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Tuesday, May 26, 2009

Sozinha

O cabelo na frente dos olhos e uma vontade de engolir o mundo com um só gesto. Enquanto procura um significado para o percorrer vazio das mãos que já tocaram o céu, tantas vezes, consome o silêncio com a certeza de que o tempo dura um cigarro inteiro.

Gesto compenetrado
A encontrar a inocência da idade
Onde a ilusão nunca se torna em algo real
E tudo se desfaz, eventualmente.
Tudo.
Não previa o desfecho do acontecimento marcado pelo fim do início, como se tudo fosse uma contradição daquilo que realmente queria, daquilo que realmente sentia. Não conseguia perspectivar mais o futuro, nem sabia consertar o passado. No seu presente, vivia a felicidade de estar triste, enquanto a chuva caía suavemente por entre o carro e a segurava com a palma da mão, como já seguraram em sim. Por si.

Revia agora todos os factos e os acordes com que construiu a partitura que parecia ter agora um final pouco precipitado. Não conseguia suster em si a infelicidade de não ser perfeita e de ter falhado, novamente. De se espalhar por entre o cheiro da erva molhada junto ao mar e de continuar a partir-se enquanto gritava num silêncio surdo. Silêncio impenetrável, onde nada estava bem, onde nada se segurava, onde nada perdurava. Fechava os olhos e não desaparecia. Imagens ténues de fragmentos roubados por câmaras alheias, visões de uma felicidade conjunta que não partilhavam mais. Perguntava-se ali mesmo, para onde iam esses momentos alheios aos problemas do resto do mundo. Se perdurariam na eternidade à espera que alguém os concluísse ou se tornassem apenas pó por entre a rotina do dia que se avizinhava. Fechava os olhos e sabia que nada ficaria bem, não naquele momento, talvez nunca.

Talvez nunca, numa terra bem longe
Memórias suspensas por lampiões estragados
Casas desabitadas, opostas à culpa de não sentir vergonha
Por entre o resquício de vida que existe em todos nós
Onde tudo se quebra, onde tudo se perde
Onde nada se substitui

Era desconfiada e não sabia o que fazer com isso. Queria apenas sentir o peso da chuva por entre os dedos e esperar que tudo terminasse no momento em que esperava, mas não conseguia. Não sabia como tinha começado, nem sabia se teria acabado. Tinha-se perdido por entre o caminho de querer ser eternamente feliz e não sabia quem tinha apagado a luz, que fez com que nunca mais conseguisse voltar ao rumo correcto. Divertia-se nos últimos tempos a ter pena de si própria e esperar que fizessem alguma coisa por ela, a ver se valeria realmente viver com uma alma tão pequena, como a sua se havia tornado. Desconfiada da sinceridade de qualquer político, resignada finalmente, por aquilo que a vida lhe dava, desiludida com os fazedores de sonhos, desapontada com o som da porta a fechar.
E eis então que recorda o pânico em câmara lenta a despontar de dentro de si e as palavras a correrem a sua consciência como se o mundo tivesse acabado ontem e ninguém a tivesse acordado para assistir. Tinha-se esquecido do nome que lhe haviam dado, tinha-se esquecido de sonhar e esperava agora fechar os olhos e pensar que tudo haveria de ter sido um engano e ninguém haveria de voltar a fazer as coisas como delas se lembrava. Havia de confrontar as peças espalhadas pelo chão de todas as forças que acabava por perder. Havia que defrontar a derrota mesmo defronte dos seus olhos, perante buscas intermináveis a fantasias rebulescas e pesadelos a meio da noite, suores e tremores, tudo a buscar o calor da companhia que a acalmava de cada vez que sabia que a realidade era melhor do que o sonho que tantas vezes idealizara. E por isso havia deixado de sonhar.
E por isso, tinha-se esquecido de sonhar de todos os detalhes que haveria de enfrentar um dia e que haveriam de fazer dela a mulher mais forte das constelações. A princesa que o pai fazia questão de criar no reflexo do seu espelho partido, enquanto era criança e da inveja que a mãe sentia de cada vez que ouvia canções deste género.
Ela lembrava-se. Lembrava-se do desprezo materno, da fugacidade da ternura que eventualmente recebia, quando não se sujava e era perfeita. E ela nunca era perfeita. Ela lembrava-se do que havia passado para conquistar o sonho ideal, a figura eterna que se deitava consigo e que agora não estava mais ali. O afastamento dos pais, a vergonha estampada no olhar do pai. Já não era mais uma princesa.
Agora, tinha perdido tudo, menos a vontade de chorar. Mas era apenas mais uma vontade, como voltar atrás e fazer tudo perfeito e talvez assim, ter alguma ternura devolvida e talvez desta forma, não ouvir o som da porta a bater e o desespero a despoletar. Uma ida à janela na esperança que voltasse atrás e a perdoasse, mas nunca aconteceu e ela ficou sozinha, entre a relva que tinham plantado as duas e o amor que não tinham escolhido. Era desconfiada e nunca tinha sido compreendida na totalidade. Nem mesmo ela. Agora, não havia nada que pudesse fazer. Queria apenas que tudo fosse claro, que ela voltasse e lhe dissesse que não tinha motivos para ter agido como teria agido, mas que não importava agora. Só importava a intemporalidade do sentimento estampado por entre juras de amor simples.
“ E que faço eu com tudo isto? Onde coloco todas as certezas até aqui sentidas ? gostava de a fazer voltar, de a fazer entender a inocência perdida entre a vontade de querer se mais humana diariamente. Espero que não se esqueça de mim, entre amanhã e daqui a um mês. Espero que tudo volte ao normal depressa. Espero tanta coisa de mim, espero tanta coisa de quem está comigo…”
Não sabia mais de quem era a culpa, sabia que não poderia fazer mais nada, por entre o reflexo da falsa princesa, agora sozinha. Não sabia também, o porquê de tudo não ser tão fácil como nos filmes que o pai a habituara a ver e acreditar, “pai, isto é mesmo assim?”, e ela acreditava, sempre. Amores que quebravam guerras e fronteiras, para no fim perceber que era tudo treta. “ Pai, estou apaixonada. Chama-se Clara”. Clara era a desilusão espalhada por entre a postura do pai e a decepção da própria perante aquilo que perspectivava. Afinal, nem tudo era possível e o amor também pode ser julgado.
Entre o passado e o futuro
Há sempre uma dor presente, que anuncia
A chegada da velha memória.
Chama-se insegurança e vem de longe,
Chega sem avisar a abraça-nos, faz-nos sentir confortáveis.
Mata-nos.
Matou-a.

Enquanto adormece, por entre a chuva, lembra-se de já ter adormecido assim. Sozinha.

Monday, April 27, 2009

sou trapalhão

Novamente embriagado pelo silêncio da inércia que se abate sobre mim. Habituei-me a viver cada momento, como se fosse único e precioso, que me esqueci o quão frustrante isso pode ser, quando partilhamos o mundo com mais alguém, do que o nosso próprio ego.
Já aqui o disse muitas vezes e volto a afirmar – ter uma relação não é de todo fácil. É preciso gostarmos o suficiente da imagem que temos de nós para a conseguirmos manter durante uma eternidade e assim, nunca desnivelarmos as expectativas que criamos sobre nós próprios. É preciso ter coragem para revelarmos o que realmente somos e termos a capacidade de ainda assim, continuarmos a gostar do nosso reflexo.


Habituamo-nos a culpar o governo pelos males do país, o vizinho que não paga o condomínio, o passado pela vergonha que sentimos de nós próprios. Habituamo-nos mal.
Numa sociedade individualista, onde tudo é feito e dirigido para o prazer próprio, é difícil percebermos que não somos assim tão formidáveis, quando somos expostos à fragilidade do olhar de quem mais amamos.

Eu
Sou trapalhão. Não sei o que fazer com tanto amor, tantas vezes. Deixo-me perder em alucinações próprias, que achava já esquecidas e por dejá vu’s completamente irreais, para no fim, olhar para trás
Parar
E querer recomeçar tudo de novo, sem nunca me lembrar que nada volta atrás, sem nunca nos lembrarmos de todas as parvoíces e mentiras que acreditamos durante tanto tempo, apenas para conseguirmos ser as estrelas que sabemos bem, jamais serermos.
Vivemos em Nova York ou Londres, não interessa. Queremos ser felizes durante uma noite e esperar que ela morra e se esqueça de nós, embebidos no vinho que nunca nos larga.

Eu
Ainda não consegui encontrar o equilíbrio entre tudo aquilo que fui e aquilo que aspiro a ser. O emaranhado de percepções apodera-se de mim, sempre que me imagino a fazer algo, sem ti. E é agoniante.
Sem ti
Como se o mundo não significasse mais nada, para além da cor que trazes ao meu mundo. Para além da serenidade que me confias, para além da vida que me fazes querer ter.

Eu
Nem sempre gosto de mim. Tenho de me manter ocupado para me esquecer disso e conseguir iludir o reflexo da minha imagem que se apresenta muitas vezes difusa. Pensar que nada mais tem o mesmo encanto é aterrador, apenas porque me relembraste o encanto de todas os aspectos simples e encantadores que a vida pode oferecer e que aparentemente os tinha enterrado bem fundo.

Congruentemente, acabo por me perder na identidade de quem já fui, de quem passei a ser e de quem quero voltar a ser, mas desta vez sem esquecer quem passei a ser.
Não é fácil, nem pouco confuso. É simplesmente uma tentativa básica de aglomerar todas as experiências obtidas através de uma vida dividida em 2 fases distintas e transformá-la num bolo que seja passível de ser degustado com satisfação, para quem me acompanha, mas principalmente para mim.
Compreendi, claro, que a insegurança que sinto, para além de todo o caos financeiro actual, prende-se com o simples motivo de ter concluído que existiam lados mais essenciais, do que aqueles tantas vezes explorados por mim, apesar de só assim, ter conseguido chegar até ti.
Durante um curto período de tempo preferi - e é provável que o volte a fazer, quando me voltar a perder – culpar-te pela minha insatisfação de muitas lembranças que povoam a minha memória. Queria apagá-las e fingir que não fazem parte de mim, mas sou honesto demais para o conseguir fazer. Em vez disso, prefiro colocar-me em paz com as mesmas de uma forma altruísta e puramente patética, mas que faz sentido para mim.

