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Tuesday, June 03, 2008
Retorno
Já nada disso interessa, porque enterrei nessa escuridão tudo aquilo que julgava não ter esquecido, nesse mesmo lugar onde acabei por me perder.
Perde-se metade de uma vida a tentar encontrar o que fazer com tantos sentidos e noites mal encontradas, frases refeitas que encontramos em algum livro do qual já nem lembramos o nome e no fim, resta apenas o amor que desperdiçamos ao longo de todo um percurso que se acabou por tornar monótno.
Não, não escrevo com parágrafos e as frases normalmente são longas demais, mas é um ciclo que se fecha irrepetivelmente e deste corpo já não sai mais nada que possa ser consumido de uma forma que eu nunca quis e que nunca acabou por acontecer, por ter despertado antes mesmo de o ter feito.
Fecha-se um ciclo corrosivo e fugaz de experiências que se foram consumindo e que fui deixando para trás. Planos de uma mesquinhez absoluta que eu próprio desenhei e que foram deixados do outro lado do oceano para me provarem que finalmente estava errado querer oferecer-lhes uma conclusão, mas certo em ter equacionado todas esses risos perdidos que não efectuei.
Verdades feitas, para quem lê este amontoado de palavras que sei que só eu percebo e entendo. Amontoado de sentimentos e expressões que nunca chegam a ser aquelas que gostava que sentisses, mas que acabam sempre por serem refeitas e recicladas nas direcções de alguém que não me pertence.
Soube sempre que a batida me traria a um lugar profundamente desconhecido e miserável, por isso acabei por abandoná-la inconscientemente e deixar-me perfurar por toda essa realidade de ter conquistado o que as minhas mãos não podiam segurar.
E segurar é assunto da alma que transportamos, mas essa foi ficando fechada demais para que algo a pudesse sequer tocar e foi assim que se foi crescendo, em meses de euforia e adolescência terminada, com o final à vista, como se já não pertencesse a esse lugar encantado.
Foi assim que presumi e reconheci que finalmente acabou e que não há volta que me possa fazer retornar ao campo minado que é saber aquilo que se gosta, quando já se pensou que se gostava do que se tinha, mesmo que esse, não fosse o producto ideal.
Há segredos que se escondem e se são segredos, nunca são bons, porque ninguém guarda só para si algo que sabe que pode deixar o resto do mundo bem disposto.
Resto do mundo.
Como se o resto do mundo estivesse interessado em conhecer aquilo que nos faz feliz, como se o resto do mundo se interessasse no miúdo que é roubado à porta do autocarro ou do porteiro que passa a noite toda acordado, sem nunca poder dormir com aqueles que ama.
Dormir talvez seja o acto mais inconsciente mas que raramente o fazemos com quem nos sentimos desconfortáveis. Há sempre um sentimento de desconfiança, de insensatez em adormecermos ao lado de alguém que não sabemos o que nos pode fazer nesse estado tão latente. Por isso, já dormi com todos aqueles que vou amando diariamente, com quem me sinto bem e solto gargalhadas e cozinhados e em quem posso confiar e que sei que nunca me hão-de abandonar, que a amizade é feita dessas certezas e de vez em quando existe.
Por isso, quero voltar a dormir contigo, sem que nada me separe desse conforto que é poder abraçar-te e esperar que tudo seja uma eternidade, mesmo que seja muito tempo.
Por isso, nao posso largar-te agora e esperar que fujas, como sempre o fizeste. Por isso, adormeço a pensar em ti, na esperança que quando acorde, regresses, como sempre o fizeste.
Best Friend The Cure. Just Like Heaven
Friday, May 30, 2008
Antes que o tempo se acabe
Enquanto atravesso a água, revejo os pequenos caminhos que fomos todos traçando, como se não existisse ninguém e sorrio. Mais por dentro do que por fora, para não acharem que tenho muitos segredos, como diria a Agustina.
Chamo os grandes autores pelo primeiro nome, como se fosse meus companheiros de eternas memórias, porque é assim que os considero. Próximos, confidentes e principalmente confiáveis. Através deles não viajei, como muitos o tentam advinhar antes de acabar a frase. Antes, deram me vontade de viajar e ver esse mundo pelos meus olhos, sempre com a perspectiva deles na minha consciência.
São mais do que meus conhecidos, ganhei-lhe a confiança de serem levados por mim pela por essa américa latina, onde vigora uma mentalidade colonial muito mais inquietante do que se pressupunha. Lídia, Inês ( sempre Inês) António, José, nomes que representam uma cultura e que no fundo, podiam ser qualquer um de nós.
Enquanto atravesso a água que me rodeia, absorto nestes pensamentos que muitos considerarão inportunos, constato que sempre estive sozinho e de só agora querer ter consciência plena desse facto.
Facto, factos, facto. Tudo me parece uma repetição sem sabor, na maior parte das vezes. Factos que se parecem com verdades irreconhecíveis, postulados que nos indicam o cheiro das coisas, principalmente das inatingíveis.
Enquanto percebo que estou sozinho, compreendo que foi sempre isto que julguei querer dizer-te e que afinal nunca o consegui, por limitação emocional ou sensorial, que há mecanismos ainda não decifrados bem cá por dentro.
Tenho pressa de chegar e contar-te a falta que me fazes, bem por dentro de toda esta água onde consigo ver a minha imagem bem lá no fundo, como se fosse eu que estivesse reflectido por todo o lado onde alcanço e me posso segurar.
A falta que me fazes.
A falta que me fazes e que eu sempre neguei. Tudo é um processo de negação, se reflectir no meu percurso. A negação do amor que sinto é apenas mais uma a juntar a uma colecção infindável de projectos e narrações mal construídas, desenhadas por momentos cinematográficos realizados especialmente por mim e para mim.
Ninguém cabe neles e por isso rejeito qualquer intervenção, sem que ninguém o perceba. Ou talvez não.
Cansei-me de tentar analisar o meu projecto de vida por os olhos que por mim passam e mesmo assim não me canso de achar que te vou perder mais facilmente do que alguma vez julguei e que isso finalmente vai ter algum peso na minha vida.
Quero-me independente, dinâmico, corajoso e muitas vezes demasiado racionalista, como se o mundo em que eu sonhasse não fosse utópico. Passei a chamar-lhe assim, para nunca o esquecer que ele não sobrevive cá fora e fui guardando-o só para mim, num misto de mesquinhez e protecção em demasia.
Mergulho finalmente e sinto-me no meu ambiente puro, imaginando que é aqui que pertenço e não terei mais de voltar à tona. Mergulho para me dispersar da rotina que se faz lá fora, da comodidade de certezas que vamos acomulando no nosso sofá da sala, cada vez que nos sentamos e adormecemos. E quando acordamos, já tudo se passa na escuridão e foi mais um dia do resto da nossa vida.
Mergulho para tentar perceber de que é feita de facto a minha vida, a fim de tentar encontrar alternativas sagazes e vencedoras, mas acabo sempre por me deparar com as que comigo partilham essa merda tantas vezes anunciada que é a nossa vida. Tenho tanta vontade de acordar e que todos acordem comigo que me perco entre tentar encontrar um plano rebuscado que englobe todos aqueles que acabam por me serem queridos e por partilharem um pouco de mim com eles e por terem a coragem de me deixarem sozinho. Que a solidão é esse estado difícil de todos aqueles que não se acham perfeitos o suficiente e do qual todos tentam fugir, um pouco, porque somos confrontados com todas as certezas concretizadas por nós próprios e pela imagem que acabamos por criar de nós, segundo os outros.
Ter tempo para encontrar a solidão é ter tempo para nos afastarmos do sofá, esse acumular de sonhos desfeitos e inconcretizáveis. Desculpem a minha implicância com o sofá, mas é aqui, debaixo de água que vejo o quanto é um dessiminador de doenças como a habituação e ociosidade.
E a ociosidade juntamente com mais alguns conceitos, leva e subscrevo mais um amigo meu , Paulo Prado, à tristeza. Se vivémos numa cultura triste e com falta de alegria de viver, é por causa, muito em parte, dos sofás que vigoram pelas nossas casas e que tentam ser os nossos melhores amigos, sempre que chegámos a casa, estafados da merda do trabalho que os nossos pais nos conseguiram muito a custo, ou da sesta que acabamos por dar todos os domingos.
O sofá é o emblema da tristeza, porque não nos permite ter uma interação com mais ninguém a não ser com o vazio que a televisão nos propõe ou a paisagem que não conseguimos ver, lá fora.
Mesmo sexo de qualidade, é quase impossível, a não ser que estejamos a falar de anões. O sofá afasta-nos da realidade, chama-nos porque é apetecível, mas desgasta-nos e cansa-nos e nós nem percebemos porquê e quando nos levantamos estamos tristes e nem nos damos conta. Achámos que a culpa é do senhor das pizzas que chegou tarde, ou de no dia seguinte termos de ir trabalhar, mas na verdade estamos tristes porque estivemos sozinhos, mesmo que acompanhados.
E ninguém na verdade quer saber, porque achámos sempre que os objectos não têm essa capacidade, quando na verdade eles são personagem coadjuvante de todas as nossas vidas e nós nem queremos saber, por querermos manter a ilusão que superamos sempre, tudo, sozinhos.
E o que se faz com aqueles que amamos? Como é que conseguimos evitar todo este processo em todos aqueles que queremos que se mantenham vivos e que consigam dançar entre o sol que nos queima a pele e anuncia um dia melhor, amanhã, sempre amanhã?
Como é que te faço compreender que se ontem, todos os meus problemas pareciam tão distantes, hoje tudo se retoca e se recria, como se tivesse nascido hoje e que te quero levar para bem longe, onde nos perdemos por entre a noite e onde toda a gente adora as nossas cicratizes, fruto das experiências que fomos adquirindo.
Como se alguém, algum dia fosse compreender o que foi crescer por entre aquela casa, brincar com todos aqueles objectos e mesmo assim continuar a amar quem nos levava para a cama, ao fim de todos estes anos.
O pior, sempre, é de quem já cá estava antes para nos proteger e nós não nos demos conta e por isso a comunicação se torna ruidosa e muitas vezes aflita.
Não, as memórias não são um sonho, por muito que queira, mesmo aqui por entre a água, tudo me parece inócuo e pouco saudável, mas o amor não pode ser negado. Quando voltar à tona, quero regressar e agarrar aquilo que é meu, por direito. Fazer algo como gostaria que tivessem feito por mim, nesse dia em que mergulhei e descobri depois que não sabia nadar. Agora, tudo me faz bem, a água, a areia, mas nesse dia, tudo me pareceu aterrador e eu pensei que ficaria sempre encoberto. Para sempre.
Descobrir o amor que nos pertence e que nunca nos vai deixar é uma tarefa árdua. O David, esse pregador da vida pop é que diz que muitas vezes o amor não é suficiente e eu mesmo não acreditando, vou cantando com ele. Se o amor não é, o que há-de ser? Que outra força puderá superar a vida mundana que criamos? Encho-me de perguntas, sem esperar respostas. Por isso, guardo a fé e o amor que sinto, apenas para mim. Há coisas que evidentemente não podemos partilhar, mesmo que isso nos deixe mais frios.
Por mim, continuaria a escrever mesmo sem ter a certeza se alguém alguma vez vai acabar de ler e me ouvir enquanto permaneço debaixo de água e vejo a minha impressão digital ser cravada na areia, para logo desaparecer.
Estou alienado e conservado pelos segundos que ainda aqui posso permanecer. Aqui não há ninguém, apenas eu e o que resta de mim, felizmente. Encontrei a verdadeira natureza da minha essência, mesmo sabendo que nada voltará a ser tão bom como outrora.
Gostava de te levar comigo, repito. A ti, a ti e a ti. A ver se podemos constituir um recanto mais forte e feliz, baseado naquilo que deve ser união e companheirismo, confiança e lealdade. Quando é que deixamos todos de acreditar que isso poderia ser possível? Separamo-nos por acharmos que nos enfraquecemos, mas cada vez mais tenho a certeza de estarmos todos errados, principalmente aqui, onde vos consigo ouvir e entender porque é que cativámos sempre as pessoas com perfil XXX. Se interessasse contar, contava. Quando passar a interessar, conto.
