Sunday, September 20, 2009
Feels Like Home
Há algo que apraz sentir. Sem pressas, que me faz sentir em casa e nada pode ser mudado e eu posso deitar-me nesse sofá repleto de segurança e coerência eterna. Para onde posso correr, sempre que tudo à minha volta não faz sentido. Sempre que a morte se aproxima, sempre que a vida me tira um pouco mais de fôlego. Como se tudo fosse irremediavelmente terminar, depois de amanhã.
Enquanto faz sol, enquanto te posso abraçar, nessa ternura que me prometeste e que tão poucas vezes me fazes sentir. E é então que me sinto em casa, onde posso adormecer de olhos bem fechados, sem segurar a alma, sem me preocupar com o que o mundo faz lá fora, onde pertenço, bem cá dentro, dentro de mim.
Sem me preocupar com as minhas imperfeições, sem me preocupar se consigo suster a lágrima que teima em não se segurar, se consigo soltar a gargalhada um pouco mais alto, se consigo ser eu, nem que seja apenas por mais uns instantes. Uns instantes.
É tudo o que tenho, é tudo o que sempre tive.
Viver, a saber perfeitamente que a música ainda há-de mudar, que não há momento que perdure e eu neurótico, claro, a tentar suster o ar dentro de mim, fechado entre paredes e silêncios, procura de uma vida que já me pertenceu e eu talvez não tenha sabido agarrar. À procura de uma vida, que nunca terei tido e que não me pertence. E se ao menos soubesses o quanto ainda te retenho, o quanto em mim permaneces, nessas guerras, onde se soltam canhões diariamente, onde todos os dias desaparecemos dentro de frases feitas, palavras vãs, apenas para disfarçarmos que não somos nada um sem o outro.
Há qualquer coisa de profundamente triste nisto tudo.
Há qualquer coisa de irremediavelmente bonito nisto tudo.
Quando é que vamos entender que o tempo escasseia, que podíamos ser tudo aquilo que não somos, que podíamos transformar a raiva e a mediocridade em algo colorido a feliz, naturalmente, como nunca o fizemos. Onde poderíamos regressar, sentir-mos a espinha a contrair-se e ficarmos completos apenas porque partilhamos a mesma vida, enquanto ainda o conseguimos e podemos permanecer. Aqui, bem dentro de nós.
Se soubesses o quão feliz me podes fazer, se soubesses o quão feliz este amor irremediavelmente piroso, mas puro, que tenho para te entregar, te pode agarrar e nunca te deixar…
E tudo o que queria era deixar o resto do mundo para trás, deitar-me contigo aqui, onde podemos reconhecer as folhas no chão e sentir o cheiro a churrasco, ainda e concluir que Setembro não pode deixar de ser tão estranho…
As nossas vidas a voltarem a incluir-se e talvez nós a sermos tudo aquilo que queríamos ser, daqui a alguns anos, deitados na mesma relva, a olhar o céu bem escuro, sem trocarmos uma única palavra, para não estragar o momento, sem deixar que nada nos interrompa, com as gargalhadas de uma casa grande por detrás e os nossos sonhos todos construídos em grandes alicerces, sem vírgulas ou pontos finais, felizes, a sonhar, acordados e muitas gargalhadas à nossa volta.
Tudo contigo.
Eu contigo, tu com a minha mão – sinto-me em casa.
Talvez noutro dia, um dia gigante, um dia corrosivo, um dia em que não salvaste ninguém, um dia em que te abraço e esqueces o filho da puta do remédio que não entrou no sangue a tempo. E sim, outro dia, um dia cinzento, um domingo, claro!, onde não cozinhamos, escondemos os tachos e as panelas, esquecemos o telemóvel e o facebook, esquecemos o chefe e o fígado que está a dar as últimas e ficamos no sofá, sem nos esquecermos um do outro, ligados, como sempre. Como sempre tentamos ser. Como um dia teremos sido. Egoístas, imaturos, inseguros.
É assim que as guerras começam. Alguém pensa que alguém vai atacar alguém e de repente, ninguém sabe muito bem como nem porquê, arrancam os tanques, soltam-se as bombas e tudo desmorona à volta. Constroem-se alianças, formas de garantir uma sobrevivência para além da derrota. Formas de garantirmos a sobrevivência, depois de tudo estar extinto. Formas de garantirmos que não ficaremos sozinhos, para sempre.
Filho da puta do tempo, e se ao menos soubesses o tempo que esperei por encontrar o toque, o teu toque, onde tudo se converge, onde me encontro e me esqueço por dentro de ti, que nada importa.
Onde eu pertenço.
BSO – Feels like home – edwin hayes
Thursday, August 27, 2009
Mary
Houve qualquer coisa que fui esquecendo, com o despejar das horas em palavras sem sentido e viagens interiores sem sentido.
Há coisas que nunca serão realmente nossas – e eu que sempre esperei nunca acreditar, sempre fazer acontecer.
Há qualquer coisa que nunca vou esquecer. A memória de um amor perdido, entre a praia – sempre a praia – por entre uma tragédia mediática, sob o olhar agudo e crítico de quem não a sente, não a partilha, não a contém em si.