Para mim, fazes sentido. Depois de tudo o que vi e experienciei, quando me vi sozinho sem a tua presença, considerei-me a pessoa mais irracional e negligente assim que abri os olhos e finalmente acordei. De olhos postos no tecto, numa cama que não era a minha, imaginei-me contigo e sorri, para logo depois realizar que não permanecias comigo e morri.
Nesse momento, iniciei uma fábula só minha. Nela, compreenderias a minha vontade e impaciência em te ter, mesmo sem ser preciso explicar mais nada e ficaríamos os dois a contar as estrelas num lugar qualquer, mas só nosso. Claro que nada é perfeito, tendo em conta as imperfeições coladas à nossa pele e a fábula, claro está, não se concretizou. Em vez disso, experienciei a dor real do que era não te poder ter só para mim, num aglomerado de pessoas, por entre as quais gritava cá por dentro “ que se fodam” e com as quais já não me identifico. Aparentemente, estou muito agarrado à imagem perfeita que um filme de uma hora me consegue transmitir sobre o que é ser-se feliz com alguém para sempre, como se alguém conseguisse viver uma vida inteira numa hora.

Sou trapalhão e só sei dançar em espaços limitados. Só sei fazer com que o tempo seja realmente aproveitado, quando escasseia, só sei trabalhar com o stress a dar-me a mão, só sei lidar com o mundo como se não houvesse amanhã. Mas esse mundo existirá amanhã e embora não saiba o que irá acontecer, sei que vou querer estar contigo, mesmo que já não exista, nada.
Talvez a ver-te a espreitar por entre a objectiva, talvez a querer-te um pouco mais, por entre o feitio moldado para situações de crise, nunca para algo que pode ser tão perfeito como um champagne bruto a acompanhar um queijo da serra. Já não sei se sou urbano ou rural, apenas sei que em algum destes sítios, hei-de de me continuar a apaixonar por ti, diariamente, sem que a rotina me apague. Sem que a rotina nos apague.
A ti, a pessoa mais importante que resultou de toda a viagem interior que foi estar do outro lado do mundo e que não quero perder nunca, apenas porque sei que contigo, sou uma melhor pessoa. Acredito em ti, resta-me acreditar em mim e que a temperamentalidade do meu ser há-de se extinguir e eu nunca me hei-de esquecer que és a peça-chave em todo este aprendizado que é viver.

Sem nunca o precisar de dizer
Sem nunca o precisar
de repetir
Por entre a fuga
Por entre a luz,fugi
para me reencontrar comigo
e sentir que não te hei-de perder.
Mordeste-me o coração e agora é tarde
Para esquecer essa leveza
Essa importância que sinto
Quando penso
Quando sinto
Que sou amado por
ti.


Tuesday, April 21, 2009

Seriamente

Seriamente.

Alguém que nunca nos viu, mas que sabe quem somos. A carregar flores por entre os braços e a oferecer-nos um sorriso ligeiro. E é aí que pensámos “ esta porra não faz sentido”.
Há que admitir que não compreendemos o percurso dos nossos caminhos e tentar fazê-lo só faria de nós seres ainda mais patéticos do que algum dia seremos. Há que o admitir, para que possamos ser um dia

Alguém, seriamente.

Rodeados de determinações escolhidas por nós, seriamente. As escolhas, as hipóteses rejeitadas, as oportunidades criadas e os lugares onde indubitavelmente me trazes e me fazes reviver de cada vez que pousas as mãos por entre a minha disfarçada fragilidade.

Ironicamente

Finjo que não possuo a certeza de não controlar tudo aquilo que posso ter. Finjo, apenas porque não controlo, verdadeiramente. Sem inocência ou falsa impressão, na conquista por uma fidelização da afirmação “esta porra não faz sentido”.

Nenhum

Por isso, cometemos novamente o mesmo erro, até o conseguirmos converter em algo irremediavelmente correcto. E por aí vamos, por aí vou.
Com a força que conquistamos, com a força que conquistei, por entre os sonhos que se foram matando, sem perder de vista o meu inimigo e gritar “esta porra não faz sentido nenhum”. E aí vamos nós

Aí vou eu

Ninguém pede novamente uma segunda oportunidade, porque nunca saberiamos o que fazer com ela, como nunca soubemos. Guardamos as promessas de um amanhã um pouco melhor e aí vamos nós.

Aí vou eu

Embrenhado nas confusões alheias, solto, preso, a tentar reter os paradigmas, a fim de os descontruir sem nunca os compreender totalmente. Sou preguiçoso demais, sequer para o tentar. Em vez disso, escrevo na tentativa de fintar a minha própria consciência e fugir novamente aos lençois onde me custa adormecer sem contar as estrelas contigo e recomeçar onde nos enganámos. Mesmo sem tempo, mesmo sem velocidade vertiginosa que tudo tem a sua demora. Mesmo sem meios, mesmo sem fim. Viver a vida plenamente sem consideração a não ser pelas nossas escolhas, que o a amnhã chega depressa e quando dermos por ela, estamos presos a uma cadeira de rodas e não dissemos “amo-te” as vezes necessárias e aí sim, “nada disto fará sentido”.

Nada

E eu escolho amar-te sem retenção de custos, mesmo que a inflação não me permita. Escolho perder-me nessa rotina desgastante e tentar sobreviver sem nos condenar a um suicídio lento, de cada vez que nos encontrarmos e conversarmos, em vez de falarmos. E talvez aí o meu reflexo não seja um problema e faremos tudo como quisermos, como bem entendermos, sem cometermos o mesmo erro, outra vez.

Eu escolho-te a ti. Talvez assim, sejamos alguém.

Seriamente

Ninguém precisa de rotinas ou inocências perdidas para se reencontrar. É por isso que te trarei para casa, a qualquer dia e hei-de ficar a ver o teu respirar na esperança que o teu sorriso me encha e possamos novamente viver, talvez voar depressa, para algum lugar só nosso, onde a memória não nos traia e as nossas escolhas fiquem assentes na maturidade que consquistamos e na partilha que realizamos, como se uma partitura se tratasse. Como se não existisse nada lá fora.

Seriamente.

Só nós e o Caetanos a sonhar acordado na nossa presença, sem ser preciso juntar o que vem detrás, apenas o que está para vir e o presente que é o que de mais valioso te posso oferecer – esse momento vivido em tempo real, em conjunto, como se de um plano secreto estivéssemos a falar. Sem nunca te esquecer, sem me interessar por mais ninguém, apenas contigo na minha inspiração, a tratar de ti, apenas porque gosto de ti, sem ser da boca para fora.
E eu sei que estás comigo agora.

Esta porra at+e faz algum sentido.

Seriamente.

Thursday, March 19, 2009

A complexidade do SER

A complexidade do ser-humano é algo inabalável, altamente constrangedor e magnífico.
Somos esse ser paradoxal, onde os limites são impostos pela forma como reagimos na infância às leis impostas pelos nossos pais e pelo contexto sociocultural.
Sem entendermos isso, não somos ninguém.


Uns super homens, sem capa para voarmos, sem conseguirmos elevar os nossos sonhos a esse campo surreal e magnífico que é colocarem a vida além do que está presente nas nossas mãos.
O futuro, a deus pertence, há quem diga. E sem fé em coisa alguma, que nós próprios, também não seremos ninguém.

Concluimos a espera, ao longo dos anos, e quando menos esperamos alguém nos leva o tempo e esquecemos. Esquecemos o amor e a ternura, a candura e a magia. Esses toques que fazem a vida um pouco mais perfeita.
Sem fé em nós próprios também não seremos ninguém. Nunca.
Dependemos do chamado destino, colocámos-lhe as esperanças de algo menos atroz, um acontecimento mais lisonjeiro, mas real, menos corrosivo.
No fim, somos apenas algo.
Algo característico, uma caricatura das nossas ilusões, uma criação da nossa consciência, uma histeria pregada em festas deambulantes, que esperemos que acabem depressa, a ver se alguém nos agarra e nos adormece.

Queremos todos um guarda-costas, uma memória apaziguadora que nos leve e nos acalme, essa estabilidade que nso falta, essa luz que nos guia. Votamos em todos os políticos que existem a ver se algum nos leva, nos guia, nos dá um emprego sustentável no meio de tanta crise, na esperança que não sejamos nós os protagonistas de mais uma história de infortúnio no telejornal da uma. Da tvi, da sic, não gaverá grande diferença. O mundo público vive da desgraça alheia e nós também, desde que não seja a nossa.
Desde que seja a deles, seja porque razão for.
E por isso, nunca haveremos de ser ninguém.


Acomodados, deambulantes, corrompíveis, sem margem para erro, a ver se o vizinho do lado falha primeiro. À espera que esse Deus acorde e nos salve e crie um milgre divino qualquer. Um que torne os sentimentos mais estáveis, o acordar mais radioso, a firmeza mais imposta, a luva mais fácil de encaixar, o nome mais fácil de pronunciar.


Não confio mais nas melodias, será a minha maior desgraça, sempre. Caguei para os pontos de exclamação e para a paciência. Quero voltar para essa criação só minha, que não se completou, para esse texto que se perdeu, para essa marca que já foi a minha.
Perdi-me em tudo aquilo que queria ter e aquilo que queria perder e acabei por me perder, entre as vírgulas e os pontos finais. Tornei-me condescendente e mais preguiçoso, para ser apenas calmo e engenhoso.

E por isso, nunca fui ninguém.

Deixei de ouvir a guitarra e o saxofone, enfiei-me no vazio das palavras e da tecnologia, a ver se o resto do mundo se esquece de mim e posso finalmente sonhar.
A ver se me consigo tornar alguém.
Toda a gente a pedir atenção, no meio da criação da significação, eu envolto em simbolos, a ver se os signos não se perdem e a dar razão ao Pierce. Tudo na mais efemeridade possível, passível de ser descrita. Tudo na maior obscuridade.
Um dia.
Enquanto isso, fecho os olhos e o pensamento esvai-se, sangra. Não gosto de metáforas, mas sem elas, também não sou ninguém.