Até lá, mantenho-me na ignorância de o esquecer, até porque tive a sorte de poder ser o último e antever o que a nossa teimosia nos faz esquecer.
Talvez sejamos todos loucos, que nos apaixonamos sempre por palavras e guitarras daqueles que sabemos que nos vão desperdiçar a vida entre clichés e artigos mal escritos, e que nos acabam por enlouquecer com tanta segurança e banilidade, que incialmente nos cativou.
Estou farto de escrever parágrafos na minha mente a ver se encontro algures ente o arco-íris e a linearidade feminina uma chave de inocência rasgada com um toque de sabedoria de mestre, que claro está, parece não exísitir.
De facto ( e lá vêm os factos), deixei de me interessar por isso, mesmo que aparentemente não pareça. Passei a estar seguro na minha própria leviandade que é nula, quando tem de ser exercida sem vontade e perco a vontade de comunicar, por entre um duche que nunca me limpa, numa casa de banho que não é minha, mas que mesmo assim não me importo. Não fui educado para me incomodar com os limites dos outros. Com esses, posso e aguento eu bem. Posso ter alma, mas no fundo e por mais que isso me mate, não sou um soldado e por isso só quero salvar aqueles a quem eu quero bem.
Talvez tudo se resolvesse com mandar queimar todos os sofás daqueles que os têm (todos) e descansar assim a consciência de ter feito algo por eles.
Enfim, acaba por doer a toda a gente, mas se calhar mais a mim, que estou cá por baixo há tempo demasiado e também me começo a sentir incomodado pela falta de algo mais do que idealizar o futuro da minha vida. Esforço-me tanto para que isso aconteça por ver o exemplo de todos aqueles que apenas vivem para o presente e não consquistam nada que se assegure por si só. Talvez por que foram conquistados e se acomodaram nessa escravidão cultural e nos sofás que foram comprando em quinze prestações.
O mais difícil não há-de de ser dizer adeus, mas de saber a altura que provocará menos consequências. A altura ideal para que isto tudo não se torne num grande cliché, que nunca foi esse o verdadeiro intuito da minha reflexão.
Sei apenas que gostava de te abraçar para sempre, por entre uma guitarra ou um piano, tanto se me faz e fazer força para que tudo corra bem, mesmo que seja aqui, debaixo de água, onde ninguém nos ouve e podemos dizer realmente tudo o que nos vai cá por dentro. Chorar sem que ninguém perceba, chorar mesmo que não tenhamos vontade, chorar mesmo que seja por nada, mesmo que seja por tudo, mesmo que seja por nós, nem que seja pela luz que nunca chegou e nos deixou sozinhos enquanto brincávamos, distraídos.
Gostava de te abraçar e repetir bem alto que havemos sempre de conseguir reactar o que nunca se acabou, que somos mais, nesse fôlogo nunca desfeito, nesse carregar de frustrações e carros emprestados. Fôlogo nosso, partilhado e atribuido, aqui, debaixo de água.
Hei-de voltar, antes que o tempo se acabe.
Best Friend .The Cranberries - Ode to my family
Wednesday, May 21, 2008
Café
Tornamo-nos anónimos da felicidade, por nunca lhe conseguirmos patentear a certeza de um futuro risonho, apenas porque não pensamos nisso.
Pensa agora que cais e que constatas a verdadeira natureza que é o amor e tudo o que advém dele. E eu ainda tenho a tua chávena.
Tenho a tua chávena que partilha a sobriedade da facilidade deste momento em que me esqueço e transpiro tudo aquilo que quero tirar e que acaba por restar de mim e para mim.
Tenho a tua chávena, preta, escura, onde só o líquido acaba por ser a metáfora da tua essência que ficou em mim, como se dependesse dela para correr, fugir e dizer que sim, quando me quero perder em tantas negações convictas.
Olho para ela e tenho apenas a certeza que quero manter todos os momentos novos e incertos, intactos, parados e eternos nessa dinâmica que é sentir o gelo a partir quando ainda sei que te amo, de cada vez que sinto a agua advir dessa praia.
Essa antecipação turbulenta e um pouco violenta, envolta nesses código semióticos onde a bolacha maria se torna combustível próximo da chávena.
É então que me perco ou acordo. Não entendo muito bem a separação destes dois estados, por nunca saber qual se iniciou primeiramente.
Sei que não são únicos e se sucedem simultaneamente e repetidamente, como a porra do café que insisto em beber. Há actos e acções que não sei mais se são prazer ou fuga dele mesmo. Uma habituação a fim de evitar cair da expectativa e me segurar perante os trâmites que se avizinham um pouco mais do que perigosos.
Perigosos e surreais, porque a chávena ainda existe mas o líquido já se escapou bem por dentro de mim, como se eu alguma vez o tivesse desejado. Como se algum dia ( e nisto a gargalhada solta-se de uma forma sonora e estridente) te pudesse ter esperado, antes que finalmente perspectivasse a tua identidade.
Espero então, ansiosamente, que não me voltes a chamar e a esperar que te queira tanto como me quiseste um dia. Tornei-me mestre nessa arte da liberdade desenfreada e nem constato que tenho medo que ela se torne um vício, como o amigo portista Sousa Tavares.
Isso é para quem tem tempo suficiente para não poder esticar os braços e querer ser novamente outro alguém, que não qualquer um de nós, novamente.
De ti, não tirava nada, porque a imperfeição se aperfeiço-a e me cativa, nessa dança lenta e muitas vezes morta que é a tua inocência.
Cada momento que passamos, cada sexo que tocámos, cada olhar que rasgamos, há-de ser nosso, porque de cada vez que caio, sei que não hei-de estar sozinho, neste lugar bem meu, apesar de comum.
Se não te importas com a tua alma e a direcção que ela toma, de certeza que farás o melhor por ti e por todos, porque eu hei-de estar antecipando a tua chegada a essa praia onde só nós estivémos e partilhamos.
Havemos de chegar um dia juntos e eu nem me dei conta. E então, só aí, vou perceber que a chávena nunca, em momento algum, esteve preenchida.
Best Friend jewel. Who will save your soul?
Monday, May 05, 2008
A minha praia
Dificilmente viverei como sempre vivi. Esta energia inerente à minha capacidade de saber levar a vida, transforma-se diariamente em raça e personalidade sagaz. Dentro do nada, conquistei tudo aquilo que sempre quis. Essa liberdade libertina, fruto da minha própria falta de inocência nos valores que povoam a realidade que diariamente abarco.
Hoje, prefiro falar apenas de mim. Sem mortes inusitadas ou fantasmas que acabam sempre por fugir de mim, mesmo quando não quero.
Nesse rio repleto de figuras e personagens que eu próprio algomerei, acabo por encontrar a lógica predemitada para a soulução da problemática estilizada.
Tudo com classe e charme, que são atributos que prezo, dentro de um palavrão que soa a gargalhada estremida.
Perco-me no fumo, mas encontro-me nos limites físicos do cansaço, por saber finalmente do que sou feito. Posso acreditar em tudo isto e gritar que só agora compreendi, mas verdade pelo menos será, que só agora realizei esta maratona de insanidade fugaz.
Deixei de me preocupar coma batida, com o destino ou com aquilo que faço dele, com o futuro que é tudo menos coerente e com a minha própria sensação de melancolia sempre que o domingo se avizinha.
E domingo é mais do que um dia, é uma personagem em qualquer vida, incluindo na minha. Daquelas personagens misteriosas, que provocam um friozinho no estômago e nos fazem temer por nunca sabermos o que esperar dele.
É um benefício e uma tragédia completa, isso da surpresa, e saber lidar com ela torna-se o caldinho predilecto da amargura. Se esperamos demais, nunca seremos satisfeitos por ela, se pelo contrário, esperarmos de menos, haveremos de ser condescendentes com qualquer meleka que se nos aparecer pela frente.
E liberdade para escolhermos o que nos agrada de facto, é tudo. O que eu desejo, tal como a Clarice afirma, pode ainda não ter nome, mas liberdade é um conceito que estará muito perto dela.
Liberdade de pensamento e de acção, de escolha e de casualidade, de força e de atração. Liberdade de destreza e prisão, de escrita e de grito, de sexo e finalmente, de amor.
Liberdade para sermos magoados, liberdade para sermos invejados e finalmente, liberdade para sermos amados.
As pessoas mais amadas, serão sempre aquelas que são mais livres, porque isso atrai todos aqueles que não são, não sabem que podem ser e mais importante do que tudo, como o ser.
Liberdade é sabermos o que somos, o que queremos e podermos dize-lo em voz alta, quando assim o entendermos.Liberdade é pouco, mas seria tanto para qualquer um, nos dias que correm...seria o after-eight que todos queremos comer depois do jantar, a tequilla que esperamos sentir a escorrer pela boca ou simplesmente o sofá da nossa sala que acaba por ser o nosso maior confidente.
Liberdade é isso e muito mais, porque não tem limite ou contigência, apenas quando infrigimos com a liberdade alheia, com o espaço do próximo, com o amor de quem não nos pertence.
Liberdade para nos movermos e encontrarmos um lugar que possamos de chamar de nosso e é nesse lugar que eu quero estar.
Onde reecontro a fundação do meu riso , a admiração de quem por mim passa e a música que afinal sempre fez parte da minha essência.
Gosto de estar por aqui, bem quente, de me sentir português cada vez mais e por ter encontrado tanto mais do que aquilo que algum dia esperei encontrar.
Afinal, estou do outro lado do mundo, nessa experiência que concretiza toda uma juventude. Um fechar do ciclo onde finalmente agrego todos os valores que sempre soube que valia a pena lutar por.
Esta questão do racicínio que não pára, dos erros ortográficos que se espalham apenas onde finalmente posso respirar, porque eu sempre soube que teria mais para ver, antes de fechar os olhos.
E que faço com esta experiência que se apodera visualmente e constantemente de mim? Que fazer com todos os risos provocados, pela novidade que é saber do que se trata a matéria envolvente ou o simples desligar daquilo que nãointeressa?
Este saber novo, esta novidade que me ACORDA, que me faz respirar como outrora ja respirara, mas mais leve e sereno. Onde ouço tudo aquilo que há para ouvir e apenas retenho o que me faz mais Luís Miguel Marques Gomes da Silva, seja lá o que for.
Vi muitas praias, bebi muita cachaça 51, comi muita cochinha de frango e parece que afinal sou feito de matéria bem menos corrosiva do que era suposto.
Gosto cada vez mais de mim, porque quem tem uma baixa auto estima, afasta todos aqueles que os querem e isso há muito que deixou de fazer parte de mim.
Alguém consegue ouvir o que eu consigo ouvir? É o barulho do mar, na praia. A minha praia.
Este país é a minha praia.
Best Friend All Saints . Pure Shores
Friday, April 25, 2008
Extinção VIII
Percorri mundos perdidos nessa busca infindável pela essência que fugiu desse teu corpo , que eu tanto amava.
Embora consciente dessa incompleta fusão, tenho permanecido sempre nessa esperança de voltar a rever o olhar que tanto me iluminava.
Devia contentar-me com as memórias, que são bem mais do que muitas pessoas provavelmente sonharam em viver, mas sou feita dessa matéria que corre sempre pelo impossível, em todos os lugares.
Já não podemos dançar, já não podemos correr nem sequer brincar ao quem é quem nas esplanadas da antiga expo.
Contigo, fui sempre muito mais do que esperava ser. E esperava mais, agora que estou perdida sem ti, mesmo sabendo que tu não sabes que eu te perdoo, em todas as ocasiões em que permanço sem ti.
Queres-me, ainda?
Agora que não dizes mais que amas o meu corpo, que não me abraças quando está frio, que não me fazes vir entre múltiplos elogios, onde só o amor contigo se tornava na foda mais íntima que alguém como eu podia ter.
Não me tratavas como se sempre fosse o meu aniversário, mas eu sentia-me especial, mesmo quando eles diziam que tu haverias de voltar a gostar de costas largas e perfeitas, como de uma droga se tratasse.
Já me tentararam convencer de tudo. Se soubesses...
