para trás, essa rodada de uísque que nunca haveremos de beber os dois, completamente juntos, como se lá fora a neve não fosse branca.
Aqui e agora, a neve é sempre branca do outro lado, neste manto de inspiração que me sufoca e me faz descrer que o não foi apenas o que pronunciaste apenas para eu nunca largar a minha ilusão enegrecida, cada vez mais.
Devo dizer, que foram raras as vezes em que desisti, por isso não mo peçam para o fazer, porque a concretização da incompreensão é algo presente em mim, essa forma de “amar o amor” como diria Agostinho da Silva, essa recriação do meu sonho personalizado em ti. Eu que me tornei discípulo da irmandade dos amantes da paixão e quase da tesão, eu que fui cego, mas sempre alcançando a batota no jogo, eu que nunca fui surdo e que por isso abandonei sempre quem quis. Que não me digam, que não me escutem, que não me leiam. O não é apenas uma parte da minha comiseração de fugir ao que realmente encontro em cada espelho. Não. Amar não acaba.

Friday, January 06, 2006

Irresponsabilidade

Conseguido o portento de me manter ao teu lado, entre um número que não condiz com a sorte de te ter, nem preconiza uma vastidão de certezas inalienáveis, que me conduzem, sem que disso suspeite a um afogamento nessa tua beleza inalterável. Banalidade boçal que me fantasia e faz com que derrape nessa tua melodia, entoada num grego como nunca antes reconheci, nesse teu chão concebido só para me aquecer, numa cama qualquer. Poderia dizer-te que o vazio sentido é algo que não realizo mais. A justificação ficou encarregue de levar o futuro com ela e fiquei apenas com a areia que me trouxeste, quando entraste e nunca mais saís-te. Faço-me assim, à luz do que me tornei, sem que por isso permaneça no local onde não te encontrei. Acabei por te esperar como sempre quis. Lamentavelmente, tudo deu certo de mais e o meu pessimismo diagnosticado em várias cirurgias anteriores, concedidas por enfermidades que só por algum acaso de sorte não me levaram, fez com que eu sentisse apenas a tua leveza castanha, por onde me perco sem conseguir alcançar o fim de tanta magnitude. Volto com tudo o que tenho, carregado de presentes que nunca quis oferecer, com cadeiras que acabaram por ficar sozinhas, com palavras que nunca poderão ser ditas. Lutei por ti, como quem luta pela liberdade, sem saber na minha cumplicidade íntima de ser eu quem sou, que nunca mais te conseguiria largar, fazer-te desaparecer, como tantas vezes me foi possível. Sabia eu, ou então achava que sabia, na minha tola presunção, que seguirias outro caminho que não o da entrega, acabando por irresponsavelmente, me esquecer da tecnologia viciante que é o amor. Sim, és tu a senhoria revoltante na procura de um sentido profundo. Esta poesia cantada, esta dramaturgia inalcançável, essa beleza que duvido que venha a ser mim. “Alcançar o fim, Para sempre contigo” Por isso pego em ti, neste sentir agonizante, sem saber o que fazer, na mágoa que é falhar sem se perceber porquê, numa descrição de um poder que nunca foi meu. Se os olhares de outro alguém importassem, se as mãos que me agarram contra a minha fúnebre vontade me levassem, se este texto que escrevo fosse a mentira de quem sou, então seria tudo mais fácil. É uma irresponsabilidade infantil pensar que nunca serias tudo o que eu quero Mandalay_Beautiful