Respira fundo.
E volto a mim, a ver se o cigarro se acabou e eu páro de dar voltas ao meu pensamento. Não quebro, não recolho nada, novamente e enfrento.
Seguro-me, um dia hei-de conseguir chegar a algum lado, pelo meu próprio pé, pelo meu próprio caminho.
Um dia tudo ficará como deveria ser.
As pessoas hão-de perceber que é na igualdade que está a maior felicidade de estarmos vivos, porque precisamos dela, para não nos sentirmos vazios e sozinhos.
Segura-te.
Um dia a guitarra voltará novamente a tocar e todos esses detalhes que te metem medo e te tornam um pouco mais pequeno hão-de ser ultrapassados e tudo acabará por ficar um pouco mais leve, finalmente.
Tudo.
Decora o teu nome, alguém o há-de esquecer. Cola esses pormenores de que és feito, a vida há-de saber o que fazer com eles e esse teu sorriso há-de voltar novamente, sem manufacturações, sem remedeios pouco originais, sem tempo, sem espaço.


Um dia serei alguém.

Best Friend : Jason Mraz feat James M. Details in the fabric

Wednesday, February 18, 2009

Toques de génio

O ser Humano é um animal egoísta, na sua essência e contrariar isso, é desafiante.

Desafiar isso pode ser mortal, mas também é isso que nos destingue.Impedir que o facto de estarmos arruinados, arruíne aqueles que mais gostasmos, é de facto, desgastante, tornando-se urgente uma evolução para algo menos corriqueiro e banal.A distinção, não é para todos, mas é fundamentalmente, para aqueles que amam verdadeiramente. Privar a pessoa que está ao nosso lado dos nossos limites impostos por uma educação baesada em tudo aquilo que doi, torna-se urgente quando se está, finalmente, numa relação que se pretende ser um sucesso, todos os dias.E é nisso que consiste amar, também.
Tentar que a evolução seja conjunta, fazendo um esforço crasso para que o nosso feitio não faça doer em situações decisivas e preponderantes.

Em suma : fazer quem está connosco feliz, mesmo nos momentos em que não nos apetece e tudo o que queremos dizer é merda pela boca fora.
Vejo muitos casais a discutir e aquilo que me apetece perguntar é: vocês acreditam mesmo naquilo que dizem e na maneira como acusam a pessoa que está ao vosso lado?Que isto aconteça apenas em alturas em que os ânimos desafiam a gravidade, parece-me letal.
Afinal, como é possível que duas pessoas pareçam ser do mesmo partido e concordem com tudo aquilo que dizem, quando momentos a seguir apenas porque choveu e alguém disse que ia estar sol, cada um dos intervenientes veste a camisola de partidos diferentes, extremistas na maioria dos casos?

Imagino de um lado, Paulo Portas e do outro Francisco Louçã a guerrarem entre si, esquecendo que há minutos atrás, eram os dois do PSD e o seu maior sonho é conseguirem ir para o Parlamento Europeu, em conjunto.A necessidade de discutir que alguns de nós tem e deve ser superada, para que o amor e o entendimento prevaleça. Amar, é compreender, mesmo nos piores momentos e por isso sei, hoje, que se não fiquei com nenhuma das pessoas que passaram por mim até ontem, foi porque não as amava o suficiente. E às vezes amar nunca é o suficiente.O amor reflecte-se em pequenos toques de génio. Impedir que a outra pessoa saia com ferida, é de facto, o mais importante.

" Prometo ser compreensivo na saúde e na doença
Repeitando-te até nos momentos de maior raiva
Tentanto tirar o melhor de ti, em qualquer altura". ( Sugestão para voto de casamento).

Soneto da Felicidade


A paixão tem destas coisas.
Ligamos o televisor e somos inundados por um marketing carregado de paixão desenfreada, seja nos anúncios publicitários, seja nos vários filmes onde pulalam personagens entediantemente amorosas ( interpretadas quase sempre pela Meg Ryan ou uma falsa sósia).
Descrevem-nos a paixão, como algo sorrateiro e imponderado, ao virar de cada esquina, sem nada que tenha que ver com a racionalidade ou lógica ponderada, carregada de aventuras e finais felizes numa praia paradisíaca qualquer. Talvez Cuba ou Republica Dominicana, o que interessa são meia dúzia de mojitos, uma espreguiçadeira e um grupo de nativos a satisfazerem os nossos pedidos por menos de um dólar.
Sem nos darmos conta, oferecem-nos a paixão em vários pacotes, cada um deles, destinado a um diferente target. Basta escolher : Meg Ryan ou Sandra Bullock, Kevin Costner ou Hugh Jackman.
No fim, deixamos de pensar naquilo que realmente queremos e procuramos, para passarmos simplesmente a assumir que o verdadeiro amor reside num grande filme de momentos, que acabam eventualmente por desaparecer.
A crise, leva a isso mesmo, como descreve Inês Pedrosa na sua crónica Contra a Paixão na edição da Única 14/02/2009, no Expresso. Ficamos sem opções e acabamos por nos deitar com o primeiro olhar que nos aparece com sabor a mar e monte velho, para no fim, tudo parecer um hotel onde as emoções são depositadas para logo serem esquecidas.
Esquecemo-nos fundamentalmente que o amor e a paixão advêm de nós e daquilo que sentimos e que por isso mesmo, inicialmente, temos de conhecer quem habita dentro de nós. Sabermos o que esse ser precisa, do que se alimenta e o que realmente o faz ter orgasmos de prazer.
Puro Prazer.
Precisamos saber de onde vem a alegria eterna de viver, de partilhar e de dar, de evoluir. O amor e a paixão têm esse dom nato de nos querer fazer melhor, numa constante mutação em algo perfeito, que nunca chegaremos a ser, sem que por isso nos tenhamos de sentir frustrados. É nisso, aliás, que reside a felicidade e seria eu um falso humilde se não afirmasse isso mesmo.
Por isso, é necessário sabermos o que realmente nos faz falta, quem nos falta e onde fazemos falta. É urgente concluirmos essa complexidade de que é feita a matéria humana, para sabermos depois quem queremos ter ao nosso lado.
Essa matemática aplicada às ciências sociais, na minha perspectiva, faz um completo sentido. Afinal, quereremos todos uma Meg Ryan, ou haverá espaço para uma Penélope?
A minha visão, é que todos devemos ter o que realmente queremos, o difícil, a meu ver, é conseguir perceber o que queremos. Já dizia a mestre Agustina, o difícil é pensar. Pensar no que gostamos, no que gostariamos dever quando acordássemos, no que gostariamos de ver quando adormcessemos. E não há nada pior do que acordar ao lado de quem não amamos.
Por isso talvez, as pessoas sejam tão infelizes, na maior parte dos casos. Tomam as acções apenas porque projecteram a ideia de que não podem ser mais do que aquilo que são.
A minha visão, é de que todos deveriamos fazer aquilo que gostamos e sentimos de fazer, depois de assumirmos as nossas acções, conscientemente e racionalmente e quem me diz que o amor tem pouco de racional, está enganado, na minha opinião.
É preciso ser-se racional para se concluir que se quer passar o resto da vida com alguém, principalmente, é preciso ser-se racional para ter esperança nisso mesmo.
É preciso ser-se racional de que o amor é essa obra de arte constante que precisa de ser moldada e adorada diariamente, esculpida ao pormenor, com todas as perfeições e imperfeições que acabam por se tornar o grande palco que á vida.
É preciso ser-se racional para se ter a certeza de todos os pormenores ínfimos pelos quais amamos e porque o devemos continuar a fazê-lo em conjunção com a irracionalidade que envolve toda essa temática, que é o facto de nos deixar a borbulhar o coração e ficarmos sem chão tantas e tantas vezes.
“ Que não seja imortal, posto que é chama

mas que seja infinito enquanto dure"* ( Vinícios de Moraes in Soneto da Felicidade)
Provavelmente Pedrosa e o Vinícios têm razão, mas também é mais fácil acreditar no amor a cada esquina do que lutar verdadeiramente por ele. É preciso ter-se coragem para amar. É preciso ser-se Homem para construir uma relação de que nos orgulhemos. É preciso ser-se adulto o suficiente e gostarmos de nós próprios para sabermos que aquele olhar vai ser nosso para o resto da vida e mesmo assim, ficarmos felizes com isso.
Durante muito tempo, perdi também eu, essa coragem tão característica outrora minha. Acabei por me conhecer e perceber aquilo que realmente queria e que me fazia feliz.
A esperança de um amanhã melhor, sempre, é aquilo que me faz verdadeiramente feliz.

