Não me falhes, agora.
Não me hesite a respiração, nesse instante em que me deixei soterrar, sem inspiração, ou intuição que me guiasse para algum lugar-comum.
Queria a Volúpia e a felicidade, queria o vinho sem problemas de expressão, queria ficar enterrado nessas ruas cobertas de merda que nos vicia e nos eleva.
Insisto.
Não é de hoje, é de sempre. Um caminho fúnebre, pelos meandros da minha incapacidade em transmitir o que foi outrora, o que será amanhã.
Insisto em respirar, como se a vida tivesse sido ontem, e toda a génese da batalha imoral que travo, fosse a conquista da lógica, pelo racional, a manhã pela tequilla. Um rasgo por um cigarro.
Visto a camisola e saio. Encontro-me entre as paredes pintadas e a Lana a tocar insistentemente, irrepetivelmente, inebriadamente. Sabe menos do que eu.
Espelho a voz de puta, mas sem grande experiência na matéria. Faltou-nos sempre a vontade pura e dura, sem remorsos, uns quantos lençóis manchados de sexo e não de vergonha. Prazer puro, um James Dean na parede a incitar ao grito e a conjugação do prazer, por entre uma erva fina.
Implico.
A razão de ser, da ferocidade, de continuares ao meu lado. De te querer e nunca te largar. Mesmo quando te ordeno “Vai”.
Teremos sempre de nos lembrar dos grandes clássicos, das canções partidas e repartidas, da felicidade de abrir uma porta e ser apanhado por um sorriso rasgado. Um espírito pouco dado a comodismo. Algo incoerente, mas com a aposta sempre virada para o platónico.
Continuo na rua.
Ninguém me tenta levar nada (e hoje que teria dado tudo). Vesti a melhor combinação de roupas perdidas, que não usei mais, enquanto não chegavas. Acendi cinco cigarros, mamei os tubos de escape que passavam, na tentativa de um qualquer, corresponder ao cheiro do teu carro.
No banco de trás. Estofos de tecido fraco, frases curtas, simples, directas. Nunca foste advogado. Serias piloto e viajaríamos pela Península Ibérica, de vidros abertos, acompanhados por um vinho de mesa. Como se não fosse a isso, que se resumisse a identidade da vida. Ela vende-se desta forma. Faz parte do grande conceito do marketing, de nos tentar impingir uma qualidade de vida, que na verdade, quase ninguém tem. Uma lareira, um cobertor felpudo e quente, chuva lá fora e a felicidade. Um descapotável, um por do sol e dos copos a transbordar Monte Velho e a felicidade. Muitos suspiros à mistura e depois, planos e paninhos para consquistar o resto da semana, que não se perspectiva por entre os frames dessas pequenas virtudes.
Não me falhes agora. Eu hei-de insistir sempre.
Lost in Translation
Os sonhos são os mesmos , em todos os lugares.sh3dmyskin@hotmail.com
Wednesday, February 08, 2012
Saturday, October 15, 2011
Oração

Vamos parar de ouvir o ruído.
O ruído da solidão que nos abraça de noite e nos faz viajar para longe do universo que ainda podemos criar. Onde podemos ser só um.
Penetrar nessa doce melodia que é a intensidade de um passeio de nós cortados, absortos com sabor de fruta mordida.
Vamos fugir do lugar mais bonito da cidade, porque saudade é para quem a tem.
Sem erros ortográficos onde nos poderíamos perder para sempre, nessa ilusão proporcionada pela semiótica, como se tudo pudesse ser traduzido pela comunicação.
Não somos artistas, nas vivemos da inspiração das pequenas coisas, do prazer sincero, dessa bossa nova que ainda não sabemos dançar, mas que juntos, podemos recriar.
A vida que é doce (penso continuamente), na esperança que tudo seja verdade.
Que esse balanço não se interrompa, para que os abraços sejam sempre mais fortes, do que a realidade adjacente.
Que a crise nunca chegue à nossa mesa, onde a oração poderá ser sempre mais rentável. Que as más notícias nunca levem de nós a esperança nos acordes e no amor tranquilo.
Que nunca nos esqueçamos que a saudade é para quem a tem, mesmo que seja apenas por mais uma vez.
De longe, ainda podemos desaparecer, bem por dentro das entranhas dos sorrisos que não têm vergonha em proclamar felicidade.