Wednesday, January 04, 2006

Fingimento Enrolado

Sei perfeitamente que este lugar de onde vim nunca mais vai acabar. Esta melancolia trespassada e sentimental de quem não aguenta esse jogo viciado. Não entendo e não concebo porque nos sujeitamos tanto a essa arte de persuasão e de engano fútil, dessa máscara que preferimos usar, ao invés de tentarmos ser aquilo que queremos. Tentamos todos decidir pelos outros todas aquelas coisas que nunca fomos capazes de escrever. Falta-nos a coragem para parar a fim de começar algo de novo.
Parar o sentimentalismo desafinado, um sorriso pegado e influenciado, essa piada que se forma na nossa boca como espuma cheia de falta de personalidade, parar com esse fingimento sem retorno, com essa procura pela sombra que nos foge, por esse olhar pequeno que de vez em quando possuímos a fim de começar com a verdade que não tem necessariamente de fazer ninguém sofrer, de nos rirmos colados ao chão, mesmo que os nossos dentes não façam de nós aquilo que vemos na televisão antes de nos deitarmos.
Estou cansado, no fundo, desta graça que se forma, deste aperto de mão cómodo, dessa vida monótona e pardacenta, de me sentar no sofá e constatar que são poucos aqueles que trabalham e muito menos aqueles que apontam soluções.
O país está completamente partido, estagnado, envolto em fantasmas que o transformaram neste pequeno paraíso fiscal e que retornam agora - como se de alzeimer sofressem - para nos voltarem a atormentar, alimentando essa tristeza passiva e democrática em que vivemos. Este fingimento que partilhámos agora mais do que nunca, apenas porque se torna num hábito, numa ordenação contínua, nessa necessidade de catalogar todos os objectos encontrados nesse sonho sem fim. Construímos uma mesa farta e cheia de fraternidade, para no dia seguinte passearmos juntamente com as nossas mágoas e voltarmos ao que somos. Fingimos que somos, que gostamos e muitas das vezes somos apenas isso.
Preguiça mental, falta de objectividade, falta de serões junto ao por do sol magnífico que poucos hão-de aprender a gostar. Fazemos o que podemos e fazemos ainda tão pouco…somos parte do que criticamos, sempre à espera de que alguém com o nível de vergonha mais baixo, se exponha, apenas para que nos possamos rir também e pertencer a esse pequeno núcleo de sobreviventes por via dessa técnica, desse homicídio anunciado.
Somos o mais desonestos possíveis, não suportamos as diferenças de ninguém, não concluímos um único pensamento, somos cansados pela nossa lenta emoção de percebermos que nunca haveremos de poder ser aquilo que outros já foram e por isso mesmo tornamo-nos desistentes dessa longa caminhada.
Falo por mim, por esta trama a que chamamos Natal e que cada vez mais me enfastia e me torna desprezível aos olhos de quem me acompanha. Falo dessas palavras tão feitas de ignorância social quanto desprezo pela vida de quem nos rodeia. Falo pelo fingimento por mim observado em que me tornei cúmplice, toda a minha vida. O nosso maior medo é o de ficarmos sozinhos, sem perceber a que lugar pertencemos, para que casa devemos correr quando o sino toca, a que olhos nos devemos entregar, quando todos eles são azuis. Não sabemos nada – e falo ainda mais por mim
- quando me esqueço que existo. Entre a voz do Jack Jonhson e esse mar que não pára. Ele que espera que tudo isto seja só uma fase e que por isso se deixa enrolar, como a maior parte de nós.
A chuva que caia, lá fora. Hoje, já alguém me trouxe para casa. E logo hoje que nem sequer foi preciso fingir.

Dreams be Dreams Jack J.
28, Dezembro, 04

Thursday, December 15, 2005

AUSCHWITZ II - BIRKENAU

Apesar de ainda não possuir a grandeza para escrever o que sinto acerca dessa emoção estrangeira que habita por dentro desta entoação que é ver a destruição do mundo à minha frente, vou tentar transcender-me a fim de remeter no peso das palavras essa explicação canalizada através do meu olhar.