Friday, February 06, 2009

Amar nunca foi o meu forte – cada acto tem a sua conquência


Amar, nunca foi o meu forte.
E não é fácil, nem leve. Vivi sempre com a certeza de que era na dor do incompleto, que residia todo o amor possível e imaginado.
Toda a candura eternecida, todas as discusões e surrealismo, como um quandro perfeitamente imperfeito. Como nós.
Paixões inconsequentes são sempre mais fáceis e mais fáceis de eternizar, onde o tempo e o espaço determinam que tudo tenha de ser perfeito.
Sem rotina.
Sem obssessão.
Sem rasgo de fuga ao passado.
Apenas o momento eternizado a juntar a mais uma coleção retida na memória que já não sabe mais onde e o que guardar.
Houve momentos em que terei pensado que me estaria a arriscar, para algo que concerteza alguns predestinaram.
Sorrirmos, apenas porque temos algo de importante na nossa vida, é de facto um risco. Nunca sabemos quando é que o nosso tempo acaba, como vai ser e mais importante ainda – se haverá algo como nós os dois.
Algo que se compare.
Algo que se assuma perante a imensidão do infinito como a nossa certeza que acaba onde a linha deixa de exiistir. Algures.
Ninguém sabe muito bem onde.
E ninguém sabe de nada. Vivémos fechados no nosso próprio tempo. Tempo que alguém delimitou, tempo que nós concretizamos. Tempo que seguimos escrupulosamente.
Deixei de ter certezas, para além de te querer por tempos infidáveis. Criei tantos paradigmas inabaláveis ao longos dos anos, para serem derrubados por risos e noites mal dormidas, que já nada merece a minha confiança absoluta.
A menos que sejas tu.
A menos que sejas tu a conduzir para algum lugar encantando.
A menos que sejas tu deixar-te ir, por entre as minhas mãos e a nossa noção de sinceridade embebida em saudade ao pôr do sol.
A menos que sejas tu a lembrar-me que o mais importante são todas aquelas coisas que não vemos, mas que careegámos em nós todos os dias e que nos fazem ter vontade em partilhar as cores do mundo com que mais gostamos.
A menos que sejas tu a acordar-me e eu aí sim, queira viver um dia em pleno, como se não houvesse amanhã.
Amar, nunca foi o meu forte e por isso saiba que isto que sinto, não pode ser de todo algo sensaboroso ou duplicável. Trata-se de algo único e profundamente inabalável.
E por isso este é o ano certo para amar e adormecer com um sorriso nos lábios, porque sabemos que a nossa presença permanece dentro de alguém que a aprecia e a cuida.
Como se vivéssemos da luz que alguém nos dá e nunca fosse suficiente.
Nunca.
E ficássemos viciados e não quiséssemos fugir, apenas esperar que ela regressasse e nos beijasse e ficasse sentada no chão a olhar o que se passa lá por cima, sem grandes pretensões de ver algo mais bonito do que o vazio do desconhecido.
Este é o ano certo para começar a amar, para que os próximos sejam um prelongamento de algo seguro e conciso, pouco controlável, mas cheio de mimos e lençois brancos, cheiro a hortelã e alfazema e muitas noites passadas a visionar histórias que nunca poderão ter a imensidão da nossa, apenas porque não são reais.
O que mais nos dá distinção, é de sermos humanos, de facto.
De erramos consequentemente, devido aos limites sensoriais que possuímos e aos quais nos entregamos. De por vezes tentarmos fazer do outro, algo à nossa imagem e sermos suficientemente capazes de dizer “agora não”, apenas porque gostamos um do outro.
Viveremos sempre na dicotomia do espaço e do tempo, agarrados a uma força que só pode ser surpreendente para que nunca tiver amado, de verdade.
Mordeste-me o coração e nunca mais soube fazer nada com ele, a não ser esperar que voltasses e não te arrependesses.
E voltaste.
E não te arrependeste.
E eu cossegui sentir-me seguro, por entre todas as minhas fobias a compromissos e medos refeitos, até porque vivemos em crise e por isso, é difícil e complicado alguém conseguir sentir-se seguro com algo.
Em crise de valores, de consciências, de paradigmas. Crises pessoais, crises inter-pessoais, crises de mercado, crises internas.
A minha maior crise neste momento é não poder acordar todos os dias ao teu lado, porque alguém estipulou que tudo tem o seu tempo, como se o amor fosse vítima de cálculos e equações metódicas e pudesse ser contado ou calculado.
Como se pudesse ser quantificado. Como se pudesse ser, então, eliminado.
De ti, orgulho-me de muito. De mim, orgulho-me de ter arriscado.
Cada acto tem a sua consequência.


“ Por me teres concretizado os meus sonhos inocentemente
E porque agora me sinto mais vivo do que nunca”
Best Friend Sade. No Ordinary Love

Thursday, January 29, 2009

Cada acto tem a sua consequência

Cada acto tem a sua consequência.
Um rapaz que se casa. Com uma mulher. Um rapaz que é gay.
Ele sabe.
Compram uma casa, têm um filho.
Vivem felizes, vivem como qualquer casal.
Ele acorda insatisfeito. Liga o computador, entra no Irc. Conversa com um rapaz.
Os lençois são brancos a constrastar com o cobertor, violeta.
Adormece e está atrasado para levar a mulher ao cinema.
Janta.
Dá um beijo ao filho. Não fez os trabalhos de casa.
A cunhada precisa de um transplante de medula. Está doente. Acontece a todos.
A mulher faz um exame e não vão ao cinema.
Talvez nunca mais entrem no cinema, os dois.
A mulher está infectada com o vírus da sida.
Cada acto tem a sua consequència.

Cada acto tem a sua consequência
Ela já sabe. Tem 12 anos e os pais estão a discutir e ela não quer ouvi-los novamente.
Corre para a casa da Ana e a ana decide relaxar.
Serão as melhores amigas durante tempos infinitos de raparigas de 12 anos.
Tem 15 anos e está com a Teresa. Ela já sabe. Os pais estão a discutir e ela não quer ouvi-los. Apanha o autocarro com ela e desce até à Foz. Quer relaxar.
Seráo as melhores amigas durante tempos infinitos de raparigas de 15 anos.
Tem 21 anos e já sabe. O pai chora a saudade da mãe por entre a chuva que cai lá fora, mas ela não quer ouvir. Acende o cigarro de sempre e espera que o maço acabe.
Aos 40 está no Hospital e o pai está com ela, a chorar meio insano, meio louco, talvez lúcido “ o maior desgosto de um pai é ver o filho morrer primeiro”.
Cada acto tem a sua consequência.

Acaba com o namorado de 11 anos.
Cada acto tem a sua consequência.
Viviam felizes, desde o tempo de escola, quando ela usava fita na cabeça e saias de pregas.
Conhecia os pais e os avós, partilhavam a televisão ao fim-de-semana e o banco de trás do carro várias vezes por semana.
Tinham uma rotina.
Ele quis mudá-la.
Viviam felizes, mas isso não lhe chegava.
Por isso, decidiu deixar de partilhar tantas vezes a televisão ao fim-de-semana e passou a chegar mais tarde, a princípio, ocasionalmente.
Depois, começou a adorar música africana e a interessar-se pelo crioulo.
Passado um mês disse-lhe “ Estou confuso”.
E toda a gente fica confusa, quando a rotina muda pensou ela.
Deixaram de viver felizes porque ele deixou de viver com ela.
“Estou apaixonado por África” e ela pensou que ia com ele visitá-la e mudar a rotina.
“Vou viver com ela. É mais velha, mais madura e não vou cair na rotina”.
Deixaram de viver felizes.
Cada acto tem a sua consequência.

Best Friend . Kings of leon use somebody




Friday, January 23, 2009

Tomada de Posse

O tempo que agora urge, para tudo e que outrora me sobrava. O tempo de amar e ser feliz, que finalmente tomei como meu. O tempo de viver e de morrer, também.
Caminhámos todos para o mesmo, espanta-me é que ninguém compreenda isso, na verdadeira magnitude que esse pensamento encerra em si.
Mortes prematuras, guerras e tomadas de posse de presidentes que se esperam salvadores, mas que por não passarem de simples mortais, pouco poderão fazer. Talvez o nosso ciclo esteja a chegar ao fim. Talvez não reste mais nada. A nossa condição reside na imperfeição e talvez por isso não consigamos ir mais longe. Talvez por isso, daqui a uns anos caiam mais pontes e mais prédios que outrora se julgavam seguros.
Talvez por isso nada seja eterno, como nós.
Será?
Só o tempo o dirá. De qualquer das formas é ele que dita tudo
.

Best Friend Sade. I couldn´t Love You mOre

Tuesday, January 13, 2009

Não sei por onde vou, só sei que vou contigo

Tudo é determinantemente vago. Vivémos em pequenas conquistas, refeitas dos sonhos que inevitavelmente acabam por secumbir à energia que desaparece diariamente.
O porquê de muitas vezes nos levantarmos do espaço que nos parece tão acolhedor quando tentamos despertar, é algo de incompreensível e irracional.
Se formos seguindo este raciocínio, vamos concluir que somos e estamos presos a uma realidade, a uma vida, a uma cama ( no meu caso a uma escrita) completamente automatizada. Crescemos porque nos disseram que cresceriamos, amamos porque todos vemos no grande ecrã, figuras dispostas, em fila, a amarem-se a e a morrerem juntas.
A passearem nas ruas de N.York depois de uma suicídio em massa, ao qual escaparam, possuídas de uma força inesperada qualquer. Nunca saberemos.

Hoje obriguei-me a não apagar a primeira linha. Normalmente é isso que faço. Escrevo um parágrafo inteiro, leio e apago. É automatizado. No início, porque não gostava das primeiras palavras que acabavam por aparecer, agora apenas porque me fiz pouco mais do que inocência perdida diante de todos.
E eu nunca gosto, de qualquer das maneiras.
E quando não apago, acabo por me perder neste emaranhado de palavras e citações feitas por alguém, nalgum livro que não foi escrito por mim. Nunca será.
Se me virar, ainda consigo ouvir todos aqueles que se levantam de manhã e não percebem porquê. Não há doçura na vida, para aqueles que não percebem o porquê de todas as coisas que acontecem, acontecerem de facto.
Para aqueles que amarguram perantes as muitas ou poucas (nunca saberemos), viscitudes de uma vida pouco ou mais ao menos normal. Para aqueles que entram num autocarro, perante 7 graus negativos e esperam carinhosamente que a noite chegue depressa e os volte a adormecer e o tempo passa, diante de um cigarro que teima em desaparecer depressa demais, para alguém se conseguir esquecer verdadeiramente do cartão que expirou a validade há muito tempo, ou o crédito bancário que avança perigosamente ou um qualquer namorado que trai, indubitavelmente, como ( quase) todos os homens. Ou mulheres. Humanos.
Na rádio, perguntam-me muitas vezes se somos humanos ou outra coisa qualquer.
Eu, com o tempo, faminto que fui, deixei de sentir gradualmente interesse pela espécie com quem tenho que fazer as minhas acções diárias. Ninguém atura ninguém, ninguém quer saber realmente de alguém, apenas daqueles que amamos. E como não fomos feitos para amar, não sabemos porquê nem como.
São tantos os pensamentos que ocorrem a quem de manhã entra no autocarro, que é impossível que alguma daquelas pessoas imagine sequer o que é ser feliz. E ninguém quer saber.
Temos donas de casa a quem ninguém dá o devido valor, reformados que foram esquecidos pela família, estudantes que nunca terão emprego, professoras que não têm dinheiro para abastecer o automóvel outrora de luxo, o operador do apoio ao cliente da vodafone que ouve tantos insultos quanto feijões come ao almoço, misturado com o arroz ( que tá caro e escasseia – perguntem aos chineses que eu não como hidratos de carbono), o funcionário da Câmara que nunca chegará a ser efectivo ou o advogado em início/fim de carreira que por não querer/saber mentir, nunca chegará/cehgou a lado nenhum.
Entre tudo isto, existo eu. Sentado nesse mesmo autocarro, como sempre, sem destino ou direcção. Entro e saio quando e porque me apetece. Falo com quem quero e tento sair nas paragens certas, aquelas que me mostrarão algo de novo, algo de verdadeiro. No fim, a viagem é sempre igual.
Enquanto isso, há um lugar vazio ao meu lado, como sempre houve. A única diferença é que está reservado e eu finalmente sei para quem é e estou feliz com isso.
“Não sei por onde vou, só sei que não vou por aí”
( e eu não apago nada do que escrevo hoje, por isso tenho de ter cuidado, é algo que se adquire com a idade - a perda da vontade em agradar a todos).
Eu só sei que vou contigo. E as pessoas que ocupam o autocarro também o sabem e consentem, ficam felizes, algumas reticentes outras enciumadas, mas todas felizes de alguma maneira. Afinal, o que se leva daqui, não é o plasma comprado no Continente em saldos, mas uma história, a nossa história.
Mesmo que não quisesse, mesmo que não pudesse, chegou a hora e o tempo de criar uma história que englobe o rasgo de um sorriso que me ensine a amar, verdadeiramente.Mesmo que não estejamos preparados para amar, mesmo que isso não seja suposto. Lá porque é assim ou foi assim, não quer dizer que tenha de ser, realmente.
Enquanto te sentas, reparo na tua estatura, no teu nariz, na tua boca, na tua alma, na tua inocência. Nunca tive nada que quisesse verdadeiramente, até te encontrar e saber que te sentaste ao meu lado porque querias fazer o resto da viagem comigo, seja lá para onde ela for.
Seja como for, passei a amar-te a partir do primeiro dia em que te vi a entrar no autocarro, de chave perdida abraçada a outro alguém que um dia haveria de ser eu, apenas porque a chave estava comigo.
Perdi-me a encarar-te, a ver como me fugias e agora que ficas ao meu lado, nem sei como não tentar alterar a realidade à minha volta. Tenho que agir, para encontrar as melhores paragens, a melhor paisagem, a melhor conversa para que te deixes encantar e nunca queiras acordar.
E eu não sou perfeito, é um problema, na maioria das vezes. Encarar alguém que foi e é moldada numa forma mais convencional, mas menos quebrada do que a minha, sem tantas metáforas, sem tanto surrealismo, apenas um pouco mais normal.
Sem interrupções de sono durante a noite, sem medo que atrás da porta estivesse não o papão, mas algo bem parecido e mais real. Alguém que me mostrasse o que realmente interessa, por detrás desse arco repleto de cores que muitas vezes não vejo, a não ser contigo.
Não interessa o que não posso oferecer. Jantares em locais exóticos, concentração absoluta em ti, apenas porque as pessoas que vão no autocarro comigo, contam com a minha presença até ao fim, ou palavras carinhosas até ao anoitecer.
Sei apenas que estarei contigo, até ao fim da viagem, seja ela qual for.
Não sei por onde vou. Só sei que vou contigo.