Uma daquelas luzes que nos guiam, por entre a força de querermos viver, uma daquelas imagens que nunca esqueceremos, que foram feitas só para nós.
Eram risos pegados, químicas e tu a desapareceres. Matéria física, sem resquício de imperfeições ou de lágrimas negligentes.
Agora diz-me que estás entre a procura da atmosfera e a as estrelas que tanto fazias questão de as puxares e partilhares. Lembras-me que é talvez tempo de mudar, que nada será assim tão garantido, mas que talvez seja por isso que temos todos, juntos, de lutar por algo melhor.
A tua eternidade, permanece em mim, como em tantos outros. Contudo.
Quererias sempre o melhor, o impensável, com uma atitude resplandecente, figurável entre o panteão dessas grandes criaturas que vivem para sorrir.
Amar é deixar que permaneças em mim, com uma memória feliz, de alguém que não tinha medo de voar, de ser mais, de se fixar, mesmo sabendo que a sua hora havia de chegar. Mesmo sabendo que ele nunca ficaria sozinho.
Afinal, foi tudo tão bem planeado, que nunca poderia ser de outro jeito. Sei que não posso ser egoísta o suficiente, para querer roubar ao tempo a fugacidade e puxar-te sem te explicar porquê, num segundo, trazer-te para casa e levar-te a ver um jogo do Boavista. Olhar para ti e pensar “que se fodam todos os problemas que poderei ter”.
Agora, só me restam memórias, alguém para amparar, a certeza que não estaremos nunca sozinho. Que o caminho que traçamos haverá sempre de ter algum sentido, que a vida há-de ser sempre mais do que isto que sentimos, que presenciamos, que tocamos, em última análise, que vivemos.
Ainda estou à espera que caias dessa estrela e grites “Luís Miguel”. Um nome só teu, que adoptei para mim mesmo.
Quando tudo aconteceu, não acreditei. Não acredito na morte como certeza absoluta, como força motriz. Nem na vida. Não acredito em nada, há muito tempo.
“Estar-se atento, dar-se conta de cada momento, com consciência dos sentimentos, sem julgar nem analisar, é um desafio diário”. Ramiro Calle
E só agora percebo porque me abraçaste tanto quando fui, voltei, permaneci no Brasil. Sabias que haveria de ver a realidade como algo mutável a cada dia, bonita demais para ser desperdiçada, por rotinas, ciúmes ou invejas francas. Honestidades, mentiras, que nada levará a lugar nenhum, nunca.
Incompreensivelmente perdi muito daquilo que me preenchia. Talvez por isso, faça tudo sentido, na minha pequena consciência agora, em que acordei e voltei a viver. Não sei bem para onde me voltar, contudo. Mas algo me diz que tenho de levar um sorriso na cara e continuar a construir uma alma tão grande como aquela que sempre fizeste questão de evidenciar que teria. Sem quaisquer duvidadas.
Não te posso agradecer. Não te consigo chorar, nem sequer escrever algo bonito e lamechas sobre ti. Não era suposto que fosse assim, mas nada será suposto ser de qualquer das formas que sempre sonhamos.
Best Friend : Train. Drops Of Jupiter
Há coisas que nunca serão realmente nossas – e eu que sempre esperei nunca acreditar, sempre fazer acontecer.
Há qualquer coisa que nunca vou esquecer. A memória de um amor perdido, entre a praia – sempre a praia – por entre uma tragédia mediática, sob o olhar agudo e crítico de quem não a sente, não a partilha, não a contém em si.
Uma daquelas luzes que nos guiam, por entre a força de querermos viver, uma daquelas imagens que nunca esqueceremos, que foram feitas só para nós.
Eram risos pegados, químicas e tu a desapareceres. Matéria física, sem resquício de imperfeições ou de lágrimas negligentes.
Agora diz-me que estás entre a procura da atmosfera e a as estrelas que tanto fazias questão de as puxares e partilhares. Lembras-me que é talvez tempo de mudar, que nada será assim tão garantido, mas que talvez seja por isso que temos todos, juntos, de lutar por algo melhor.
A tua eternidade, permanece em mim, como em tantos outros. Contudo.
Quererias sempre o melhor, o impensável, com uma atitude resplandecente, figurável entre o panteão dessas grandes criaturas que vivem para sorrir.
Amar é deixar que permaneças em mim, com uma memória feliz, de alguém que não tinha medo de voar, de ser mais, de se fixar, mesmo sabendo que a sua hora havia de chegar. Mesmo sabendo que ele nunca ficaria sozinho.
Afinal, foi tudo tão bem planeado, que nunca poderia ser de outro jeito. Sei que não posso ser egoísta o suficiente, para querer roubar ao tempo a fugacidade e puxar-te sem te explicar porquê, num segundo, trazer-te para casa e levar-te a ver um jogo do Boavista. Olhar para ti e pensar “que se fodam todos os problemas que poderei ter”.