Faço parte deste mundo ocidental, que não raras as vezes, prefere pensar que o erro habita sempre do outro lado do mundo. Não temos tempo para nada. È tudo uma questão de escolha, de ter uma alma que se apoquenta com os pormenores do vizinho, com os horrores que se passam no piso por detrás do nosso, nas mais eternas variações da história.
Quando vemos alguém de pele escura, mergulhada nesse castanho que esperamos que no Verão seja nosso, pomo-nos atentos e desconfiados, apenas porque é sempre assim que nos querem, desconfiados, atentos e competitivos. Temos o preconceito contra toda a gente e mais agora, contra essa religião incompreendida, apenas para fazermos esquecer o quanto somos também perversos.
È essa maldade que vive em todos os seres humanos, que coabita lado a lado com as paredes e o choro de quem por lá passa. Pelos turistas que insistem em tirar fotografias, comprar poster’s para depois colocarem no quarto, onde dormem sem sequer pensarem que algo igual ao que assistiram através de imagens e objectos, se passa nesse preciso momento e com a sua inconsciente ajuda.
Somos todos culpados, uns mais do que os outros, pelo que se passa no mundo, por esta alienação constante. Se antigamente ser alemão consistia num derradeiro e eterno pecado, hoje o ser muçulmano consiste no mesmo conceito, não fosse este mundo uma estrutura de conceitos neuróticos, uma vontade irrepreensível em catalogar tudo e todos, apenas para nos sentirmos mais seguros.
Auschwitz consiste também, nessa alienação constante que é o sistema capitalista que nos cerca e abandona numa solidão angustiante. Mostram-nos imagens e desenhos, como se tudo se passasse há muito tempo. Deixam-nos andar por ali, duas eternas horas, em que vemos fotógrafos inusitados e irresponsáveis e desejosos de recontar a toda a gente que ali estiveram. Nesse mesmo local onde milhares de pessoas morreram, apenas porque lutaram pela liberdade de serem quem eram.
Auschwitz é um museu. Apenas isso. Uma memória pouco real do que se passou, em que tudo está colocado de maneira a que uma pessoa se esqueça, que chore e que respire de alívio, como se o que fosse ali representado não fosse o desmanchar desse sonho europeu em ser ideologicamente perfeito e irreal.
O pior, ainda está para chegar. O pacote turístico de que faz parte esta grande viagem onde acorrem multidões dispostas a viver um pouco daquilo que nem sonham que se viveu, contém ainda um bombom recheado de realidade e estremecimento. O campo onde tudo realmente se passou. Onde milhares de pessoas viviam, trabalhavam e morriam. Onde se pode ver as humilhantes condições em que estas pessoas acordavam, os quilómetros de habitações degradadas, as enfermarias onde eram mortas as crianças ou onde se faziam experiências médicas com as mesmas. Uma das maneiras mais usuais para se matar uma pessoa era levá-la a trabalhar sem cessar. Inevitavelmente, acabariam por morrer, estafados e cansados.
Não foi tanto o facto de poder ver o cabelo que era tirado às pessoas para depois serem tornados em colchas ou os vários métodos de tortura. Em Birkenau (Auschwitz II), o segundo campo de concentração, era uma realidade desmedida. Neste via-se a imensidão dessa tortura, um espaço que a visão não encontrava o fim, onde nada havia sido tirado do sitio, mas que em nada chocava os visitantes, não viessem estes já cansados e banhados em lágrimas do teatro que haviam visto durante duas horas.
O que me mete mais medo, são as pessoas que por lá passam e se perguntam como alguém pode ter tido a coragem para exercitar na prática um plano tão maquiavélico. São apenas vitimais do sistema neo-liberal que faz com que se esqueçam que hoje em dia, tudo se continua a passar, seja em África, seja no Egipto ou em Cuba. O que determina não é tanto a ideologia, mas antes o sentido de que não há vida para além desse mesmo pensamento castrador.E depois, continuamos ainda com essa mútua sensação do que o que ali se passou, foi algo contra os judeus, algo que nunca nos afectará a nós. E como nos enganamos!As principais vítimas foram sobretudo polacos e russos que lutaram contra a ocupação. O que ali se passou e continua a passar nos dias de hoje, foi uma luta contra os direitos e princípios humanos. Negros, deficientes, homossexuais, ciganos, franceses, ingleses, enfim, pessoas. O que importa é que eram pessoas cuja vida foi tirada, sem justificação. Toda a gente tem direito a escolher a sua identidade sexual, a sua religião, a sua nacionalidade ou de quem gosta. De cada vez que alguém é julgado por ser muçulmano, homossexual ou negro, estamos a reviver toda esta panóplia de sentimentos que julgamos não serem nossos.
Somos todos iguais e cada vez mais tenho a certeza disso mesmo. Aqui na Polónia ou em Portugal, encontro o mesmo tipo de pessoas. Pessoas que me atraem, pessoas que vomito de cada vez que falo com elas. Deveríamos ser todos sinceros e não precisar de exigir ou fazer aquilo que não queremos. Temos tão pouco tempo para fazermos e sentirmos aquilo que verdadeiramente nos faz feliz que nos deveríamos deixar de preocupar com o que realmente não nos acalenta o coração.
De livre vontade, reflictam se fizer algum sentido.