Best Friend José Régio.

Tuesday, December 23, 2008

Resposta ao Blog Entre Evas e Serpentes


  1. Banda, artista favorito e afins
    The Killers, Rádio Macau,Caetano Veloso, Whitney Houston

  2. És homem ou mulher?
    Spaceman
  3. Descreve-te.
    I´ve got soul but i ´m not a soldier ( the killers)

  4. O que pensam as pessoas de ti?

    I don´t mind what people say (d-note)

  5. Como descreves o teu último relacionamento?
    Já não sei o que é sentir o teu amor por mim, julgava que se falasses era fácil de entender ( the gift)

  6. Descreve o estado actual da tua relação.
    The look of love (diana krall)

  7. Onde estarias agora?
    “Where soul meets body”death cab 4 cutie”

  8. O que pensas a respeito do amor?
    Drastic Fantastic ( Kt Tunstall)

  9. Como é a tua vida?
    I know the heart of life is good ( john mayer)

  10. O que pedirias se só pudesses ter um desejo?
    All I want 4 christmas is you ( Mariah carey)

  11. Escreve uma frase sábia.
    There’s always one reason to not feel good enough ( sarah M.)

Foi um prazer responder ao questionário, caro Adão.

Blog do Adão: Entre Evas e Serpentes!

Friday, December 12, 2008

a.m.o.t.e



Gosto de te ver passar.
Gosto de ver que vais ficar.
Aqui.
Em mim.
Hoje.
Perceber que sou forte para te conquistar.
Que vamos.
Que nunca ficaremos.
Para trás, no fim, no escuro.
Longe.
Um do outro.
Fora do círculo que nos torna menos Amargos
Incapacitados ou inadaptados.
Hoje, provavelmente preferia dormir ao teu lado
E ver as imagens que construímos, perto
Bem Perto.
Neste sono que deixou de chegar sem aviso
Porque deixei de o tentar, Porque tu estás comigo e me desconcentras
E me trazes tudo de volta, outra vez.
O primeiro sorriso, a primeira gargalhada, o primeiro beijo na praia.
O mar que nos acolhia, o cigarro a apagar-se e a ignorância deixada às pessoas que passavam por nós, sem que lhes dêssemos rosto ou figura, apenas objectos apinhados ao redor da nossa realidade formada por sonhos e objectivos comuns, recriados com a força da adultez própria que os psícologos da nova geração tanto descrevem.
Queria era descrever esta sensação de ter medo que o mundo acabe amanhã, apenas porque ainda não te dei tudo aquilo que mereces.
Esta sofreguidão em comer o mundo com a primeira dentada, para ter um pouco mais de tempo para explicar todos os medinhos e coisinhas inúteis que pairam por esta cabeça
TANTAS VEZES.
Poucas, algumas. Certas nem sempre serão.
Vou buscar a fotografia que por aqui deixaste, afixada numa das paredes que delimitam o meu espaço, na minha própria casa.
Oxalá nunca me tenha de lembrar de qual é a tua música preferida, até porque não sei. Desisti de anotar todas as pequenas curiosidades que toda a gente tenta preencher, para tentar mostrar-te melodias que podem ser nossas, criadas a partir da nossa própria inspiração.
Pergunto-me, por vezes, se existes ou és a minha recriação do romantismo realista, da posição equilibrada que tanto pretendia alcançar, do gozo sentido que me corta a respiração por breves segundos.
Segundos
Anos
Meses
Tudo trocado e misturado, como se o tempo em que privo da tua presença não existísse, mas aquele em que estou sem ti fizesse trroça de mim, sem aviso prévio.
Talvez perceba agora o medo que o ser-humano sente da morte e das suas rasteiras. É duro tudo acabar, quando se começava a ganhar o gosto.
Amo-te
Como se dizer a.m.o.t.e se tivesse tornado proíbido, mas eu digo-o na mesma. Vivémos na era da pirosisse instalada, do sexo mediático e achamos brejeiro dizer alto e bom som “ eu amo-te”, mesmo que não o admitamos.


Quero ver-te passar
A dizer que me amas
A dizer que me adoras ver gozar
A gozar
E eu provavalmente ia gostar
Poe detrás dessa luta
Insana
Por ficar menos receoso
Sem conexo
Sem amarguras
Com a sensação de não precisar
Por não precisar
Sem palavras ou dilemas
Só tu e eu.
À noite, onde nos podemos perder
E encontrar
Como tu me encotraste
Como eu te encontrei
Como não nos salvamos
Apenas nos reconhecemos.


“Eu também”

Monday, December 01, 2008

Afinal


Vivemos todos como queremos, ao redor das nossas próprias experiências, embrenhados na burocracia que fomos construindo à nossa volta, apenas para que no fim, nos possamos sentir um pouco mais distantes daquilo que realmente importa.
E aquilo que realmente importa será difícil de distinguir. Ninguém sabe já definir o bem do mal, assim como já ninguém sabe se o PS é um partido de esquerda ou da direita.
Estamos na época da ruptura com os paradigmas impostos, em que aquilo que era ontem pode já não o ser amanhã.
Vemos pessoas respeitadas e vangloriadas pelos seus actos na RtpMemória, que hoje estão à espera de serem julgadas por crimes que apenas eles dizem não terem cometido. Já ninguém pode acreditar em nada, mesmo no certificado científico que dia após dia parece estar em constante mutação.
Afinal, há cura para a sida e o cancro do útero já não vai matar todos os dias uma portuguesa. Afinal, deve haver cura para tudo, basta pedir à indústria farmacêutica que divulgue os conhecimentos que tem pela comunidade mundial, principalmente pelos países de terceiro mundo, que famintos e porcos, vão sobrevivendo a custo, passando a gerações futuras todas as doenças que lhes deixamos nos genes.
E afinal, é tudo sobre os genes. Todas as perturbações, todas as irritações e até mesmo a infidelidade nos vem moldada pelos genes, segundo um desses estudos que se faz de boca cheia num país que mais parece ser uma ilha pertencente à América do que a grande potência que já foi e ainda pode voltar a ser.
Afinal, a Inglaterra é que sabe. Entrou na dita comunidade, mas não aceitou as regras, ao invés, impôs-se, rejeitou a moeda e fez-se grande, mas só entre os pequenos. É o país bonito, mas só entre os feios. O país rico, só entre os pobres.
E afinal é tudo feito desta forma. Educamos as crianças para elas aos 4 anos estarem aptas a trabalharem com computadores ao invés de as ajudarmos a cultivar o pensamento crítico e a liberdade de expressão.
“O povo quer-se anestesiado”, referia a Inês Pedrosa na sua crónica de 30/11/2008 e os jovens também. Ninguém quer tornar os acesso aos livros o mais democrático possível ( um livro do António L. Antunes custa 25 Euros), queremos é criar programas onde os jovens possam procurar um exemplo de autodestruição como os Morangos e não lhes dar chantilly no fim, porque engorda e ninguém gosta de jovens gordos e feios. Ninguém gosta de não-jovens. Por isso é que começam a saber usar os computadores tão cedo e a compreenderem para que serve um rato em vez de brincarem e de viverem, simplesmente. E por isso é que ninguém gosta de velhos.
Afinal, aos jovens podemos incutir todas as ideias que quisermos e quanto mais cedo, melhor. Os políticos sabem disso e é por isso que nunca apontam os seus grandiosos discursos para as pessoas de idade. Porque a estes já ninguém tem vontade ou paciência para lhes conseguir mudar as ideias que têm, já há muitos anos e também porque estão à espera que morram rápido e se esqueçam de ir ás urnas, até porque a segurança social começa a não chegar para toda a gente e a Santa Casa só tem misericórdia para alguns.
Não sou comunista, mas tento evitar a todo o custo esta ideia de que para sermos cultos temos de saber responder aos inquéritos da Lux ou saber que político é que está a ser parodiado nos domingos pelo Zé Carlos.
Ninguém nos pede para pensarmos livremente, pedem-nos sim para arranjarmos alguém que pense, que nos faça os discursos e crie alguma ideia que vingue. O mundo capitalista criou e cria uma fonte de rendimento em todos os lados possíveis e imaginários e por isso, pensou-se que nunca teria fim. E talvez não tenha, por agora.
O futuro o dirá, mas o certo é que os funcionários da Zara já chegaram à conclusão que por muitos presentes de natal que recebam da Inditex, serão sempre escravos deste mercado e que nunca serão suficientemente bem pagos.
O mundo capitalista tem como base a ignorância e a ingenuidade. Dizemos que criamos emprego para todos, mas só alguns é que ganham alguma coisa com isso e muito menos aqueles que têm tempo para gastar aquilo que ganham.
Afinal, o tempo escasseia e por isso é que temos assessores provados, empregadas domésticas, telemóveis ligados à Internet com a funcionalidade de abrirem power points ( sim, que sem power points não há mais ninguém que consiga fazer um discurso. Já ninguém sabe falar simplesmente?), cães robôs (porque já não há paciência para lhes darmos comida e porque o condomínio nos impede de os termos a ladrar depois das 10), personal trainers para nos porem em forma e podermos fazer boa figura numa dessas festas que todos os fins de semana elegem os mais bem vestidos e os mais bem compostos ( who cares?).
Afinal e no final perde-se a cultura e fica-se com informação desnecessária. Ficamos com as Nike, mas esquecemo-nos do preto que nos entra pelo noticiário descalço e à procura de um grão de arroz.
Esquecemo-nos de nós.
Afinal, andamos cá para quê?