De perto, ainda podemos desaparecer no espaço que conquistamos, seja lá onde isso for, seja lá onde ele estiver, apenas onde permaneceres. Eu juro.
Pois é, o coração que teima em bater, de cada vez que a gente se entregar.
O ruído da solidão que nos abraça de noite e nos faz viajar para longe do universo que ainda podemos criar. Onde podemos ser só um.
Penetrar nessa doce melodia que é a intensidade de um passeio de nós cortados, absortos com sabor de fruta mordida.
Vamos fugir do lugar mais bonito da cidade, porque saudade é para quem a tem.
Sem erros ortográficos onde nos poderíamos perder para sempre, nessa ilusão proporcionada pela semiótica, como se tudo pudesse ser traduzido pela comunicação.
Não somos artistas, nas vivemos da inspiração das pequenas coisas, do prazer sincero, dessa bossa nova que ainda não sabemos dançar, mas que juntos, podemos recriar.
A vida que é doce (penso continuamente), na esperança que tudo seja verdade.
Que esse balanço não se interrompa, para que os abraços sejam sempre mais fortes, do que a realidade adjacente.
Que a crise nunca chegue à nossa mesa, onde a oração poderá ser sempre mais rentável. Que as más notícias nunca levem de nós a esperança nos acordes e no amor tranquilo.
Que nunca nos esqueçamos que a saudade é para quem a tem, mesmo que seja apenas por mais uma vez.
De longe, ainda podemos desaparecer, bem por dentro das entranhas dos sorrisos que não têm vergonha em proclamar felicidade.
De perto, ainda podemos desaparecer no espaço que conquistamos, seja lá onde isso for, seja lá onde ele estiver, apenas onde permaneceres. Eu juro.
Pois é, o coração que teima em bater, de cada vez que a gente se entregar.
Friday, August 05, 2011
Peste
Perdi tempo e resumi o medo de falhar. Tentei alcançar esse patamar honorário, um livro aberto e pronto a ser lido por todos.
Estou pronto para essa congelação dos sentidos, na expiação da ansiedade que teima em me queimar noite após noite. Quero a liberdade prometida, luz cheia de coisas e sinais. Luz cheia de coisas incomportavelmente reais.
Deixei de escrever, porque nunca saberia como evitar o mesmo erro. Deixei de escrever porque nunca te quero partilhar com o desconhecido. Essa certeza de que o que é nosso, pertence-nos bem por dentro da carne viva; às vezes morta.
Às vezes crua, às vezes vazia.
E sem pensar, fui. Na acção é que reside a vantagem de acalmarmos a realidade que transportávamos. Na falta de vergonha que é descrevermos a falta de inocência perdida a alguém. Na falta que se tornou respirar em todos os passei
os que nos foram mantendo na ilusão que estávamos seguros.
Levamos anos até chegarmos aqui, levados pelas malas que transportamos, pela boleia que residiu no amor que haveríamos de contemplar. Em Budapeste, num quarto qualquer. Até tudo se ter tornado credivelmente difícil.
Estou pronto para essa congelação dos sentidos, na expiação da ansiedade que teima em me queimar noite após noite. Quero a liberdade prometida, luz cheia de coisas e sinais. Luz cheia de coisas incomportavelmente reais.
Deixei de escrever, porque nunca saberia como evitar o mesmo erro. Deixei de escrever porque nunca te quero partilhar com o desconhecido. Essa certeza de que o que é nosso, pertence-nos bem por dentro da carne viva; às vezes morta.
Às vezes crua, às vezes vazia.
E sem pensar, fui. Na acção é que reside a vantagem de acalmarmos a realidade que transportávamos. Na falta de vergonha que é descrevermos a falta de inocência perdida a alguém. Na falta que se tornou respirar em todos os passei
os que nos foram mantendo na ilusão que estávamos seguros.Levamos anos até chegarmos aqui, levados pelas malas que transportamos, pela boleia que residiu no amor que haveríamos de contemplar. Em Budapeste, num quarto qualquer. Até tudo se ter tornado credivelmente difícil.
“Difícil é a vida dos pobres e dos velhos porra”, Repeti durante esse tempo interminável, quando olhei para trás e já tinhas desvanecido – não em mim, mas na cidade que tanto parecia odiares.