Wednesday, December 07, 2005

Cópia

Tentei de tudo para aproximar a tua certeza do meu olhar e nem por isso fui sempre bem sucedido. Copiei artigos, crónicas ladeadas de política e bom-senso para saber enfrentar essa tua necessidade de recriação que sempre me soube a alguma presunção. Sem saber como, rodeei-me de castelos que não foram construídos por mim, uma família que nunca foi um porto seguro, um rumo que eu sempre soube, seria sempre escasso demais.
Fiz-me assim forte, da tua distância, dessa omnipresença que teima em não me escapar de cada vez que entro nessa grande sala onde escuto atento, os grandes massacres humanos.
Tentei-te reconhecer nos filmes que observei, copiar a tua imagem a fim de a preservar mais respeitavelmente, conseguir conduzir por entre essa trajectória de palavras, aquilo que o ar nunca me deixou aspirar. Esqueci-me irremediavelmente, de que não é a arte que copia a vida, mas sim o inverso.
Vemos histórias passadas nessas grandes metrópoles, onde as pessoas se atropelam para conseguirem um lugar apenas um passo à frente, olhares que queríamos todos que fossem nossos, encontros desencontrados a que nunca diríamos que não, uma inveja sentida e nunca admitida. Tem de ser tudo em câmara lenta, em projecção afinada, com uma música de fundo a fazer-nos lembrar a adolescência.
Na verdade, as cópias nunca serão fiéis ao original, ficaram sempre aquém dessa magnificência que é a marca da primeira vez que somos tocados por algo. A vida acaba por não focar tudo aquilo que prevíamos nessas tramas elaboradas, apenas para pensarmos que o amor é uma construção, arquitectada à última perfeição, idealizada por um olhar certeiro, uma noite perfeita, um local preciso.
É devido a isso, que tantas vezes nos entregamos e enganamos. Quando tudo passa, já não importa mais. De resto, nunca nos daremos conta que a vida que levamos será apenas uma cópia moribunda de algo que nunca teremos e que talvez nunca tenhamos idealizado. Simplesmente crescemos e aprendemos desde sempre, que como tudo, também isso dependia de uma forte arquitectura, planeada a fundo.

Enquanto permaneço aqui, sonho e realizo uma história só nossa, para que ninguém mais se sinta tentado a tocá-la de maneira a que a segurança da nossa dependência mútua seja para sempre um segredo nosso e daqueles que nos observam atentamente. Consegui perpetuar a tua presença muito para além dos limites da minha consciência. A entrega, a minha entrega, faz-se assim, continuamente em ciclos que nunca param, em sentimentos que não posso conter, muito menos julgar. Não importa mais, se a perfeição é factor predominante nesse teu espelho que reflecte a minha visão, nem tão pouco saberei mais em acordar, sem sentir o teu calor permanente.
Encontro agora, no meio de tanto gelo, algo que me aquece, essa metáfora do meu ser, essa certeza nunca desfeita.
Querer-te tanto, afinal, nunca foi difícil para mim.

“If i could tell one thing to the world it would be
Not to worry
Cause worry is wasteful and useless in times like these”

Jewel_Hands

Tuesday, December 06, 2005

Intangibilidade

Já não sei bem por onde começar a proferir essa corda que se amarra e nunca acabará por se desatar. Sem saber como, compreendo agora as mistificações das relações intemporais, proclamadas em declarações de poesia, que sempre me soaram a um vazio gélido.Por isso escrevo, a fim de encontrar uma fuga para essa explicação que raras vezes não tarda em chegar, essa síntese de um amor sublime, como deveria ser o teu olhar, quando não me sentes por perto. Achei que se te encontrar num lugar profundo, consigo arrancar de ti tudo o que sempre quis ouvir e nunca hei-de conseguir proferir. Problema de expressão, há-de ser sempre o meu, mesmo sem grande razão, onde me afundo sem nunca me sentir, sem nunca te ter por perto.Não estou mais preocupado com o meu riso que alcançará sempre tonalidades ora excepcionáveis ora execráveis. Serás sempre assim, por entre aquilo que sinto e aquilo que mordo, o que me segura e o que me alimenta, a entrega possível e desejada, a maçã roubada. O meu pecado por fim, como se amar o pudesse de facto constituir.Substituí-te a curto prazo pela bebida, que não exige nada de mim e acaba por ter o mesmo efeito em mim que a tua presença - a alienação completa do que está à minha volta, para apenas me concentrar na obsessão absurda que é o teu corpo.Corro então, os balcões em que todos dormimos, finjo que me rodeio de uma intangibilidade despreocupada como se o vento não me cortasse as orelhas, como se não fosse isso que eu quisesse, nas muitas das vezes em que me cercam com verdades que só eu esperava saber.Preciso de outro mote, de outra carga, do teu peso e da tua comodidade. Preciso de sentir o que já senti, de lamber as minhas feridas a fim de estar completamente – e que sonho – pronto para ti, quebrar essa regra a fim de equacionar a solução para um problema que cada vez há-de receber menos importância.Fácil é sonhar em querer, difícil há-de ser sempre ter o que nunca conseguiremos ter, pior é termos a consciência que nunca o teremos.Vou ser sempre mais feliz, enquanto conseguir perspectivar um plano conjunto, nesta idade que corre depressa de mais e se fecha sobre mim, para que no fim eu seja ainda uma criança. Mentiria se dissesse que não és. Perder já não faz parte de mim.