Lutar com palavras é a luta mais vã
Enquanto lutamos, mal rompe a manhã

Carlos Drummond de Andrade

Monday, November 17, 2008

Longe Demais

Queria-te perto.

Encontrei um rascunho, desses que só se faz quando se é criança e ainda podem arrancar algo maior de nós, para além da honestidade instaurada na nossa expressão facial.
Houve um tempo em que talvez te tenha julgado, de forma errada talvez e provavelmente, perdemo-nos entre a distância física e uma inocência que perdida, me arrepia e me faz ter um bocadinho menos de esperanla em quem está à minha volta, diariamente.
É preciso ter-se maturidade suficiente para sabermos de quem gostamos e com quem estamos dispostos a discutir. Entre isso, encontram-se as fotografias espalhadas por uma casa grande de mais para conseguir unir duas pessoas que esperam nunca se cruzar, na esperança de não terem de ver a sua imagem frágil e debilitada no rosto de quem amam, mas não conseguem fixar em si.
Lembro-me pouco de ti. Tenho imagens turvas na minha memória, que não ouso vasculhar numa espera cansada e mortificante – não pretendo saber mais. Medo de acordar, fuga da lembrança presa e fixa. Medo de magoar.
O vento e o teu cabelo contudo, fazem parte dessa memória gasta, entre um café e um livro da Rua Sésamo. O cigarro apagado à minha frente e eu feliz e contente. Ela existe.
Elas sempre existiram e provavelmente, a culpa de não as captar mais frequentemente seja minha.
Se tentar um pouco mais, pode ser que nunca mais me esqueça. Eu parado a tentar compreender onde ias, se voltavas e porque ias. Eram palavras demais, fundamentos sem causa, interpretações vazias, como os adultos adoram e refazem.
Aceitei tudo com uma normalidade imposta, não por falta de entendimento, mas por não ser o catalisador máximo da minha construçao e identidade.
E então, ali estão eles :
Os cabelos longos e pretos, a voz a pedir um pouco de compreensão e eu que não era suficientemente crescido para te mostrar que não te esqueceria.
E mesmo agora que o sou, parece que não o consigo fazer. Imaginas-me alienado da tua presença, emberenhado em funções e acções que não domino e a deixar que a vida me leve, irremediavelmente.
Mesmo agora que o posso, não te digo – Não vás, que havemos de sentir a tua presença um pouco afastada e nunca privaremos do mesmo conhecimento que a vida nos ofereceu nem da partilha dessa mesma entrega. Não vás, que o amor que temos para te dar não nasceu ontem e mantém-se, mesmo quando insisto em não falar contigo a ver se sentes saudades e voltas a

Casa

Onde nunca te vi, onde nunca te encontrei, onde só agora te perspectivo entre uma neblina de tédio e amargura, como se o mundo nunca mais fosse acabar e tivesses de viver nele para sempre.
Queria-te perto.

Thursday, November 06, 2008

Que nunca adormeçamos

É tudo uma certeza infinita.

Certeza de que o meu pensamento está retido na tua inocência. Afogado na tua presença feita de espuma de sabão e de todos aqueles momentos que sempre quisera partilhar, mas que nunca me foram concedidos fora das telas, perspectivados por uma imensidão de pipocas.

Pensei em nunca mais escrever sobre tudo aquilo que continuamente trazes à minha vida, à qual impinges um pouco mais de realidade sensorial, mas confesso.

Não posso cumprir a minha vontade.

Trata-se de algo inato e incalculado. È forçado pela junção da minha inconsciência com a materialização dos meus actos, enquanto te escuto numa das inúmeras canções que passam na rádio.Imagino que foram todas feitas e refeitas a pensar em mim e na felicidade que possuo e levo comigo, de cada vez que te sinto presente. De cada vez que me recordo que não terei de tentar mais nada, de cada vez que tenho a certeza que ficas, para sempre.

Inocentemente, vejo-me a viver todos aqueles momentos banais e incalculavelmente estúpidos que completam o quadro perfeito da minha existência. Sou perfeitamente cheio de todas aquelas ações típicas, que preechem os meus sentidos e que me fazem sonhar um pouco mais alto.

Tu a beberes café.

Eu a passar por ti.

Tu a leres o jornal.

Nós a ligarmos o carro.

Não é uma prática normal, mas entendo agora que apesar da minimalidade de todas estas acções, nada me faria mais pleno do que concretizar cada uma delas contigo. Houve tempos em que pensara que não fora feito para este tipo de rotinas e esquema spré-concebidos, em que o cabia nos outros, não me serviria a mim. Tamanho desadequado para aquilo que visto, pensara.

Não foi uma mudança de ideologia, se assim o puder chamar, nalgum dia em que acordei mais preenchido por esta nova orientação.

Surgiu apenas, com a naturalidade com que tudo surge, entre sonhos desfeitos e outros tantos por realizar.Por entre uma vontade inata de partilhar a incrível sensação de se estar vivo e tudo aquilo que comporta toda a merda que podemos sentir quando realmente nos damos conta de todas as sensações que isso abarca. Por entre a vontade que tenho em te abraçar, de me abraçar, de nos abraçar.

Destruir o pó, portanto. Deixar para trás a fugacidade digna de uma adolescência repleta por monstros e papões, que realisticamente nunca existiram mesmo e que tornaram tudo, no fundo, muito mais arriscado e saboroso do que poderia ser, dignamente.

Entre as palavras que nunca te disse

Entre o olhar que me fazes ter

Há algo que deve ser escrito

Para que nunca te esqueças, para que nunca adormeças.

Que nunca adormeçamos.”

É tudo uma certeza infinita e tudo já me explicou que nada deve ser tão linearmente perfeito. Por isso e para isso, existe o nosso feitiosinho de quem levou mais carinho do que aquele que poderia comportar e que talvez por isso tenha ficado mal habituado, para nos lembrar que há coisas que só existem porque as queremos.
Se há alguma lição que deve ser apreendida da tua presença em mim, é que não há nada que não possamos ter. Precisamos é de querer.

E eu quero-te a ti, com toda a tua força e com toda a tua altura, em que fazes de mim o homem maior do mundo, não por ser alto, mas por depositares em mim todas as esperanças de poderes partilhar tudo isto com alguém, eternamente.

Quem me lê, deverá referir-se a mim como mais um adulto que se esqueceu que tudo aquilo que é bom, tem um final. Eu digo : que se fodam todos os exemplos de finais inacabados, rupturas tortas, passeios partilhados pela solidão de quem lá a deixou.

Havemos de ser muito mais, onde formos e onde tivermos. Apenas porque o queremos.

Thursday, October 09, 2008

Chaves

Abro a porta e deixo-me adormecer. A televisão ainda grita por alguma audiência, mas a verdade, essa esvai-se por entre o momento em que finjo que não te quero, apenas porque não te posso ter.
Apesar disso, guardo ainda os resquícios que restaram de ti, por entre o chão onde me refugio agora, esperando algo encontro inconsciente, enquanto as almas se tentam unir numa dimensão paralela.
Sei que a divisão da matéria vive desfragmentada entre duas realidades. E é por elas que me vou guiando, e seguindo um cheiro envolto numa nova cor que me ilumina e me fascina, um pouco mais, de cada vez que encerro um olhar e constato que é o teu que encontro.
Antes e o depois
Tudo é dividido e refeito até ter encontrado esta nova perspectiva oferecida por ti, onde os sentidos se elevam e me oferecem uma multidisciplinaridade de novos conhecimentos em acontecimentos e factos que sempre me pareceram vazios de novas experiencias em si mesmos.
Antes e o depois
Antes onde existia uma mão precisa e contínua, feita de sonhos que não sabia como alcançar e que por isso mesmo, temente de ficar agarrada a si mesma, desistira do que sempre tentara almejar.
O depois, onde figuras tu e essa intencionalidade inocente de me fazer sentir o melhor, onde crescemos e imaginamos colectivamente uma intenção mais saudável e onde a partilha e a entrega ganham um novo som.
Sei muito pouco por onde hei-de criar e expor a verdadeira natureza de este sentimento, que julgo figurar no panteão dos sentimentos puros e por isso nobres. Talvez não o devesse tentar explicar ou justificar, recolher-me dentro de mim e dedicar-me a ele ao invés de o tentar discernir e compreender. Dizem tantas vezes que o sentimento é puramente casual, mas cada vez mais tenho a noção que isso de facto não é real. Que há uma grande parte de nós que o pode fazer crescer, nascer, renascer ou crucificar, dependendo da etapa em que o nosso percurso se encontrar.
Como alguém aqui escreveu, normalmente apaixonámo-nos por algo que já perdemos e voltamos de alguma forma a reter em nós. Da minha parte, retenho em ti, a vontade de viver e conviver lado a lado, como se na eventualidade do mundo acabar amanhã, tudo seria mais perfeito apenas porque me levarias contigo.
O amor apaixonado tem sempre algo de mórbido aos olhos das outras pessoas, mas só quem vives estas “estórias” é que sabe o que realmente significa a grandeza de cada momento, sempre que estamos acompanhados. Parece uma droga, que nos deturpa os sentidos, engrandecendo a merda de país em que muitas vezes vivemos. Onde até a política parece mais sensata e real do que parece e a lei que deveria ser um direito constitucional seria aprovada eo mundo acabaria por ser um lugar melhor, algum dia.
Isto só me faz crer que a maioria dos toxicodependentes nunca amou de verdade ninguém, muito menos a si próprios, pois então, muito provavelmente, não teriam de recorrer a químicos para poderem ter sensações transcendentes e magníficas. Ou provavelmente se amaram, não souberam lidar com esse facto e acabaram engolidos e afogados.
Entretanto já acordei e a porta está fechada. A paz que harmonia a minha consciência está presente e sei que regressaste, algures, por entre alguma divisão da casa. Já nada faz sentido e muito provavelmente este texto também não. O relógio deixou de funcionar – felizmente – e por isso, já me é impossível reflectir sobre o passar do tempo na tua ausência.
Não escreverei mais sobre ti durante algum tempo. Quero perder-me contigo e na felicidade que é viver ao teu lado. Guardar-te só para mim, gritar ao mundo que sou teu e fechar a porta. Afinal, as chaves já estão contigo.