Eu sei.
Disseram-me que estavas morto, que tinhas ido ter com a minha mãe, nesse lugar secreto que ninguém quer alcançar, mas que todos acabamos por chegar.
Mesmo ele, que foi o secreto causador de toda a morte que paira na minha vida, me diz que tu já não estás connosco, de forma nenhuma. Corre comigo para o cemitério, apresenta-me o lugar onde supostamente sempre estiveste e entrega-me um cd do Caetano Veloso. Ainda lhe pergunto se ele estará a gozar comigo, mas ele diz naquele sorriso de criança mal criada, que é para eu ter consciencia que nunca mais terei aquilo que lhe acabei por roubar.
Dizias-me tu sempre, que os homossexuais, tal como as mulheres, não se de extrema confiança. Viram a personalidade no momento em que lhes convém e como passam uma vida de reflexões sobre a melhor postura social, só mostram aquilo que querem e quando querem.
Mas o que sabe ele, para além de gostar de ti, menos do que eu? Entro em casa, acendo um charro de uma merda qualquer que comprei pelo caminho e coloco o cd.
O Caetano canta “chega de saudade”, mas eu não sei o que fazer com ela. Sinto-me desnorteada, e massivamente carente e sozinha. Bem sozinha.
Deixei de acreditar em toda a gente e acabei a desconfiar de mim. Nem as minhas lágrimas suporto mais, por isso, desligo a luz na esperança ténue de não ver sequer a minha sombra.
Como me repetem que morreste, se ainda ontem passei por ti? Estavas na posição estática de sempre, mas novamente com a expressão de que me ouvirias, como sempre.
E eu que não sei o que fazer com esta liberdade que se me foi entregue. Apesar de ter consciencia que estou perto da insanidade mental sei ainda o que quero ao contrário da incompreendida da tua amiga Clarice. Não era ela que dizia, e tu repetias, “liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome”?
Todos sabem o que eu quero, por entre estes dias chuvosos, onde hei-de me tornar a única que esperará por ti, mais forte do que alguma vez fui. Talvez seja por este processo que teremos todos de passar, a fim de conseguirmos coragem de encararmos quem somos. Não sei. A merda que comprei é tão má que me enjoa facilmente. Alterno entre procurar por um novo eu e por amar a porra de situação em que estou. E é disso que me culpam, de me ter acomodado à tua ausência e de arranjar aí a justificação para me abstrair da realidade que ninguém quer ver.
Toda a gente me deixou e por isso, ninguém me vê chorar. Porra para eles, que se dividem em géneros, sexos, camas e falsa inocência. Querem conceituar Agustina, como quem conceitua Lídia Jorge, sem perceber que a esquemática da narração difere em meticulosos pontos, já que as pessoas sáo todas diferentes.
Trouxe um álbum de fotografias dele contigo. Lá nesse nordeste brasileiro, onde o tráfico sexual predomina e domina todas as famílias. Poses de felicidade tão transparente como a água. Não me incomoda, apenas me subtrai. Se voltasses, ficarias novamente comigo?
Talvez.
Talvez nunca me respondesses e talvez nunca voltes. Preciso de um final fechado neste texto interminável e que carece de falta de precisão.
Quando morreres, levas-me contigo?
Best Friend Death Cab for Cutie . Soul meets bodie
Monday, April 07, 2008
Extinção VII
Apetecia-me matar-te, a fim de saber onde finalmente te encontrar, apetecia-me correr para não ter de me encontrar lá fora, para poder esconder a espera de uma cura que não existe, para o estado em que te encontras.
Há teorias que dizem que tu ouves e sentes em alguns momentos quem te rodeia, mas se isso fosse certo, já me terias respondido.
Em tudo o que somos
Em tudo que fazemos
Resta-nos a coragem de sermos.
A mim, resta-me a vontade de não te esquecer e continuar a seguir as encruzilhadas pelas quais te vou seguindo, sem nunca esquecer a memória dos teus actos. Como tu dizias, a “acção ultrapassa sempre a palavra”, por isso mesmo nunca te preocupaste em contemplar-me com um futuro, se o presente contigo conseguia superá-lo. Concordavamos os dois que esse infinito é confinado para as pessoas que vivem de uma forma metodica e perfeita demais, para ser incluída na nossa realidade e que por isso mesmo não podiam ser tão felizes, apenas porque se preocupavam com aquilo que não tinha garantias que haveria de chegar. A ilusão é sempre mais fácil de abraçar para cada um de nós, é por isso me agarro á veracidade do teu corpo que ainda posso apalpar.
Tenho tanto sono, que perdi o contexto das interacções. Como sou mecânica em tudo que faço, não causa grandes distúrbios a nível profissional, até porque sei que eles vigiam todos os meus passos.
Quem são eles, afinal?
Cometo sempre o mesmo erro. Imagino-me sempre numa realidade cruzada em que tu és mais do que uma memória que diariamente faço por manter dentro de mim. Dou por mim a dançar contigo, em pleno Rossio, envoltos nessa grande gargalhada que aprendi a saber soltar contigo.
Só comigo.
E rio-me sozinha, agarrada às minhas próprias conveniências, à solidão que instaurei entre mim e os fantasmas que diariamente convivem comigo e me fazem gritar bem alto, para que se calem e não me tentem dar escolhas, novamente. Por entre o orgão que ouço fascinada, mas sozinha.
Este é o único momento em que tenho medo de ter perder, o de nunca mais me lembrar da forma como olhavas o horizonte e me revias, na forma que te inserias no universo, na forma como me declaravas o lado bom que só existia quando sorrias, a forma como me acelaravas, só para poder seguir a tua insensatez de viver, realmente.
Tenho medo que te esqueças de mim e nunca mais me recordes como sempre me prometeste que o farias.
Planeavamos muitas vezes uma separação, o que fariamos e de que forma reagiriamos, mas nunca julguei que acabaria tão patética como me declaro agora. Eu, que sempre seria a independente e te comprimentaria com um novo vício agarrado à mão, eu que me esqueci de te dizer que te amava tantas vezes, eu que te menti vezes sem conta.
“Não suporto a ideia te ficar com o mesmo homem para o resto da eternidade” e tu compreendeste. “Eu também não, por isso quero ficar contigo” e eu ria-me novamente. A ideia de conseguir ter algo que deixou de ser suposto conseguir terl fazia-me mais forte do que as outras. Adorava chegar de mãos dadas contigo, para que toda a gente compreende-se que eu não me afogaria antes de começar a nadar.
A ideia de ter
A noção de querer
A fuga de morrer
Principalmente diante dele, que tinha sido o último e o mais pertinente, o que fazia questão de aparecer quando eu não estava e que continuava a tentar contrariar o que só tu querias.
Foste tu que quebraste as minhas crenças científicas, onde só assim tudo fazia sentido. Se a sexualidade é algo com que se nasce, uma convergência de factores x e y, onde é que está essa correspondência na contração dos músculos que tinhas, sempre que te vinhas comigo?
E onde é que eu coloco toda a suposta sabedoria e adoração pelos fornecedores de tantas teorias da treta?
È suposto que tudo corresponda como nos ensinam, que tudo corra certo, como daquela vez que me ensinaste a fumar e eu parecia uma criança rebelde que só aos trinta anos é que soube a que é sabia uma chiclete de mentol.
Sinto falta do teu sexo.
Em todas as coisas que acabaste por me mostrar, o sexo acabou por se tornar a mais lúcida e real. É surpreendente o que a idade ensina a um homem. Sabias perfeitamente onde me tocar, como me aliciar e acima de tudo, como me dominar.
Nós mulheres contemporâneas, vítimas de uma sociedade que cresceu em volta de um complexo ultra-machista, gostamos de mostrar que mesmo na cama somos nós que controlamos e determinamos as acções, para no fim, apenas termos a vontade inócua de sermos subjugadas e acariciadas, em todos aqueles pontos que só tu sabias alcançar.
Só eu.
O sexo, sempre me pareceu uma arte sem instrução e por isso mesmo, nunca me dediquei demasiado a ela.
Gosto da pesquisa acertiva, da combinação de células e placentas, de transfusões e operações que determinam a vida e muitas vezes apenas a sobrevivência. Por isso mesmo sempre me pareceu desinteressante algo que se aprende baseado unicamente no empirismo.
Onde estás?
Quando passo pela tua cama, tenho esse desejo irracional de te despir e tornar-me novamente livre, naquele mesmo local, para que toda a gente soubesse a capacidade de transcendencia que tu és capaz de criar e que eu nunca te disse.
Apetece-me anotar todas estas confidências atrasadas, apetece-me chorar a ver se voltas nem que seja por pena e me contas a que sabor sabem as estrelas, que tanto me ensinaste a amar.
Apetece-me que me leves contigo para que possa ver tudo aquilo que tens para me oferecer, ainda.
E ele?
Ele é a forma que tenho de conseguir perdurar-te através da raiva e da frustração, um pouco mais. E eu não me importo que ele seja impertinente e inconveniente, agora que não tem mais razão para não o ser.
Tenta brilhar sempre por cima de mim, mostrar o quanto foram felizes e que a culpa de tu não estares connosco é unicamente minha e da mania que tenho em transcender as regras impostas por alguém que eu não conheço e por isso mesmo, não devo respeito.
Conta-me ele da lua-de-mel, em que foram para essa terra de europeus perdidos, enquanto me oferece um pouco da cachaça que compraram por lá. Eu aceito e peço outra. Estou com sede e sem paciência para apreciar seja o que for.
No fundo, adoro este tormento. Faz-me destruir todas as certezas que algum dia julguei ter em relação a algo ser inalterável, que haja algo que não possa fazer, a menos que não o queira.
Tudo depende de nós e tu dependes de mim. E ele sabe.
É exactamente por isso, que não toca em nenhum aspecto sexual profundo, por muito que lhe apeteça. Eu sou uma espectadora assídua de tudo aquilo que ele diz e dos gestos que ele faz. Mostra-me a fotografia da filha, linda, com 15 anos na altura. Diz-me que te chamava de tio e que te respeitava, que te contava tudo, um pouco como toda a gente.
Essa tua forma de agradares e saberes sempre quando dizer as palavras certas, no momento em que as pessoas pareciam estar sofregas para as ouvir, só te trazia benefícios.
Enquanto ele me serve cachaça, sinto-me a beber-te e a respirar contigo e esquecer que sei demasiado. Imagino-vos na cama e não sei onde vos encaixar. Gostava de lhe perguntar em que posição faziam, como faziam, quando o faziam e mais do que tudo, quem o fazia.
A partir dos media, mostram-nos sempre que uma relação entre dois homens é composta por um que acaba por ser sempre mais do que outro e nada disso parecia fazer sentido, enquanto o olhava, enquanto o olho, ainda.
Pergnta-me se tenho sono, se me quero deitar e parece-se um pouco com a delicadeza com que tratavas todos os desconhecidos, mesmo aqueles de quem á partida não gostavas. Aceno com um não e ele continua. Viajo com ele.
Vou de Salvador até Porto Galinhas, mergulho no fundo do mar, mesmo com o medo que tinhas do inesperado do oceano que não dominavas e sinto-me tão mal que acabo por vomitar.
Garanto-lhe que estou bem e saio com a mesma velocidade com que tu o farias, se pudesses andar, sequer.
Apetece-me voltar e matá-lo também, mas tenho medo que assim, te encontre mais facilmente do que eu e por isso mesmo deixo-o estar. Sinto-me consumida por este tempo ameno que corre e apetece-me ouvir-te a sussurrar que eu tenho aquilo que é preciso para te libertar.
Não digo mais que não estou perdida, que gosto mais do escuro, porque é o único sítio onde não consigo perceber o quão sozinha estou e que não tenho formas de te mostrar tudo o que continuas a significar para mim.
Se o tempo fosse correcto, nunca me tinha deixado tanta fome de te querer, cá por dentro. O tempo contigo foi rápido,conciso, mas rápido e por isso mesmo, ninguém acredita que se algum dia acordares, queiras ficar comigo.
