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Friday, August 05, 2011

Peste

Perdi tempo e resumi o medo de falhar. Tentei alcançar esse patamar honorário, um livro aberto e pronto a ser lido por todos.
Estou pronto para essa congelação dos sentidos, na expiação da ansiedade que teima em me queimar noite após noite. Quero a liberdade prometida, luz cheia de coisas e sinais. Luz cheia de coisas incomportavelmente reais.


Deixei de escrever, porque nunca saberia como evitar o mesmo erro. Deixei de escrever porque nunca te quero partilhar com o desconhecido. Essa certeza de que o que é nosso, pertence-nos bem por dentro da carne viva; às vezes morta.

Às vezes crua, às vezes vazia.

E sem pensar, fui. Na acção é que reside a vantagem de acalmarmos a realidade que transportávamos. Na falta de vergonha que é descrevermos a falta de inocência perdida a alguém. Na falta que se tornou respirar em todos os passeios que nos foram mantendo na ilusão que estávamos seguros.
Levamos anos até chegarmos aqui, levados pelas malas que transportamos, pela boleia que residiu no amor que haveríamos de contemplar. Em Budapeste, num quarto qualquer. Até tudo se ter tornado credivelmente difícil.

“Difícil é a vida dos pobres e dos velhos porra”, Repeti durante esse tempo interminável, quando olhei para trás e já tinhas desvanecido – não em mim, mas na cidade que tanto parecia odiares.

Encontrar-te ia, alguns dias depois, a beber uma vodka em Peste, levada pela certeza que nos teríamos de reencontrar num entendimento só, nem que fosse preciso 5 mil pés de altitude. Nem que fosse a vergonha que só haveria de sentir no escuro da Europa de Leste, quando te procurei e apenas encontrei aqueles sexos com cheiro a perfume e bálsamo das feiras medievais que procurávamos, todos os anos. Não queria esperar pelo Inverno que me faria gelar a tua memória. Queria encontrar-me contigo, saber para onde seguiríamos depois, na viagem encantada, encenada por nós, alguns anos antes em Geometria.

Durante os dias em que não te vi, não havia mais nada. Apenas putas e cabaret.
Danças exóticas em cima da mesa, fornicadelas sem vergonha, na esperança que voltasses e tivesses pena de mim e me levasses contigo. O orgulho é sempre a minha prioridade. É o meu primeiro amor. Nunca correria atrás de ti, nunca perderia perdão, nunca entenderia o teu desespero sôfrego, lágrimas por debaixo do rio que nem sabíamos o nome ainda. "Danúbio" dir-me-ia uma puta romena. Ou checa. Comia com toda a intensidade que um Homem consegue e lembrei-me que poderia nunca mais te oportunidade de te revelar. “É Danúbio Sara, É Danúbio”.

Que se foda o Danúbio. Ele sabe a imagem que reflectiu quando partiste.

1 comment:

LM said...

Nada se desvanece. Nada. Nada. Nada.