Agora, só me restam memórias, alguém para amparar, a certeza que não estaremos nunca sozinho. Que o caminho que traçamos haverá sempre de ter algum sentido, que a vida há-de ser sempre mais do que isto que sentimos, que presenciamos, que tocamos, em última análise, que vivemos.
Ainda estou à espera que caias dessa estrela e grites “Luís Miguel”. Um nome só teu, que adoptei para mim mesmo.
Quando tudo aconteceu, não acreditei. Não acredito na morte como certeza absoluta, como força motriz. Nem na vida. Não acredito em nada, há muito tempo.
“Estar-se atento, dar-se conta de cada momento, com consciência dos sentimentos, sem julgar nem analisar, é um desafio diário”. Ramiro Calle
E só agora percebo porque me abraçaste tanto quando fui, voltei, permaneci no Brasil. Sabias que haveria de ver a realidade como algo mutável a cada dia, bonita demais para ser desperdiçada, por rotinas, ciúmes ou invejas francas. Honestidades, mentiras, que nada levará a lugar nenhum, nunca.
Incompreensivelmente perdi muito daquilo que me preenchia. Talvez por isso, faça tudo sentido, na minha pequena consciência agora, em que acordei e voltei a viver. Não sei bem para onde me voltar, contudo. Mas algo me diz que tenho de levar um sorriso na cara e continuar a construir uma alma tão grande como aquela que sempre fizeste questão de evidenciar que teria. Sem quaisquer duvidadas.
Não te posso agradecer. Não te consigo chorar, nem sequer escrever algo bonito e lamechas sobre ti. Não era suposto que fosse assim, mas nada será suposto ser de qualquer das formas que sempre sonhamos.
Best Friend : Train. Drops Of Jupiter
Friday, August 07, 2009
Ansiedade
Passam-se as músicas
passa-se o sol
ficam as lembranças.
No seio da poeira
dentro de mim
fixo, morto, irreflectido.
Em carne viva, em carne solta
Perdida
Crua.
Ligações entre gente pequena
desfeita, inocente.
Ladeados, rodeados
Portões, encontros
a uma só voz.
Não há finais.
Apenas a ansiedade.
passa-se o sol
ficam as lembranças.
No seio da poeira
dentro de mim
fixo, morto, irreflectido.
Em carne viva, em carne solta
Perdida
Crua.
Ligações entre gente pequena
desfeita, inocente.
Ladeados, rodeados
Portões, encontros
a uma só voz.
Não há finais.
Apenas a ansiedade.
Sunday, June 28, 2009
Pele
Entrei no carro e esqueci o nome que me fora dado. Perdi-me nessa inocência requisitada a momentos breves e no sonho que idealizei como meu.
Carrego-o na minha mão, persistente, umas vezes escasso, outras, maior do que eu. É ele que me embala e que me sossega. É ele que me torna na razão máxima de ternura e raiva. É ele que me leva.
No sonho que possuo
Na leveza que tantas vezes peço
Musicais que não existem
Pedras que não me atingem
E um sorriso a conter a seriedade.
Fixa.
Como o suspiro que transpira, entre bafejadas de sol radiante a pedir um pouco mais de complacência para com a pele. A tua. A tocar na minha, como se fossem uma só, como se o sonho fosse um só e tudo fosse eternamente perfeito e conciso. Tu a quereres-me, eu a querer-te e o desejo a vaguear à nossa volta e eu a esquecer-me do mundo nesse mesmo momento.
A tua mão a acompanhar-me, e a ajudar-me a segurar a nossa construção. Casas, crianças, comida e um prato único.
Telas em que nos revemos, no escuro, onde não conseguimos ver nada para além da esperança que é acordar e sentir a tua pele a tocar na minha.
Não há muito para além disso. Há sim, gargalhadas perdidas e perfeitas, momentos nossos, como quem sabe que o amanhã pode não chegar e tem de absorver toda a ternura num só momento. Como quem sabe que nem um oceano chegava para demonstrar toda a cumplicidade adquirida. Como quem sabe que não há uma gota que não pertença à nossa pele, húmida e carregada de trejeitos, mas sempre à espera de sentir que o sonho vale sempre a pena, mesmo até quando a alma é pequena.
Que Forbela e o Camilo tinham razão, que a Pedrosa e o Esteves também. Que nunca ninguém se enganou em relação ao amor, nem mesmo eu.
Enquanto guio, as paisagens são condescendentes comigo, fazem-me viajar por entre elas, fazem-me viver uma vida que espero ainda agarrar como sendo minha… E pensar que todos os caminhos vão dar à tua imagem, que me acompanha e me seduz… Que me ilumina tantas outras vezes.
Na rádio, não há música, não há lágrimas, não há sentimentos a deambular. Apenas uma voz a repetir que este ano é o último para amar, para conquistar, para defender o sonho que nunca ficou esquecido, apenas à espera de alguém que valesse a pena partilhar, conquistar. Nunca perder, como outrora. Por ele faço tudo.
Caio
Escorrego
Mergulho
Salto
Fixo-me
Desapareço
Sempre na esperança que o amanhã me leve e me mostre aquele lugar encantado, longe do fim. Perto de ti.