BEst Friend Ana Free. In my Place

Friday, October 03, 2008

Futuro Presente

Escreveria um poema, se pudesse. Desses que fazem as pessoas sonhar e querer acordar, apenas quando se tem a consciência que já o realizamos, por completo.
A ver se me perco de ti, onde invariavelmente me encontro facilmente, por entre o riso que é só teu e as inconveniências de uma criança que teima em não querer ser adulto.
Adulto
Esse estado de profunda comodidade, onde nada se cria, apenas se vicia o sentido que a realidade cheira e sabe, a ver se nos esquecemos o que era nunca termos responsabilidades acrescidas.
O que foi.
De inocência refeita na tua presença que me oferece a segurança inerente a qualquer sensação perfeita e incólume, como se o mundo se baseasse na força dessa palavra que inebria e embriaga, como se fosse de ti que bebesse.
Cada palavra
Cada abraço
Cada beijo e o mundo pudesse acabar amanhã, que mesmo assim não teria medo.
Medo apenas que o nosso reencontro se proporcione às pessoas que nos rodeiam e que tenhamos sempre consciente que o que possuímos é a vida que sempre quisemos e que nunca havíamos construído.
“ Entre a sensação de ser teu
E de não me encontrar sem ser em ti
A fazer de conta que não te importas
Como se não significasses o mundo para mim”.
E afinal, todas as regras impostas por um ser em constante mutação e que acabou por buscar no racionalismo convicto a sua maior arma de defesa, não funcionaram. Perderam-se-desgataram-se-engoliram-se-absorveram-se
E fiquei eu à espera de ser liberto, à espera que tivesses o que realmente era necessário para me libertar. Foram-se os conceitos e as noções vagas do desenrolar próprio das equações mal definidas. Primeiro os números, depois as chavetas e só depois um resultado, mais ao menos certo.
Perdi a arquitectura do tempo, composta por mim. Os momentos passaram-se a criar e o riso voltou a ser da criança que tinha ficado escondida entre os sonhos de infância e a esperança que tudo fizesse sentido, no final.
O tempo.
Esse mago recriado por mim. Ditador de finais premeditados, desculpa incontrolável para tudo ter uma ordem certa, rotina e desgaste próprio a ver se me esquecia do que realmente importava.
Essa ordem natural, cheia de tudos e de nadas, narrações lidas por mim, tirano da minha própria vida, a ver se algum dia encalhava na tua estrela e me fixava por ela, enquanto me curava.
O tempo há muito que foi esquecido. Restam as memórias que tenho de algo que ajudei a criar e do qual me sinto muito orgulhoso. De poder iniciar toda esta vontade envolta em esperança de que anos mais tarde, nos recordemos de como tudo tem um início incerto e um resultado puramente certo, apenas porque o resultado das contas é o correcto.
Correcto és tu para mim, entre a pele morena que me faz querer mais, sempre que a alcanço. Correcto é a tua dicção e construção frásica, apenas porque já não me importo com a ordem. Passei a ser caos, enquanto enalteço o caminho mais fiável que segui, até hoje. E perceber a importância do toque e entender que é uma das grandes particularidades do ser-humano. Ter a percepção que é dele que tudo advêm, do prazer sensorial até ao arrepio mais íntimo, quando me dizes as palavras que eu nunca tive coragem para admitir que queria ouvir.
Contigo, o lugar encantado tem um novo formato e um novo carisma. Um novo interesse e uma vontade enorme de passar o resto dos dias a perder-me no espaço e acordar novamente do teu lado, quando nada o faria prever.
“Acordo e sinto-me vivo novamente”
Na junção das mãos, onde desperto para uma realidade e uma perspectiva cada vez mais nova, mas que me parece mais familiar que nunca. A contradição parece algo cada vez mais coerente, mas a verdade é que só a tua visão me faz explodir de alegria e Êxtase, como se fosse tudo da primeira vez, sempre. Como se fosses tu, sempre. Como se não fosses. Como se tivesses sido sempre. Como se não fosses. Como se fosses tu para sempre. Como serás.
A tal da espiral da paz de que me falas, dá-me um certo alento, também. Saber que não importa onde Co lo co as palavras, ao invés de fazer tudo na maior perfeição na tentativa de disfarçar a falta de junção. Como não o é contigo, onde o momento mais profundamente banal, se torna o mais perfeito de todos e mesmo sem o tentar, tudo me soa bem, apenas porque é contigo.
Releio as páginas do meu diário, livros escritos, gravações próprias de alguém que começara a desistir de procurar. De te procurar. Afinal sempre existias e eu sabia, estavas mesmo ao lado.
Acordei e gritei
“Sò o amor me faz correr
Só o amor me faz querer mais”
Desisti de ter medo e o tempo passou a estar a meu favor. Partilhar um dia contigo é mais do que suficiente para tudo ter sentido. Como só tu fazes sentido, em tudo aquilo que me fazes querer ser.
“És real e és meu
Eu sou fogo e tu o meu ar
Eu sou tudo por ser teu”.

Best Friend Rádio Macau Cantiga de Amor

Thursday, October 02, 2008

Magalhães

Somos o Portugal. País de várias conquistas, múltiplas vitórias, passado memorável e enaltecido. Guiado pela força de valores, vítima de uma ditadura pouco ligada a progresso e abertura e assim nos deixamos ficar.
Há um Portugal rural, Portugal agreste onde tudo é como sempre foi. Quem vive pelos grandes centros urbanos não o conhece, não o sente e negligencia a sua existência.
Somos na verdade, o país dos Magalhães, onde se perde tempo a discutir um direito e básico e fulcral de qualquer ser-humano. Entretanto, passam os anos e a mentalidade continua a mesma de há alguns anos.

Alguns anos

Alguns anos atrás era eu um puto adolescente com a ilusão que um dia tudo seria diferente, bem longe da aldeia que me viu nascer e poderia ser quem quisesse nalgum lugar encantando. Ainda hoje acredito.

Acredito.

Acredito que todos precisamos de um modelo de educação, alguém que dê o exemplo e nos ajude na construção de uma imagem mais ao menos saudável Acredito que todos precisamos de conceitos e de disposições de móveis e palavras, para assim conseguirmos entender o que queremos separar de “normal” de “anormal”.
Fazemos o julgamento com base nos modelos que vemos diariamente, num dos quaisquer meios de comunicação. Modelos cor-de-rosa, a roçar o feminismo cor-de-rosa, vozes polidas, faces a pedir mais cinco minutos de fama e larga plateia que rejubila perante o show de monstruosidades ali apresentado.

Monstruosidades

Como se alguém pudesse ser
Normal anormal
Como se alguém pudesse ser um monstro apenas por
AMAR

Ensinam-nos desde pequenos que o amor é a grande força de Deus, que ele entende todos aqueles que amam, que é esse é o verdadeiro objectivo na vida de qualquer um de nós e que é por isso que havemos de querer acordar amanhã, mesmo que seja longe de mais.

Amanhã
Quando não vão chamar opção ou orientação sexual a algo que não passa de uma condição. Apenas porque não se trata de um gosto baseado na aprendizagem ou numa decisão racional baseada na lógica e na efusão de equações que nunca entendi, na totalidade.

Amar

Baseia-se tudo no amor que podemos entregar a alguém, sentirmo-nos especiais por isso e tornarmos esse alguém especial também.



Amar, Amanhã

Que é no fundo apenas aquilo que nos separa dos restantes animais. E Deus estará sempre do lado daqueles que amarem, apenas porque é a o sentimento mais puro e genuíno que existe, que não deve nem pode ser condenado, porque surge mesmo quando não queremos e excede em muito os limites sensoriais que possuímos. Claro estará, que nem todos teremos a coragem para o admitirmos, pelo que os modelos continuarão a não existir, como sempre.

Queixamo-nos demais, é certo. Dizemos, como parte de mim acabou por provar, que não temos liberdade, que a discussão de um direito tão inerente ao ser – humano, como querer casar-se nem sequer deveria ser discutido, mas a verdade é que pouco fazemos para o mudar.
Nasci, como muitos, na época do facilitismo, onde tudo se discute e invariavelmente, se discute de forma errada. Por isso, vamos deixando que Castelos e Nascimentos desfilem num ecrã perto daqueles que gostamos, deixando que a imagem que eles vêem, passe a ser real, muitas vezes até para nós.
É uma condição, e como tal passei a aceitá-la e a adorá-la em todas as suas vertentes, para descobrir a felicidade que já me trouxe e me continua a trazer.
Acredito. Sempre.

Best Friend Goo Goo Dolls. “ I just want you to know who i am”.