We should all be praying for time

Wednesday, November 23, 2005

Visão

A minha inspiração és tu. A minha ferida enrolada em carne viva, a minha experiência conseguida e arrancada do fundo da minha dor dormente. Fiz-te assim à minha imaginação, partilhei vidas e construí domingos solitários com alguém ao meu lado, porque sempre soube que chegarias e me reconciliarias comigo próprio. Quero esquecer a tua inactividade que tantas vezes me frustrou e concentrar-me no telefone que teima em não tocar, a fim de ouvir a tua voz que sempre me chamou.Falta-nos sempre coragem para alcançar o que sempre queremos. Deixamo-nos estar nessa forma inerte e pesada que é a nossa diária preguiça mental para nos esquecermos que podemos também ser felizes.Corri sempre na tua direcção e nunca te encontrei. Inventei amores que não se sentiam, paixões que não colidiam. Entreguei-me também eu nessa força que é a plenitude de não se viver. Procurei-te na noite e na música que me ensurdecia esperando sempre essa casualidade que me havia de matar, já eu sabia. Estiveste ali a um alcance da minha perspectiva, da minha oblíqua visão, e eu perdido nessa graça que é não compreender como se acorda, não pressenti que tudo poderia ter acabado ali.Foram tantas as palavras que proferi sempre, antes de me deitar na esperança do alcance dessas mãos que haveriam de ser minhas; poderia ter evitado tanto se o meu pedantismo não fosse reconhecível aos meus olhos…Qualquer coisa como fazeres parte de mim.Falta-me tempo, falta-me o dia que se rompe demasiadamente cedo, falta-me essa inutilidade que me corrompeu. Inventei tanto sobre ti, escrevi tanto sobre ti, que quando acabei por te notar, simplesmente não estavas lá. Não estavas comigo.Por isso atiro-te com essa almofada cheia de pena(s) para que percebas, mas para que não te magoes também, que o que sinto é um fardo inexplicável, que a fragilidade da dependência nunca me seduziu, que as tuas calças de ganga sempre me pareceram um pouco justas de mais.Não sei já, se te disse demasiadas vezes que espero o reencontro com o perfume que nunca usas. Tocar-te nem que seja por um ínfimo minuto, o mais longo da minha vida. Quis sempre tanto sentir o que sinto e partilhá-lo com alguém que agora que chega esse solene momento, me sinto derradeiramente pequeno demais para o conseguir fazer. Que as palavras não sejam precisas, que o silêncio seja apreciado juntamente com a combinação das nossas feridas que hão-de crescer para nos atormentar, sempre.Sinto-me um fantasma, por entre esta cegueira permanente.“Amo-te como se não houvesse amanhã”."

(…) Ghosts have just as good a right In every way, to fear the light, As Men to fear the dark."Lewis Carrol