Perto de mim
Perto de nós
Onde nunca nos perdemos
Onde nunca perecemos
Face à luz
Face à vida
Na conquista do sonho
Na conquista de nós.
Enquanto é Verão, chove sempre. Não entendo mais de Estações e épocas favoráveis a nada. Tudo o que nos ensinaram está errado e não confio mais na passagem de conhecimento através da imposição de materiais ou acções. Não sou programado para mais nada a não ser para conduzir por aí, na esperança que entres no carro e não omitas tantas palavras como os teus olhos pedem para não o fazeres. A ver se meto a 5.ª e me e fugimos os dois para outro lugar, que eu estou cansado de esperar que me carregues, onde o sol não queima a pele fina, branca, delicada, permeável ao teu suor. A pele que me entende, a pele que sabe o que sinto, porque também é queimada.
A pele que é minha. E o sonho também.
Nossa. Nosso.
Best Friend. Skank - Vamos Fugir
Monday, June 22, 2009
Estou
Acordei e não estava. Afinal, o que foi feito de toda essa paz supostamente conquistada, dessa fugacidade remetida para calma e serenidade ilusória que parece já não me pertencer. Não há pontos de interrogação, não há meias palavras engolidas em seco à espera que a ferida passe e tudo se concretize. Há luz e sonho, poeira de passos repetidos pelo tempo, fugas incessantes do nosso próprio reflexo, condicionantes próprios de uma textura delicada e subtil demais para ser presenciada. Às vezes parece que me perco na tua ausência, outras em que adormeço na mesma, outras tantas em que apenas gostava de ser perfeito.
Cores cintilantes, rodeadas de traças repugnantes e a emoção em plena carne viva, a brotar como se dependesse do sangue para viver. O incontrolável a fazer esquecer o inóspito, o medo de que tudo corra mal, mesmo quando corre e um sorriso que ninguém vê, mas fica gravado.
Antecedentes, lembranças, tudo a escorrer perante esses lugares comuns que todos nós vamos criando diariamente.
Uma praia que podia ser a nossa, uma praia que passou a ser a nossa. Quando é que passamos a encontrar-nos e a comer do mesmo prato? Não há confusão. Não há receio, apenas contenção de imaginação a fazer lembrar um velho filme.
Amar chega sempre, voltei a acreditar. Amar tem de chegar, senão vivemos de quê? Limitações passadas e futuras, encontrar o teu cheiro misturado com sal e alfazema e eu a sonhar com ele, numa angústia repleta de confusão e impossibilidade de ser melhor, todos os dias.
Não gosto de linearidade, gosto de afirmação, de histórias imperfeitas mas encantadas, de luz, de amor, de paz, de criação perante o nojo que é olhar para um prédio destruído, onde de repente te vejo e tudo se transforma, nada se perde, tudo se cria, até os teus braços e de repente acordo e não estou. Para ninguém.
Acredito sempre na possibilidade de sermos melhores, apesar de não me conformar com as palavras que tantas vezes saem da minha boca e me fazem mais pequeno e revoltoso, patético, por achar que há uma linearidade para tudo, um caminho, uma estrada única que nos há-de levar a um final preciso e controlável. Como se tivesse perdido um filho e não me pudesse calar, não pudesse parar de gritar e tudo fosse … perdidamente bonito.
Como o é, tantas vezes.
Ninguém é perfeito, mas poucas pessoas terão tanta vontade de ultrapassar os próprios limites perante a dificuldade que é viver entre os slides que nos impuseram.
Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. (Shopia M. B)
Que me impuseram, que nos tornam um pouco mais amargos, todos os dias. Talvez a mim.
Talvez um dia a correr
Talvez um dia a fugir
Um momento estragado
Uma espera eterna
Na conquista de um abraço.
Pequeno amor este
Que consome e retribui.
Quero viver
Talvez um pouco mais
Sempre à espera
Sempre a colar a tua ausência
Talvez acordado
A querer estar ao teu lado.
Cores cintilantes, rodeadas de traças repugnantes e a emoção em plena carne viva, a brotar como se dependesse do sangue para viver. O incontrolável a fazer esquecer o inóspito, o medo de que tudo corra mal, mesmo quando corre e um sorriso que ninguém vê, mas fica gravado.
Antecedentes, lembranças, tudo a escorrer perante esses lugares comuns que todos nós vamos criando diariamente.
Uma praia que podia ser a nossa, uma praia que passou a ser a nossa. Quando é que passamos a encontrar-nos e a comer do mesmo prato? Não há confusão. Não há receio, apenas contenção de imaginação a fazer lembrar um velho filme.
Amar chega sempre, voltei a acreditar. Amar tem de chegar, senão vivemos de quê? Limitações passadas e futuras, encontrar o teu cheiro misturado com sal e alfazema e eu a sonhar com ele, numa angústia repleta de confusão e impossibilidade de ser melhor, todos os dias.