Thursday, September 25, 2008

Translucido

É como se de repente o tempo parasse no momento exacto em que a nossa retina se cola perante a perspectiva de algo que não é perfeito, mas que sabemos de antemão, não se fixa na realidade circundante.
E mesmo pensando que estás longe, acabo por encontrar essa tua estrela que acabou sempre por ser maior do que os precalços de um caminho que acabou por se tornar mútuo e feliz.
De vez em quando, ainda me recordo desses encontros imprevisíveis em que olhávamos a chávena do café que acabava por desaparecer, envoltos numa banda sonora que nos dizia respeito mas que tentávamos ocultar.
Ocultar
O medo de sermos novamente encobertos e subtraídos pelos nossos próprios sonhos em que irremediavelmente acabávamos sozinhos, apenas porque a prevalência de utopias acabava por ser superior à
Coragem
Coragem em deixar que a firmeza soasse mais alto e fosse finalmente teu.
Teu
Como nunca esperei ser de ninguém e ter agora a certeza que tudo que já se passou não foi em vão e que as memórias que carregamos connosco serviram para agora termos orgulho em permanecermos intactos e inefavelmente confortados com a existência.
Individualmente, confortado com a existência de alguém que carrega o que de melhor há em mim e que se esforça para me ver sorrir em cada oportunidade que surge, que existe, que se cria. Tu foste sempre uma criação minha, posso escrever e assegurar agora. Dessas que nos trazem essa vontade de voltarmos a ser e ter tudo aquilo que sempre quisemos e de amar até ao fim, mesmo que esse mesmo final não seja avistado e comedido.
Eu só quero poder agarrar-te quando puder, ver a tua cara a irradiar entre as palavras e “estórias” de lugares longínquos que percorri e que partilho agora contigo. A felicidade resume-se a conceitos e embora seja um pouco minimalista e limitado afirmar isso, a segurança, coragem e partilha funcionam muito entre esta corrente que me arrastou até ti.
Saber que te quero até ao fim não é suficiente. É preciso perder-me de riso contigo, numa dessas praias, enquanto toda a gente nos vê, mas não nos compreende. Saber que é contigo que acordo numa dessas manhãs onde não é suposto fazer sol e me sinto vivo também não. É preciso tocar-te e ouvir-te, utilizar todos os sentidos que possuo, a ver se consigo reter um pouco mais dessa luz que acabou por me encontrar.
Como se nunca te fosse encontrar.
Como se nunca me fosses morder o coração.
Como se me quisesse perder para sempre entre o prazer sensorial que me ofereces e me entregas.
E quero.
De cada vez que chegas, consigo sentir-te os passos, entre a beleza que nunca chega, entre essa vontade de planar e esquecer-me que existo, apenas porque permaneço contigo.
Numa dessas noites, onde somos felizes aos olhos de toda a gente e não nos envergonhamos apenas porque temos a certeza que o queremos e o sentimos. Suster a respiração, esperar por um novo amanhã, puxar as limitações e sermos enfim, felizes.
Esperar
Esperar que o tempo não corra, a ansiedade não mate e o café continue dentro da chávena que teima em querer partir. Esperar que a capacidade de eternizarmos o momento não cesse e tudo seja tão real, como até então.
Esperar por ti, com antecipação, antes que desembarques num desses lugares encantados, criados por ti, numa desses momentos congelados por entre os teus dedos que já me mostraram o que ainda faltava provar e sentir.
Sentir
Sentir que não mudaria a lei do universo, nem um pouco daquilo que és e que te foste tornando. Sentir que gosto de te ver fazer todas aquelaspequenas coisas que secretamente me encantam, mas não digo, apenas porque já sabes.
Dançar contigo até ao amanhecer e aproveitar aquele por do sol que nos encantou e que é o suporte de tudo. Dançar contigo até mergulhar no chão, embriagado de inocência perdida há algum tempo, mas que acabaste por restituir a alguém que achava que já sabia tudo e que no final, apenas sabia metade.
Metade suja, pobre, feia.
Metade morta, pouco acolhedora, insegura.
Metade que me ajudou a chegar até ti com a certeza que no final só restavas tu.
Enfio-me então no carro e a Margarida a dizer-me todas aquelas coisas que tu já me disseste, algures, com uma paisagem imponente, mas onde só interessavas tu.
Não tenho piano, desta vez. Apenas gozo a escorrer-me por entre um riso quase perfeito, da vida que levo e que crio contigo. Os outros não interessam, porque não têm nome. São apenas criações impostas, erros merecidos, aprendizagens inconscientes que agora fazem todo o sentido.
No fim, ninguém é perfeito e por isso, todos os momentos que levamos connosco também não o são. O que prevalece é o esforço que fazemos para continuarmos a querer alguém como eu te quero a ti, ao fim de tão pouco tempo real, mas que me parece toda uma vida.
“Podemos viver toda a felicidade da nossa vida em poucos minutos”, avisa a Agustina. Se assim é, sinto-me um privilegiado.
“Estarei perdido entre a certeza de gostar de ti,
Mas estaria muito mais se não te pertencesse”.

Best Friend Margarida. Translúcido

Wednesday, September 03, 2008

Eu Hei-de Amar Uma Pedra

Eu ainda hei-de amar uma pedra, bem aqui no meio do silêncio das palavras que acabam por não se formar, se perdem e me afastam um pouco mais dessa faixa de rodagem que tanto se anunciava como a mais perfeita e concisa.
Eu
A tentar consciencializar-me da tua coragem em poder ter-me, a esconder-me por entre o teu riso cheio de inocência e acordes que me pareciam levar a uma realidade sensorial e onde finalmente alcançaria a ilusão
Minha
Que procuro e busco a todo o custo, certo de que a cada vez que o faço e a construa, acabo por repetir o mesmo erro, crasso e condiconalmente sujo por memórias que se arrastam e não me deixam mais ser quem eu nunca esperei ser. Por isso, aproximo-me de ti
Sem que o percebas
A ver se me deixas voltar a permanecer nesse abraço que tanto te quero oferecer e que tu não evitas nem atrais, apenas não entendes, não perpectivas e eu não alcanço. Comunico contigo como quem comunica com Deus, na esperança que ele me ouça um dia, mesmo sabendo que são raras as vezes em que lhe falo ao coração. Talvez
Medo
Medo de amar o desconhecido, medo que é o que nos entorpe e mantém vivos, mas que também nos impede de amar o verdadeiro, o falso e o incauto. Medo de que nunca ninguém veja o mundo como o tento partilhar contigo e com Ele, a ver se por alguma razão tudo faça sentido, num futuro que espero
Breve
Com imapciência que a vida não me ensinou, com fúria em não controlar a falta de razão por detrás de tanta imensidão de conflitos internos, como se eu fosse a guitarra que ecoa por detrás das canções e dos filmes que eu próprio produzo, como se o teu sorriso fosse
Falso
Como sou eu de cada vez que estou contigo e não arrisco a mostrar-te os meandros e epopeias da minha alma, de cada vez que te vejo surgir por entre a porta que está irremediavelmente fechada para sempre, mas que imprevisivelmente tu a conseguiste abrir.
Tu
De sorriso ingénuo e de palavras toscas a fazer-me engolir um dia inteiro de revelações e reflexões mais ao menos adolescentes, a fazer-me engolir a adultez que acabei por conquistar sem que disso me desse conta e na qual não me sinto seguro nem feliz. Tu a fitar-me sem provocação ou sexologismos, a lembrar-me o que era o amor na essência mais pura e de siginificação mais ideológica, como se não fizesse mal. Tu a arranhares-me com a jovialidade que se te transparece e evapora em cada erro ortográfico que eu tento, mas não consigo deixar de reparar.
Talvez o silêncio seja uma mais valia e a banda sonora não faça questão de entrar nesta altura, em toda a trama que parece desenrolar.
Na minha consciência.
A minha consciência diz-me que busco a experiência como quem busca a dor, apenas para saber de antemão tudo aquilo que é preciso sentir, para se viver sem pesar póstumo. A minha consciência diz-me tambêm ( mesmo quando não quero), que pode ser um erro contar-te os desejos que fazem parte de mim e que acabam por constituir aquilo que também sou.
E aquilo que eu sou é aquilo que eu também dou. Reparo agora, que fui feito para partilhar todas as pequenas delícias que constituem a grande felicidade em permanecer vivo, após tantos anos de vivências e risos soltos entre noites mal dormidas e viagens programadas à ultima da hora, apenas porque tenho coragem em vivê-las.
Viver
Viver e esperar. Esperar por ti, que a minha consciência sabe-o e talvez seja isso que me mata de cada vez que vejo a tua cara espelhada numa das páginas do Lobo Antunes. E eu a gritar HEI – DE AMAR UMA PEDRA.
Uma pedra, um penedo ou mesmo a imensidão dessa face que me parece a materialização da segurança que eu tanto procuro e que condiz com as teorias de um desses teóricos que toda a gente conhece, mas ninguém entende.
A materialização da segurança, a subsituição do amor.
E acabo por me dissolver na espera de tentar partilhar esta alegria que é querer-te por entre todas as conjecturas que foram feitas por alguém que há-de ser muito superior, mas que por nunca aparecer, me parece um pouco mais fraco que todos nós.

Como já o referi inúmeras vezes, passei a ser o actor imerso nessa incapacidade de amar novamente e por isso mesmo tu nunca notaste o meu empenho em te querer por perto.
Perto, cada vez mais.
Assumi a postura perante ti, que sou o mais forte e mais destemido, o racional que acaba por resolver os problemas que se sentem a aproximar, o salvador que parece distante
Mas nunca o suficiente para que nunca te ouça.
Teces-me epítetos infantis e eu lembro-me da infelicidade que já senti em ser criança e não ter noção ou consciência daquilo que era o mundo e de toda a sua essência. Como o controlar. Como me controlar.
Como controlar a discussão que emerge durante o jantar de família, todos os domingos, a procissão das velas e eu bem pequeno, preso por uma imensidão de olhares que haveriam por me tornar bem mais perspicaz do que era suposto.
Suposto era eu ter uma segunda oportunidade, como o segundo prato que a mamã me entregava quando eu deixava cair o primeiro, como o carinho que o meu pai me oferecia quando recusava o primeiro.
Primeiro há que te contar tudo, fazer de ti o que tu fazes de mim e deixar-me estar assim.
Pegar na guitarra e mostrar-te novos acordes, sons onde nos podemos perder os dois, sem que nos percamos um do outro, sentar-me em frente ao mar e esperar que chegues e que as “estórias” que conte, não as precise de te explicar, apenas porque as viveste comigo.
Dizer que vives em cada uma das páginas que viro, não chega. Dizer-te que te espero em cada uma das páginas que viro, provavelmente também não.
“Hei-de amar uma pedra.”


Best Friend. António L. Antunes Hei-de Amar uma pedra