Acham que a verdade daquilo que queremos e que realmente sentimos como importante, vem quando temos a consciência que podemos morrer mais facilmente de um simples atropelamento enquanto tentámos passar para o outro lado da estrada, do que de doenças tão complexas e mortais como a sida ou cancro no cérebro.
Acabo por adormecer no táxi, a ver se por algum motivo o condutor me deixa ficar com ele e eu não tenho de constatar o vazio que é a casa onde habito. Onde tudo cheira a apatia, carregada de uma certa esperança mórbida em te encontrar.
Não sei se morra, ou se espere por ti.
Best Friend . Adele Chasing Pavements
Saturday, April 05, 2008
Extinção VI
Preferia que me mantivessem à base de mentiras, daquelas suaves e escorreitas, que nos descem e nos deixam bem dipostos, todos os dias.
Sinto-me drogada pela mesma sensação de desespero fundo, cavo no meu próprio desejo.
Quando é que assumi que conseguia voar?
Fui demasiado longe e não me consigo desprender das cicatrizes que se foram formando à minha volta. Falo com a luz do tecto, porque é a única que não me foge, que sobrevive e nunca me deixa sozinha. Viajo sozinha, a fim de me perder na minha própria existência, bem por dentro de mim, a ver se a minha alma mergulha nessa carga sensorial que é esquecermo nos finalmente de quem somos. Para sempre.
É susposto ser assim.
Lembro-me no dia em que finalmente tomei coragem em mim, para conseguir surpreender a pequenez que se havia instaurado e perseguir a sombra que tanto me subtraía. Queria provar que eles estavam enganados, que nem tudo está fora do sítio e que isto não é suposto acontecer assim, apesar do medo expresso nas lágrimas e no vinho com que me procuro, seriamente.
Onde estou?
Queria tanto que me respondesses, que me acalmasses e que me chamasses todos os epítetos que só eu te deixava chamar. Amar torna-nos irracionais, seres completos por agonia e uma espera constante por uma penetração cheia de razão.
Fazias-me gatinhar na minha própria inocência, mergulhar naqueles lençois e esquecer que um dia me ensinaram que a mulher não pode ter o papel dominante nesse acto a que chamam sexual e que eu apelido humananente de instinto. Instinto de pertença e de sobrevivência. A busca por um segundo ínfimo de transladação dos corpor paraoutro lugar fugaz e descomprometido. Ser humano, compreende-se aí, tem um medo constante de solidão e sentido de pertença enorme. Maslow enganou-se e essa é de facto a primeira necessidade humana, a da pertença.
E eu esperava sempre por ti, a ver se nos vinhamos os dois e acabavamos soltos juntos, como sempre quisemos estar. Era o culminar do conhecimento adquirido, da energia concebida, do amor partilhado. Era mais do que sexo e bem menos que obcessão.
Era tudo aquilo que me sempre me ensinaram que existia, mas que não se chegava a conhecer, porque o conhecimento faz de nós pouco mais do que carne tocada e ninguém há-de querer isso.
Perco-me nas memórias sexuais e infantis da tua sabedoria, que acabaste por partilhar comigo. Dizias que era refilona e respondona, mas sabias que o único lugar do mundo onde gostavas que isso acontecesse, era na cama. Na cama, no sofá, no elevador, na casa-de-banho de um deles, onde finalmente nos esperasse cinco minutos de pura contemplação um por o outro.
Quero acordar.
Já passou tanto tempo e eu nem sei mais onde estou. Os cigarros acabaram-se, a tua maldita coca-cola também e eu que tenho de me manter acordada de alguma forma sóbria para ir salvar umas quantas vidas que não me pertencem, execpto a tua que me parece inalcançável.
Estás perdoada.
Afinal, estou sozinha ou estou apenas viva?Depois de um ano a esperar a reacção pefeita da tua parte, nem que fosse apenas um gesto, encontrei-o.
Claro que nada aconteceu por pura coincidencia. Cantou-me um trecho do Veloso e eu acabei por compreender então que nunca estive errada e tudo naquele dia me pareceu irremediavelmente perfeito.
“Muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa”.
Ao início, sentiu-se culpado, mas eu sei que ele te visita, mesmo agora, que não lhe respondes, Disse-me que evita confrontar-me com a sua presença, na esperança que eu o perdooe. Se estivesse tão absorvida pela maconha como estou agora, era capaz de o provar só para encontrar um resquício de ti. A ver se te encontro nessas entranhas, onde já permaneceste e acabaste por desaparecer.
Por muito que eu não queira, ele teve parte de ti e eu descobri há muito tempo que isso não pode fazer parte das minhas preocupações. Nele encontrei a ternura que também sinto, apesar de lhe sentir abandonada.
Diz-me entre um café que acabei por o levar a tomar pelo chiado, que era aquele o lugar onde costumavas e gostavas de parar, apenas para apreciar todas as pessoas que desfilavam, seguras demasiado de si, apenas porque achavam que se sentiam bem na sua própria pele e não tinham de lidar com os problemas de mais ninguém.
Noto que adquiriu o memso hábito, nao sei se contigo ou posteriormente, de não colocar açúcar no café. Essas manias aristocráticas eram todas tuas. Capirinhas mas só de manga,arroz de cabidela, mas só caseiro, sapatilhas da nike mas só compradas na Friday Project e uma pessoa vivia a contemplar a forma como escolhias os teus amores e ódios.
Como vês, não estás sozinha.
Nunca estou, muito menos quando fumo maconha e me dá aquele desejo de ter dentro de mim, como só me dava contigo. Estou obecada pelo sexo que me davas e pela forma como eu reagia a ele.
Acabei por o convidar para jantar, noutro dia qualquer. Não sei se uma quinta ou se uma sexta, porque os dias parecem-me todos solarentos um pouco demais para atentar na felicidade deles.
E se eu não tivesse mais tempo para permanecer aqui, será que voltavas, me abraçavas e me levavas contigo, para onde quer que fosse e me deixavas perdoar-te de algo que nunca aconteceu, como eles sempre me quiseram fazer acreditar?
Queria que me beijasses, que me tocasses, que me fizesses sentir como se nunca mais me fosses encontrar, sem eu ter essa consciência, apenas para poder deixar-te descansar em paz e nunca mais ter de te chamar, enquanto vejo a janela a flutuar, não sei se do vento, não sei daquilo que me venderam no Bairro.
Antes de ir, disse-me que tiveram um projecto, desenhado por ti, para ficarem juntos lá pos lados de Sesimbra. Soltei a gargalhada mais sonora e senti a perder-me entre a frustração e a agonia de te ter perdido num momento em que nunca te tive.
Egoísta.
Sinto-me maior do que o meu corpo e por isso quis desaparecer e nunca mais aceitar que não fui a primeira. Cobardemente, contento-me em pelo menos ter sido a última. Apateceu-me gritar-lhe ao ouvido que ele era meu e que sempre tinha sido, só que só o reconheceu mais tarde, quando me finalmente me conheceu.
Como mulher, faço do destino a minha figura de estilo máxima, porque todas acreditamos nele, quando ele nos traz algo de bom. Apeteceu-me ainda, levá-lo a fumar comigo qualquer coisa e ouvi-lo a falar da decoração que tinham escolhido em conjunto, da disposição metódica escolhida por ele e que nunca teve rumo, nem bom termo. Apeteceu-me gritar que no fim, ficaste comigo.
Morri contigo.
Ainda não, ainda não esqueci tudo o que ele tinha para me revelar, nada que eu já não previsse em toda a sua magnificiência. Embora ache que estou a perder a sequência dos acontecimentos, mas é o que me acontece quando fumo de mais. Vai-se a linearidade temporal, fica a memória equívoca dos acontecimentos.
Foram largos momentos em que não o ouvi e me concentrei nos seus atributos físicos, pouco evidentes.Parecia muito mais velho do que nas fotografias que me mostraras e muito mais destruído também. Disse-me que a culpa era da bebida russa, e eu acreditei. Um homem é sempre sincero quando já perdeu tudo.
Tive vontade de me fazer perder entre a gravidade e evitar o chão, mas esqueci-me que estava acordada, por muito que me custasse admitir.
Quando acordei de facto, ele já tinha dito aquilo que eu queria ouvir, e eu tinha estado absorta nos meus sonhos por metade, que acabei por me habituar a ter.
Envergonhada , ainda com o cabelo apanhado e os joelhos trémulos, pedi-lhe para se encontrar conmigo novamente. Já te tinha dito isto, certo? Tenho de voltar a ouvir e provar a mim própria e ao resto do mundo, que nunca estive tão certa, como tenho permanecido, desde que quase te perdeste em múltiplos bocados de ti próprio.
Tenho de ser eu a morrer contigo.
Best friend Alicia Keys – like you ll never see me again
Friday, April 04, 2008
Extinção V
A sexualidade é uma grande mentira, vazia e sem racionalidade alguma. Odeio esses mitos previsíveis, normas sociológicas impostas por um Deus que sempre me aceitou da forma que sempre quis.
Sempre.
Quando saio do banho, reparo que ainda tenho os mesmos resquícios de ti, espelhados em toda a minha pele, a pedirem mais um toque, mais uma vibração muscular, mais uma fonte de respiração.
Há objectos que nunca saíram do seu lugar. É engraçado como só os homens têm essa vantagem de conseguirem ler textos intensos e complexos enquanto se cagam para o mundo. Nós, apenas conseguimos prestar atenção nos folhetos que nos chegam dos hipermecados e nem por isso, atentamos nas promoções mais vantajosas.
Tenho um certo receio em abrir o livro e não te encontrar. Tudo se resume a esse pronúncio, na minha existência diára, mesmo que seja apenas um livro do Drummond. Começo a achar que me tornei escrava do meu próprio drama, no qual já não és tu a personagem principal, mas antes a tua memória.
Acabo por abrir, curiosa que sempre fui. Gostava que tivesse a chover lá fora, a ver se o momento se tornava mais inesquecível, o telemovel haveria de tocar e eu não haveria de ligar e o David acabaria por começar a tocar uma música qualquer que faz pensar na solidão que é não se ter, quem nunca se julgou existir. Mas nada é perfeito e supostamente, este momento também não é.
A realidade acaba por ser muito mais crua e menos controlada do que as fantasias que tento criar antes de adormecer, com o peso do mundo em cima de mim.
A cada dia que vivo, Mais me convenço de que o desperdício da vida ...
e penso em voltar a fechar e a esquecer que há algo mais doce do que a tua língua na minha orelha, a esbracejar, a gritar por mais um ano de pura fantasia.
Apetece-me que chova por dentro a ver se tudo se escoa e desaparece, porque o meu entendimento enquanto ser humano deixou de conceber esta espera que se torna longa e prelongada.
Por isso mesmo, acabei por tirar todas as fotos dela que existiam por casa, apesar de que sempre estiveram bem escondidas. Agora, nem num acto de profunda inconsciência, vou encontrá-la. Se me visses agora dirias que cada dia me pareço mais com ela. As rugas da impotência, a vida que sempre se sonhou e se deixou de ter, o momento que por pouco não se eternizou.
E estás.
Parece que te ouço a dizer em voz alta, na tua pose de político revolucionário que me tinha consquistado, que devemos reconhecer as virtudes que temos, pois elas escapam da nossa própria contigência e foram nos dadas por alguém que não sabia o que fazer com elas, muito menos com os defeitos.
Ela que se foda, que já tinha idade suficiente para compreender o empreendimento de noções vagas que acabou por criar em mim. Ela sabia perfeitamente que acabaria como ela um dia e foi por isso que sorriu quando lhe virei as costas e lhe prometi que nunca mais me via. Se se tivesse rido, teria sido por vontade de me fazer perdoar a vida de merda que vivera, a qual a tentei sempre salvar.
Preciso de ti.
Com ela não falo, muito menos agora que está morta. Sou decidida o suficiente para me manter firme na convicção, mesmo quando sinto a maconha a incorporar-se dentro de mim, mantenho –me firme e apenas sorrio para ela, também.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
Como se a minha vida fosse recomeçar agora que fecho o livro e o coloco no lugar das coisas sem vida.
Como se a minha dor fosse gerar vida em ti, como se a gravidade fosse fazer o tempo recuar e eu impedir –te de calçares a culpa como bandeira da tua indignação para o meu esgar.