Friday, November 18, 2005

Afirmação

Gostava de ficar por aqui, a fim de partilhar a essência translúcida da cor dos teus olhos. São sempre eles que me guiam, entre vozes que escuto quando percorro esses corredores que nunca me pareceram honestos. De vez em quando, percorre-me ainda um medo sincero de não ter mais tempo para agarrar, de calcular demasiadamente o preço da nossa relação que acabará sempre por custar mais do que teremos para oferecer.Nunca é fácil. Constroem-se casas que nunca havemos de habitar, pontes que supostamente nos hão-de levar a algum lugar onde poderemos respirar mais sobranceiramente. Por isso fujo da tua imagem, artilho-me com bombas e preconceitos, julgamentos que nunca quis objectivar, mimos dados a outro alguém que nunca há-de os merecer. Queria-te assim, no sofá à minha espera, como se o mundo lá fora fosse frio demais, como se o nosso suor bastasse para nos iludir também.Agora que aqui estou, peço sempre mais, exijo ainda mais. Quero ultrapassar os erros, quero viver por entre esta experiência, quero acordar quando apenas só tu estás ao meu lado. Fico reticente, atravesso este idioma como se o dominasse e finjo que te encontro, mesmo quando não te busco, mesmo quando nunca estivesses lá.Queria-te aqui, de noite, que é quando adormeço e me sinto mais vulnerável, mais inseguro, mais frágil. Agarro-me ao que tenho, mas o que tenho nunca há-de ser comparável ao que sempre tive ao teu lado.Desisti já de tentar entender, por detrás dessa objectiva que tanto me esmaga, a razão de tanta falta de sensibilidade de alguém que só me mostra que apenas contém isso mesmo. Sinto-me perdido, tantas e tantas vezes, nessa roda dos ventos sem direcção, embrenhado nas tuas imagens que se formam cada vez que respiras, por entre isto que sinto e que não posso nem quero largar mais. Deixo-me ir sem controlo, sem perseguição, mas sempre com vontade que me perguntes e que me faças dizer o que realmente sinto, porque esta incapacidade indigna que trago comigo pode ser fardo demasiadamente pesado, para alguém tão leve como tu, segurar.Fora de ti, fora desse corpo que carregas, nada faz sentido. Onde só tu encaixas, onde só tu permaneces. Os outros não importam mais, os outros não hão-de importar nunca mais, porque agora que sinto o frio a congelar a minha cara em todos os aspectos, sei que foi aquilo que sempre procurei entre autocarros vazios e guitarras desafinadas.Não quero uma explicação. Sei perfeitamente que o amor há-de ser sempre o mesmo, que o tempo não é controlado por essa máquina a que chamamos Deus e que o piano que tantas vezes tocaste enquanto adormecia, faz agora mais sentido do que nunca.Não quero uma explicação, apenas uma afirmação sucinta e básica como sempre fomos, como sempre nos entregamos. Revela-me porque é que nunca esperaste por mim, revela-me onde escondeste essa força que agora te trouxe até mim. Sussurra-me para que ninguém escute, para que ninguém se aperceba que o que tens é muito mais do que o que mostras.Jura-me apenas que não estou errado. Que quando esta dor aperta e me sufoca, te encontrarei um dia mais tarde à minha espera, que o que sinto não se pode extinguir, que tu és a materialização da verdade para mim. Leva-me contigo e levanta o teu mundo para que eu o possa perspectivar. Faz-me querer mais de ti, dá-me apenas mais um bocadinho de ti. Jura-me apenas que nunca estive errado.

“Love will be the same”The Gift

Thursday, November 17, 2005

Pela metade

Somos e continuaremos a ser, apenas uma sombra do que poderemos ser. Vivemos um pouco enjaulados demais, a esconder o sofrimento, a espalhá-lo um pouco mais pelo corpo, para que não se note. Escondemos as lágrimas, mas nunca o passado, essa fábula encantada que nos despreza e odeia.
Corremos assim, fieis ao nosso instinto, num mundo que ser quer ocidental por força e por falta de vontade, rodeados por uma ideologia que se sobrepõe à massa unificante para apenas a estabilizar.
Crescemos então um pouco concentrados no que poderemos vir a ser, sem nunca notarmos sequer o que já somos. Tudo passa a ser um fardo, tudo se quer fácil e exíguo, sem manchas ou podridão. Por isso mergulhamos a fundo na noite, espreitamos um bocado em todas as bolas que rodam um pouco por toda a cidade, a fim de encontrar o eixo acertado. Acabamos por fechar os olhos e deixamo-nos ir, nesse sentimento infectado que não é nosso, mas que sempre gostaríamos que fosse. Na verdade, tudo passa à nossa frente. Imagens e imagens compostas por palavras frias e corpos baços que se juntam e se desintegram, para no dia seguinte não se reconhecerem.
São poucas, na realidade, as capacidades que possuímos, entre os glamorosos erros que presenciamos nesse relógio que jamais irá despertar. O sexo passou sempre a ser a fonte de prazer mais fácil de atingir. Tornamo-nos escravos, um pouco, do sabor da nossa carne, que acabará sempre por saber a um descontentamento bestial. Por isso procurámos mais, por isso perdemos continuamente a consciência que o sexo é e deve ser algo partilhado numa intimidade imparcial, que nos conduza a uma experiência dignificante em quanto ser que se querem humanos. Procurámos tantos a felicidade, proclamamos leis para a atingir, mercados onde a comprar, mas nunca nos damos conta do quão fácil será evitar a necessidade da ilusão que nos levará sempre à infelicidade.
Provavelmente será sempre o mais fácil. Há tantos como nós, ávidos por saltar fora desta rotina mórbida que nos torna apenas metade do que poderíamos ser, que pensamos que o que sempre foi proibido e julgado, há-de ser o melhor caminho para um momento despreocupado e desencarecedor. Deixamos portanto de brincar aos adolescentes apaixonados, que dizem “amo-te” como quem compra uma camisola da nova colecção da Bennetton, para nos envolvermos o mais depressa possível, porque dizem-nos que a vida é curta, nesse jogo de artimanhas e pescarias que são as relações fornecidas pela maioria dos adultos.
Em pequenos, deviam nos ensinar e incutir, como tantas outras coisas que nunca havemos de aplicar, que o sexo longe de ser algo pecaminoso, é suposto ser algo comprometedoramente saudável, um acto de transferência de intimidade e carinho sem igual. Uma entrega do corpo e parcialmente da alma, que nos leva ao extremos de nós próprios a vasculhar o corpo de alguém. Vai, de facto, muito para além de uma simples tesão ou de uma forte atracção muscular que surpreende as nossas hormonas e nos faz querer ser rebeldes.
Falta-nos um bocadinho de nós próprios. Por isso tentamos busca-lo em todas as caras e corpos, a fim de preencher esse vazio que tanto se avizinha. A consciência de que algum dia poderemos encontrar alguém suficientemente valioso para essa entrega máxima, sempre nos passará ao lado. Somos livres e proclamamos essa liberdade, como se o Muro de Berlim só agora tivesse sido derrubado.
Acho que sempre nos faltará um pouco de nós.