Encontrar-te ia, alguns dias depois, a beber uma vodka em Peste, levada pela certeza que nos teríamos de reencontrar num entendimento só, nem que fosse preciso 5 mil pés de altitude. Nem que fosse a vergonha que só haveria de sentir no escuro da Europa de Leste, quando te procurei e apenas encontrei aqueles sexos com cheiro a perfume e bálsamo das feiras medievais que procurávamos, todos os anos. Não queria esperar pelo Inverno que me faria gelar a tua memória. Queria encontrar-me contigo, saber para onde seguiríamos depois, na viagem encantada, encenada por nós, alguns anos antes em Geometria.
Durante os dias em que não te vi, não havia mais nada. Apenas putas e cabaret.

Danças exóticas em cima da mesa, fornicadelas sem vergonha, na esperança que voltasses e tivesses pena de mim e me levasses contigo. O orgulho é sempre a minha prioridade. É o meu primeiro amor. Nunca correria atrás de ti, nunca perderia perdão, nunca entenderia o teu desespero sôfrego, lágrimas por debaixo do rio que nem sabíamos o nome ainda. "Danúbio" dir-me-ia uma puta romena. Ou checa. Comia com toda a intensidade que um Homem consegue e lembrei-me que poderia nunca mais te oportunidade de te revelar. “É Danúbio Sara, É Danúbio”.
Que se foda o Danúbio. Ele sabe a imagem que reflectiu quando partiste.
Thursday, April 07, 2011
Insuperável
Ser adulto é tornar todos os fatos como garantidos. Esquecermo-nos de que por vezes, a verdade há-de ser refeita e a nossa acomodação há-de ter um fim. Procuramos tudo e todos, enquanto somos um pouco mais novos. Perdidos, mas também, maravilhados. Quando crescemos, entendemos claramente que a vida cá fora, é mais dura do que aquilo que prevíamos e que nos falta a força e o poder que só podem ser traduzidos pelos sonhos e as viagens que tínhamos, enquanto podíamos reclamar a inocência da adolescência. O primeiro beijo, as férias intermináveis junto à praia, uma nostalgia de lugar nenhum e o walkmen por entre a areia. Era esse momento de solidão incontrolada, mas de perfeita sintonia com o resto do mundo, que nos há-de sempre fazer falta. Onde as palavras não eram contidas e a injustiça era transferida para um gelado ser mais caro, do que outro. Simplesmente. O primeiro segredo, o primeiro dia de aulas, o primeiro filme porno, o primeiro flirt, a primeira mensagem com sorriso. A primeira amizade, o derradeiro “para sempre”, com um pé na água fria do Mindelo. Só o amor pode ser incoerentemente fresco, quando tudo parece gasto e polido demais, para nos carregar com novas sensações, essa energia sensorial, tantas vezes perdida. Só o amor, puro e brilhante converge toda essa leveza que o ser pode carregar. “O que dá sentido à nossa conduta é sempre uma coisa completamente desconhecida”, refere Milan Kundera, que deixará de existir, quando nos tornarmos em pura contaminação contraída pela retina, através da propaganda política. Só o amor pode ser esse último reduto, das incertezas inebriantes, das viagens nunca mais finalizadas, de todo esse lado dramático que explodíamos na adolescência, na esperança de que o dia seguinte, fosse irremediavelmente diferente. Só o amor pode completar essa busca vertiginosa e proporcionar alguma beleza inerente ao caos em que todos vivemos. Num país moribundo, onde os políticos se desresponsabilizam com eleições antecipadas, apenas porque já conseguiram amealhar o que podiam (a título pessoal), até à altura. Ser adulto, tem que consistir irremediavelmente em mais qualquer coisa, do que procurar por um novo emprego todos os dias, apenas porque precisamos de mais dinheiro para construirmos uma casa, comprar um Ipad, ou talvez quem sabe, gerar um adolescente. Gostava de repousar na ideia de que ser adulto, significa irremediavelmente ser livre. Foi nessa ideia que vivemos a correr, na esperança em que possamos moldar a realidade circundante, um pouco ao nosso reflexo e memória futura. É nessa ilusão que vivemos, continuamente. Até aqui chegar. Não há tempo para viver e o pouco dinheiro que amealhamos, mal nos deixa sobreviver. Crescer na perspetiva de que a altura em que nos escondiamos nas casas de banho dos bares, para atender a chamada à mamã e mentirmos como gente pequena “estou na cama, claro”, era bem mais empolgante do que a vida de um trabalhador adulto tem para oferecer, é extenuante e cansativa. A concretização de todos os sonhos devia ser justamente agora, em que não existe mais nada, para além da nossa consciência a ditar esse caminho, cheio de coisas pouco surpreendentes. O amor pode ser a criação de algo insuperável. Todos os dias.