Desceste as escadas como quem desce a sentença anunciada, como quem me deixa sem saber se te ajuda a voltar ou se te mata, finalmente.
Eles dizem que não voltas, que nunca deverias ter ficado em mim, mas que acabarás inusitadamente por desaparecer e eu por te esquecer. Resumem-se com o factor tempo, como se o tempo controlasse a imensidão que nos abarca. Se o Drummond está correcto, então eu escolho o sofrimento, por ter sido julgada num minuto para o qual não estava preparada.
E nunca estamos preparados para um retrocesso, por mais pequeno que ele seja. Nunca estamos preparados para fraquejarmos e termos o medo de ficarmos sozinhos e darmos finalmente razão a todas as vozes que durante meses anunciaram um final promíscuo e certeiro.
De tudo, ficaram 3 coisas.
A certeza que estamos sempre começando
Apesar de eu só ter a plenitude certa de saber onde acabo. Enquanto saio de casa, despeço-me como se nunca mais lá voltasse, como se a crueldade me fosse tomar de cada vez que saio do meu próprio reduto.
A partir daquele momento, decidi deslocar-me nessa grande evolução humana, feita pelas mãos dos imigrantes que são os que mais usurfruem dele. Tocam-me, sou empurrada e dou graças por não sentir mais a violência física, como outrora. Como ela sentira.
Não te esqueças dela.
Não, mantenho-a por entre a sua falsa inocência e a vontade que tenho de te agarrar e respirar o teu suor até amanhã.
A certeza de que é preciso continuar
O mundo nunca é aquilo que sonhamos e a sexualidade de cada um, há.de ter sempre a ver com isso. Conceituamos as pessoas, como quem conceitua fernando pessoa e os seus heterónimos, como quem precisa de encontrar a bibliografia certa, no espaço físico correcto.É por isso que sempre fiquei um pouco por entre os desejos de me manter intacta a essas firmezas. Em relação a isso tive sorte. Quando ele morreu e ela passou a idolatrá-lo, deixou de se importar com o resto e viveu apenas para a fome de solidão que passou a ter.
Estás igual.
Talvez, mas eu permaneço sozinha, sem arrastar ninguém comigo, apenas as paredes a ver se me seguram e não desapareço pelo chão.
Saio e não está a chover. Preciso de me mudar para o Porto, a ver se as ruas condizem mais com o meu aspecto de melancolia e noctivação. Hoje era o dia em que voltarias para mim, apenas porque eu quero.
E se tudo acontecesse como eu quero, Lisboa choveria e os sorrisos haveriam de ser apagados, porque ninguém tem vontade de sorrir quando o resto do mundo está adormecido, ainda.
Apetece-me chorar e não consigo, apetece-me chamar-te e tu não me ouves, apetece-me perguntar-te mas tu não respondes.
Existes, ainda?
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.
(Fernando Pessoa).
Apetece-me jurar que nunca o tinha visto, e fazer te acreditar que te perdoo. Apetece-me encarar a porra da realidade e saber que a ser verdade, ficaria diminuida a verdadeira essencia diminuta, que na verdade represento. Apetece-me jurar que eles nunca tiveram razão e que a tesão que eu via, era por mim que sentias.
Afinal, quem sou?
Best Friend . David Gray This Year´s love
Extinção IV
Como se nunca o tivesses visto.
Afinal, quem és?
Acabo por compreender que me tornei uma das inúmeras personagens dessa perceptora que ambos acabamos por amar ao mesmo tempo.
Deixei de te procurar um tempo, dizem que faz bem.
Não sou ninguém.
E mesmo assim, continuo a ver o teu sorriso de cada vez que estou absorta num dos meus pensamentos quotidianos, sempre que olho pelo vidro e não vejo a realidade que espera ansiosamente por mim, sempre que não me sinto.
Tento reencontrar no álcool e por vezes na droga, a ilusão de que dizes ainda que me amas, que me consomes com o teu sexo vezes sem conta, que ficas comigo para sempre.
E é aí que acordo, por entre a minha voz trémula de raiva e desespero, a qual ouço ainda os ecos no fundo do corredor EU PERDOO te, eu PERDOOTe PERDOO te perd...
Apetece-me consumir o mundo e esquecer de que é que sou feita. Entrei em fase de negação consciente e convicta que já não retornas a mim, como sempre o fizeste.
Por muito que queira, não fui eu que te expulsei desta vez e por isso mesmo não posso fazer com que voltes.
EU PERDOO TE.
Já desisti de dormir e já esqueci de o tentar disfarçar. A verdade é que nada faz sentido. Se eu não te posso salvar, não vale a pena concentrar o meu olhar sobre o teu batimento cardiaco, de cada vez que passo por ti.
A Clarice Lispector é uma parva, para além de louca e eu deveria era mesmo desistir de mim.
Acorda.
Se me dessem a oportunidade de te fazer escutar uma palavra que fosse, seria essa, certamente. Acorda, antes que acabes com a minha vida, como quase fizeste com a tua.
Tudo veloz, tudo rápido, tudo sem termo. Era sempre assim, nessa inconstãncia da vida proclama por ti, que me ensinaste a viver. De vez em quando, tento beber uma coca cola com a mesma veracidade com que tu fazias. Parecia que bebias o mundo, com a sofreguidão com que lambias a última gota, mas mais do que isso, era a vida que transparecias cada vez que engolias o líquido que ainda havia de te correr por dentro.
No fundo tinhas razão, para que preocupares-te com a merda da coca cola, quando acabarias por ser corroído por outro coisa qualquer, como um simples poste que te atravessou a espinha e te deixou com apenas algumas funções das quais não sei bem quais funcionam, ainda?
Não foi a velocidade, não foi a estrada, não foi o carro que te matou, foi a culpa que sentiste, o medo de me perder, tal e qual eu sinto agora. Fugiste, como fugias sempre, para evitar o desespero da desilusão que pressentias no olhar alheio. Eras avesso a esse maltrato visual e por isso, nunca te submetias.
Ainda consigo ter a ténue imagem do carro a seguir o seu rumo, de te pedir para parares, de fumar um cigarro escondido na esperança que viesses, afinal, ter comigo.
Onde estás?
Bata branca, cabelo apanhado, olhar alienado. Se me vês nessa cama, já deves rogar para que ponha uma indumentária diferente, mas estou acomodada no meu próprio horror visual, dessa maneira nada me espanta mais.
Disseram-me que abriste os olhos, que pestanejaste, mas eu não acredito. Se isso tivesse acontecido, eu estaria aqui, ao teu lado e tu farias isso por mim. Sem dúvida alguma, que mentem, como sempre mentiram a respeito de tudo. Eles.
Às vezes dou por mim, sentada no Castelo de S. Jorge e dou por mim a falar contigo. A grande novidade é que desta vez não estou alcoolizada nem pedrada. Falamos do sexo dos outros, mas principalmente do nosso, como sempre. Como foi bom redescobrir um prazer escondido e encontrar aí um fundamento para amar, sem receios.
Falamos dos medos que nos uniram, da infância mentirosa que cada um de nós teve, dos namorados que já passaram por cada um de nós, da forma como nos vemos e os outros nos sentem. Falamos de tudo e eu continuo sozinha. Sabe bem, no entanto, porque controlo todas as tuas respostas, muito ao contrário dos sonhos onde tu me atacas, onde dizes tudo aquilo que te apetece, sem dar grande respeito áquilo que eu sinto.
Dizem que tenho mais pacientes para ver. Se isto fosse uma instituição particular, haviam de ver se não me tornava a tua médica particular, mas há um sem número de pessoas a quem devo responder, como sempre. Já não tenho tanta paciência para os problemas alheios, agora que tenho os meus. O meu único ponto de interesse, é socorrer os inconscientes que se despistaram ou causaram um grande incidente automobilístico.
Aí sou eu, novamente, com a esperança inócua de querer salvar-te, de te rever embebido em sangue, no grande silêncio que é a quase morte.
Quase morte, quase vida. A diferença há-de ser abismal, mas deixei de a conseguir compreender.
Deixei de conseguir respirar para além do meu próprio ar e várias vezes já me tentei impedir de o fazer.
Onde te encontro?
Se não estás comigo, se não consigo ir ter contigo, como faço para te alcançar?
Best Friend Damien Rice . Can´t take my eyes off you.
Saturday, March 29, 2008
Júlio - o espreguiçador
Muito embora eu gostasse de contar ou sequer começar esta estória com outros atributos, é este mesmo que representa a personagem na sua plenitude, arriscar-me-ia a dizer.
Imaginem o que é alguém ter a vontade inusitada de se espreguiçar em qualquer lugar que fosse, independemente da ocasião e da força da tradição.
Ele era assim, mal criado, dirá o leitor, mas terá de concordar que há coisas bem piores no mundo, hábitos moralmente muito mais devastadores do que um simples espreguiçar, mas ainda assim considerado politicamente incorrecto.
De facto, nada disso lhe interessava. Deliciava-se com este acto tão natural e simples e via nele toda a sua fonte de prazer diária. Pensava que ainda bem que se tinha encontrado a si próprio nessa simples condição, ao invés de fazer como o resto do mundo que o faz buscando drogas,alcool e muito sexo à mistura.
Os seus passos eram entediantes e havia muito pouco nele de respeitável. Tinha muito pouco apego à aparência e também pouca noção de estética ou sequer de estilo.
Ele era assim, sem ter mais nada de interessante para contar ao mundo, a não ser que se corrompia a si próprio nesse profundo acto que para ele era bem mais do que desinibido. Era sexual, era lascivo, era impróprio e fazia dele o seu próprio patrão, naquele momento.Sentir o corpo a contorcer-se, a engolir-se a si próprio, sentia que a sensação de morrer devia ser muito idêntica, já que muitas vezes parecia que saía de si próprio e viajava durante um pouco mais de tempo.
Ele não tem nome porque não interessa a ninguém, ainda. Ninguém se vai interessar por alguém que encontra prazer em pouco mais do que um franzir de músculos e sangue no cérebro.Ninguém vai querer ouvir, ou sequer saber que existe alguém tão medianamente insuportável que toda a sua felcidade, ainda que momentanea, resida nessa parca funcionalidade (entao não?!)
Tão pouca diferença lhe havia de fazer. O seu objectivo era aguentar o momento em que sentia o seu corpo a flutuar o maior número de segundos seguidos e claro, a sua maior frustração, também.
Não entendia nem compreendia porque é que o prazer não podia ser segurado ou mantido. Perdia-se nesta incompreensão por tempos longos e compridos e sabia que nunca haveria de encontrar solução para este problema.
Sabia apenas que estava viciado e que vivia para este vício, que não se importava em mantê-lo, apesar de já lhe ter trazido grandes dissabores.
Pensava ele, quando pensava, que as pessoas julgavam quem queriam e quando queriam, porque muitas haviam-se afastado desde que ele tinha adquirido este hábito.
Às pessoas fazia confusão esta intolerância aos bons costumes e regras de sociabilidade que nos ensinam desde muito novos. Na cultura europeia, estas maneiras são tidas como algo pertencente ao terceiro mundo, mas ele não compreendia muito bem porquê, já que não interferia em nada com a pessoa que estava ao seu lado.
No seu raciocínio, um homem que bebe torna-se insuportável porque a bebida provoca comportamentos incontroláveis e inesperados em quem bebe, o que invariavelmente não é algo positivo. Compreendia também que alguém que consome qualquer tipo de droga possa ser visto como um perigo, já que tinha ouvido muitas histórias de mães a quem tinham roubado cordões e pulseiras de ouro pelas mãos dos próprios filhos e mesmo o tabaco provocava doenças, mesmo em quem não fumava, embora isto fosse um bocado difícil de acrdeitar, para ele.
Na minha opinião de narrador solitário, mas presente, as pessoas tinham apenas um certo desconforto em nunca terem conseguido compreender que através de algo tão simples e quotidiano, se poderia retirar dividendos tão bons e rentáveis.