Não gosto de linearidade, gosto de afirmação, de histórias imperfeitas mas encantadas, de luz, de amor, de paz, de criação perante o nojo que é olhar para um prédio destruído, onde de repente te vejo e tudo se transforma, nada se perde, tudo se cria, até os teus braços e de repente acordo e não estou. Para ninguém.
Acredito sempre na possibilidade de sermos melhores, apesar de não me conformar com as palavras que tantas vezes saem da minha boca e me fazem mais pequeno e revoltoso, patético, por achar que há uma linearidade para tudo, um caminho, uma estrada única que nos há-de levar a um final preciso e controlável. Como se tivesse perdido um filho e não me pudesse calar, não pudesse parar de gritar e tudo fosse … perdidamente bonito.
Como o é, tantas vezes.
Ninguém é perfeito, mas poucas pessoas terão tanta vontade de ultrapassar os próprios limites perante a dificuldade que é viver entre os slides que nos impuseram.
Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua. (Shopia M. B)
Que me impuseram, que nos tornam um pouco mais amargos, todos os dias. Talvez a mim.
Talvez um dia a correr
Talvez um dia a fugir
Um momento estragado
Uma espera eterna
Na conquista de um abraço.
Pequeno amor este
Que consome e retribui.
Quero viver
Talvez um pouco mais
Sempre à espera
Sempre a colar a tua ausência
Talvez acordado
A querer estar ao teu lado.
Tuesday, June 09, 2009
Morte Clara - Sozinha II
Morri e ninguém me avisou.
Vivi depressa demais e ninguém quis saber. Ninguém interpretou os risos perdidos pelas madrugadas, as rugas a crescer e eu sem querer saber.
Morri sem saber como e agora já não consigo sentir o cheiro a erva por entre a luz Clara, perante a consciência de ter falhado perante a minha própria inconsciência e vontade de vencer. Chamavam-me princesa, mas isso acabou quando ouvi o som da porta a bater e cresci para o mundo perante a viagem vertiginosa que era sentir o teu calor junto ao meu corpo, de mãos dadas, na profusão da nossa cama.
Lá fora, ninguém sabia, mas toda a gente suspeitava. Nós não queríamos saber
Escreveste-me uma vez que o meu sorriso ainda haveria de ser o reflexo da palma da tua mão e enquanto te vejo novamente, talvez pela última vez, vejo-te a fitá-la na esperança de me perspectivares. Talvez nunca mais, talvez sempre. Voltarás a amar e eu serei sempre essa memória errante e vagabunda de um passado que não chega para nos fazer feliz.
Tens os cabelos claros como o teu nome, a efervescer de luminosidade, mesmo quando te preparas para me entregar na terra que eu tanto amava. Quando era pequena, costumava rebolar, sujar-me a ver se ainda estava a sonhar, sob o olhar atento do meu pai. A ver se deixava de ser a princesa perante uns momentos e o meu coração poderia simplesmente sossegar de tanta pressão ou contratempo.
O teu corpo no meu
O teu coração com o meu
A tua vida a acalmar o vazio da minha morte
Queria tocar-te uma última vez, esperar por ti no comboio como quando éramos mais novas e caminhar de S.Bento e rir-mos e sermos felizes, despreocupadas, perante a futilidade que é viver para tanta gente. Comer uma castanha no inverno, um gelado no verão, de mãos afastadas mas de olhares sempre entrelaçados
“Nunca me largues”
“Cais?”
“Sozinha.”
O que irás fazer a seguir? Acender um incenso e caminhar pelo jardim, sozinha? Eras a minha companheira e agora fui eu que te perdi. És forte demais para te esqueceres devido a tudo isto. Talvez não. As tuas lágrimas são luminosas, claras, como a luz que me trespassa.
Eu de olhos fechados, foste tu que me vestiste? Se foste, muita coisa mudou e és a melhor amiga da minha mãe. Não sinto nada, sinto-me um bocado perdida, até. Não era suposto tudo ter terminado depois de finalmente morrer? Se isto não tem fim, prefiro voltar a viver e permanecer com o teu bater de coração inoportuno e claro, os teus pelos eriçados, um Sábado de manhã atrasado para almoçarmos bolinhos de bacalhau com a tua irmã e uma felicidade jovial, eterna. Espuma no meu nariz, sonhos de adolescente concretizados, que foram nossos, agora só teus.
Quero viver para sempre contigo.
Vivi depressa demais e ninguém quis saber. Ninguém interpretou os risos perdidos pelas madrugadas, as rugas a crescer e eu sem querer saber.
Morri sem saber como e agora já não consigo sentir o cheiro a erva por entre a luz Clara, perante a consciência de ter falhado perante a minha própria inconsciência e vontade de vencer. Chamavam-me princesa, mas isso acabou quando ouvi o som da porta a bater e cresci para o mundo perante a viagem vertiginosa que era sentir o teu calor junto ao meu corpo, de mãos dadas, na profusão da nossa cama.
Lá fora, ninguém sabia, mas toda a gente suspeitava. Nós não queríamos saber
Escreveste-me uma vez que o meu sorriso ainda haveria de ser o reflexo da palma da tua mão e enquanto te vejo novamente, talvez pela última vez, vejo-te a fitá-la na esperança de me perspectivares. Talvez nunca mais, talvez sempre. Voltarás a amar e eu serei sempre essa memória errante e vagabunda de um passado que não chega para nos fazer feliz.