Friday, November 26, 2010
Escorrimento
Fechar os olhos e consumir o ar á minha volta. Correr entre a multidão, perder-me neste prazer sensorial que é poder começar de novo e rir-me por entre a minha realidade, que afinal, está viva.
Não quero esquecer essa oferta que é poder mergulhar no presente e nunca voltar a escorrer, antes de acordar. Posso não precisar.
Repito à minha mãe: “Não te preocupes, sei onde fica o sol”, entre um tinto caseiro e um sorriso nostálgico.
Confirmo ao meu pai: “Vou no sentido da rendição”. É isso que ele quer ouvir e eu não sou ninguém para matar as ilusões alheias.

Ser jovem é essa conquista de complementos, sem recurso a vitaminas mais ou menos afrodisíacas, raspar o solo com a mão e sentir o calor da imensidão que pode ser o infinito dos nossos sonhos, a penetrarem essa corrente sanguínea cheia de graça e glória.
Ser jovem é essa bênção grata, esse estado de espírito inebriante, carregado de empowerment. A perfeição à luz das leis e sobretudo de DEUS.
Fechar os olhos e consumir esse ar que me recarrega, sem sentido ou esperança, por entre as chiclets espalhadas por entre o passeio, por entre o abismo que pode ser descarregar-mos a força das nossas conquistas diárias numa só pessoa.
“Prometo-te que hoje não te magoo”
Como se isso fosse difícil.
Nasci à prova de bala, não tenho receio de fogos cruzados ou guerras nucleares. Sobrevivi à força bélica de crescer entre papéis sujos e prédios mal formados, à semelhança dos nossos governos. E surpresa - ainda aqui estou.
Fechar os olhos e consumir o fumo à minha volta, deitar o meu corpo sobre o teu e não fazer mais nada a não ser levitar sobre ti, na esperança que desapareças depressa , a ver se não te engulo, enquanto me deixo descair.
“Prometo que hoje sou teu”
Só hoje, só amanhã, talvez nunca.
Não sei porque o quero, não sei porque o persigo, nem sei porque é que o desejo. É talvez a primeira vez, na minha repetição intensa de acções mais ou menos convenientes, que não tenho a certeza do que faço nem porque o faço.
Fui sempre gerida nesse épico de movimentos mais ao menos moribundos de criar e recriar o prazer sexual que via espelhado nas telas, nos corpos das outras pessoas. O olhar perfeito, o sorriso perfeito, lençóis brancos e chocolate quente a fervilhar de tesão.
Mas não contigo.
Nascente com essa bondade e não te posso levar comigo. Sou demasiado pesada para carregares comigo. E tu nunca hás-de amar uma pedra.
“Amanhã não te largo”
Só as pessoas que não amam, estão sozinhas. Eu amo este sol que me mata a pele e me carrega as feições, amo a tua luz que me faz repousar sobre ti, o teu olhar dúbio enquanto me fixo no futuro e não o encontro.
Afinal, estou morta. Amanhã?
Encontrei esta carta e reli-a cinco vezes:
“Maria, quando marcamos às 5, marcamos para hoje. Tenho saudades de te ver fora do frio que são as mensagens escritas que trocamos. Eu a querer-te provar que quero estar contigo, tu a ficares imóvel.
Será sempre assim?
Hoje não te magoo e amanhã também não. (…)
(Olho lá para fora, por entre os ventos do Outono, as manhãs solarengas e intrépidas. A mudança a chegar. E amanhã, o que acontece?)
(...) "Amanhã não te posso prometer mais nada, a não ser que iremos na leveza da nossa progressão, sem que rastejemos por isso. Sabes que te quero, por entre a frincha da porta, enquanto tomas banho e te escuto a cantar “For once in my life”. Sabes a tesão que é ver-te passar semi-nua, a escorrer. Sabes a vontade que me provocas de querer escorrer dentro de ti, também.