E de dividendos entendia ele. Ele, o nosso espreguiçador-sexual-profissional ( e digo nosso, porque o partilho connvosco) era ajudante de merceeiro. Quem não sabe o que é merceeiro pode-se considerar um tanto ou quanto ignorante, porque faz parte da cultura popular rural, na qual o nosso país está ainda mergulhado, embora ninguém tenha dado aparentemente conta disso.
Já agora, valerá a pena continuar a dar a minha opinião em relação ao incómodo das outras pessoas. Residerá também no facto de ele ter um certo controlo no seu espaço e tempo, impondo as suas próprias regras e noções na vida que levava.
E nem sempre fora assim.
Em pequeno,apontou pela primeira vez para um chapéu que vira pousado na cabeça de uma mulher, na sua opinião estranha, em plena missa de domingo.
Era vermelho e reluzente, lembrava-lhe um pouco as carnes do talho do seu tio, que ele via cortar com grande proeza pessoal. Naquele momento, esqueceu as orações que fazia apenas por fazer, para se concentrar no grande e enorme chapeu que rodava toda a cabeça da mulher. Como não tinha grande sentido de estilo, nem se apercebeu do facto da dita cuja vestir um conjunto verde alface e usar chapéu vermelho.
Vermelho Sangue.
Carnes, o talho, o tio a desfiar e ele a olhar encantado.
O chapéu que dava toda a volta à cabeça da mulher, loira que viria a saber depois por culpa de uma leitura que a dita mulher fora fazer, usava uma sombra azul marinho, como se do mar, tivesse acabdo de sair daquele momento.
E novamente o chapéu, como se de um chouriço se tratasse, dando a volta à cabeça, e ele a olhar enternecido.
Como qualquer criança com sete anos de idade, ele teria de fazer daquele momento, o momento mais especial do dia, quem sabe da semana. Mas para isso, era necessário que alguém visse o que ele via, da maneira que ele via. Era necessário partilhar.
Hesitou. Afinal, só adultos o rodeavam e provavelmente não entenderiam o que ele via. Os adultos não entendem muitas das coisas das crianças e embora ingorante, era observador o suficiente para já se ter apercebido disso mesmo.
Concentrou-se o bastante para guardar aquele momento na sua memória o mais impiamente possível, a fim de o poder partilhar com os amiguinho com quem partilhava os cromos das batatas fritas.
Mas não conseguiu.
Enquanto alguma voz solene tentava agitar os demais crentes, ele continuava impressionado com o chapéu, de abas largas e poderosas, as maiores que já tinha visto.
-Mãe.
Nenhuma reacção. Os adultos têm destas coisas. De vez em quando, fingem que não ouvem, apenas para terem a ilusão de que permanecerão intactos para sempre e não serão importunados.
-Mãe.
Segunda vez. Já não dá para ignorar.
Até porque era uma vergonha. Uma mãe, mesmo que costureira, não vai deixar um filho falar no meio de uma missa de domingo, onde se encontram as pessoas mais importantes da região e onde se fazem as maiores fofocas que depois são comentadas durante a semana na boutique do centro.
-Não sabes que não podes falar?
É de facto uma resposta inteligente, que qualquer adulto poderia ter dado, não pensem que é pelo facto de ela ser costureira. Então, quer que o filho se cale e responde-lhe como uma pergunta?
Ele que apesar de ter tido uma educação, até então – e até sempre – baseada na televisão e na professora que aparecia de vez em quando na escola ( toda a gente tem os seus problemas, não é?), respondeu-lhe. Afinal, não era de bom tom deixar alguém sem resposta, e a sua educação, ainda que pobre a nível cultural era assente em grandes valores tradicionais. Pelo menos era o que julgava.
-Sei, mas...
-Diz rápido.
Rápido. Rapidamente a mãe costurava uma camisa, rapidamente fazia de umas calças uma saia, tudo era rápido naquela secção da casa. A mãe andava rapidamente de um lado para o outro, tentando dar vazão a todos os pedidos que lhe faziam, uns mais estranhos outros mais banais, mas sempre rapidamente. Era a palavra que sempre ouvia as clientes da mãe dizer, “por favor, que seja rápido” ou “ o mais rápido possível”. Com a mãe tudo passava rapidamente, menos a missa ao domingo.
-Aquele chapéu, é tão...
Não quis saber as características ou o porquê do chapéu ter chamado a atenção do filho, o que interessava era ir directo ao facto e só depois o compreender, tudo isto num processo rápido, muito rápido.
-Aquele, mãe.
E foi aí que tudo desabou.
Ponto.
Ou continuamos?Enfim, o encanto de uns é a tristeza de outros, já a minha avô contava.
Continuaremos que eu não sou homem de deixar a meio uma “estória”, mesmo uma tão insignificante como esta. Mas toda estória é uma estória não é? E não há quem diga que se aprende um pouco com toda a gente? Então, a ver vamos o que se extrai daqui.
-Aquele, mãe.
E foi aí que tudo desabou.
Em cãmara lenta, pode-se ver a cara da mãe horrorizada, como qualquer mãe de classe média-baixa que vive no pecado da culpa diária e sem prenúncios de vir a salvar-se dela.
Enquanto o filho ( e agora vamos seguir lentamente também) ergue o bra ç o, l e n ta mente, a cara da m ãe co me ça a esbo çar um a e xpr ess ão de horr or. Afinal o filho não tinha sido tão bem educado para seguir de classe social, ou sequer para se manter, como julgava. E ainda por cima na casa do senhor! Se pararmos o filme por um segundo, vemos a cara da mãe, com os seus óculos comprados há 30 anos pelo pai na altura do seu casamento, de boca aberta soltando um grito mudo de desespero, enquanto ele aponta para o chapeu cordesangue-chouriço-olharenternecido.
Foi neste momento que ele teve a noção que não mandava no seu tempo e muito menos no seu espaço. Afinal, ele não obrigara ninguém a levantar-se para que pudesse ver, apenas erguera o braço, tornara erecto ( sem segundas intenções por favor) o dedo indicativo e apontara para o objecto da sua concentração.
A mãe nunca se sentira tão humilhada na sua vida. Sabia perfeitamente que alguém haveria de ter visto, e que havia de ser comentado e que ainda haveria de perder alguns dos seus restauros nos vestuários que recebia. E logo da mulher do presidente da junta, que queria tudo mais rápido do que as outras todas.
A partir desse momento, Júlio, assim se chama um personagem da minha simplória narração, achou que era desumano fazer com que a sua mãe passasse por aquela vergonha social, só porque ele se tinha lembrado de se associar um chouriço a um chapeu. E sangue.
Então, logo que pôde, saiu da aldeia onde a sua mãe morava, para nunca mais a ter de fazer passar por uma humilhação deste tamanho.
Júlio era ignorante, mas não era burro, insisto. Tinha noção da sua própria insconciência e assim como assim, apesar de não se importar muito com a mesma, preferia que a sua pobre, a todos os níveis, mãe não sofresse com isso. Afinal, ela tinha-o criado sozinha.
Se perguntam pelo pai, morreu na guerra do ultramar. E mesmo isso não fez com que odiasse o regime da altura. Dizia que Salazar é que sabia, porque ele zelava pelos ideais fundamentais e que “toda a gente é que devia ser como ele”. Odiava os pretos, isso sim já que tinham sido eles que o tinham morto, segundo a carta oficial recebida em casa, que a fez chorar dias seguidos e usar um véu preto até ao dia em que finalmente não abriu os olhos.
É, normalmente as pessoas choram de dor e de tristeza, mas Júlio sabia já que o choro da sua mãe não podia ser disso.
-É disso sim, é que o teu pai é uma grande perda...
Júlio não entendia, mas aceitava. Com 5 anos não lhe restavam muitas mais hipóteses e também não fez grande caso do assunto. Lembrava-se pouco do pai, que antes de ir pa guerra era camionista e cheirava muito a bagaço. E chegava a altas horas da noite. E cheirava a bagaço. E batia na mãe. E cheirava a bagaço. E batia nele.
Dona Evangélica, que de evangêlica tinha muito pouco, já que se considerava uma plena cristã e adoradora de todas as formas que existem em contemplar o nosso senhor e muito mais do que isso, tudo aquilo que o rodeia, como os arranjos florais ou as músicas que avidamente decorava, chorava principalmente de agonia, porque agora era apenas um salário que entrava em casa e ao invês de ter algumas noites de solidão, restava-lhe o resto da vida. Bater era o menos, sempre pensou ela. Porque ele até era um bom marido e punha comida na mesa. E trazia doce de avos com vinha de aveiro ou um quarto de leitão pelo Natal, quando parava mealhada, que o leitão é caro e é para ricos.
A verdade é que Dona Evangélica poderia ter tido uma força muito maior no desenrolar da estória, mas Júlinho, como ela carinhosamente o apelidava muito de vez em quando, deixou-a quando fez quinze anos.
Decidiu sair de Açougues – e agora vamos começar a conteztualizar o espaço porque senão vocês desanimam – para ir até Celorico de Basto, no seu entender, uma grande cidade, que Júlio não era burro, mas como já sabem, era ignorante.
Tuesday, March 04, 2008
Desejo & Reparação
Bem por entre esta terra de ninguém que suspira por num novo amanhã, todos os dias.
Não é fácil nem digno e muito menos respeitável aos olhos de quem por mim passa, ter a consciência de que afinal ainda não te foste.
Voltei a jurar que a tua memória haveria de ser esquecida, jamais enaltecida, por ter deixado tão pouco dentro de mim para quem ainda restasse algo que haveria por chegar.
Esta reparação que raramente se torna perceptível e alcançável por entre o nojo que sinto de cada vez que me lembro a tesão que só tu sabias criar.
Dizem que o sexo é a combinação da semântica criada pelo cérebro e pela sintaxe sentida pelo corpo, a ver se a metáfora de algo perfeito é finalmente criada.
Talvez por isso, nunca tenha percebido completamente a gramática criada por entre a nossa linguagem, que tantas vezes deitou por terra alguma possibilidade de um acompanhamento ser mantido.
Queria tanto que esse silêncio fosse remetido ao vazio e que regressasse a gargalhada que só tu me fazias soltar.
Ainda não é tarde. Afinal, nunca é tarde. Quero tanto cumprir a ansiedade, que me esqueço que o desejo raramente tem esse sentido.
Estou velho demais para sentir necessidade de concluir qualquer pensamento que possa ter em relação à imagem criada sobre ti, sem paciência para tentar acabar com o seu registo e me deixar adormecer finalmente, sobre a narração que acabou por seguir sem ti.
E eu que acabei por prometer tanto, cobrador convicto daquilo que afinal nunca aconteceu, que nunca poderia ter tido lugar, muito menos tendo a passavidade atroz como sombra.
Queria as luzes e a batida, queria regressar a essa neve sem fim e restaurar o dano que acabou por me deixar abatido e por muito que eu esconda, a reparação nunca há-de ser completa.
Posso inventar cinco teorias definitivas sobre a conclusão do fechar de um olhar que não aponta mais na tua direcção, só para no final saber perfeitamente que a luz vaga que me ilumina, de cada vez que me sinto sozinho, és tu.
No fundo, é mais isso que me deixa angustiado e um pouco entorpecido. Saber que tens a consciência que o que restou de mim é pouco, comparado ao que levaste contigo, que soubeste aproveitar convenientemente a minha presença nessa tua vida repleta de utensílios sub-aproveitados, madeiras mal acabadas, sofás meticulosamente arranjados que não deixam ninguém se sentar.
Um dia, hás-de voltar e tentar regressar novamente, confiante na lição que acabaste por me mostrar. Imperiosamente, não consegui encontrar ninguém tão perfida como tu e por isso mesmo, a graça acabou por se perder. Sabes que era isso que me movia e sabes que por muito que o esforço seja latente em mim, ainda não consegui encontrar substituição para a peça que me falta, que apesar de não me impedir de continuar a mover-me, atrasa-me a marcha e deixa-me um pouco mais do que trôpego, num lugar onde não se pode vacilar e onde todos nos querem.