Tens os cabelos claros como o teu nome, a efervescer de luminosidade, mesmo quando te preparas para me entregar na terra que eu tanto amava. Quando era pequena, costumava rebolar, sujar-me a ver se ainda estava a sonhar, sob o olhar atento do meu pai. A ver se deixava de ser a princesa perante uns momentos e o meu coração poderia simplesmente sossegar de tanta pressão ou contratempo.
O teu corpo no meu
O teu coração com o meu
A tua vida a acalmar o vazio da minha morte
Queria tocar-te uma última vez, esperar por ti no comboio como quando éramos mais novas e caminhar de S.Bento e rir-mos e sermos felizes, despreocupadas, perante a futilidade que é viver para tanta gente. Comer uma castanha no inverno, um gelado no verão, de mãos afastadas mas de olhares sempre entrelaçados
“Nunca me largues”
“Cais?”
“Sozinha.”
O que irás fazer a seguir? Acender um incenso e caminhar pelo jardim, sozinha? Eras a minha companheira e agora fui eu que te perdi. És forte demais para te esqueceres devido a tudo isto. Talvez não. As tuas lágrimas são luminosas, claras, como a luz que me trespassa.
Eu de olhos fechados, foste tu que me vestiste? Se foste, muita coisa mudou e és a melhor amiga da minha mãe. Não sinto nada, sinto-me um bocado perdida, até. Não era suposto tudo ter terminado depois de finalmente morrer? Se isto não tem fim, prefiro voltar a viver e permanecer com o teu bater de coração inoportuno e claro, os teus pelos eriçados, um Sábado de manhã atrasado para almoçarmos bolinhos de bacalhau com a tua irmã e uma felicidade jovial, eterna. Espuma no meu nariz, sonhos de adolescente concretizados, que foram nossos, agora só teus.
Quero viver para sempre contigo.
Tuesday, May 26, 2009
Sozinha
O cabelo na frente dos olhos e uma vontade de engolir o mundo com um só gesto. Enquanto procura um significado para o percorrer vazio das mãos que já tocaram o céu, tantas vezes, consome o silêncio com a certeza de que o tempo dura um cigarro inteiro.
Gesto compenetrado
A encontrar a inocência da idade
Onde a ilusão nunca se torna em algo real
E tudo se desfaz, eventualmente.
Tudo.
Não previa o desfecho do acontecimento marcado pelo fim do início, como se tudo fosse uma contradição daquilo que realmente queria, daquilo que realmente sentia. Não conseguia perspectivar mais o futuro, nem sabia consertar o passado. No seu presente, vivia a felicidade de estar triste, enquanto a chuva caía suavemente por entre o carro e a segurava com a palma da mão, como já seguraram em sim. Por si.
Revia agora todos os factos e os acordes com que construiu a partitura que parecia ter agora um final pouco precipitado. Não conseguia suster em si a infelicidade de não ser perfeita e de ter falhado, novamente. De se espalhar por entre o cheiro da erva molhada junto ao mar e de continuar a partir-se enquanto gritava num silêncio surdo. Silêncio impenetrável, onde nada estava bem, onde nada se segurava, onde nada perdurava. Fechava os olhos e não desaparecia. Imagens ténues de fragmentos roubados por câmaras alheias, visões de uma felicidade conjunta que não partilhavam mais. Perguntava-se ali mesmo, para onde iam esses momentos alheios aos problemas do resto do mundo. Se perdurariam na eternidade à espera que alguém os concluísse ou se tornassem apenas pó por entre a rotina do dia que se avizinhava. Fechava os olhos e sabia que nada ficaria bem, não naquele momento, talvez nunca.
Talvez nunca, numa terra bem longe
Memórias suspensas por lampiões estragados
Casas desabitadas, opostas à culpa de não sentir vergonha
Por entre o resquício de vida que existe em todos nós
Onde tudo se quebra, onde tudo se perde
Onde nada se substitui
Era desconfiada e não sabia o que fazer com isso. Queria apenas sentir o peso da chuva por entre os dedos e esperar que tudo terminasse no momento em que esperava, mas não conseguia. Não sabia como tinha começado, nem sabia se teria acabado. Tinha-se perdido por entre o caminho de querer ser eternamente feliz e não sabia quem tinha apagado a luz, que fez com que nunca mais conseguisse voltar ao rumo correcto. Divertia-se nos últimos tempos a ter pena de si própria e esperar que fizessem alguma coisa por ela, a ver se valeria realmente viver com uma alma tão pequena, como a sua se havia tornado. Desconfiada da sinceridade de qualquer político, resignada finalmente, por aquilo que a vida lhe dava, desiludida com os fazedores de sonhos, desapontada com o som da porta a fechar.