Looking for some educationMade my way into the night
All that bullshit conversationBaby can't you read the signs?
I won't bore you with the detail babyI
don't even wannna waste your time
Let's just say that maybeYou could help to ease my mind
Baby, I ain't Mr. Right But if you're looking for fastloveIf that's love in your eyes
It's more than enough
Had some bad luck
Some fastlove is all that I've got on my mind
Hey baby, Looking for some affirmation
Made my way into the sun
My friends got their ladies
They're all having babiesI just wanna have some fun
I won't bore you with the detail babyYou gotta get there in your own sweet time
Let's just say that maybeYou could help to ease my mind
Baby, I ain't Mr. Right But if you're looking for fastloveI
f that's love in your eyes
It's more than enoughHad some bad luck
Some fastlove is all that I've got on my mind
Get yourself arrested for love
So closeI can taste it now baby
So close In the absence of security
Made my way into the nightStupid Cupid keeps on calling me
But I see nothing in his eyesI miss my baby, oh yeahI miss my baby tonight
So why don't we make a little roomIn my BMW babeSearchin' for some peace of mind
Hey, I'll help you find itI do believe that we are practicing the same religion

G.M. Fastlove

Thursday, November 10, 2005

Evidencia


São raras as vezes em que acerto verdadeiramente na perspectiva do teu olhar. Não sabendo como, fui-me deixando ir nesta dor inabalável de quem me diz sempre que o amanhã será mais rápido do que o momento fúnebre que se vai vivendo dia-a-dia.
Persigo-te entre terras e verbos que desconheço mas que uso de uma maneira sublime, apenas porque a intuição que trago não me deixa cair nesses olhos cor de terra, de quem já sentiu pouco e por isso mesmo desconhece o que é sofrer, apenas porque se existe. Como se houvesse alguma validação nesse pronuncio, nesse fado tantas vezes repetido à exaustão, nessa panóplia de lentidão assemelhada à liberdade que tantas vezes proclamamos.
É tudo um conceito. Somos fieis ao que nos ensinam, ao que nos apontam, àquilo que os outros fazem e raramente à música que muitas vezes tocámos sozinhos na escuridão do sótão em que quase todos vivemos. Arrisco-me a negar a evidencia que corre pelas imagens, nesta música sorrateira que me embala.
Massacram-me com perguntas acerca da cor do céu, do comportamento dessa máquina que é o ser humano, como se eu possuísse alguma verdade por entre esta tristeza que tantas vezes trago.
Não quero e desisti de o pedir já, mais do que me tens oferecido. Sei e reconheço as limitações de cada uma das nossas mãos, entre palavras que não flúem entre ti, entre essa especialidade de humor não corrosivo. Só quero ter controlo daquilo que sinto, desta transcendência que abarco, desta projecção de sentimentos que invariavelmente nunca saberei explicar. Gostava de tocar esse mar, de voltar a ser inundado pela melancolia de Sophia, beber dessa inspiração máxima de Eugénio a fim de repousar um pouco na simplicidade de Torga.
Ninguém me disse que seria fácil, ninguém cometeria um devaneio de densidade tão dramática, ninguém me deixaria sozinho. Por isso fixo o olhar na tua imagem, percorro as escadas de algo que sinto a fim de encontrar a razão que sei que nunca irá existir.
No fim, só restarás tu.