Acabo por odiar a minha sinceridade e a minha dislexia comportamental, incoerência oportuna, mas que já deixou marcas em quem por mim passou, depois de ti. Queria guardar-te noutro lugar, mas não sei o nome de mais nada. Engraçado como o nome que damos a tudo, importa tão pouco. É apenas uma consequência da vida atribulada que levamos e que nos faz ter a necessidade de escalonizar-mos e organizarmos tudo aquilo que nos rodeia.
Se tivesse uma estante, colocava-te no lugar mais baixo, longe do alcance do olhar consumista que me consome a alma. Dessa forma, seria facilmente iludido por uma promoção qualquer, por outra gama de produto, que certamente custaria bem menos a esquecer, quando fosse altura de deitar ao lixo e comprar outro.
E sim, gostava de escrever sobre um assunto novo, recente, algo que me tirasse furiosamente do sério e me desse uma nova inspiração a fim de quebrar este ciclo vicioso em que me incluo.
Sei bem que assim é mais fácil, porque te conheço bem e porque sinto a tua falta, o que acaba por se revelar de cada vez que tento encontrar um novo ponto de partida.
E julgar e saber que todas são inquestionavelmente melhores do que tu, em todos os pontos da minha vida, que na comparação, perdes para todas, não me chega, de facto, para continuar essa ilusão que morreu contigo.
É tesão, é desejo. É falta de reparação.
É saber que permaneces em mim, mais do que eu sempre quis.
Thursday, February 28, 2008
Despojos
Se te prendesse, se te acalmasses por entre a fúria de não seres a inspiração que comanda as linhas que acabarão por ser escritas, por entre a ira de voltares a fingir que a inocência já te pertenceu um dia e que voltaremos a ser tão infantis como sempre seremos.
É essa a veracidade da carne quando é consumida sem razão humana ou força pouco mais do que irracional. A noção dos despojos que ficaram é de pura motivação para que tudo retorne, mesmo quando eu sei que há quem nunca volte.
Nunca.
Queria despejar a graça que é perder-me sem ser contigo, sem consumir essa passividade com que subtrais a ti e a toda a vida que por ti passa. Afinal, as lágrimas que não se mostraram mas que me consumiram durante meses foram sempre as mesmas que espalhei por entre o chão que partilhei contigo e connosco, na esperança que sobrasse algum resquício de tudo aquilo que se adorou durante tanto tempo.
A construção de algo,é maçador e penoso, requer noções mais do que vagas de empreendedorismo emocional e por certo, algumas ideias do que é o sabor a solidão mesmo qunado não se está só.
É por entre o dó que já tive de mim e da morte que acabou por ressusitar a vontade de agarrar e manejar o pó que por aqui se foi acumulando.
Não rastejamos, mas de pouco valerá a pena anotar essa falsa peripécia. Não fomos ninguém, a não ser aquilo que eu queria que sempre sonhei em ser, só para entender no fim, que tudo não passa disso mesmo.
Seria um egoísmo louco desejar que alguma vez sentisses a força da frustração a mostrar-se imponente aos teus olhos, mas é algo que apenas as pessoas que dormem de olhos abertos enfrentam.
Por isso mesmo, será sempre difícil explicar porque é que nada foi suficiente, porque é que acabaria por me render à evidencia que estava a léguas de compreender os danos que hei-de esconder, felizmente.
Felizmente.
Como se não bastasse a leveza do ser que passei a carregar quando finalmente partiste? é uma mentira totalmente bem construída, mas sem espaço para responta longa e parca em conceitos fielmente delineados por um círculo vicioso que é o meu percurso, de cada vez que analiso e me vocaciono para a reflexão intrínseca.
E não, nunca gostaria de voltar a ter 13 anos e a pensar que o problema era de ser domingo, porque aos domingos nada acontece, a vida estagna e o futebol e a chuva ordenam que se fique em casa, à espera de algo que simplesmente não acontece, porque segunda há-de ser o mesmo seguimento penoso a ver se tudo deixa de cair em cima dos nossos ombros, apenas porque não nos conseguimos suportar, mesmo quando nos esquecemos de quem somos. Principalmente nessas alturas.
Esses desvaneios não me pertencem mais, e este que ultimamente me assiste, também não. É apenas um capricho meu, a fim de manter alguma dramatização nestes dias de verão pouco longos que se escoam e nunca nos assistem.
Queria perguntar-te se voltas para onde esse céu nunca mais acaba, se realmente compreendeste a tristeza do que é amar sem sentir, mas principalmente se verdadeiramente compreendeste a alegria que é amar tendo consciência do que realmente isso significa.
Daqui a muito tempo, hei-de o saber, porque o tempo não me pertence e eu construí uma ligação pouco fiável com o passar dos momentos, sem saber controlar o início e o seu fim, mas também quase não me importando com esses factos.
Factos.
Que de facto, ainda não consegui entender o porquê de mais ninguém me satisfazer da forma como sempre queria que isso acontecesse. Diariamente. No chão ou ao ouvido, sem ter de pedir perdão ou com nojo do estrago cometido.
Que de facto, passou tanto tempo e olhei para trás e ainda lá estavas, como sempre. Não me perco a imaginar se ficarias, porque não me interessa nem me conduz a uma paz de espírito saudável, apenas saber.
Saber se vives, se te ris, se a felicidade é de facto tão grande em ti, como aquela que subitamente me apareceu, sem grande motivo, como se soubesse que o que tenho é tudo o que terei e aquilo que é bom é aquilo que me pertence e que tem uma jsutificação em ficar comigo. Sem contrato ou impaciência profissional.
Na minha ideia, as construções passaram a ser feitas a um ritmo acelarado, não sei se por minha causa, ou se da tecnologia que me circunda que faz com que morramos um pouco mais depressa, sem que disso nos apercebamos.
Talvez eu não pertença aqui e talvez eu nunca volte a escrever sobre aquilo que realmente me dá algum sentido. A conformação é algo mais do que presente em relação a este assunto, sem paternalismos abusados, claro.
O difícil é encontar alguém que saiba quem somos, sem termos de debitar toda uma vivência cheia de estórias feitas para encontar uma larga plateia, onde há imenso material para vários dias a fio sem descanso, mas pouca paciência para nos entregarmos nessa busca por algo mais do que transitório.
Difícil é alguém saber amar quem somos, sem ser preciso explicar porquê, quando e onde. Difícil é não nos cansarmos e mesmo assim, continuarmos a acreditar em quem somos e naquilo para o qual vivemos.
Heroi
Fiz de mim heroi, a fim de permanecer eterno na tua memória, a fim de me carregares sempre por essas aventuras que só tu vivias. Há pessoas que se contentam em testemunhar as vitórias dos outros, perdidas entre a vaidade que não lhes pertence, felizes por poderem comtemplar a vida que não lhes pertence. Creio e parece-me que contigo sempre foi um pouco mais do que isso, mas nunca chegou a estar muito distante dessa ideia que tenho agora como clara em mim.
Amar-te nunca foi preciso. Amavas sempre o nojo humano que te circundava, a fragilidade alheia, a inocência conspurcada e tantas vezes esturpada. Afinal, dizias tu, é disso que a massa humana é feita, de sonhos entrelaçados na esperança de um dia podermos esquecer aquilo que sempre nos fez bem, aquilo que é bom de guardar, aquilo que sabe bem.
A mim, só me sabia bem quando te tinha por perto. Quando era contigo que o ar entrava nos meus pulmões e me fazia respirar um pouco mais, sempre. Hà quem lhe chame obssessão, mas era por ti que não morria, numa dessas feiras de horrores onde só tu tu brilhavas, onde todos te queriam e ninguém reparava que era comigo que invariavelmente acabarias por fechar a casa.
Amar-te nunca foi preciso.
Tuesday, December 11, 2007
Extinção III
Estou inerte e contudo ainda com tanto por te dar. Sentada, deitada, imaculada, cheia de prazer por ti.
As paredes amarelas não me trazem a paz que tanto prometeram e no entanto, são elas que anunciam a tua ausência, que sei de cor.
Tentei tantas e tantas vezes acordar, a ver se o amor se esvaía e por fim tudo deixava de ser um lugar honrosamente estranho.
Planeio fugas à tua consciência, saber se ainda penas em mim, mesmo quando não o dizes, mesmo quando não me olhas, mesmo quando não sentes.
Dizem que hás-de caminhar para a morte contínua, que nunca poderás andar, mesmo quando eu só te imagino a correr na minha direcção, que a tua fuga foi de ti próprio e de algo que eu nunca poderia compreender e que mesmo assim, eu sei que sempre aceitaria.
Sou rigorosa o suficiente para não me veres cair e benevolente demais para me veres chorar. Não há sofrimento que ultrapasse a vontade que é querer-te perdoar , sem saber que ângulo escolher ou a felicidade de nunca te dizer adeus enquanto os teus olhos não se afastarem dos meus.
O que interessa da vida é a bagagem nos nossos SONHOS
Por isso, não acordo e deixo-me sorrateiramente imaginar que me abraças enquanto te agarro e volto a sentir a tesão que só sente quando percebemos que o amor é um acto falhado, em tantos de nós.
Adormeço. Sonho. Vivo.
Não te esqueço porque não quero. Não te esqueço porque não tenho graça para suficiente para engrandecer a minha forma, enquanto força que fui.
Tua. Já não minha
A inspiração que me deste, foi-se enquanto te vi chegar ao mesmo local onde eu já perdi as mãos entres os cadáveres inanimados que me chegam ou o sangue que não controlo. Percebi por via da maldita circunstância, que Deus não me tinha dado um dom para o ajudar a salvar aqueles que não receavam a minha ajuda, mas sim a confrontar a sua própria magnificência e a provar que também Ele, embora muito raramente, não é o ser perfeito que tanto fez questão que idealizássemos.
Por isso, não me levanto mais, enquanto pouso a tequilla que tanto me obrigaste a saber apreciar. Dizias que tudo é uma questão de contexto e motivação. Que o ser humano é capaz da maior conquista, assim como da maior fraqueza evidente e que por isso mesmo, os acontecimentos teriam de ter o local perfeito para terem ocorrência.
Ocorrência talvez não tenha sido a melhor forma de narrar todos os acontecimentos. Dizias que gostavas de velocidade e sapiência, que quem conseguisse dominar estes dois factores aparentemente antagónicos, controlava a matriz do conhecimento humano e que por isso mesmo, conseguiria ser mais e melhor.
Talvez por isso, te tenha visto sempre a correr, tentando compor os momentos com toque infundado de inteligência óbvia. Mesmo o sexo tinha lugar a partir do corpo e da memória, as palavras ditas no momento certo, já que raramente as usavas, os corpos que balançavam a toda rapidamente e tu a conduzires a toda a velocidade. Sempre.
Inicialmente não compreendia deliberadamente a tua essência. Chamava-lhe autismo, já que parecia que vias um mundo completamente diferente daquele que todos me davam a conhecer e que eu fui também absorvendo.
Falavas-me em estrelas que nunca se soltavam, sonhos que tinha de ser lidos alto e consequentemente, lugares que eu sabia que já tinha visto, mas que tinha a certeza qu e não existiam. Mergulhavas na bebida, para teres a veracidade que se concede a um homem embriagado e encantavas a plateia normalmente constituída por mim, com essa noção pouco clara do que era o mundo, de facto.
Não é sobressaltada que abro os olhos e constato que não estás ao meu lado. Apenas a tequilla e a imagem do que foi restando da minha personalidade materialista e convicta de que só os objectos perduram na nossa existência.
Talvez porque nunca tivesse querido amar tanto ninguém, como o faço agora que sei que nunca mais terei a oportunidade de encantar a porra da morte e ganhar-lhe alguns minutos.
O que interessa não é a paz de ter chegado.
O que é grande e belo é isto de chegar
E ter logo e sempre a coragem de partir.
Os teus poetas tinham razão e eloquência suficiente, mas eles não corriam nem fugiam. Eram lentos e pouco sensíveis à velocidade e por isso, perduram. Quando me mostraste a poesia que escrevias com as tuas mãos que me haveriam de guiar entre essa intenção que é deixar-se abraçar por inteiro, percebi que não havia nada que pudesse fazer que me afastasse da esperança em acordar de manhã e não te querer ver mais.
Não foi a velocidade que te matou e se foi a ilusão de que não te perdoaria, então morres em vão.