E eis então que recorda o pânico em câmara lenta a despontar de dentro de si e as palavras a correrem a sua consciência como se o mundo tivesse acabado ontem e ninguém a tivesse acordado para assistir. Tinha-se esquecido do nome que lhe haviam dado, tinha-se esquecido de sonhar e esperava agora fechar os olhos e pensar que tudo haveria de ter sido um engano e ninguém haveria de voltar a fazer as coisas como delas se lembrava. Havia de confrontar as peças espalhadas pelo chão de todas as forças que acabava por perder. Havia que defrontar a derrota mesmo defronte dos seus olhos, perante buscas intermináveis a fantasias rebulescas e pesadelos a meio da noite, suores e tremores, tudo a buscar o calor da companhia que a acalmava de cada vez que sabia que a realidade era melhor do que o sonho que tantas vezes idealizara. E por isso havia deixado de sonhar.
E por isso, tinha-se esquecido de sonhar de todos os detalhes que haveria de enfrentar um dia e que haveriam de fazer dela a mulher mais forte das constelações. A princesa que o pai fazia questão de criar no reflexo do seu espelho partido, enquanto era criança e da inveja que a mãe sentia de cada vez que ouvia canções deste género.
Ela lembrava-se. Lembrava-se do desprezo materno, da fugacidade da ternura que eventualmente recebia, quando não se sujava e era perfeita. E ela nunca era perfeita. Ela lembrava-se do que havia passado para conquistar o sonho ideal, a figura eterna que se deitava consigo e que agora não estava mais ali. O afastamento dos pais, a vergonha estampada no olhar do pai. Já não era mais uma princesa.
Agora, tinha perdido tudo, menos a vontade de chorar. Mas era apenas mais uma vontade, como voltar atrás e fazer tudo perfeito e talvez assim, ter alguma ternura devolvida e talvez desta forma, não ouvir o som da porta a bater e o desespero a despoletar. Uma ida à janela na esperança que voltasse atrás e a perdoasse, mas nunca aconteceu e ela ficou sozinha, entre a relva que tinham plantado as duas e o amor que não tinham escolhido. Era desconfiada e nunca tinha sido compreendida na totalidade. Nem mesmo ela. Agora, não havia nada que pudesse fazer. Queria apenas que tudo fosse claro, que ela voltasse e lhe dissesse que não tinha motivos para ter agido como teria agido, mas que não importava agora. Só importava a intemporalidade do sentimento estampado por entre juras de amor simples.
“ E que faço eu com tudo isto? Onde coloco todas as certezas até aqui sentidas ? gostava de a fazer voltar, de a fazer entender a inocência perdida entre a vontade de querer se mais humana diariamente. Espero que não se esqueça de mim, entre amanhã e daqui a um mês. Espero que tudo volte ao normal depressa. Espero tanta coisa de mim, espero tanta coisa de quem está comigo…”
Não sabia mais de quem era a culpa, sabia que não poderia fazer mais nada, por entre o reflexo da falsa princesa, agora sozinha. Não sabia também, o porquê de tudo não ser tão fácil como nos filmes que o pai a habituara a ver e acreditar, “pai, isto é mesmo assim?”, e ela acreditava, sempre. Amores que quebravam guerras e fronteiras, para no fim perceber que era tudo treta. “ Pai, estou apaixonada. Chama-se Clara”. Clara era a desilusão espalhada por entre a postura do pai e a decepção da própria perante aquilo que perspectivava. Afinal, nem tudo era possível e o amor também pode ser julgado.
Entre o passado e o futuro
Há sempre uma dor presente, que anuncia
A chegada da velha memória.
Chama-se insegurança e vem de longe,
Chega sem avisar a abraça-nos, faz-nos sentir confortáveis.
Mata-nos.
Matou-a.
Enquanto adormece, por entre a chuva, lembra-se de já ter adormecido assim. Sozinha.
Gesto compenetrado
A encontrar a inocência da idade
Onde a ilusão nunca se torna em algo real
E tudo se desfaz, eventualmente.
Tudo.
Não previa o desfecho do acontecimento marcado pelo fim do início, como se tudo fosse uma contradição daquilo que realmente queria, daquilo que realmente sentia. Não conseguia perspectivar mais o futuro, nem sabia consertar o passado. No seu presente, vivia a felicidade de estar triste, enquanto a chuva caía suavemente por entre o carro e a segurava com a palma da mão, como já seguraram em sim. Por si.
Revia agora todos os factos e os acordes com que construiu a partitura que parecia ter agora um final pouco precipitado. Não conseguia suster em si a infelicidade de não ser perfeita e de ter falhado, novamente. De se espalhar por entre o cheiro da erva molhada junto ao mar e de continuar a partir-se enquanto gritava num silêncio surdo. Silêncio impenetrável, onde nada estava bem, onde nada se segurava, onde nada perdurava. Fechava os olhos e não desaparecia. Imagens ténues de fragmentos roubados por câmaras alheias, visões de uma felicidade conjunta que não partilhavam mais. Perguntava-se ali mesmo, para onde iam esses momentos alheios aos problemas do resto do mundo. Se perdurariam na eternidade à espera que alguém os concluísse ou se tornassem apenas pó por entre a rotina do dia que se avizinhava. Fechava os olhos e sabia que nada ficaria bem, não naquele momento, talvez nunca.