Quero – te hoje até as 24 horas. Amanhã, nem Deus sabe o que poderá existir.
Quero te dar a mão.
Hoje não te magoo”.
Ser jovem é poder responder, sem responsabilidades. Prometer o amanhã que nunca se sabe se virá, apostar sempre no futuro, partilhando o passado.
Mensagem enviada às 13:45: “Hoje não te quero. Amanhã prometo que não m
Thursday, October 14, 2010
Pura Merda

Acordei, impressa em formas que imaginei e recriei, a ver se entendias a minha dor.
Deixaste-me fugir, presa entre as matemáticas complementares, a genética igual às criações que imaginávamos que estariam desenhadas para nós, apenas nós.
Deixaste-me fugir, presa entre as matemáticas complementares, a genética igual às criações que imaginávamos que estariam desenhadas para nós, apenas nós.
Se querias que te amasse mais, porque não disseste?
Por isso fugi, na esperança que nunca me abandonasses. Fugi um pouco mais todos os dias, com essa característica perene de quem gosta pouco mais de despedidas, do que de super bock’s junto ao café da esquina.
Só Deus sabe o que poderia fazer, se apenas me tivesses ajudado a abrir a porta dessa consciência impenetrável, onde se escondia o teu coração, fechado num laboratório, imerso em composições quânticas, enquanto despejavas uma quantidade de ideias pré-concebidas. Pura merda, em cima da mesa.
Apetece-me dizer que nunca te amei e na verdade, não sei em que parte estaria a mentir.
Lutei tanto contra esse teu ser obscuro que já nem sei o que sinto e por isso fugi, um pouco mais.
Por isso fugi, na esperança que nunca me abandonasses. Fugi um pouco mais todos os dias, com essa característica perene de quem gosta pouco mais de despedidas, do que de super bock’s junto ao café da esquina.
Só Deus sabe o que poderia fazer, se apenas me tivesses ajudado a abrir a porta dessa consciência impenetrável, onde se escondia o teu coração, fechado num laboratório, imerso em composições quânticas, enquanto despejavas uma quantidade de ideias pré-concebidas. Pura merda, em cima da mesa.
Apetece-me dizer que nunca te amei e na verdade, não sei em que parte estaria a mentir.
Lutei tanto contra esse teu ser obscuro que já nem sei o que sinto e por isso fugi, um pouco mais.
Todos os dias.
Se calhar, nunca senti mais do que a necessidade de te provar (constantemente), que conseguia ser completa, o suficiente; a ver se conseguia chegar a esse altar pré-concebido que fingias não gostar. Pedestal corrompido, ponte quebrada entre mil e uma palavras que referias com puro desconhecimento.
Pura merda.
Se queres que te ame um pouco mais, porque não dizes?
Se queres que te ame um pouco mais, porque não dizes?
Há coisas que não te disse, mas que resultariam apenas em copos de vinho vazios, às vezes talvez quem sabe - partidos.
Reconhecíamo-nos por entre as paredes frias, que eram o estigma da nossa conjectura, mas não sei se nos amamos o suficiente.
Esse amor que vem descrito nas revistas, que suplanta a distância ou as crises intermináveis, favas contadas de uma relação entre duas pessoas cáusticas, como a nossa.
A verdade é: preferia ficar na Enfermaria a ver a morte dos outros, a imaginar-me a chegar a casa, tirar-te as calças e enfiar-te dentro de mim. Fosse no sofá, no hall da entrada, ou mesma na banheira, como sempre gostamos.
Criei a necessidade, com o passar da idade e da alienação social que vim a adquirir, um constante repúdio pela entrega sexual - contigo.
Por isso, estragava tudo inicialmente, para me enlouquecer de vontade de querer ficar ao teu lado, apenas porque tenho medo (puro) da rejeição. Apenas porque queria provar a mim (e a tantas quantas quisessem presenciar), a minha força magistral, que te conseguiria suplantar.
Em público, com alguma preferência. Uma humilhação constante, tu a imitares um despercebimento assassino, tu a esqueceres que eu existia, subitamente, mas sempre nesse remoer interior, que nos acabou por matar.