“Estou mais só do que sozinho
Chega mostra me o caminho
Leva me pra casa…”


Lúcia Moniz

Sunday, November 06, 2005

Segurança

Não quero, nem espero que me ofereças mais do um abrigo para este feitio massacrado que trago em mim. Procuro-te na comida que faço a fim de saborear um pouco mais de ti, a fim de sonharmos os dois entre nuvens que nunca hão-de chegar até nós.
Amar nunca foi, percebo agora, um fardo inconsequente ou árduo sequer para mim. O encontro com a desilusão e a finalização da ilusão é sempre algo muito mais duro que nunca percebi muito bem porquê, não suporto. Faço de conta já que não escuto as longas promessas que me fazes um pouco mais alto do que a música que o vizinho passa a altas horas da noite, quando bebe um pouco mais do que consegue, também.
Tenho um medo descontrolado de não conseguir arcar com essa ternura que carregas em ti, esse mimo deambulado que me deixa ser apenas morbidamente teu. Leio os romances que sempre me apaixonaram, recordo as músicas que a tua boca prometeu e eu que pensava que nunca encontraria nada assim.
Por isso e continuamente, fujo ainda de ti, para que tenhas essa ânsia também de me encontrar. Armo e arquitecto, como bom manipulador da retórica que sou, pela força não da vida, mas das circunstâncias que me foram sendo impostas, intrigas desmesuradas, perfeitas tonterias que imponho apenas para controlar o início e o fim de algo que sempre saberei ser pequeno demais para aguentar.
De vez em quando estremeço, o corpo abana-se mais um pouco e por momentos, acabas por vir até mim, passas por cima das barreiras que fui impondo a mim mesmo, um pouco como toda a gente e acabas com este enredo que crio apenas para me sentir mais seguro. No fundo, sempre o que quis, o que todos nós queremos, alguém que nos amarre nesse poço de segurança e que acalme a rebeldia que vive em nós e nos embale antes de nos deitarmos. Não percebo, já há algum tempo, se deveria sentir algum embaraço por ter a consciência que aquilo que escrevo é realmente aquilo que sinto.
É que esta espécie de dor, esta marca que tão apressadamente me colocaram não tem mais tempo por onde correr, nem explicação por onde se encontrar. Enquanto isso, fujo com o piano nas mãos, a fazer de conta que ainda hei-de tocar a melodia que despertará a força que secretamente vive em ti e que teimas em fingir que é apenas mais um dos meus devaneios contemporâneos de alguém que pensa de mais.
Vezes há, em que me perco na minha rota, escrevo não o que penso, mas o que toda a vida ouvi, caio e acabo por me sentir um pouco mais humilhado. Adormeço apenas para me sentir um pouco mais perto de ti e quando acordo o amanhã que sempre esperei já é o hoje que nunca quis encontrar. Há flores que encontro que talvez fossem para ti, há dores que sinto e que nunca consegui partilhar contigo. No fundo sei que nunca ninguém alterou tão rapidamente a distância do meu olhar, que me fez entregar tanto, fazendo do tempo e do próprio espaço esse mistério indefinido, que sempre acabará por ser. Encontro-me separado por milhares e milhares de estradas, desencontrados, apesar de voltarmos sempre à mesma rua de sempre, aquela que tantas vezes conhecemos e tantas vezes quisemos que fosse nossa.
Procuro-me ainda no vento nórdico que por ironia teima, como tu, em chegar. Saberei eu muita coisa sobre os sentimentos e sonhos que deveria ter sonhado e vivido, desta experiência que abraço com a força da tua imagem, deste sentimento que me traz sempre para um abrigo mais do que seguro. Saberei eu muito sobre películas que passam na tela sem que as pessoas se apercebam que é a sua vida que está a ser mostrada, saberei eu muito sobre ti, embora não tenha encontrado – com pena - a chave para tanta partilha.

Ouço ainda a nossa canção, um pouco à espera da tua voz, um pouco à espera do teu corpo, um pouco à espera de ti. Não te rias de mim, tudo o que eu sempre procurei encontrei nos teus olhos, numa luz impertinente que nunca mais saberei onde buscar outra igual.

You smile at me like a Jesus to a child
Guess why.