Talvez nunca, numa terra bem longe
Memórias suspensas por lampiões estragados
Casas desabitadas, opostas à culpa de não sentir vergonha
Por entre o resquício de vida que existe em todos nós
Onde tudo se quebra, onde tudo se perde
Onde nada se substitui
Era desconfiada e não sabia o que fazer com isso. Queria apenas sentir o peso da chuva por entre os dedos e esperar que tudo terminasse no momento em que esperava, mas não conseguia. Não sabia como tinha começado, nem sabia se teria acabado. Tinha-se perdido por entre o caminho de querer ser eternamente feliz e não sabia quem tinha apagado a luz, que fez com que nunca mais conseguisse voltar ao rumo correcto. Divertia-se nos últimos tempos a ter pena de si própria e esperar que fizessem alguma coisa por ela, a ver se valeria realmente viver com uma alma tão pequena, como a sua se havia tornado. Desconfiada da sinceridade de qualquer político, resignada finalmente, por aquilo que a vida lhe dava, desiludida com os fazedores de sonhos, desapontada com o som da porta a fechar.
E eis então que recorda o pânico em câmara lenta a despontar de dentro de si e as palavras a correrem a sua consciência como se o mundo tivesse acabado ontem e ninguém a tivesse acordado para assistir. Tinha-se esquecido do nome que lhe haviam dado, tinha-se esquecido de sonhar e esperava agora fechar os olhos e pensar que tudo haveria de ter sido um engano e ninguém haveria de voltar a fazer as coisas como delas se lembrava. Havia de confrontar as peças espalhadas pelo chão de todas as forças que acabava por perder. Havia que defrontar a derrota mesmo defronte dos seus olhos, perante buscas intermináveis a fantasias rebulescas e pesadelos a meio da noite, suores e tremores, tudo a buscar o calor da companhia que a acalmava de cada vez que sabia que a realidade era melhor do que o sonho que tantas vezes idealizara. E por isso havia deixado de sonhar.
E por isso, tinha-se esquecido de sonhar de todos os detalhes que haveria de enfrentar um dia e que haveriam de fazer dela a mulher mais forte das constelações. A princesa que o pai fazia questão de criar no reflexo do seu espelho partido, enquanto era criança e da inveja que a mãe sentia de cada vez que ouvia canções deste género.
Ela lembrava-se. Lembrava-se do desprezo materno, da fugacidade da ternura que eventualmente recebia, quando não se sujava e era perfeita. E ela nunca era perfeita. Ela lembrava-se do que havia passado para conquistar o sonho ideal, a figura eterna que se deitava consigo e que agora não estava mais ali. O afastamento dos pais, a vergonha estampada no olhar do pai. Já não era mais uma princesa.
Agora, tinha perdido tudo, menos a vontade de chorar. Mas era apenas mais uma vontade, como voltar atrás e fazer tudo perfeito e talvez assim, ter alguma ternura devolvida e talvez desta forma, não ouvir o som da porta a bater e o desespero a despoletar. Uma ida à janela na esperança que voltasse atrás e a perdoasse, mas nunca aconteceu e ela ficou sozinha, entre a relva que tinham plantado as duas e o amor que não tinham escolhido. Era desconfiada e nunca tinha sido compreendida na totalidade. Nem mesmo ela. Agora, não havia nada que pudesse fazer. Queria apenas que tudo fosse claro, que ela voltasse e lhe dissesse que não tinha motivos para ter agido como teria agido, mas que não importava agora. Só importava a intemporalidade do sentimento estampado por entre juras de amor simples.
“ E que faço eu com tudo isto? Onde coloco todas as certezas até aqui sentidas ? gostava de a fazer voltar, de a fazer entender a inocência perdida entre a vontade de querer se mais humana diariamente. Espero que não se esqueça de mim, entre amanhã e daqui a um mês. Espero que tudo volte ao normal depressa. Espero tanta coisa de mim, espero tanta coisa de quem está comigo…”
Não sabia mais de quem era a culpa, sabia que não poderia fazer mais nada, por entre o reflexo da falsa princesa, agora sozinha. Não sabia também, o porquê de tudo não ser tão fácil como nos filmes que o pai a habituara a ver e acreditar, “pai, isto é mesmo assim?”, e ela acreditava, sempre. Amores que quebravam guerras e fronteiras, para no fim perceber que era tudo treta. “ Pai, estou apaixonada. Chama-se Clara”. Clara era a desilusão espalhada por entre a postura do pai e a decepção da própria perante aquilo que perspectivava. Afinal, nem tudo era possível e o amor também pode ser julgado.
Entre o passado e o futuro
Há sempre uma dor presente, que anuncia
A chegada da velha memória.
Chama-se insegurança e vem de longe,
Chega sem avisar a abraça-nos, faz-nos sentir confortáveis.
Mata-nos.
Matou-a.
Enquanto adormece, por entre a chuva, lembra-se de já ter adormecido assim. Sozinha.
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