Puxei-te pela convicção de que não precisei nunca de entrar num curso intitulado “Medicina”, para conseguir fazer tudo aquilo que queria. Às escondidas, importunei o sistema, sem que disso dessem conta. Doseava os medicamentos, entregava sedativos àqueles que gritavam pelas Marias, durante a noite, apenas para que os outros pudessem dormir, mais descansados. De manhã, chamavam-me de Doutora e eu fingia que não ouvia. Como tu.
Foi aí que finalmente entendi, que não haveria mais nada a fazer.
Passei a discutir sozinha e a ter medo da minha própria voz e perdi-me nas ideias e equações de te conseguir fazer ver a luz que haveria dentro de mim. Porque haveria, apesar de tudo aquilo que fazíamos consistia em dizer …Adeus!
- Adeus, vou dormir, adeus vou trabalhar, adeus vou viajar (para onde?!).
Reconhecíamo-nos por entre as paredes frias, que eram o estigma da nossa conjectura, mas não sei se nos amamos o suficiente.
Esse amor que vem descrito nas revistas, que suplanta a distância ou as crises intermináveis, favas contadas de uma relação entre duas pessoas cáusticas, como a nossa.
A verdade é: preferia ficar na Enfermaria a ver a morte dos outros, a imaginar-me a chegar a casa, tirar-te as calças e enfiar-te dentro de mim. Fosse no sofá, no hall da entrada, ou mesma na banheira, como sempre gostamos.
Criei a necessidade, com o passar da idade e da alienação social que vim a adquirir, um constante repúdio pela entrega sexual - contigo.
Por isso, estragava tudo inicialmente, para me enlouquecer de vontade de querer ficar ao teu lado, apenas porque tenho medo (puro) da rejeição. Apenas porque queria provar a mim (e a tantas quantas quisessem presenciar), a minha força magistral, que te conseguiria suplantar.
Em público, com alguma preferência. Uma humilhação constante, tu a imitares um despercebimento assassino, tu a esqueceres que eu existia, subitamente, mas sempre nesse remoer interior, que nos acabou por matar.
Puxei-te pela convicção de que não precisei nunca de entrar num curso intitulado “Medicina”, para conseguir fazer tudo aquilo que queria. Às escondidas, importunei o sistema, sem que disso dessem conta. Doseava os medicamentos, entregava sedativos àqueles que gritavam pelas Marias, durante a noite, apenas para que os outros pudessem dormir, mais descansados. De manhã, chamavam-me de Doutora e eu fingia que não ouvia. Como tu.
Foi aí que finalmente entendi, que não haveria mais nada a fazer.
Passei a discutir sozinha e a ter medo da minha própria voz e perdi-me nas ideias e equações de te conseguir fazer ver a luz que haveria dentro de mim. Porque haveria, apesar de tudo aquilo que fazíamos consistia em dizer …Adeus!
- Adeus, vou dormir, adeus vou trabalhar, adeus vou viajar (para onde?!).
Talvez nunca te tenha amado o suficiente para te expelir completamente, talvez não rimássemos, como os poemas que escrevíamos durante o S. João…
Tempos houve em que bastava falar um decibel mais elevado, para a tua atenção se virar para mim, em mim. Como eram bons esses tempos... De massacre mútuo, de cortinas espalhadas pelo chão, telemóvel partido em dois e o trânsito lá fora parado e eu a sonhar em maneiras de te fazer ver o meu afastamento.
Se queres que te ame um pouco mais, porque não dizes?
Não posso, não podia. Seria submeter-me à fantasia que toda a gente criou de ti. Tinha que ser diferente. Não te podia amar demais, nem querer de menos. Comigo, haverias de ser diferente. E por isso, foste-te embora, mesmo antes de eu conseguir entender, que para guardar o meu orgulho, teria de encenar o meu afastamento e esperar que viesses atrás de mim.
Não vieste.
Poderias ter chegado tarde, colocado a chave em cima da mesa, que por Deus, haveríamos de dar certo, se eu ao menos conseguisse largar o desenho da minha armadura. Eu contava-te que queria mais amor, tu contavas-me que nunca me ias deixar de entregar essa inocência e acabávamos os dois a falar em merda.
Pura.
Se queria que me amesses um pouco mais, porque nunca o disse?