Best Friend – Marcos Leal – Do Outro lado de mim
Friday, December 07, 2007
Dirty Harry
Desisti de compreender, Para passar a aceitar.
Não pudemos exigir demasiado das pessoas que não estão preparadas o suficiente Para conseguirem aceitar e avaliar de forma fidígna, tudo aquilo que temos Para entregar.
Podem inventar equações múltiplas, teorias sobre a lei da relação que se faz com base em distância e liberdade, que não há nada que esconda a limitação do próprio consciente. Quando dizemos que gostamos de alguém, a maior parte de nós, não compreende a multiplicidade de reacções que provocamos no destinatário, nem de resto, isso nos importa. Até porque ninguém quer saber dos sonhos que o parceiro do lado tenta alcançar.
Somos sempre egoístas o suficiente, Para pensarmos naquilo que temos e naquilo que podemos vir a ter, ao invés daquilo que podemos dar. Durante tempos, julguei não ter quantidade ou qualidade suficiente Para entregar a uma relação baseada em afecto físico e emocional e por isso mesmo não permiti a mim mesmo uma segunda oportunidade.
Errar custa-me, ainda que aprenda com isso, o suficiente Para voltar a seguir a mesma lógica, ainda que por um período muito mais curto. Queria voltar a ser adolescente novamente e a conseguir perspectivar esse sonho que tanto abraço como sendo meu. Há pessoas que passam e não deixam marca, apenas porque não arrancam uma impressão segura daquilo que somos.
Por isso mesmo é preciso escrever, gritar, explodir. Contar as estrelas, conjecturar novas constelações e deixarmo-nos perder no espaço. Eles que saibam que o valor que temos é um dado adquirido e que por isso mesmo, não é o facto de nos sentirmos usados que vai alterar esse facto, apenas nos envaidece e nos torna mais corajosos e dignos.
Aceito que nem toda a gente mereça aquilo que tenha Para dar, que sei agora ser suficiente Para fazer alguém vomitar de tanta felicidade. É algo que não posso deixar de me sentir entusiasmado e ansioso, já que quando chegar o momento certo, eu vou ter realmente muito Para oferecer.
Tudo se resume à intensidade que depositamos no momento em que nos entregamos, no qual a coerência não entra e muito menos a frieza desumana. Queremos todos o prazer agarrado à tesão fácil e indiscriminada, noites sem fim a acordar sem perceber muito bem onde, valores que são suprimidos e encolhidos, auto-estima baixa em demasia, orçamentos vazios em compaixão ou ternura.
Passei a aceitar então isto mesmo e que por isso mesmo, gosto cada vez mais de mim. Talvez porque faço da sinceridade a palavra fundamental no decorrer das minha vida, porque me acompanha desde a minha fundação e que é nisso que reside uma das minhas maiores características.
Acima de tudo, estou feliz por estar convicto daquilo que sou, daquilo que quero e espero daqueles que me acompanham e que aquilo que tenho Para dar é mais do que aquilo que a maior parte tem porque merecer.
É nesta deambulação de palavras e registos, que admito que por isso mesmo, não me posso sentir culpado por algum dia me ter entregue a quem nunca valeu a pena. Quando se gosta, mostra-se, entrega-se, preserva-se. É um acto inerente à condição humana e não há como lhe dar a volta. Podemo-nos enganar, inventar mentiras estreitas e perfeitas sobre o fim de algo que nunca começa na verdade, que no fim, os sonhos hão-de ser os mesmos, em todos os lugares.
Fica tanto por dizer, tanto por explicar e ainda assim, tanto que aceitei, mesmo sem ter sido preciso escutar. A perspicácia acompanhada com um grande orgulho na pessoa que me olha, cada vez que me vejo reflectido no espelho mostram a pessoa segura que sou, excepto quando sei que percorro um caminho sozinho e às escuras, quando era tudo menos aquilo que se pretendia.
A maior parte, ainda não ultrapassou o complexo “Dirrty Harry” e por isso mesmo, só dá valor àquilo que tem, quando já estamos sozinhos e sem rasto de coisa nenhuma. Não sabemos o que é gostar e por isso mesmo, agarrámo-nos à primeira pessoa que com um toque de retórica e bom gosto nos parece ser o desbravador de um novo tipo de sensações.
Não há dúvida persistente, apenas certeza de ter finalizado aquilo que noutra circunstância teria durado tempos indeterminados e tempo não é algo que se possa desperdiçar com quem não tem condições intra-pessoais Para o gastar, seja com quem for.
O que me confunde mais é a cobardia, misturada em vontade de arquitectar um sentimento indesejado no destinatário. Isso não compreendo nem aceito, seja de que remetente for enviado. O que me irrita mais é a tristeza disfarçada de comiseração e vontade de foder tudo e todos, sem aviso prévio. Há aqueles que ficam tristes, consumidos pela sua própria tristeza, quando tiveram tudo Para se verem livres dela.
Foi esta a minha maior luta e talvez seja altura de desviar o padrão e constituir um novo rumo à empresa que tanto se anuncia. Como sou inteligente, estive sempre consciente do que tinha Para enfrentar, assim como estou consciente agora que abandono, sem qualquer tipo de dúvidas na minha consciência. Até porque dúvida é algo que não existe, quando gostamos de alguém. Tudo é certo e conciso e eu não me licenciei em Orientação de Sentimentos, apesar de ser algo aliciante, mas que cada vez mais me faz perder a paciência e correr Para outro curso, com outra turma, a ver se desta vez os trabalhos de grupo são mais eficazes e as dúvidas não existem
Caetano Veloso é que tinha razão e eu também só vou “gostar de quem gosta de mim”, conscientemente. Tenho a facilidade inerte de abandonar quem é portador de enfermidades contagiosas ou simplesmente quem não sabem receber a força que tenho e que transporto comigo. Muito Para além disto, não há nada que se possa repetir, apenas porque eu não quero.
Descobri que gosto demasiado de mim Para me deixar tomar por algo que não me preenche ou me satisfaz na totalidade. Tenho consciência que é não é fácil encontrar alguém que queira partilhar comigo o meu sonho, mas que é por isso mesmo que não há pessoas especiais em todas as páginas dos livros que encontramos, numa biblioteca qualquer.
A felicidade maior, é conhecermo-nos o suficiente Para compreendermos as nossas limitações e a nossa motivação máxima. Não há benefício maior do que esse e provavelmente algo que me satisfaça tanto, enquanto constituinte de um colectivo de massas, com um pensamento cada vez mais uniformizado.
Por isso mesmo, isto é algo escrito Para mim e por mim.
A segurança voltou, apenas porque tudo está como devia ser.
Há coisas que nunca serão nossas e por isso memso, não há motivo para nos sentirmos tristes, quando nunca fizemos algo para não o estarmos, de facto.
Best Friend - Kate Nash - Foundations
Tuesday, December 04, 2007
Extinção II
Não me prometeste nada, nunca e mesmo assim eu sempre esperei ouvir-te.
Nem que fosse uma palavra.
Nem que fosse um gesto.
Nem que fosses tu.
Olho para ti, sem saber muito bem o que te diria, se finalmente acordasses e me perguntasses o que tenho feito com o silêncio em que a minha vida se transformou, desde que tudo se tornou frio e perdi a vontade de me deixar aquecer por entre as palavras daqueles que angustiam este sentimento que bate cá dentro e espera sem aviso, que regresses.
Sem querer, vejo ainda as estrelas, que tantas vezes me puxaste e fizeste crer que fazia parte dessa vasta constelação. Não há nada que uma mulher goste do que sentir que pertence a um lugar onde todos as acariciam e as desejam e tu sabias.
Por isso, e por muito mais, voltaria a cometer o mesmo erro passivo e inerte de tentar salvar a tua memória e perdurá-la por algo mais do que as fotografias que guardo desse teu sorriso que nunca me deixou adormecer, quanto mais esquecer.
"O amor é fodido", diria o Miguel Esteves Cardoso. Eu digo que fodido é ver-te morrer ao meu lado e querer apagar esta falta de coerência que é chorar quando nunca o fiz, mesmo quando ela morreu.
Lembras-te? Deixaste-me sozinha, em vão, à espera que finalmente me sentisse culpada por nunca a ter perdoado e por fim o momento chegasse e eu me entregasse aos remorsos socialmente impostos. Nunca aconteceu.
És inquebrável.
Sou.
Era.
Nada disso interessa mais, muito menos a imagem de alguém que em nada merecia a minha atenção, quanto mais o meu amor. O amor é algo que não se pode conceder por força de laços sanguínios, nem por força do comidismo e muito menos pela força da solidão. Há que o merecer, há que o querer, há que ser irracional o suficiente para o aceitar.
E mesmo partindo não sei chegar mais desse lugar sem nome onde me encontro de cada vez que entro em casa e tu não estás. O pó acomodou-se, terias vergonha se cá entrasses agora e tu que dizias que a disposição dos móveis e a forma como eles estavam adornados eram a imagem da nossa própria imensidão.
Se assim é, a minha está coberta de lugares comuns, onde só tu predominas e onde as vozes que pedem a todo o custo que volte a conquistar o meu lugar no coração daqueles que tanto me querem, se calem para sempre.
Se calem, para sempre.
Silêncio.
Era essa a tua melhor característica e então porque é que não a aguento agora? Eles que digam o que quiserem, que hei-de sentir o mesmo por ti.
Há dias acordei e tinha o perfume de alguém na minha roupa. Não são verdadeiramente confiáveis, eles. Indagaram-me, questionaram-me e concluiram que te tinha de esquecer e acordei com o perfume de outra pessoa, enquanto me vestia, atrasada, como sempre.
Uma médica não tem horários a não ser querer salvar aqueles que ama de uma morte rápida ou lenta. É tudo o mesmo. Morte e cheiros que não me pertencem e que eu desconheço.
Pediram-me para me encontrar no mesmo sítio em que os vejo e que não me esquecesse que há um mundo que olha para mim e me avalia e que por isso mesmo, deveria ao menos olhar-me duas vezes ao espelho antes de sair.
Foi o que fiz.
A figura que me olhava parecia substancialmente mais velha do que me lembrava. Será que gostarias de mim, desta forma? Esqueci-me da sensualidade que me motivavas a transparecer, da tesão que era quando franzias o sobrolho, mesmo da mão por entre as minhas pernas. Queria ser eu outra vez, mas contigo. Sempre contigo.
Cheguei e não os vi. Alguém me interpela e diz que estou bonita. Os homens têm a banalidade na ponta da língua, sempre que sentem a fragilidade feminina. Saí, sem pensar. Não era preciso. Não eras tu, nem lhes perdoo por terem tentado criar uma imitação fraca, sem qualquer resquício da tua vida. Tu que sempre me encontraste, por entre a minha corrida desenfreada de não saber amar, mas de o tentar conseguir.
Quando chego a essa instituição que não consigo deixar de considerar como minha, eles olham-me e percebem que neguei a liberdade de não perder aquilo que não se quer ter.
Liberdade.
Tu tens o que eu preciso para me deixar ir.
Nunca te disse o quanto precisava de ti e talvez por isso, tenhas ficado sempre ao meu lado. Vocês adoram a mulher forte e desinteressada, aquela que fica connvosco mas que não precisa, porque consegue gozar a partir de outras formas e feitios.
Por isso nunca o disse. Tornei-me campeã dessa imagem que fiz como sendo eu e nunca te disse que o tempo deixou de ser um condicionador para mim, para passar a ser um prelongamento daquilo que eu tornei eterno.
Tu gostas de mim.
Disse-te sempre que não, para repetir que te amava, mesmo no fim.
Sou má.
Não és.
Fui.
Gostava de te agarrar e fazer-te ficar, a fim de acordares e me poderes tocar novamente. Nada funciona como era suposto. Não voltei a calçar aqueles sapatos que tanto odiavas, apenas para seres o único a puderes conhecer o pior que há em mim. E voltava a fazê-lo, apenas porque a verdade que reside em todos nós, é aquilo que escondemos.
Não quero razão, não quero uma segunda oportunidade.
Quero apenas que regresses, sem expectativa ou incitação.
Acredito em ti.