Tempos houve em que bastava falar um decibel mais elevado, para a tua atenção se virar para mim, em mim. Como eram bons esses tempos... De massacre mútuo, de cortinas espalhadas pelo chão, telemóvel partido em dois e o trânsito lá fora parado e eu a sonhar em maneiras de te fazer ver o meu afastamento.
Se queres que te ame um pouco mais, porque não dizes?
Não posso, não podia. Seria submeter-me à fantasia que toda a gente criou de ti. Tinha que ser diferente. Não te podia amar demais, nem querer de menos. Comigo, haverias de ser diferente. E por isso, foste-te embora, mesmo antes de eu conseguir entender, que para guardar o meu orgulho, teria de encenar o meu afastamento e esperar que viesses atrás de mim.
Não vieste.
Poderias ter chegado tarde, colocado a chave em cima da mesa, que por Deus, haveríamos de dar certo, se eu ao menos conseguisse largar o desenho da minha armadura. Eu contava-te que queria mais amor, tu contavas-me que nunca me ias deixar de entregar essa inocência e acabávamos os dois a falar em merda.
Pura.

Se queria que me amesses um pouco mais, porque nunca o disse?
Friday, October 08, 2010
Cor Morta

Preto e branco.
Não há lugar para o cinzento, objectos mais ao menos maleáveis, sentimentos neutros.
É a ilusão onde todos os dias acontecem, todos os dias, como se tratasse do tudo e do nada, constantemente, entre paredes pintadas de alfazema e cores sujas. Absolutamente negras.
Há dias em que me arrasto e que espero que sejam os últimos.
Não sei mais de que cor é o ar que respiro, as cores do chão, as cores que piso, as cores que nego à exaustão, tantas vezes não querer respirar.
As cores da tua vida, as cores da minha vida. Vida extinta.
Nossa.
Não há lugar para o cinzento, objectos mais ao menos maleáveis, sentimentos neutros.
É a ilusão onde todos os dias acontecem, todos os dias, como se tratasse do tudo e do nada, constantemente, entre paredes pintadas de alfazema e cores sujas. Absolutamente negras.
Há dias em que me arrasto e que espero que sejam os últimos.
Não sei mais de que cor é o ar que respiro, as cores do chão, as cores que piso, as cores que nego à exaustão, tantas vezes não querer respirar.
As cores da tua vida, as cores da minha vida. Vida extinta.
Nossa.
São os lençóis brancos, aos quais me agarro, os mesmos com que te cobrias e rias, entre sintéticos e algodão, como se a vida fosse não mais do que simples partículas envoltas numa gravidade repleta de pura mentira. Como se o corpo fosse mais do que matéria e pudéssemos levitar nessa mesma…mentira.
- Agarra-me.
E deixo-te cair, nessa mesma falta de força e indignação, que me deixou incapacitado, meio morto. Nesse incumprimento, faltas promessas que me içam e me sufocam de cada vez que recolhos aos meus lençois e me revejo na tua ausência.
Vivemos todos os dias cansados por múltiplas informações, sinais de trânsito que nos levam a lado nenhum, esgotados pela falta de amor que recebemos, pela falta de amor que um dia (muitos ainda descobrirão), ainda sentiremos.
Vivi sempre na constante de que há dias que são "o" nada, ao invés de acreditar, que afinal, todos os dias, são dias que acontecem.
Chegar a casa, despir-me e fazer amor contigo, por entre esses lençóis brancos onde te rias à, minha espera. Acontecer o desejo que é poder tocar-te novamente e esquecer a útima sexta que te agarrei.
Eu na ânsia de chegar até ti, eu no emprego, eu cansado. “No sábado é que é”.
- Agarra-me.
E eu agarrei-te, bem dentro de mim, a meter a tua pele bem dentro da minha, como se o sexo jamais tivesse servido para outra coisa.
Deito-me agora, todos os dias, com a tua pele presa na minha, a agarrar-te. Vezes há, em que choro, como no primeiro dia em que entrei para a escola e o António Pedro me roubou o pãozinho de leite. Era o meu favorito.
Agarro-me e choro. A ver se me ouves e se me perdoas, se me encontras nessa cor morta que tomou forma em mim, desde que não te consegui agarrar todos os dias.
Imaginamos e criamos a imagem das pessoas que perduram na nossa realidade, diariamente, deixando de conseguir encontrar nelas, a evolução da nossa própria existência. Dados adquiridos, cores pálidas, quase inexistentes, por fim.
“Anda deitar-te comigo”.
Não podia. Sábado é que era, iamos jantar à Casa Aleixo e ainda bebíamos um porto no Solar dos Vinhos e íamos esquecer os empregos que nos segregavam, mas que nos mantinham.
Tu, perdida na tesouraria de uma autarquia, sempre a acrescentar números às contas que fazias, para salvar uma função que de pública, tem cada vez menos. Uma função pública adormecida, invisível, perdida na tradução do seu próprio conceito, que seria inevitavelmente, trabalhar em prol das necessidades, dando uso pleno ao conceito de subsidariedade.
Eu, eu nos planos de marketing e nos briefings que me faziam adormecer sem sono, a tentar encontrar ideias em que o orçamento fosse baixo e a ler o post-it do meu chefe "aqui não pode haver gato".
“Anda deitar-te comigo”.
Não me apetecia. Deambulavam na minha consciência, publicidades espalhadas pela cidade que nos transportariam para ambientes seguros e delicados, onde não haveria necessidade de criar anúncios tão inexplicavelmente bem sucedidos, como o que imaginei, quando íamos a caminho de Marvão e fiquei sem um pneu.
Tu eras a minha Marta, aquela que me socorria e me fazia viajar, para bem longe e me tirava a algemas do sexo, me libertavas, para depois (e só depois) me voltares a prender.
Às vezes ligo-te, durante a noite, a ver se brincas comigo e me fazes rir novamente. “Ok teleseguro, fala a Marta?”, mas apesar de saber que essa não é a cor da tua voz, deixo-me ficar horas, em cima da cama, onde o oxigénio se confunde com a intensidade do odor do meu bafo. 
Perdi demasiados planos conjuntos, a tentar estabelecer as imagens da vida de outras pessoas, que nem sequer existem, mas atraem milhares de pessoas, quando só tu eras real, em mim.
Tu a cozinhar, na tua ilha, com o copo a escorregar, as sirenes a perseguirem-me, um senhor a tentar afastar-me, o teu sangue perdido entre destroços e eu a tentar agarrar o copo.
Cheiro-o, degusto, saboreio, bebo por fim. Volto a ligar-te e rio-me sozinho.

Perdi demasiados planos conjuntos, a tentar estabelecer as imagens da vida de outras pessoas, que nem sequer existem, mas atraem milhares de pessoas, quando só tu eras real, em mim.
Tu a cozinhar, na tua ilha, com o copo a escorregar, as sirenes a perseguirem-me, um senhor a tentar afastar-me, o teu sangue perdido entre destroços e eu a tentar agarrar o copo.
Cheiro-o, degusto, saboreio, bebo por fim. Volto a ligar-te e rio-me sozinho.
Tem o teu cheiro e uma cor suave que me entontece. E choro, como a criança que sempre fui, a ouvir a mamã a gritar “não fizeste os trabalhos de casa? Há tempo para tudo”.
Não há tempo para quase nada, a mamã mentiu-me. Por isso choro, porque já não me resta nenhum contigo. Pelo menos enquanto as sirenes ecoarem na minha consciência, perduro para ti, embora não ouça o teu riso nos mesmos lençóis de onde nunca deverias ter saído. Brancos.
Não há tempo para quase nada, a mamã mentiu-me. Por isso choro, porque já não me resta nenhum contigo. Pelo menos enquanto as sirenes ecoarem na minha consciência, perduro para ti, embora não ouça o teu riso nos mesmos lençóis de onde nunca deverias ter saído. Brancos.
Quando já não sentimos, acordar, é sempre o mais difícil.
- Agarra-me.
E eu preguei-me à tua mão e ri-me para ti. Não te podia deixar ir para lugar incerto, sem que levasses de mim o melhor sorriso, aquele que te deveria ter dado todos os dias.
Às vezes acordo e imagino que te salvo, que recolho os restantes carros que se fizeram, em câmara lenta, massa única e cinzenta e te agarro. Consigo ser um herói, ao menos por um dia.
Às vezes acordo e imagino que te salvo. Todos os dias.
Subscribe to:
Posts (Atom)